sábado, 6 de junho de 2026

CARTOLA - PRECISO ME ENCONTRAR E A HISTÓRIA DO JUIZ E DO INTERDITO

 


Boa noite amigos,  

                                                          Deixe-me ir preciso andar,

                                                            Vou por aí a procurar,

                                                           Rir pra não chorar

                                                          Deixe-me ir

                                                          Preciso andar

                                                         Vou por aí a procurar

                                                         Sorrir pra não chorar.”

                                                         

                                                         (Preciso Me Encontrar - Cartola)       

                                                                

Boa noite amigos,

 

Para o leigo explico previamente que há um processo chamado de interdição, cuja finalidade é declarar um sujeito que não consiga cuidar de sua pessoa ou administrar os seus bens, incapaz.  Com essa declaração o juiz nomeia  um parente ou terceira pessoa idônea, curador do incapaz, devendo esse curador, na sua defesa, atuar legalmente como seu representante. O primeiro ato num processo dessa natureza é o interrogatório do “dito cujo”, em audiência, pelo juiz do processo. Quando o cidadão não pode ir ao Fórum o Magistrado tem que colher o seu depoimento onde ele se encontrar, seja em clínica ou hospital, seja na sua casa. Assim fui eu, quando ainda era Juiz da 5ª. Vara Cível de Campinas, junto com o meu escrevente, com carro próprio, até um bairro afastado, onde supostamente se encontraria o interditando. Para localizar a casa não foi fácil, pois ela se situava numa ladeira, espécie de favela  e os números dos imóveis, quando existiam, não seguiam a ordem crescente ou decrescente, conforme o caso. Chegamos lá, finalmente. Casa humilde, a mãe do rapaz, diante da nossa identificação, pediu que entrássemos. Solicitei a presença do rapaz, a fim de que pudesse interrogá-lo, ato que se destina à verificação, pelo Juiz pessoalmente,  do estado mental do interditando, sua compreensão sobre o mundo e as coisas da vida.  Ela disse que o moço ainda estava deitado e que iria chamá-lo. Depois de muita discussão lá no quartinho, porque ele se recusava a levantar e a se sujeitar ao tal interrogatório,  finalmente levantou, passou por nós e saiu, sem dar atenção aos pedidos insistentes da mãe para que voltasse  e falasse conosco. A genitora, com um sorriso glacial no rosto, explicou que esse filho, desde cedo, dormia muito e, quando levantava, caminhava o dia todo por todo canto e, às vezes,  nem aparecia para as refeições. Ficamos ali por cerca de 40 minutos aguardando, que o jovem eventualmente retornasse. Eis que ele surge de volta, não se sabe se por curiosidade de quem éramos e o que fazíamos aí. A mãe, então, segurou no seu braço direito e tentou nos apresentar, rogando que ele parasse ali porque “o juiz queria e precisava falar com ele”. Ele olhou para mim, olhou para o escrevente que me acompanhava, olhou para a máquina de escrever que portávamos e, em seguida, sem se dirigir nós e sim para a  mãe disse em tom grave e malcriado: - Foda-se! E saiu de novo. Como não havia a menor condição de sucesso no tal interrogatório (nem tentei uma modalidade assim “itinerante” porque não conseguiria acompanhá-lo na dinâmica de sua caminhada frenética e ininterrupta),  deixei o local, registrando no processo que o ato judicial se frustrara e os motivos da frustração da empreitada.  Hoje, mais de 30 anos depois, acordei ouvindo Cartola cantando Preciso Me Encontrar, um samba-canção que fala da busca pelo autoconhecimento e das respostas para as dúvidas de todo ser humano.  E os versos do poeta, clamando por deixar que ele ande, ande sem parar, procurando a alegria, o riso, a busca do sol e da natureza, além de me fazer recordar do rapaz, cujo nome nem me lembro, me transportou para o episódio e seu significado. Suponho que o rapaz já sabia, ou tentava descobrir, caminhando por lugares e objetivos nunca revelados, da inutilidade da maior parte dos anseios e desejos do ser humano. E assim,  ignorando a presença do Juiz e  da autoridade que ele representaria, assim como a finalidade daquele ato burocrático a atitude do rapaz me causou riso, pela maneira espontânea com que mandou que tudo se fodesse, incluindo o objetivo em si, a própria figura do Magistrado e sua autoridade estatal.  E hoje, cá está o velho aposentado da Magistratura, mas não da luta e da vida, por enquanto, mergulhado em reflexões sobre a natureza, a razão e o destino da raça humana,  e na procura interminável da essência da vida. Com vontade, quase incontida, de mandar muita coisa, muita gente e seus conceitos e preconceitos, se foder!

