quarta-feira, 27 de maio de 2026

PIRAMBOIA - MEU TORRÃO NATAL.

 


Boa noite amigos, 


Nasci no dia 22 de janeiro do distante ano de 1.952. Como meus quatro outros irmãos, em casa, com o auxílio de uma parteira. Parto natural, evidentemente. Diz o meu registro de nascimento lavrado no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais do Distrito, hoje extinto pelo Tribunal de Justiça de São Paulo,  que isso se deu às duas horas da tarde.  Talvez por isso nunca tenha gostado de acordar cedo. Fui muito desejado. Meus pais queriam um filho do sexo masculino. Na família já havia duas meninas, Laila e Leny, que nasceram, respectivamente, em 1.947 e 1.948 e foram contempladas com os nomes de duas cantoras famosas na época, Laila Cury e Leny Eversong. A terceira gravidez de minha mãe não vingou. A criança morreu pouco antes de nascer e era também uma menina. Eu, portanto, vim ao mundo na quarta gravidez e, por isso, fruto de uma promessa só cumprida dois anos mais tarde. Deveria o menino, se menino nascesse, ser batizado em Pirapora do Bom Jesus, um município distante cerca de 166 km. do meu torrão natal.   Nasci em um lugar chamado Piramboia, que foi município e atualmente é distrito  de Anhembi, Estado de São Paulo e se situa ao pé da serra de Botucatu. Brinco dizendo que quando sou forçado a fazer cadastro e o atendente pergunta “natural de onde?” e eu digo, Piramboia, ele vai logo replicando: - E o senhor acha isso natural mesmo?  Piramboia, que dá nome ao lugar,  é um peixe pulmonado de água doce da Amazonia, Bacia do Prata e Pantanal. Possui corpo longo semelhante a uma cobra e é capaz de respirar fora das águas. O nome da cidade se deu porque na região era comum encontrar esse peixe. Trata-se de um peixe comestível e muito apreciado em algumas regiões, pois tem a carne branca, saborosa e, por ter a espinha central (coluna) é considerada muito fácil e prática de comer. O crescimento e importância do lugarejo aconteceu de forma espontânea com a inauguração da estação ferroviária em 1.888. Naquela época o que determinava o progresso ou o estagnação de uma cidade era a proximidade das estações de trens. Acontece que  a própria estação ferroviária de Piramboia (inaugurada no século XIX) foi substituída em 1952 por outra, construída a quilômetros de distância do núcleo urbano original, o que dificultou o acesso da população e, após o fim dos trens e a  privatização das malhas, a vila ferroviária da extinta Estradas de Ferro Sorocabana,  foi demolida e o pátio da estação sofreu  com o abandono e hoje acomoda velhos e imprestáveis vagões. Deixei a cidade seis anos depois, em 1.958, vindo com a família para Campinas, de onde não mais saímos. De lá saudosas memórias. Da escolinha local onde uma única professora tinha que dar conta de três séries do chamado “grupo escolar”, hoje primeira, segunda e terceiras séries do ensino fundamental, dispostos os alunos de cada série numa das três filas de carteiras. A professora, aprovada em concurso de carreira,  vinha de fora e se alojava na pensão da Lucrécia, único estabelecimento desse gênero existente. E durante o recreio, várias vezes tínhamos que correr de volta para a sala, porque por ali passava “a boiada”. Brincávamos tocando os bois, pela janela, com um pedaço de pau. E as vacas, de vez em quando, cagavam no pátio e essas  fezes, depois de secas, eram aproveitadas como esterco para agricultura, fértil nas grandes fazendas que ocupavam a área rural do município.   Na pracinha popular, anunciava-se, com alto falante, os filmes que seriam exibidos nos finais de semana (não havia sessão durante a semana).  As exibições aconteciam num improvisado salão do Bar do Lalo, nosso primo e cada espectador tinha que levar a própria cadeira, sob pena de ter que assistir ao filme, em pé. E, ainda, das histórias de fantasmas e de almas do outro mundo que a Dona Tereza contava às crianças que tinham medo do escuro, como eu. A mudança de minha família aconteceu em novembro de 1.958 e, como eu não tinha ainda concluído o ano letivo, fiquei lá na casa de minha Madrinha, Dona Dulce. Na data do exame final fiquei doente, com infecção dentária e, com febre e mal estar, permaneci em casa acamado. Três dias depois a professora foi até a casa para que eu fizesse o meu exame, de forma oral. A última cena de Piramboia que eu retive na memória foi surreal. Eu, sentado na cama defronte a professora,  pronta para me sabatinar.   Minha madrinha, por sua vez, entrou no quarto se posicionou atrás da distinta. Quando a docente me indagou sobre quanto era 12 mais 12, minha madrinha com um gesto labial aberto e inequívoco, sem ruído, contudo, permitiu que eu lesse claramente, vinte e quatro. Fui aprovado e no inicio das férias vim para Campinas me reunir com o restante da família.

