segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

CINEMA NACIONAL DE ARTE - O FILME DA MINHA VIDA


Boa noite amigos,
Tony (Johnny Massaro) no cinema, homenagem do diretor
ao cinema de Tornatore e Fellini. Imagem de www.cine-
plaers.

Ao assistir a entrevista com Selton Mello, numa das apresentações do extinto talk show de Jô Soares na Globo, falando do lançamento  de seu terceiro filme como diretor[1], O Filme da Minha Vida,  criei uma expectativa muito positiva em torno do longa, considerado pelo próprio ator como a sua melhor obra, nas entrevistas que antecederam o seu lançamento comercial. Baseado no livro Um Pai de Cinema, um romance apenas mediano do chileno Antonio Skármeta[2], autor da obra-prima, O Carteiro e o Poeta, adaptado para um dos mais belos filmes já produzidos pela sétima arte, o drama se passa na pequena Remanso, localidade da Serra Gaúcha, mostrando a vida pacata e harmônica da família de Tony Terranova (Johnny Massari), filho de um francês e de uma brasileira, que, ao retornar da capital para onde foi concluir seu curso universitário e se tornar professor de francês, não se conforma com o abandono do pai,  Nicolas (Vincent Cassel), que teria, segundo a versão corrente, voltado para a França. Mergulhado em profunda melancolia, em busca de si mesmo, inadaptado ao mundo, como definiu o próprio Mello ao falar sobre seus protagonistas e afirmar que eles revelam um aspecto de sua própria personalidade, o personagem busca entender a reviravolta que sua vida experimentara, ao mesmo tempo em que a memória o remete seguidamente para os fatos marcantes de sua infância.

Imagem emprestada de globofilmes mostra o protagonista

Tony (Johnny Massaro) com a namorada Luna (Bruna -

Linzmeyer).
Agora, Tony divide o seu tempo, dedicando-se aos alunos durante e além das  aulas ministradas em uma escola local; a troca de sentimentos e dúvidas com sua amiga, confidente, depois namorada,  Luna (Bruna Linzmeyer) e a companhia da mãe,  Sofia (Ondina Clais), inconformada e deprimida com o abandono do companheiro. Como parceiro constante de Tony,  Paco (Selton Mello), antigo amigo da família, de visão realista e brutalizada da vida, se preocupa em manter o jovem longe de suas memórias do pai e da infância ao lado dele e de seus sonhos futuros. A crítica se dividiu: parte viu no longa defeitos na direção, criando descompasso entre o roteiro e a narrativa, ao contrário do que se passou com o Palhaço, e outra parcela reputou, ao contrário, que a narrativa foi ajustada à intenção do diretor, ao conferir proposital ritmo lento e arrastado à história, com o objetivo de sugerir um tom reflexivo e especulativo à obra. Em algumas cenas como a que o jovem Tony, mergulhado na sua memória de infância, começa a flutuar, ou naquelas em que ele finalmente entra no cinema para assistir o clássico Rio Vermelho, há clara homenagem de Selton ao cinema de Fellini (8 ½) e de Tornatore (Cinema Paradiso)  e para enfatizar ser o cinema importante elo de ligação entre pai e filho. 
Os personagens Nicolas (Vincent Cassel) e Paco (Selton

Mello) em cena do longa. Imagem emrpestada de www.

cinemacomrapadura.com.

O filme, porém, entre virtudes e defeitos é um bom filme. Um filme delicado que fala de amor, de memória afetiva, das relações humanas mais profundas e que contribui com seu indiscutível valor estético para a retomada do cinema nacional de arte. Todos os críticos e críticas destacam, sem exceção, o excepcional trabalho do elenco, especialmente do protagonista, o pernambucano Johnny Massaro, um dos mais expressivos atores da nova geração, revelado no seriado Malhação, da Rede Globo, e da atriz Ondina Clais, ótima no papel da sofrida Sofia. Também ressaltam a excelência da direção de arte de Carlos Amaral Peixoto, da fotografia magnificamente captada pelas lentes mágicas de Walter Carvalho, dos figurinos de Kika Lopes e da trilha sonora de Plínio Profeta, com canções nacionais e internacionais dos anos 60, escolhidas em função do envolvimento de suas letras e mensagens com as cenas focalizadas e de sua musicalidade para dar alma e retoque ao desenvolvimento do roteiro. Não deixe de ver.