 

P.S. (1) Agenor de Oliveira era o nome de batismo do poeta, compositor, músico e violonista CARTOLA, que só terminou o estudo primário, mas aprendeu violão com o pai. Com dificuldades financeiras,  sua numerosa família foi morar na região onde nascia uma favela no Rio de Janeiro, a Mangueira. Foi trabalhar como servente de pedreiro e por causa de um chapéu coco que usava para se proteger do cimento que caía de cima, ganhou, dos colegas, o apelido de Cartola, com o qual passou a ser conhecido e se imortalizou como um dos mais sensíveis compositores da música popular brasileira;

 P.S. (2) Seus maiores sucessos foram, além de Preciso Me Encontrar, As Rosas Não Falam, o Mundo é um Moinho e Alvorada, quatro preciosidades do nosso cancioneiro.  Das centenas de gravações de suas composições, destaque para a belíssima interpretação de Cazuza para "O Mundo é um Moinho";

quarta-feira, 27 de maio de 2026

PIRAMBOIA - MEU TORRÃO NATAL.

 


Boa noite amigos, 


Nasci no dia 22 de janeiro do distante ano de 1.952, como meus quatro outros irmãos, em casa, com o auxílio de uma parteira. Parto natural sem obstetra.  Diz o meu registro de nascimento lavrado no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais do Distrito, hoje extinto pelo Tribunal de Justiça de São Paulo,  que isso se deu às duas horas da tarde.  Talvez por isso nunca tenha gostado de acordar cedo. Fui muito desejado. Meus pais queriam um filho do sexo masculino. Na família já havia duas meninas, Laila e Leny, que nasceram, respectivamente, em 1.947 e 1.948 e foram contempladas com os nomes de duas cantoras famosas na época, Laila Cury e Leny Eversong. A terceira gravidez de minha mãe não vingou. A criança morreu pouco antes de nascer e era também uma menina. Meus pais tinham feito promessa: se viesse menino ele seria batizado em Pirapora de Bom Jesus, cidade santa   distante cerca de 166 km. do meu torrão natal.   Nasci em um lugar chamado Piramboia, que foi município e atualmente é distrito  de Anhembi, Estado de São Paulo e se situa ao pé da serra de Botucatu. Brinco dizendo que quando sou forçado a fazer cadastro e o atendente pergunta “natural de onde?” e eu digo, Piramboia, ele vai logo replicando: - E o senhor acha isso natural mesmo?  Piramboia, que dá nome ao lugar,  é um peixe pulmonado de água doce da Amazonia, Bacia do Prata e Pantanal. Possui corpo longo semelhante a uma cobra e é capaz de respirar fora das águas.   O nome da cidade teve origem no fato de que, na região era comum encontrar essa espécie.