 Boa noite amigos.

P.S. (1) Pirambóia já foi sede do município de Anhembi entre os anos de 1.934 e 1.948. Hoje é distrito de Anhembi e conta aproximadamente com 1.400 habitantes (o município todo tem pouco menos de 6.000).

P.S. (2)  Pirapora do Bom Jesus, cidade histórica e religiosa situada na região metropolitana de São Paulo, onde fui batizado há 72 anos, atrai ainda hoje milhares de peregrinos ao seu Santuário. Conhecida também como “Aparecida Paulista” oferece aos turistas sua exuberante beleza natural e passeios com barcos e ecoturismo.

 P.S.  (3)  As imagens que ilustram essa postagem são, respectivamente, da antiga estação de ferro original de Piramboia, construída e inaugurada em 1.888 e, do meu batizado em Pirapora do Bem Jesus com minha família e meus padrinhos.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

GRACIE E FRANKIE - SÉRIE NETFLIX

 

Boa tarde amigos,

Imagem das protagonistas da série, Gracie (Jane Fonda) e 
Frankie (Lily Tomlin).
 
O mundo não está organizado para atender as minorias, dentre os quais os idosos, embora, à vista da decrescente taxa de natalidade e do aumento da idade média de vida da população, ditada pelos progressos das ciências, essa equação tenda a se inverter.    A série da Netflix GRACE AND FRANKIE, com 7 temporadas e 13 capítulos de cerca de 30 minutos cada um, escancara, de maneira leve e inteligente, as dificuldades de reconstrução de vida e relacionamentos na terceira idade. As protagonistas são duas atrizes extraordinárias, JANE FONDA (Grace) e LILY TOMLIN (Frankie), amigas de longa data, que são surpreendidas com a confissão dos maridos, SAM WATERSTON (Sol) e MARTIM SHEEN (Robert),  de que mantêm um caso homoafetivo entre si e que pretendem o divórcio para oficializar a união.  Compelidas pela situação a um difícil e inesperado recomeço, unem-se numa amizade que se fortalece a cada dia e dificuldade,   apesar das profundas diferenças,  já que Grace é conservadora e atenta aos valores da sociedade, enquanto Frankie revela ser um espírito livre e descolado. Com um roteiro dinâmico e inteligente e um show de interpretação de todo o elenco, notadamente das atrizes centrais,  a série aborda temas universais e atemporais,  como o preconceito,  a busca permanente do ser humano pela felicidade, as limitações físicas e mentais da terceira idade e a proximidade da morte, o respeito, a generosidade, o amor sob os vários ângulos e a amizade como  valor e sentimento   que alimenta a alma e supera as diferenças entre os seres humanos.  Diversão certa para toda a família, independentemente da idade. Mas se você estiver, como eu e minha patroa, na faixa etária dos personagens, vai identificar muitas situações que se assemelham ao seu próprio dia-a-dia. São 7 temporadas, mais do que a média das séries da Netflix, que dificilmente renova suas séries por mais de 4 ou 5 temporadas. Os capítulos são curtos e você não precisa assistir tudo de uma vez. Bom mesmo é ir vendo cada capítulo, ou dois ou três capítulos, por vez.

Até mais amigos.

domingo, 12 de abril de 2026

ALVARÁ E JUIZ NOVO - CRÔNICA .


 Boa noite amigos, 


Reproduzo aqui nesta coluna, um dos "causos" que constam do meu primeiro livro da trilogia "Causas & Causos", 2.006, Editora Millenium, Campinas (SP).

 

                                                   "Agora eu era herói, era bedel, era também Juiz. E pelas minhas leis a gente era obrigado a ser feliz” (Chico Buarque de Hollanda).

 

"Antigo cartorário, Chefe do Terceiro

Oficio local, o Toninho é procurado, no serviço, por uma vizinha, a Dona Camila, que ficara viúva recentemente.

 

Solícito, procura atender a amiga,

querendo conhecer a sua dificuldade.