Até mais amigos,

P.S. (1) No embalo de HIER ENCORE ("Ainda ontem", sobre as lembranças de um homem a respeito de seus 20 anos) de Charles Aznavour), a trilha sonora traz ainda Nina Simone (I Put a Spell on You), The Animals (The House Of The Rising Sun), Claude François (Comme d’Habitude, versão original de My Way) e Sérgio Reis (Coração de Papel).


P.S. (2) Mais de 90% dos internautas que se manifestaram sobre o filme nas redes sociais,  gostaram do que viram. Nas bilheterias, pelos dados parciais que foram divulgados, o longa atingiu, de 04 de agosto (data da estreia) a 10 de setembro, 1.282.104 espectadores, o que já o inclui no rol dos filmes nacionais mais vistos no ano passado, devendo ultrapassar ou se igualar ao O Palhaço, que vendeu cerca de 1.500.000 ingressos.  



[1] Os dois primeiros longas dirigidos pelo ator foram Feliz Natal (2.008) e O Palhaço (2.011), ótimas produções do cinema nacional.
[2] Com quem foram pessoalmente discutidos aspectos do roteiro adaptado e que também aparece no filme rapidamente numa cena de bordel.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

GRAMADO - TERCEIRA POSTAGEM - TURISMO DE CHOCOLATE ARTESANAL

Boa noite amigos,

Loja Vip da Florybal, Av. das Hortensias ao lado da Loja

Temática - Estrada Gramado/Canela. Imagem empres-
tada de www.montarumnegocio.com/chocolates de -
gramado-para-revender/
Continuando nossas postagens sobre Gramado, na bela Serra Gaúcha,  o turista, chocólatra ou não, não pode deixar de visitar  as  várias lojas e fábricas de chocolates, uma das mais importantes referências da cidade.
Gramado é conhecida, dentre outras inúmeras atrações, por acomodar o maior número de marcas de chocolates artesanais do Brasil e a mais antiga do país, a Prawer, fundada em 1.975, quando um experiente profissional gaúcho, treinado em Bariloche, na Argentina, deu início à fabricação da primeira linha em forma de barras e ramas. Hoje são muitas as marcas que disputam a simpatia do consumidor, todas de qualidade, variando, porém, os preços. São chocolates que competem, sem dúvida,  com as grandes indústrias nacionais e internacionais.  Uma das sugestões para quem pretende empreender negócio nesta fase difícil da economia, é comprar chocolates de Gramado para revender, por conta própria ou mediante franquia ou, ainda, como representante comercial ou distribuidor. Várias são lojas de fábrica e oferecem aos visitantes visualizar como são feitas as iguarias, com direito à degustação de alguns produtos. Grande parte dessas lojas estão situadas na Avenida Borges de Medeiros, a mais comercial e movimentada da localidade, praticamente uma ao lado da outra, o que facilita a visitação, as compras e as comparações de preços e variedade dos produtos. São chocolates brancos ou pretos, doces ou amargos, em vários teores, chocolates com licores, com frutas secas, com  pimenta, em forma de tabletes, bombons, barras, ramas, trufas, em formas de bichos, bonecos, brinquedos, replicando locais famosos, etc.,  cada vez mais desafiando a criatividade dos talentosos confeiteiros. A Lugano inaugurou em março de 2.015, um Parque Temático denominado Mundo do Chocolate, com 200 peças todas confeccionadas com chocolate maciço, que se distribuem em 3 mil metros quadrados, para o que consumiu 30 toneladas do doce.
Móveis e objetos em chocolate maçico do
Parque Temático Mundo do Chocolate.
Imagem do meu celular.
O Parque está situado na rua Borges de Medeiros, 2497.  Além dessa atração imperdível, segue o roteiro dos principais endereços onde o produto pode ser encontrado em centenas de formas e sabores. As embalagens criativas dão ao chocolate um toque especial, fazendo a festa da criançada e também dos adultos, que costumam comprar o chocolate para consumo ou presentes. Um delicado e gostoso presente, sem dúvida:

CHOCOLATES PRAWER – Tem sido considerada a melhor marca em matéria de qualidade. E também a mais antiga. Os preços acompanham a qualidade.

A)  LOJA DE FÁBRICA – Avenida das Hortênsias, n. 4.100, Av. Central, Estrada Gramado/Canela;
B)   ARMAZÉM PRAWER – Avenida Borges de Medeiros, 2.759, Centro;
C)   RÓTULAS DAS BANDEIRAS – Avenida Borges de Medeiros, 1.050, Planalto.


CHOCOLATES CARACOL.