O nome da cidade se deu porque na região era comum encontrar a espécie. Trata-se de um peixe comestível e muito apreciado em algumas regiões, pois tem a carne branca, saborosa e, por ter a espinha central (coluna), é considerada muito fácil e prática de comer. O crescimento e importância do lugarejo aconteceu de forma espontânea com a inauguração da estação ferroviária em 1.888. Naquela época o que determinava o progresso ou o estagnação de uma cidade eram as cobiçadas estações de trens. Acontece que  a própria estação ferroviária de Piramboia (inaugurada no século XIX) foi substituída em 1952 por outra, construída a quilômetros de distância do núcleo urbano original, o que dificultou o acesso da população e, após o fim dos trens e a  privatização das malhas, com o surgimento da FEPASA, a estação ferroviária da extinta Estradas de Ferro Sorocabana,  foi demolida e o pátio da estação sofreu  com o abandono e hoje acomoda velhos e imprestáveis vagões. Deixei a cidade seis anos depois, em 1.958, vindo com a família para Campinas, de onde não mais saímos. De lá saudosas memórias. Da escolinha local onde uma única professora tinha que dar conta de três séries do chamado “grupo escolar”, hoje primeira, segunda e terceiras séries do ensino fundamental.  A professora, aprovada em concurso de carreira,  vinha de fora e se alojava na pensão da Lucrécia, único estabelecimento desse gênero existente. E durante o recreio, várias vezes tínhamos que correr de volta para a sala, porque por ali passava “a boiada”. Brincávamos tocando os bois, pela janela, com um pedaço de pau. E as vacas, de vez em quando, cagavam no pátio e essas  fezes, depois de secas, eram aproveitadas como esterco para agricultura, fértil nas grandes fazendas que ocupavam a vasta área rural do município.   Na pracinha, anunciava-se, com alto falante, o filme que seria exibido no sábado e domingo (não havia sessão durante a semana).  As exibições aconteciam num improvisado salão do Bar do Lalo, nosso primo, e cada espectador tinha que levar a própria cadeira. E havia também estórias  de fantasmas e de almas do outro mundo que a Dona Tereza contava às crianças que tinham medo do escuro, como eu. A mudança de minha família aconteceu em novembro de 1.958 e, como eu não tinha ainda concluído o ano letivo, fiquei lá na casa de minha Madrinha, Dona Dulce. Na data do exame final fiquei doente, com infecção dentária e, com febre e mal estar, permaneci em casa acamado. Três dias depois a professora foi até a casa para que eu fizesse o meu exame, de forma oral. A última cena de Piramboia que eu retive na memória foi surreal. Eu, sentado na cama defronte a professora, que me sabatinava. Minha madrinha, por sua vez, entrou no quarto se posicionou atrás da distinta. Quando a docente me indagou sobre quanto era 12 mais 12, minha madrinha, com um gesto labial aberto e inequívoco, sem fazer ruído, permitiu que eu lesse claramente, vinte e quatro. Fui aprovado e no inicio das férias vim para Campinas me reunir com o restante da família.

 Boa noite amigos.

P.S. (1) Pirambóia já foi sede do município de Anhembi entre os anos de 1.934 e 1.948. Hoje é distrito de Anhembi e conta aproximadamente com 1.400 habitantes (o município todo tem pouco menos de 6.000 habitantes;

P.S. (2)  Pirapora do Bom Jesus, cidade histórica e religiosa situada na região metropolitana de São Paulo, onde fui batizado há 72 anos, atrai ainda hoje milhares de peregrinos ao seu Santuário. Conhecida também como “Aparecida Paulista” oferece aos turistas sua exuberante beleza natural e passeios com barcos e ecoturismo.

 P.S.  (3)  As imagens que ilustram essa postagem são, respectivamente, da antiga estação de ferro original de Piramboia, construída e inaugurada em 1.888; da piramboia, peixe pulmonado com aspecto de cobra,  e, da minha família e meus padrinhos, no meu batizado, em 1.954,  em Pirapora do Bem Jesus. Eu sou o menino em pé, ao lado do padrinho, que esta agachado. 













quarta-feira, 6 de maio de 2026

GRACIE E FRANKIE - SÉRIE NETFLIX

 

Boa tarde amigos,

Imagem das protagonistas da série, Gracie (Jane Fonda) e 
Frankie (Lily Tomlin).
 