 

A viúva lhe exibe um extrato da

Caixa Econômica Federal:

 

_ Ô Toninho, que bom que você está aqui. O falecido não deixou muita coisa prá nós. Tem esse dinheiro na poupança da Caixa Econômica e eu preciso levantar.

 

_ Dona Camila, olha, precisa pedir

 

alvará judicial.

 

_ E como é isso?

 

_ A senhora tem advogado? Se não tiver ou não puder pagar, pode procurar a Procuradoria do Estado que lhe dará um. Fica ali na rua Benjamin Constant. O advogado fará uma petição ao Juiz, dará entrada no distribuidor, depois o Juiz manda ouvir o Curador e dá um despacho final, deferindo o alvará. Aí eu expeço o documento, a senhora leva na Caixa e recebe o dinheiro.

 

_ Tudo isso! Que complicação, tanta coisa por causa de uns caraminguados? Não tem outro jeito?

 

_ Infelizmente, não Dona Camila.

 

 

                                                        A distinta viúva agradeceu a atenção, desceu um andar e leu uma inscrição sobre uma porta aberta que  dizia: Segunda Vara Cível.

 

                                                        Olhou para dentro da sala e viu lá no fundo, sentado, um jovem de terno e bigode, que julgou tratar-se do juiz.

 

 

                                                       E não errou.

 

 

Pediu licença e educadamente a ele se

dirigiu:

 

_ Licença, doutor. O senhor é juiz?

 

 

_ _  Sou, respondeu educadamente o

jovem magistrado.

 

_ Sabe doutor, eu fiquei viúva a

semana passada e como o senhor vê nesse papel da Caixa, meu marido deixou um saldinho lá que eu preciso levantar.

 

O Juiz apanhou o extrato que Dona Camila lhe exibia e constatou a existência da conta, a titularidade e o saldo que não era muito grande.

 

_ Precisa de ordem do senhor pra

eles me liberarem o dinheiro. Foi o que disseram.

 

O Juiz, demonstrando certa surpresa,

apanhou a caneta e no próprio extrato escreveu: Autorizo o

levantamento. Datou, assinou e orientou a mulher a procurar o

Cartório.

 

A viúva despediu-se agradecida.

 

Voltou ao Terceiro Ofício e procurou pelo Toninho.

 

__ Toninho, olha aqui. O Juiz já despachou, eu falei com ele e agora é só pra você me dar a autorização.

 

 

Estupefato o escrevente constatou que efetivamente o Juiz despachara informalmente naquele papel, o tal extrato do banco. Não havia processo, não havia pedido, não havia coisa nenhuma.

 

Não teve jeito.

 

Apanhou o extrato e foi ter com o

Juiz.

 

Pediu licença e entrou na sala.

 

O Juiz era ainda substituto, recém

ingressado. Jovem, bem educado e receptivo, mas como é que se iria explicar a ele que não era possível despachar num papel fora de um processo, um pedido que não havia sido feito, segundo as normas processuais etc.

 

Como fazer isso? Que palavras usar?

Ensinar o padre-nosso para o vigário? E depois, era tão elementar aquilo.

 

Ao lado do Juiz estava um outro

jovem que o Toninho não conhecia.

 

O Escrevente pediu desculpas e trêmulo, com frase entrecortada, pergunta:

 

_ Doutor, sabe o que é. Uma senhora foi até o Cartório me levando este extrato bancário com um despacho. Esse despacho é de Vossa Excelência mesmo?

 

_ É, confirmou o Magistrado.

 

Ah bom,mas doutor,como é que

eu vou expedir o alvará? Não há nenhum processo, nem pedido, doutor.

 

O Juiz ouviu atentamente as explicações, com sincero interesse e simpatia.

 

Nisso, o outro jovem que estava ao

lado, que depois se soube era outro Juiz substituto, colega deste de concurso, confirmou:

 

_ É Armando. Lá na minha Vara

tem que fazer assim. Tem que haver um pedido de alvará escrito feito por advogado, passando depois pelo distribuidor e pelo Cartório que autua o feito e depois é que você despacha, autorizando. Dentro do processo.

 

O Toninho sentiu um alívio, pela providencial intervenção em seu favor.

 

O jovem magistrado, então, riscou o despacho que tinha prolatado no extrato e orientou o escrevente a pedir à viúva que providenciasse, com um advogado, pedido formal de alvará.

 

O escrevente voltou ao Cartório. À viúva restituiu o extrato com o despacho riscado, reafirmando a

tramitação que havia mencionado anteriormente e a nova orientação do Juiz.