A)  CARACOL BOUTIQUE – Avenida Borges de Medeiros, 2.935.
B)   RUA COBERTA – Rua Madre Verônica, 30, Loja 1.
C)   LARGO DO BORGES – Avenida Borges de Medeiros, 2727, loja 26.

CHOCOLATES LUGANO.

São mais baratos que os da Caracol e da Prawer, mas, ainda assim, muito bons.
A)  LOJA BOULEVARD – Avenida Borges de Medeiros, 2529, Centro;
B)   LOJA BORGES – Avenida Borges de Medeiros, 2784;
C)   LOJA – Avenida das Hortênsias, 585.

CHOCOLATES FLORYBAL.

     Chocolate bem caseiro, com preços acessíveis.

A)  CONCEITO STORE – Avenida Borges de Medeiros, 2.771, Centro;
B)   LOJA CENTRO GRAMADO – Avenida Borges de Medeiros, Praça do Moinho;
C)   LOJA E FABRICA – CASA DO CHOCOLATE.- Avenida Tristão de Oliveira, 1.200, Floresta;
D)  LOJA VIP – Avenida das Hortênsias ao lado da Loja Temática – Estrada Gramado – Canela.


Até amanhã amigos.











quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CRÔNICA - TEREZA OFICIAL DE JUSTIÇA?

Boa noite amigos,

Escrevi essa crônica agora à noite, recordando-me do episódio e de minha querida e saudosa amiga, Tereza, que continua vivendo alegre como sempre foi, na nossa lembrança e no nosso coração.


Imagem emprestada de Peregrina Cultural Word Press.com.
Conheci Tereza Nascimento Rocha[1] quando ingressei, pela primeira vez, no chamado Páteo dos Leões, o Prédio Central da Universidade Católica de Campinas[2], no final do ano de 1.969, com a finalidade de me inscrever ao vestibular para concorrer a uma das vagas do Curso de Direito. Ali, defronte à Secretaria, estávamos apenas nós dois, com o mesmo objetivo e muitos sonhos. Eu, meninão com 17 anos, e Tereza, com 10 a mais e muitas histórias de uma vida dura e sofrida que ela pretendia deixar para trás. Nascia também uma amizade que duraria uma vida inteira e que se estendeu ao Nivaldo Doro, seu grande companheiro desta vida, e aos filhos, uma das quais, a Paulinha, minha afilhada de batismo. Anos depois de nossa formatura e quando ambos já lecionávamos na mesma faculdade de nossa colação de grau, eu como Professor de Direito Civil e ela docente da cadeira de Direito Penal, Tereza, na sua caminhada de sucesso, estava para realizar um de seus sonhos: o de publicar um livro sobre a área de sua predileção, tanto na advocacia, quanto na docência. Tudo estava sendo preparado com muito capricho para o lançamento editorial em noite de autógrafos. O marido Nivaldo pediu a mim que fizesse o prefácio, tarefa que aceitei com muita honra, dada a nossa intimidade e o carinho recíproco que nos unia. Mas esse prefácio, para garantir maior emoção, haveria de permanecer secreto para a autora até a ocasião do lançamento. E assim se fez. Lembro-me que escrevi um texto emocionado, falando menos das virtudes da obra e mais da mulher que eu conhecera e cuja trajetória na área do Direito se evidenciara independente, corajosa e competente, qualidades que Tereza tinha de sobra. Ao enumerar os vários cargos e funções que Tereza desempenhara, durante o período de estudante e até o início da militância na política e na advocacia, escrevi que ela tinha sido Oficial de Justiça. Tereza tinha sido escrevente da 2ª. Vara Criminal, mas nunca Oficial de Justiça, cargo que quem ocupou foi seu marido Nivaldo. E a coisa ficou assim. Na noite de autógrafos, muitos amigos, alunos, Juízes, Promotores, Delegados e estudantes acorreram à convocação para o lançamento e a autora estava sinceramente emocionada. Filas, abraços, cumprimentos e, de repente, uma das senhoras presentes aproxima-se e à autora assevera: - Eu nunca soube que você tinha sido Oficial de Justiça! Terezona, então,  de pronto, com aquela franqueza e a “boca suja” que lhe era peculiar mandou essa: - Nem eu, o filho da puta do Jamil é que inventou!  O fato é que toda a primeira edição estava pronta e a falsa notícia introduzida no currículo de Tereza permaneceu. Não cheguei a me penitenciar pelo erro que “no conjunto da obra” acabou por se tornar irrelevante. Mas o episódio, a vida inteira, nos meios forenses e acadêmicos e, ainda, entre amigos, foi motivo para boas risadas.  Cada vez que me lembro parece que volta a cara de surpresa, olhos arregalados e indignação da Terezona, me recriminando:  “Esse filho da puta do Jamil é que inventou”.        