O mundo não está organizado para atender as minorias, dentre os quais os idosos, embora, à vista da decrescente taxa de natalidade e do aumento da idade média de vida da população, ditada pelos progressos das ciências, essa equação tenda a se inverter.    A série da Netflix GRACE AND FRANKIE, com 7 temporadas e 13 capítulos de cerca de 30 minutos cada um, escancara, de maneira leve e inteligente, as dificuldades de reconstrução de vida e relacionamentos na terceira idade. As protagonistas são duas atrizes extraordinárias, JANE FONDA (Grace) e LILY TOMLIN (Frankie), amigas de longa data, que são surpreendidas com a confissão dos maridos, SAM WATERSTON (Sol) e MARTIM SHEEN (Robert),  de que mantêm um caso homoafetivo entre si e que pretendem o divórcio para oficializar a união.  Compelidas pela situação a um difícil e inesperado recomeço, unem-se numa amizade que se fortalece a cada dia e dificuldade,   apesar das profundas diferenças,  já que Grace é conservadora e atenta aos valores da sociedade, enquanto Frankie revela ser um espírito livre e descolado. Com um roteiro dinâmico e inteligente e um show de interpretação de todo o elenco, notadamente das atrizes centrais,  a série aborda temas universais e atemporais,  como o preconceito,  a busca permanente do ser humano pela felicidade, as limitações físicas e mentais da terceira idade e a proximidade da morte, o respeito, a generosidade, o amor sob os vários ângulos e a amizade como  valor e sentimento   que alimenta a alma e supera as diferenças entre os seres humanos.  Diversão certa para toda a família, independentemente da idade. Mas se você estiver, como eu e minha patroa, na faixa etária dos personagens, vai identificar muitas situações que se assemelham ao seu próprio dia-a-dia. São 7 temporadas, mais do que a média das séries da Netflix, que dificilmente renova suas séries por mais de 4 ou 5 temporadas. Os capítulos são curtos e você não precisa assistir tudo de uma vez. Bom mesmo é ir vendo cada capítulo, ou dois ou três capítulos, por vez.

Até mais amigos.

domingo, 12 de abril de 2026

ALVARÁ E JUIZ NOVO - CRÔNICA .


 Boa noite amigos, 


Reproduzo aqui nesta coluna, um dos "causos" que constam do meu primeiro livro da trilogia "Causas & Causos", 2.006, Editora Millenium, Campinas (SP).

 

                                                   "Agora eu era herói, era bedel, era também Juiz. E pelas minhas leis a gente era obrigado a ser feliz” (Chico Buarque de Hollanda).

 

"Antigo cartorário, Chefe do Terceiro

Oficio local, o Toninho é procurado, no serviço, por uma vizinha, a Dona Camila, que ficara viúva recentemente.

 

Solícito, procura atender a amiga,

querendo conhecer a sua dificuldade.

 

A viúva lhe exibe um extrato da

Caixa Econômica Federal:

 

_ Ô Toninho, que bom que você está aqui. O falecido não deixou muita coisa prá nós. Tem esse dinheiro na poupança da Caixa Econômica e eu preciso levantar.

 

_ Dona Camila, olha, precisa pedir

 

alvará judicial.

 

_ E como é isso?

 

_ A senhora tem advogado? Se não tiver ou não puder pagar, pode procurar a Procuradoria do Estado que lhe dará um. Fica ali na rua Benjamin Constant. O advogado fará uma petição ao Juiz, dará entrada no distribuidor, depois o Juiz manda ouvir o Curador e dá um despacho final, deferindo o alvará. Aí eu expeço o documento, a senhora leva na Caixa e recebe o dinheiro.

 

_ Tudo isso! Que complicação, tanta coisa por causa de uns caraminguados? Não tem outro jeito?

 

_ Infelizmente, não Dona Camila.

 

 

                                                        A distinta viúva agradeceu a atenção, desceu um andar e leu uma inscrição sobre uma porta aberta que  dizia: Segunda Vara Cível.

 

                                                        Olhou para dentro da sala e viu lá no fundo, sentado, um jovem de terno e bigode, que julgou tratar-se do juiz.

 

 

                                                       E não errou.

 

 

Pediu licença e educadamente a ele se

dirigiu:

 

_ Licença, doutor. O senhor é juiz?

 

 

_ _  Sou, respondeu educadamente o

jovem magistrado.