 

A Dona Camila perdeu a amizade

com o Toninho.

 

Afinal, que sacanagem era aquela de,

além de criar caso desnecessário, ainda ir convencer o Juiz a prejudicar os interesses da amiga?

 

E vá explicar para alguém que um

Juiz concursado, brilhante, culto e generoso, não tinha a menor idéia de como se requeria, na prática, um alvará?

 

O tal Juiz fez carreira brilhante.

 

Chegou a ser Presidente de um

Tribunal de Alçada.

 

Mas a Dona Camila morreu sem falar,

nem perdoar o Toninho.!


Quanta confusão e incompreensão né gente!


Até mais amigos.



sábado, 21 de março de 2026

VINTE E SETE NOITES - CINEMA ARGENTINO.

Boa noite amigos, 


Poster de divulgação do filme - foto do meu
celular.

Com a conhecida densidade dos dramas explorados pelo bom cinema argentino, mas sem ser maçante ou sisudo, o longa, VINTE E SETE NOITES, de 2025, produzido e distribuído pela NETFLIX, mergulha na reflexão sobre etarismo,  saúde mental, liberdade e autodeterminação na velhice, numa interessante proposição e discussão a respeito das fronteiras entre a excentricidade e a doença mental,  com sutileza e leveza.  Baseado no livro Veintesiete Noches de Nathália Zito, o título se refere ao tempo em que a octogenária, Martha Hoffmann (Marilu Marine), artista plástica, viúva, rica e independente,   permanece internada em uma clínica, contra a sua vontade, por iniciativa de suas filhas, preocupadas com as relações da mãe com jovens músicos e artistas, no objetivo de  proteger o patrimônio familiar. Diagnosticada com demência frontotemporal, sem definição de fases,  sustentam suas futuras herdeiras,  que seria incapaz para a prática dos atos da vida civil. Aí entra em cena o perito judicial, Leandro (Daniel Hendler), incumbido de elaborar um laudo positivo ou negativo, mas conclusivo e fundamentado, decisivo para o julgamento do processo de interdição que corre na Justiça. Os diversos encontros entre a artista e o perito, nos quais acontecem reflexões e diálogos sobre realidade, velhice, doenças e limitações, preconceitos, excentricidades,  capacidade e autodeterminação, constituem a essência do roteiro  e das mudanças que terminam por afetar a vida de ambos os personagens centrais. Baseado em história real da viúva, Natália Kohen, internada em Buenos Aires pelas filhas, o filme é bem produzido, intercalando, com bom humor, cenas dramáticas e cômicas, com um final interessante. Vale assistir.

 

Até mais amigos.

 

 

                                  

domingo, 1 de março de 2026

CINEMA DE OSCAR - O FRANKENSTEIN DE GUILLERMO DEL TORO.

 