[1] Com o casamento Tereza acresceu ao seu nome o patronímico do marido Nivaldo e passou a ser citada, com mais frequência, pelo nome abreviado: Tereza Doro.
[2] Naquela época a Universidade de Campinas ainda não havia obtido o título de Pontifícia.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

CONTO - FALA QUE EU TE ESCUTO OU CHEGA DE PROSA?

Boa noite amigos,


Imagem emprestada de 

https://www.youtube.com/watch?v=s2CRX7IeLyI
Hoje vai uma crônica escrita ainda agora à noite, que relata um antigo episódio envolvendo as minhas crônicas confusões e o  querido amigo Dr. Romeu Santini. Vai lá:

"O Romeu Santini é uma figura marcante na história política e social da cidade de Campinas. Foi vereador do município durante sete mandatos diferentes, ao longo de sua carreira política. Na década de 60, disputando eleição para Prefeito, foi derrotado pelo carismático então jovem candidato, Orestes Quércia, que, depois, foi deputado, senador da República e governador do Estado de São Paulo. Nem por isso perdeu prestígio. Muito ao contrário, de temperamento alegre e cativante, Romeu só granjeou simpatia de seu vasto eleitorado e círculo de amizade. Desde os primeiros anos de minha advocacia se tornou cliente e dileto amigo por via de outro amigo comum, o Dr. Walter Hoffmann. A ele devo a iniciativa do projeto que me concedeu o título de cidadão campineiro, de que muito me orgulho.  Mas o que vou contar nos une em torno de um episódio pitoresco que rendeu e rende muitas risadas, por onde ele é contado e, muitas vezes, recontado.  Romeu tinha um programa diário numa televisão local, afiliada, se não me engano, da rede Bandeirantes. Nesse programa, o Romeu político, no exercício do mandato e, ao mesmo tempo, sempre candidato natural a sucessivas reeleições, ouvia o povo da periferia, dando voz a ele para  formular, no ar, sugestões, pleitos e reclamações quanto a questões locais negligenciadas pela Administração Pública. Era a falta do asfalto prometido, aumento da conta de água, do IPTU, árvores que ameaçavam cair ou provocar danos por falta de poda e assim por diante. O programa completava, naquela noite, um ano e a audiência, segundo se soube, não era desprezível. Não sei por que cargas d’água, decidiu-se por uma grande festa comemorativa desse aniversário, a ter lugar num dos elegantes salões do Hotel Resort Royal Palm Plaza. Era grande o número de convidados, numa lista que levava em conta a importância de autoridades e, ainda, de personalidades da sociedade local e, finalmente, de amigos do vereador-apresentador. Não sei se ainda era Juiz em Campinas, Comarca na qual me aposentei, ou se já estava aposentado. O evento, é claro, seria coberto pela imprensa escrita e também pelo mesmo canal no qual o programa era diariamente exibido. Cheguei usando traje esporte fino, como se recomendava no convite, acompanhado de minha sempre elegante esposa (e aqui aproveito para ganhar pontos com ela). Ainda na porta do salão, avistei, e fui avistado, por uma jornalista baixinha, simpática e que eu já conhecia por ela ter trabalhado na TV Puc, universidade na qual lecionava e leciono ainda hoje. Sorridente, ela me convidou para dar uma entrevista sobre o evento e o programa, a respeito do qual eu não tinha grandes dados. Sabia algo por cima.  Não me fiz de rogado. Microfone na mão, indagado acerca do que eu achava do Romeu e do programa, deitei simpáticos elogios. Dentre outras coisas, acabei afirmando que por ele abria-se um importante canal de comunicação entre o cidadão e o vereador, permitindo que este ouvisse daquele, no ar, a reivindicação desatendida ou negligenciada. E, assim, o vereador poderia levar diretamente ao Prefeito as demandas da comunidade, exigindo providências. Por isso mesmo – e aí eu disse textualmente – “o programa se chama FALA QUE EU TE ESCUTO, numa clara alusão à atenção e oportunidade que Romeu confere ao pessoal mais carente e que não tem meios de fazer chegar ao Prefeito suas reclamações e carências”.  Nesse momento, fez-se um silêncio geral em torno de mim. A entrevista estava sendo mandada ao ar ao vivo. E, como diz o Faustão, quem sabe faz ao vivo. E eu concluo, quem não sabe se estrumbica também ao vivo. O antigo programa FALA QUE EU TE ESCUTO, como todo mundo sabe, é franquia da IGREJA UNIVERSAL, tem conotação religiosa e é mandado ao ar pela TV Record, do Pastor Edyr Macedo. O Programa do Romeu, cujo aniversário estava sendo comemorado e que eu nunca assisti, se chamava CHEGA DE PROSA, um jargão que ele usava em seguida à reclamação do distinto ouvinte, batendo numa espécie de tribuna: - Então Prefeito, CHEGA DE PROSA! Vamos atender a Dna. Maria ou vamos esperar que a árvore caia sobre ela? Putz! E eu sei que ficou por isso. Não sei, mas acho que a entrevistadora, minha amiga, em seguida chamou os comerciais para ter tempo de se refazer. E o episódio virou, como eu disse, um motivo para muitas e muitas risadas.