 

_ Sabe doutor, eu fiquei viúva a

semana passada e como o senhor vê nesse papel da Caixa, meu marido deixou um saldinho lá que eu preciso levantar.

 

O Juiz apanhou o extrato que Dona Camila lhe exibia e constatou a existência da conta, a titularidade e o saldo que não era muito grande.

 

_ Precisa de ordem do senhor pra

eles me liberarem o dinheiro. Foi o que disseram.

 

O Juiz, demonstrando certa surpresa,

apanhou a caneta e no próprio extrato escreveu: Autorizo o

levantamento. Datou, assinou e orientou a mulher a procurar o

Cartório.

 

A viúva despediu-se agradecida.

 

Voltou ao Terceiro Ofício e procurou pelo Toninho.

 

__ Toninho, olha aqui. O Juiz já despachou, eu falei com ele e agora é só pra você me dar a autorização.

 

 

Estupefato o escrevente constatou que efetivamente o Juiz despachara informalmente naquele papel, o tal extrato do banco. Não havia processo, não havia pedido, não havia coisa nenhuma.

 

Não teve jeito.

 

Apanhou o extrato e foi ter com o

Juiz.

 

Pediu licença e entrou na sala.

 

O Juiz era ainda substituto, recém

ingressado. Jovem, bem educado e receptivo, mas como é que se iria explicar a ele que não era possível despachar num papel fora de um processo, um pedido que não havia sido feito, segundo as normas processuais etc.

 

Como fazer isso? Que palavras usar?

Ensinar o padre-nosso para o vigário? E depois, era tão elementar aquilo.

 

Ao lado do Juiz estava um outro

jovem que o Toninho não conhecia.

 

O Escrevente pediu desculpas e trêmulo, com frase entrecortada, pergunta:

 

_ Doutor, sabe o que é. Uma senhora foi até o Cartório me levando este extrato bancário com um despacho. Esse despacho é de Vossa Excelência mesmo?

 

_ É, confirmou o Magistrado.

 

Ah bom,mas doutor,como é que

eu vou expedir o alvará? Não há nenhum processo, nem pedido, doutor.

 

O Juiz ouviu atentamente as explicações, com sincero interesse e simpatia.

 

Nisso, o outro jovem que estava ao

lado, que depois se soube era outro Juiz substituto, colega deste de concurso, confirmou:

 

_ É Armando. Lá na minha Vara

tem que fazer assim. Tem que haver um pedido de alvará escrito feito por advogado, passando depois pelo distribuidor e pelo Cartório que autua o feito e depois é que você despacha, autorizando. Dentro do processo.

 

O Toninho sentiu um alívio, pela providencial intervenção em seu favor.

 

O jovem magistrado, então, riscou o despacho que tinha prolatado no extrato e orientou o escrevente a pedir à viúva que providenciasse, com um advogado, pedido formal de alvará.

 

O escrevente voltou ao Cartório. À viúva restituiu o extrato com o despacho riscado, reafirmando a

tramitação que havia mencionado anteriormente e a nova orientação do Juiz.

 

A Dona Camila perdeu a amizade

com o Toninho.

 

Afinal, que sacanagem era aquela de,

além de criar caso desnecessário, ainda ir convencer o Juiz a prejudicar os interesses da amiga?

 

E vá explicar para alguém que um

Juiz concursado, brilhante, culto e generoso, não tinha a menor idéia de como se requeria, na prática, um alvará?

 

O tal Juiz fez carreira brilhante.

 

Chegou a ser Presidente de um

Tribunal de Alçada.

 

Mas a Dona Camila morreu sem falar,

nem perdoar o Toninho.!


Quanta confusão e incompreensão né gente!


Até mais amigos.



sábado, 21 de março de 2026

VINTE E SETE NOITES - CINEMA ARGENTINO.

Boa noite amigos, 


Poster de divulgação do filme - foto do meu
celular.