Boa tarde amigos, 

Imagem de publicidade do filme. Aqui o ator  
Jacob Ejordi na pele da criatura


O conhecido romance Frankenstein ou o Prometeu Moderno, primeira e mais famosa obra da escritora inglesa, Mary Shelley (1797/1851), publicado na versão mais conhecida, em 1831, já foi adaptado, para teatro e cinema, mais de 400 vezes, segundo os estatísticos. E certamente cada uma das  versões, destaca, em particular, a visão e o propósito de seu respectivo diretor. Sobre o último   roteiro adaptado para o cinema,  do diretor mexicano Guillermo Del Toro  (O Labirinto do Fauno (2006), A Forma da Água (2017, Oscar de melhor filme), e que pode ser visto na plataforma Netflix, é que falo aos amigos. O longa faz jus ao enquadramento como tal, pois se desenvolve em duas horas e meia, o que o torna, para alguns, um tanto lento e arrastado. O que me levou a  escolhê-lo, dentro do catálogo disponível da Netflix, foram as premiações que recebeu e aquelas que ainda possivelmente virão. Nas indicações para o Oscar 2.026, o filme está concorrendo a nove categorias, incluindo a de melhor filme e de melhor Ator Coadjuvante para Jacob Elordi.  Com um orçamento milionário, cerca de 120 milhões de dólares, ou 600 milhões de reais, o projeto sonhado pelo diretor durante 25 anos, destaca-se pelo uso de cenários reais e grandiosos,  decadentes e belos, com sombras e luzes voltados para iluminar as cenas de sangue e terror, seu traço gótico e fantástico, a cenografia detalhada e o figurino  cuidadoso, aspectos que revelam o  tom melodramático da versão, um marco registrado da  personalidade de Guillermo. O cineasta manifesta em suas obras a tendência para explorar o imperfeito e as fraquezas humanas,  inserindo essas imperfeições em personagens destacados, ou apenas  dando forma  a seres inanimados (vide o seu aclamado A Forma da Água de 2.017). Assim como no original do livro,  o narrador (o próprio Victor Frankenstein, em primeira pessoa), vai relatando as suas experiências científicas sem limites,  como estudante de medicina,  com o que logrou trazer à vida um monstro, utilizando partes de restos mortais de sepulturas, coladas como num retalho e movimentadas a partir de um complexo sistema de conexão elétrica.  O monstro, ganhando vida, vai conhecendo a rejeição de seu criador, que tenta destruí-lo, convicto de que ele é violento e criminoso, o que coloca em risco a sua vida e  integridade física de outras pessoas. Não há consenso entre os críticos sobre o enquadramento do Frankenstein do Del Toro: terror (?) ficção científica com traços góticos (?) romance (?), drama (?),  ou tudo isso ao mesmo tempo, o que parece correto. No embate entre criador e criatura, muitos questionamentos filosóficos ligados à imperfeição do homem e suas incertezas sobre a finitude e a compreensão de sensações como  a dor, a tristeza, a solidão e  os limites éticos das pesquisas científicas. E na trajetória de coexistência, criador e criatura vão experimentando desencontros e contradições, com recíproco objetivo de destruição, de negação, mas também de ternura, de aceitação, de piedade. O resultado agrada alguns, desagrada outros e dá combustível à antiga discussão quanto à qualidade do premiado cineasta  mexicano como roteirista. Goste-se ou não da superprodução, há unanimidade no tocante ao desempenho extraordinário do australiano, Jacob Nathaniel Elordi,  eleito para viver o monstro, e que encanta com o seu talento, pela forma minimalista com que cuida de  cada postura e cada movimento corporal do gigante, para torná-los verossímeis, assim como as suas falas em tom  cavernoso. Particularmente, entre virtudes e defeitos, gostei do filme. E recomendo aos cinéfilos amantes da arte.

 

Até mais amigos.

 

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

GAVIÕES DA FIEL CAMPEÃ DE 1.995 - COISA BOA É PARA SEMPRE


Boa tarde amigos,

 


Há 31 anos, a escola de samba Gaviões da Fiel completava o seu jubileu de prata. E  ao  descer o Sambódromo do Anhembi em São Paulo, no desfile de escolas de samba do grupo especial de 1995, encantou o público e o Brasil com o samba enredo “Coisa Boa é Para Sempre”, seguramente e até hoje, o melhor samba-enredo do Carnaval de São Paulo, por isso mesmo referendado como um hino antológico. Letra e música irretocáveis, assinada pelo corintiano conhecido como “O Grego”, cujo nome de batismo é Janos Tsukalas, compositor histórico da agremiação,  foi responsável pelo primeiro título da escola na elite do carnaval paulistano. Com todos os ingredientes para falar de seus 25 anos, do amor dos torcedores pelo clube do coração,  de gol, de taça, de luta e dedicação, de fidelidade: /Ai, um brinde/um brinde ao jubileu de prata/convido a massa para comemorar/explode um grito na galera/tem gol de fera, para delirar/.  Para buscar e manter  a capacidade de sonhar, fala da  necessidade   de ser criança e de participar de seu mundo de fantasia, onde moram os  heróis e fadas: /Hoje sou criança/reino encantado de brinquedo e fantasia/na minha lembrança/sonhei dourado e brinquei de poesia. E mais adiante: /Fadas e rainhas, mil heróis na minha história/o que é bom fica na memória/tem pierrô, pierrô arlequim columbina/todo mundo quer sonhar/se enroscar na serpentina.  Finalmente, o ponto alto e arrepiante do samba, para mim reside no convite  ao companheiro ou companheira para o abraço, a busca do céu e do infinito, simbolizado pela viagem do gavião: /“Me dê a mão, me abraça/viaja comigo pro céu/sou gavião, levando a taça/com muito orgulho, pra delírio da fiel./ Vou te levar pro infinito/Vou te beijar do jeito mais bonito/Ai que gostoso amor, ai que saudade/te amo, te amo de verdade. A canção foi composta em 13 dias, dentro dos quais o compositor viajou no tempo, buscando inspiração na memória de sua infância, em que o espetáculos circenses exerceram grande influência, ressaltando a relevância da memória e da eternização dos momentos de alegria e felicidade.   Assim,  a Gaviões, pela primeira vez,  atingindo 293 pontos no julgamento dos jurados, levou o troféu, desbancando as grandes escolas de Sâo Paulo.