Até amanhã amigos.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

NATAL LUZ EM GRAMADO PARTE DOIS - O FESTIVAL DE CINEMA

Boa noite amigos,

Interior da entrada do Palácio dos Festivais,

destacando o Kikito, o Deus do humor, esta-
tueta conferida aos vencedores.
Neste segundo dia do novo ano, o clima no litoral paulista está convidativo para praia ou piscina. O calor beira os 35 graus e nem penso em deixar o apartamento aqui na Riviera para encarar uma estrada com quilômetros e quilômetros de congestionamento no já tradicional transtorno da volta dos feriados de Natal e Ano novo. Não programamos mesmo retorno antes do dia 10 de janeiro, uma esticada providencial, mas necessária, especialmente para o Rafa, que este ano,  promovido do pré para o infantil, deve voltar às aulas no final de janeiro.   Voltamos  a falar de Gramado, na segunda postagem sobre o assunto. Um dos programas obrigatórios para os amantes da sétima arte, os cinéfilos, é visitar o Palácio dos Festivais, prédio majestoso em estilo colonial, que reúne o teatro onde acontece todo ano o maior e mais importante Festival de Cinema da América Latina, salas de projeção, e, ainda, o Museu do aludido festival. O Festival de Cinema de Gramado surgiu modestamente em 1.973, como mero festival nacional, e gradativamente foi ganhando corpo e importância. Em todos os anos recebeu inscrições e premiou as principais categorias do cinema nacional, posteriormente do cinema nacional e latino, separadamente, e finalmente, assumiu o perfil de festival internacional, admitindo inscrições e premiando filmes estrangeiros de qualquer nacionalidade.

Placa homenagem ao ator Lima Duarte,

destacando seu pronunciamento acerca
da importância do Museu do Festival.
Entre momentos de apogeu da produção do cinema nacional, como em 1.996, ano em que venceu o ótimo filme de José Jofeily, Quem Matou Pixote? e crises intensas, como em 1.992, durante o governo Color, quando, pela única vez, o festival apenas premiou um filme estrangeiro (Técnicas de Duelo – Uma Cuestiòn de Honor) do colombiano Sérgio Cabrera, por falta de produção e inscrição de filmes nacionais, o evento, a cada versão,  atrai  mais produtores, diretores, atores e agências interessadas na participação e especialmente  nos prêmios, simbolizados pelo Kikito[1], a estatueta que representa o troféu de conquista conferida aos vencedores. Em 2.006 o Festival foi declarado patrimônio histórico e cultural do Estado do Rio Grande do Sul. Em 2.016 deu-se a mudança do Museu do Festival para o prédio atual situado na rua Borges de Medeiros, 2.697, Centro. Ali, na entrada do prédio, que abriga todo o acervo e ainda, o teatro, uma escultura do Kikito, o deus do bom humor e ao lado, do ator Hugh Jackman, o popular Volverine da série americana.  Defronte ao prédio, copiando Los Angeles, criou-se a calçada da fama, onde se pode conferir os contornos das mãos de gente famosa que visitou e prestigiou o festival, como a cantora Sandy, seu pai Xororó e o ator e diretor Selton Mello, dentre outros. 
Exercendo o meu direito de visitante que pa-