Com a conhecida densidade dos dramas explorados pelo bom cinema argentino, mas sem ser maçante ou sisudo, o longa, VINTE E SETE NOITES, de 2025, produzido e distribuído pela NETFLIX, mergulha na reflexão sobre etarismo,  saúde mental, liberdade e autodeterminação na velhice, numa interessante proposição e discussão a respeito das fronteiras entre a excentricidade e a doença mental,  com sutileza e leveza.  Baseado no livro Veintesiete Noches de Nathália Zito, o título se refere ao tempo em que a octogenária, Martha Hoffmann (Marilu Marine), artista plástica, viúva, rica e independente,   permanece internada em uma clínica, contra a sua vontade, por iniciativa de suas filhas, preocupadas com as relações da mãe com jovens músicos e artistas, no objetivo de  proteger o patrimônio familiar. Diagnosticada com demência frontotemporal, sem definição de fases,  sustentam suas futuras herdeiras,  que seria incapaz para a prática dos atos da vida civil. Aí entra em cena o perito judicial, Leandro (Daniel Hendler), incumbido de elaborar um laudo positivo ou negativo, mas conclusivo e fundamentado, decisivo para o julgamento do processo de interdição que corre na Justiça. Os diversos encontros entre a artista e o perito, nos quais acontecem reflexões e diálogos sobre realidade, velhice, doenças e limitações, preconceitos, excentricidades,  capacidade e autodeterminação, constituem a essência do roteiro  e das mudanças que terminam por afetar a vida de ambos os personagens centrais. Baseado em história real da viúva, Natália Kohen, internada em Buenos Aires pelas filhas, o filme é bem produzido, intercalando, com bom humor, cenas dramáticas e cômicas, com um final interessante. Vale assistir.

 

Até mais amigos.

 

 

                                  

domingo, 1 de março de 2026

CINEMA DE OSCAR - O FRANKENSTEIN DE GUILLERMO DEL TORO.

 

Boa tarde amigos, 

Imagem de publicidade do filme. Aqui o ator  
Jacob Ejordi na pele da criatura


O conhecido romance Frankenstein ou o Prometeu Moderno, primeira e mais famosa obra da escritora inglesa, Mary Shelley (1797/1851), publicado na versão mais conhecida, em 1831, já foi adaptado, para teatro e cinema, mais de 400 vezes, segundo os estatísticos. E certamente cada uma das  versões, destaca, em particular, a visão e o propósito de seu respectivo diretor. Sobre o último   roteiro adaptado para o cinema,  do diretor mexicano Guillermo Del Toro  (O Labirinto do Fauno (2006), A Forma da Água (2017, Oscar de melhor filme), e que pode ser visto na plataforma Netflix, é que falo aos amigos. O longa faz jus ao enquadramento como tal, pois se desenvolve em duas horas e meia, o que o torna, para alguns, um tanto lento e arrastado. O que me levou a  escolhê-lo, dentro do catálogo disponível da Netflix, foram as premiações que recebeu e aquelas que ainda possivelmente virão. Nas indicações para o Oscar 2.026, o filme está concorrendo a nove categorias, incluindo a de melhor filme e de melhor Ator Coadjuvante para Jacob Elordi.  Com um orçamento milionário, cerca de 120 milhões de dólares, ou 600 milhões de reais, o projeto sonhado pelo diretor durante 25 anos, destaca-se pelo uso de cenários reais e grandiosos,  decadentes e belos, com sombras e luzes voltados para iluminar as cenas de sangue e terror, seu traço gótico e fantástico, a cenografia detalhada e o figurino  cuidadoso, aspectos que revelam o  tom melodramático da versão, um marco registrado da  personalidade de Guillermo. O cineasta manifesta em suas obras a tendência para explorar o imperfeito e as fraquezas humanas,  inserindo essas imperfeições em personagens destacados, ou apenas  dando forma  a seres inanimados (vide o seu aclamado A Forma da Água de 2.017). Assim como no original do livro,  o narrador (o próprio Victor Frankenstein, em primeira pessoa), vai relatando as suas experiências científicas sem limites,  como estudante de medicina,  com o que logrou trazer à vida um monstro, utilizando partes de restos mortais de sepulturas, coladas como num retalho e movimentadas a partir de um complexo sistema de conexão elétrica.  O monstro, ganhando vida, vai conhecendo a rejeição de seu criador, que tenta destruí-lo, convicto de que ele é violento e criminoso, o que coloca em risco a sua vida e  integridade física de outras pessoas. Não há consenso entre os críticos sobre o enquadramento do Frankenstein do Del Toro: terror (?) ficção científica com traços góticos (?) romance (?), drama (?),  ou tudo isso ao mesmo tempo, o que parece correto. No embate entre criador e criatura, muitos questionamentos filosóficos ligados à imperfeição do homem e suas incertezas sobre a finitude e a compreensão de sensações como  a dor, a tristeza, a solidão e  os limites éticos das pesquisas científicas. E na trajetória de coexistência, criador e criatura vão experimentando desencontros e contradições, com recíproco objetivo de destruição, de negação, mas também de ternura, de aceitação, de piedade. O resultado agrada alguns, desagrada outros e dá combustível à antiga discussão quanto à qualidade do premiado cineasta  mexicano como roteirista. Goste-se ou não da superprodução, há unanimidade no tocante ao desempenho extraordinário do australiano, Jacob Nathaniel Elordi,  eleito para viver o monstro, e que encanta com o seu talento, pela forma minimalista com que cuida de  cada postura e cada movimento corporal do gigante, para torná-los verossímeis, assim como as suas falas em tom  cavernoso. Particularmente, entre virtudes e defeitos, gostei do filme. E recomendo aos cinéfilos amantes da arte.