 

Até mais amigos.

 

 

 

 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A SAGA-TORTURA DE UM IDOSO NO MUNDO DA DISNEY

 



Boa noite amigos,


Eu batendo um papo com
Walt Disney, que pacien-
temente, ouve as minhas
queixas, sem reclamar.

De repente alguém gritou: “Corre” e pulou do automóvel, sem tempo para qualquer explicação. Desci também, mas não sabia para onde correr, nem por que ou para que. Em seguida recebemos ordem do meu genro para que parássemos uma vez que não ia adiantar toda aquela correria, porque um determinado ônibus já tinha saído. Respirei profundamente, na medida em que meu fôlego permitiu. Até que mereci uma singela explicação: iríamos a um programa num hotel, que consistia em jogar, em equipe, um jogo de  mini-golfe.  Para que não pagássemos mais 40 dólares de estacionamento privado no tal local, deixaríamos o carro onde estávamos, em estacionamento público e gratuito e embarcaríamos, de graça, em um ônibus do tal hotel, que depois nos traria de volta. O corre-corre sugerido, até então, não permitiu saber se fugíamos da polícia de imigração, se corríamos o risco de deportação, etc., etc. Esse é apenas um dos episódios que ilustram a saga-tortura de um idoso no mundo da Disney, atual império trampista. Bem, você sai de férias e a família já programou tudo. Data do embarque e do retorno, cia. aérea, categoria do transporte e local de acomodação. No meu caso específico a nossa casa situada num condomínio em Kissimmee, na grande Orlando. Você só sabe que vai pagar as contas e que deve “dançar conforme a música” e aí embarcar, todo dia, no carro alugado, munido de uma imensa mochila que vai carregar nas costas, para onde os membros da família decidirem ir, e nela hospedando, gradativamente, garrafas de água sua e dos outros, objetos inúteis adquiridos pelo caminho, sacos de pipoca com as que sobraram e não se pode jogar fora, blusas que são levadas porque é provável que à noite possa esfriar, etc. etc. Ah, é bom avisar: esse negócio de preferência de idoso não existe lá. Ninguém deixa você passar na frente, nem levanta para te dar lugar nos coletivos ou restaurantes. E muito menos mijar, quando você está pra lá de Bagdá, mijando nas calças, mas há uma fila disputando os quatro mictórios disponíveis, ou quer fazer o número dois e entra num banheiro que só tem um sanitário grande para deficiente e lá se encontra trancado um filho de puta jovem que fica lendo e respondendo mensagens no celular. Não dá para cagar nos mictórios. Então o remédio é ir rezando para não cagar nas calças. Nas atrações dos parques você é tão maltratado quanto um jovem travesso, com a agravante de que exigem de você a mesma rapidez e reflexo dos mais moços. Em uma das atrações aconteceu o seguinte: Os carrinhos nos quais os turistas se acomodam não param completamente nem para descer no final, nem para subir, no início. Quando passam vagarosamente vazios, você tem que entrar correndo e sentar. Foi o que fizemos, mas eu, por não estar acostumado, estava com a mochila nas costas. Minha filha gritou que a mochila tinha que ser retirada antes de entrar no carrinho e colocada no chão. Antes que eu pudesse tirar a mochila das costas e acomodá-la no chão, desceu sobre nós, automaticamente,  uma trava de ferro. Fiquei sufocado entre a mochila nas costas e a trava na minha barriga me pressionando. Resultado: encolhi ao máximo a barriga e prendi a respiração e assim fiquei por quase três minutos, orando, o tempo que durou o passeio, até que a bendita trava se soltou novamente e pude constatar que estava vivo. Entrar em loja para distrair e olhar as novidades, nem pensar. A família não deixa, porque com esse negócio de mochila nas costas você pode virar e ir derrubando os objetos, alguns caros e frágeis. Então melhor é esperar lá fora, porque vai ser rápido. E nunca é. Nos parques lotados, é comum as pessoas se tocarem ou trombarem, inclusive os americanos. Você (isto é, eu) baixinho e mais velho, levo tranco toda hora e só escuto um sonoro Sorry como consolo. Geralmente se forem latinos (argentinos, colombianos etc.) nem tomam conhecimento e seguem a rota, te ignorando. É foda!![JM1] 


 [JM1]