gou ingresso, minha self levantando o kikito, 
simbolizando hipotética vitória.
No interior do prédio, placas espalhadas por todos os lados, marcam os momentos mais relevantes do festival. Homenagens a vários atores e diretores, nacionais e internacionais,  que lá estiveram e que fizeram da sétima arte um grande e apreciável projeto de vida, encantando o mundo com enredos, mitos e lendas incorporadas para sempre ao imaginário popular, coisa que só o cinema, com a sua magia, consegue eternizar na memória afetiva. Dentro do museu pode-se acompanhar o depoimento de atores e diretores que venceram ou concorreram nas diversas edições do festival, ressaltando a importância do prêmio para o currículo deles e dos respectivos filmes. E, ainda, se permite levantar o kikito em tamanho original, registrando o momento com uma self simbólica, criando a boa ilusão de ter sido um cineasta de sucesso, coisa que nunca fui.


Até a próxima postagem amigos,

As mãos do sertanejo Xororó, imortalizadas na calçada da
fama de Gramado.



P.S. (1) Poucos foram as indicações e os prêmios que o cinema nacional recebeu ao longo de sua existência. Não me parece, particularmente, por isso, que o nosso cinema seja desimportante. Críticos e especialistas em cinema ovacionam mitos que produziram filmes originais e relevantes, embora nunca tenham sido premiados nos festivais mais importantes do mundo, especialmente o Oscar. Como se sabe há fatores, muito além da qualidade dos filmes, que interferem nas indicações e nos prêmios conferidos pela Academia de Hollywood. Por isso, embora seja inegável que nós, cinéfilos de carteirinha, não ignoremos o Oscar, a cada ano, adquirimos a sabedoria de conferir a ele um valor relativo na avaliação geral das produções cinematográficas de todo o mundo;



P.S. (2) Queiram ou não a questão política americana, e suas várias facetas, jamais foram apartadas das indicações e premiações da Academia de Hollywood. Daí a sua relatividade a ser sempre considerada, sem dúvida.




[1] “O Kikito surgiu na imaginação da artista Elisabeth Rosenfeld em 1967, como representação do deus do bom humor. Desde a primeira edição do Festival de Cinema de Gramado, foi escolhido para ser o seu símbolo. Esta reprodução em cimento, criada a pedido  de Kurt e Elisabeth Berz, foi doada pelo casal à cidade de Gramado em agosto de 1.995” (literalmente inscrição em uma das muitas placas que adornam o museu do festival).

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

NATAL LUZ EM GRAMADO - PARTE UM

Boa tarde amigos,

Paisagem comum em Gramado nesta época do ano: a beleza

das hortênsias, enfeitando toda a serra gaúcha.Imagem do  

meu celular.
Gramado, um pequeno pedaço de céu no coração da serra gaúcha, foi o nosso destino no Natal de 2.017. Há muitos anos que não visitávamos o atraente município turístico. Talvez uns 20 ou 15. Desta vez fomos com toda a família, incluindo, é claro, o nosso xodó, o netinho Rafael, agora com 5 anos de idade. A escolha do Hotel Alpestre acabou sendo muito boa. Trata-se de um quatro estrelas, com um café da manhã completíssimo para americano algum botar defeito.  Talvez seja também o que mais oferece alternativas para as crianças. Além de confortáveis instalações nos apartamentos conta ainda com um bonito parque de diversões interno, unindo o verde da vegetação, as flores e as piscinas,  entre diversos espaços kids, destinados à garotada de todas as idades, um ponto de encontro colorido para diversão e confraternização dos “guris” entre eles e também com  papais, vovôs, monitores e o Alceu, um boneco típico da região, que aparecia em todos os lugares, sem prévio aviso, zoando os hóspedes de todas as idades. E é claro Papai Noel recebendo os baixinhos para recepcionar os muitos pedidos de presentes, que foram entregues pessoalmente, pelo Bom Velhinho,  no dia 24 de dezembro, à tarde, numa grande reunião no salão de festas. Nos seis dias de permanência em Gramado/Canela visitamos quase todos os pontos turísticos obrigatórios e achamos tudo muito bem organizado, incluindo a segurança, um item muito importante para nós brasileiros, cansados da violência crescente de nossas cidades e campos.

Rafael, meu neto, ao lado de dois pilotos, no 
Aeroporto Internacional de Viracopos, antes

da viagem a Gramado, realizando o seu so-

nho de primeira infância: ser piloto de avião.
HOTEL E LOCOMOÇÃO.

