Boa noite amigos,
Nasci no dia 22 de janeiro do distante
ano de 1.952. Como meus quatro outros irmãos, em casa, com o auxílio de uma
parteira. Parto natural sem obstetra. Diz o meu registro de nascimento
lavrado no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais do Distrito, hoje
extinto pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que isso se deu às duas horas da tarde. Talvez por isso nunca tenha gostado de
acordar cedo. Fui muito desejado. Meus pais queriam um filho do sexo masculino.
Na família já havia duas meninas, Laila e Leny, que nasceram, respectivamente,
em 1.947 e 1.948 e foram contempladas com os nomes de duas cantoras famosas na
época, Laila Cury e Leny Eversong. A terceira gravidez de minha mãe não vingou.
A criança morreu pouco antes de nascer e era também uma menina. Meus pais tinham feito promessa: se viesse menino ele seria batizado em Pirapora de Bom Jesus, cidade santa distante cerca de 166 km. do meu torrão
natal. Nasci em um lugar chamado
Piramboia, que foi município e atualmente é distrito de Anhembi, Estado de São Paulo e se situa ao
pé da serra de Botucatu. Brinco dizendo que quando sou forçado a fazer cadastro
e o atendente pergunta “natural de onde?” e eu digo, Piramboia, ele vai logo replicando:
- E o senhor acha isso natural mesmo?
Piramboia, que dá nome ao lugar, é um peixe pulmonado de água doce da
Amazonia, Bacia do Prata e Pantanal. Possui corpo longo semelhante a uma cobra
e é capaz de respirar fora das águas. O nome da cidade teve origem no fato de que, na região era comum encontrar essa espécie.
O nome da cidade se deu porque na região era comum encontrar a espécie. Trata-se de um peixe comestível e muito apreciado em algumas regiões, pois tem a carne branca, saborosa e, por ter a espinha central (coluna), é considerada muito fácil e prática de comer. O crescimento e importância do lugarejo aconteceu de forma espontânea com a inauguração da estação ferroviária em 1.888. Naquela época o que determinava o progresso ou o estagnação de uma cidade eram as cobiçadas estações de trens. Acontece que a própria estação ferroviária de Piramboia (inaugurada no século XIX) foi substituída em 1952 por outra, construída a quilômetros de distância do núcleo urbano original, o que dificultou o acesso da população e, após o fim dos trens e a privatização das malhas, com o surgimento da FEPASA, a estação ferroviária da extinta Estradas de Ferro Sorocabana, foi demolida e o pátio da estação sofreu com o abandono e hoje acomoda velhos e imprestáveis vagões. Deixei a cidade seis anos depois, em 1.958, vindo com a família para Campinas, de onde não mais saímos. De lá saudosas memórias. Da escolinha local onde uma única professora tinha que dar conta de três séries do chamado “grupo escolar”, hoje primeira, segunda e terceiras séries do ensino fundamental. A professora, aprovada em concurso de carreira, vinha de fora e se alojava na pensão da Lucrécia, único estabelecimento desse gênero existente. E durante o recreio, várias vezes tínhamos que correr de volta para a sala, porque por ali passava “a boiada”. Brincávamos tocando os bois, pela janela, com um pedaço de pau. E as vacas, de vez em quando, cagavam no pátio e essas fezes, depois de secas, eram aproveitadas como esterco para agricultura, fértil nas grandes fazendas que ocupavam a vasta área rural do município. Na pracinha, anunciava-se, com alto falante, o filme que seria exibido no sábado e domingo (não havia sessão durante a semana). As exibições aconteciam num improvisado salão do Bar do Lalo, nosso primo, e cada espectador tinha que levar a própria cadeira. E havia também estórias de fantasmas e de almas do outro mundo que a Dona Tereza contava às crianças que tinham medo do escuro, como eu. A mudança de minha família aconteceu em novembro de 1.958 e, como eu não tinha ainda concluído o ano letivo, fiquei lá na casa de minha Madrinha, Dona Dulce. Na data do exame final fiquei doente, com infecção dentária e, com febre e mal estar, permaneci em casa acamado. Três dias depois a professora foi até a casa para que eu fizesse o meu exame, de forma oral. A última cena de Piramboia que eu retive na memória foi surreal. Eu, sentado na cama defronte a professora, que me sabatinava. Minha madrinha, por sua vez, entrou no quarto se posicionou atrás da distinta. Quando a docente me indagou sobre quanto era 12 mais 12, minha madrinha, com um gesto labial aberto e inequívoco, sem fazer ruído, permitiu que eu lesse claramente, vinte e quatro. Fui aprovado e no inicio das férias vim para Campinas me reunir com o restante da família.
P.S. (1) Pirambóia já foi sede do município de Anhembi entre os anos de 1.934 e 1.948. Hoje é distrito de Anhembi e conta aproximadamente com 1.400 habitantes (o município todo tem pouco menos de 6.000 habitantes;
P.S. (2) Pirapora do Bom Jesus, cidade histórica e religiosa situada na região metropolitana de São Paulo, onde fui batizado há 72 anos, atrai ainda hoje milhares de peregrinos ao seu Santuário. Conhecida também como “Aparecida Paulista” oferece aos turistas sua exuberante beleza natural e passeios com barcos e ecoturismo.
P.S. (3) As imagens que ilustram essa postagem são, respectivamente, da antiga estação de ferro original de Piramboia, construída e inaugurada em 1.888; da piramboia, peixe pulmonado com aspecto de cobra, e, da minha família e meus padrinhos, no meu batizado, em 1.954, em Pirapora do Bem Jesus. Eu sou o menino em pé, ao lado do padrinho, que esta agachado.