 

Até mais amigos.

 

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

GAVIÕES DA FIEL CAMPEÃ DE 1.995 - COISA BOA É PARA SEMPRE


Boa tarde amigos,

 


Há 31 anos, a escola de samba Gaviões da Fiel completava o seu jubileu de prata. E  ao  descer o Sambódromo do Anhembi em São Paulo, no desfile de escolas de samba do grupo especial de 1995, encantou o público e o Brasil com o samba enredo “Coisa Boa é Para Sempre”, seguramente e até hoje, o melhor samba-enredo do Carnaval de São Paulo, por isso mesmo referendado como um hino antológico. Letra e música irretocáveis, assinada pelo corintiano conhecido como “O Grego”, cujo nome de batismo é Janos Tsukalas, compositor histórico da agremiação,  foi responsável pelo primeiro título da escola na elite do carnaval paulistano. Com todos os ingredientes para falar de seus 25 anos, do amor dos torcedores pelo clube do coração,  de gol, de taça, de luta e dedicação, de fidelidade: /Ai, um brinde/um brinde ao jubileu de prata/convido a massa para comemorar/explode um grito na galera/tem gol de fera, para delirar/.  Para buscar e manter  a capacidade de sonhar, fala da  necessidade   de ser criança e de participar de seu mundo de fantasia, onde moram os  heróis e fadas: /Hoje sou criança/reino encantado de brinquedo e fantasia/na minha lembrança/sonhei dourado e brinquei de poesia. E mais adiante: /Fadas e rainhas, mil heróis na minha história/o que é bom fica na memória/tem pierrô, pierrô arlequim columbina/todo mundo quer sonhar/se enroscar na serpentina.  Finalmente, o ponto alto e arrepiante do samba, para mim reside no convite  ao companheiro ou companheira para o abraço, a busca do céu e do infinito, simbolizado pela viagem do gavião: /“Me dê a mão, me abraça/viaja comigo pro céu/sou gavião, levando a taça/com muito orgulho, pra delírio da fiel./ Vou te levar pro infinito/Vou te beijar do jeito mais bonito/Ai que gostoso amor, ai que saudade/te amo, te amo de verdade. A canção foi composta em 13 dias, dentro dos quais o compositor viajou no tempo, buscando inspiração na memória de sua infância, em que o espetáculos circenses exerceram grande influência, ressaltando a relevância da memória e da eternização dos momentos de alegria e felicidade.   Assim,  a Gaviões, pela primeira vez,  atingindo 293 pontos no julgamento dos jurados, levou o troféu, desbancando as grandes escolas de Sâo Paulo.

 

Até mais amigos.