Gramado é um município de apenas 34.000 habitantes e que em 2.016 foi o sexto destino mais procurado pelos turistas brasileiros e estrangeiros, com cerca de dois milhões de visitantes. Tendo como principal atração as suas ruas e avenidas centrais, que ficam totalmente enfeitadas e iluminadas durante o período natalino, e onde se situam os principais restaurantes, lanchonetes e o comércio das múltiplas marcas de chocolate (outro atrativo antigo da localidade), a escolha do hotel é muito importante, pois ou você fica em algum daqueles situados no centro da cidade, ou então, terá que depender dos táxis tradicionais ou, por fim,  dos profissionais da uber. O município dispõe de pouco mais de 30 táxis e os motoristas da uber são muito requisitados, mas, como se sabe,  trabalham apenas em certos horários, segundo conveniência pessoal. Resultado: uma dificuldade de locomoção, um dos principais defeitos observados na boa estrutura existente. Alguns hotéis possuem vans que transportam hóspedes para o centro. Mas além de lugares limitados, é claro que essas vans têm horários fixos para ida e volta, o que complica a vida dos turistas que querem liberdade e estão habituados à rotina diversa de  café, almoço, jantar, etc. O remédio – e foi o que nós utilizamos – é a locação de um veículo.

Vista interna do Hotel Alpestre  mostrando
a área das piscinas, lazer e entretenimento.

Mas se a opção for essa saiba que você terá que fazer reserva com antecedência pela Internet. Durante a festa de Natal, por exemplo, já não havia qualquer veículo disponível  para locação. Assim mesmo, considerando a incipiente área da região central em função do número de veículos, encontrar um espaço para estacionar é tarefa complicada, agravada pela inexistência de estacionamentos particulares na disputa por cada metro quadrado. Esse o grande desafio, que não é, no entanto, insuperável. Como tudo é relativamente perto, é bom mesmo andar a pé, pois, além de fazer o seu exercício saudável, você pode observar cada loja, cada enfeite de rua e se maravilhar com todo o conjunto do cenário que pode ser resumido como  a maior árvore de natal que já vi, seja no Brasil, seja no exterior. Uma maravilha mesmo, especialmente quando todas as luzes se acendem no ocaso do dia, programa que já integra a agenda dos eventos turísticos da cidade.

AS ATRAÇÕES QUE DEVEM SER VISTAS.

 Mini Mundo.

Vista de uma avenida em miniatura no Par-
que Mini Mundo, uma das atrações de Gra
mado.
O Parque Novo Mundo pertence ao Hotel Ritta Hoppner, mas aberto à visitação geral. Por ele é possível fazer um passeio completo pelo nanomundo, um universo em miniaturas, inspiradas em monumentos, estações e lugares famosos pela arquitetura original e reprodução dos ambientes de histórias e lendas que viraram patrimônio da humanidade. Recentemente foi inaugurada uma nova área de recreação para as crianças, chamado Parque Temático das Personagens do Mini Mundo, com uma vista privilegiada de todo o parque por estar situada na parte mais alta do lugar. Um charmoso café na entrada garante os “espressos” de papais e mamãe e as guloseimas (doces e salgados) para crianças e adultos amantes da gastronomia alemã e italiana. O percurso todo pode ser percorrido com o auxílio de funcionários que prestam atenciosa colaboração com informações sobre lugares e significados. Personagens infantis também caminham pelo parque, entretendo as crianças com fantasias e fotos.



Por hoje é só, falo mais na próxima postagem.

Feliz Ano Novo, meus amigos.


P.S.   As dez localidades brasileiras mais visitadas no ano de 2.016, último recenseado, segundo o site mundodeviagens.com. foram os seguintes, em ordem: Rio de Janeiro, Florianópolis, Foz do Iguaçu, São Paulo, Salvador, Gramado, Natal, Porto Seguro, Caldas Novas e Fortaleza.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

UM POUCO DE CLARICE LISPECTOR - ÁGUA VIVA

Boa noite amigos,

Imagem da escritora emprestada de KD Frases.
Em Água Viva, um romance sem romance[1]publicado no ano de 1.973, Clarice Lispector, autora e personagem, em narrativa linear, na primeira pessoa (um “eu” feminino), revela a um “tu” (um namorado, um amor platônico, o seu alterego masculino?), muito de sua natureza e daquilo que marcaria para sempre a sua literatura. Uma literatura densa e complexa, metida em perene indagação acerca do autoconhecimento[2], dos males da condição humana, de buscas e ansiedades, anjos e demônios e conflitos existenciais jamais superados, no ser vivo que confessa para sempre a sua natureza paradoxal e fragmentária, mas que também se conecta com o não humano, o  “it” ou “a coisa”,  representado pelas dimensões do mundo, do tempo e do espaço. Assim como na literatura de Vinicius de Moraes, companheiro do movimento modernista da 3ª. geração, seu tema preferido foi a busca do eterno num mundo de natureza transitória e temporal[3]. Clarice, como seu personagem,  desde a primeira infância, foi atormentada pela ideia fixa da morte inevitável, da incompreensão quanto ao significado da vida e os mistérios de sua origem  e fim e a vinculação do ser e da própria existência a um presente fluido, sem memória[4]. Mas se tal preocupação é geral na raça humana, variando apenas a maneira com que os homens, em todos os tempos, lidaram com os segredos do universo, para Clarice, porém, nessa obra que pode ser considerada autobiográfica e em que ela coloca, de forma escancaradamente explícita, sem rebuços,  os seus conflitos mais variados, são temáticas que afetam o seu cotidiano, atingindo sua alma profunda e permanentemente atormentada, à cata de algum recurso que torne mais leve e suportável[5]  o que considera a  inevitabilidade da vida, combustível esse que conclui, mas não definitivamente, ser a alegria, a felicidade e a provável aleluia que viria sempre, sempre, depois da dor e das perdas[6].
Seu pensamento transita no limiar entre a lucidez e a loucura, a realidade e o sonho, o sonho e a fantasia, a ordem e a desordem e a obscuridade para si mesma.[7] A sua escrita é consequência da necessidade de desabafar escrevendo, como complemento de seus desenhos que nem sempre conseguem transmitir, com fidelidade, a sua mensagem angustiante. Suas orações são tiros, disparos, explosões, por efeito de uma catarse que vai se manifestando sem nenhum controle[8]. Todo o monólogo de Água Viva parece decorrer de  impulsos neurológicos, em que  as palavras não são escolhidas, mas vão aparecendo, sem ordem, sem lógica, sem censura,  sem qualquer metodologia, como se o  escritor fosse apenas anotando as mensagens transmitidas por uma entidade metafísica.
A narrativa, porém, pese embora transmitir a anarquia do pensamento, a desordem de que fala a própria autora para revelar e revelar-se, segue numa cadência em que sons, silêncios e sentimentos, se misturam magnificamente, mantendo o interesse e a curiosidade do leitor e o seu encantamento pela forma de transmissão, uma especialidade da escritora. Em Água Viva, escrita quatro anos antes de sua morte, Clarice, com mais de meio século de existência, nos brinda com um ensaio maduro, belo e profundo, quiçá indecifrável,[9] sobre a existência e a condição humanas, suas buscas e seus fins,  que nos remete para a mais refinada literatura ficcional psicológica, de que é exemplo o seu conterrâneo mais famoso, Franz Kafta, mais que escritor, o criador de um estilo.

Até mais amigos,



[1] Expressão usada por Lucia Helena, Professora de Literatura, autora da obra “Nem musa nem medusa: Itinerários da escrita de Clarice Lispector”, na apresentação constante da orelha de capa da edição de 1.998,  Rocco Editora, Rio de Janeiro. 
[2] “Mas há perguntas que me fiz em criança e que não foram respondidas, ficaram ecoando plangentes: o mundo se fez sozinho? Mas se fez onde? Em que lugar? E se foi através da energia de Deus – como começou? Será que é como agora quando estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo? É por esta ausência de resposta que fico tão atrapalhada.”
[3] Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já.”
[4] Quando eu morrer então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os traços de espuma do mar na praia.Agora é um instante.”
[5] Eu que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Quero a isenção de Mozart. Mas quero também a inconseqüência. Liberdade? É o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e agüento-a como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo.”

[6] Em Clarice nenhuma ideia, nenhum pensamento, nenhuma conclusão pode ser considerada definitiva, dada a natureza de seu pensamento: confuso, complexo, ambíguo, como ela própria se julga;  “Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia”.
[7] Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. Só tive inicialmente uma visão lunar e lúcida, e então prendi para mim o instante antes que ele morresse e que perpetuamente morre.”
[8] Eu é que estou escutando o assobio no escuro. Eu que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. Quem? Quem tem misericórdia de nós que sabemos sobre a vida e a morte quando um animal que eu profundamente invejo – é inconsciente de sua condição? Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? Uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver. Eu não tenho é coragem de dizer a verdade que nós sabemos. Há palavras proibidas. “
[9] Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir pois fui ao fundo dos momentos.”