quarta-feira, 27 de maio de 2026

PIRAMBOIA - MEU TORRÃO NATAL.

 


Boa noite amigos, 


Nasci no dia 22 de janeiro do distante ano de 1.952. Como meus quatro outros irmãos, em casa, com o auxílio de uma parteira. Parto natural, evidentemente. Diz o meu registro de nascimento lavrado no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais do Distrito, hoje extinto pelo Tribunal de Justiça de São Paulo,  que isso se deu às duas horas da tarde.  Talvez por isso nunca tenha gostado de acordar cedo. Fui muito desejado. Meus pais queriam um filho do sexo masculino. Na família já havia duas meninas, Laila e Leny, que nasceram, respectivamente, em 1.947 e 1.948 e foram contempladas com os nomes de duas cantoras famosas na época, Laila Cury e Leny Eversong. A terceira gravidez de minha mãe não vingou. A criança morreu pouco antes de nascer e era também uma menina. Eu, portanto, vim ao mundo na quarta gravidez e, por isso, fruto de uma promessa só cumprida dois anos mais tarde. Deveria o menino, se menino nascesse, ser batizado em Pirapora do Bom Jesus, um município distante cerca de 166 km. do meu torrão natal.   Nasci em um lugar chamado Piramboia, que foi município e atualmente é distrito  de Anhembi, Estado de São Paulo e se situa ao pé da serra de Botucatu. Brinco dizendo que quando sou forçado a fazer cadastro e o atendente pergunta “natural de onde?” e eu digo, Piramboia, ele vai logo replicando: - E o senhor acha isso natural mesmo?  Piramboia, que dá nome ao lugar,  é um peixe pulmonado de água doce da Amazonia, Bacia do Prata e Pantanal. Possui corpo longo semelhante a uma cobra e é capaz de respirar fora das águas. O nome da cidade se deu porque na região era comum encontrar esse peixe. Trata-se de um peixe comestível e muito apreciado em algumas regiões, pois tem a carne branca, saborosa e, por ter a espinha central (coluna) é considerada muito fácil e prática de comer. O crescimento e importância do lugarejo aconteceu de forma espontânea com a inauguração da estação ferroviária em 1.888. Naquela época o que determinava o progresso ou o estagnação de uma cidade era a proximidade das estações de trens. Acontece que  a própria estação ferroviária de Piramboia (inaugurada no século XIX) foi substituída em 1952 por outra, construída a quilômetros de distância do núcleo urbano original, o que dificultou o acesso da população e, após o fim dos trens e a  privatização das malhas, a vila ferroviária da extinta Estradas de Ferro Sorocabana,  foi demolida e o pátio da estação sofreu  com o abandono e hoje acomoda velhos e imprestáveis vagões. Deixei a cidade seis anos depois, em 1.958, vindo com a família para Campinas, de onde não mais saímos. De lá saudosas memórias. Da escolinha local onde uma única professora tinha que dar conta de três séries do chamado “grupo escolar”, hoje primeira, segunda e terceiras séries do ensino fundamental, dispostos os alunos de cada série numa das três filas de carteiras. A professora, aprovada em concurso de carreira,  vinha de fora e se alojava na pensão da Lucrécia, único estabelecimento desse gênero existente. E durante o recreio, várias vezes tínhamos que correr de volta para a sala, porque por ali passava “a boiada”. Brincávamos tocando os bois, pela janela, com um pedaço de pau. E as vacas, de vez em quando, cagavam no pátio e essas  fezes, depois de secas, eram aproveitadas como esterco para agricultura, fértil nas grandes fazendas que ocupavam a área rural do município.   Na pracinha popular, anunciava-se, com alto falante, os filmes que seriam exibidos nos finais de semana (não havia sessão durante a semana).  As exibições aconteciam num improvisado salão do Bar do Lalo, nosso primo e cada espectador tinha que levar a própria cadeira, sob pena de ter que assistir ao filme, em pé. E, ainda, das histórias de fantasmas e de almas do outro mundo que a Dona Tereza contava às crianças que tinham medo do escuro, como eu. A mudança de minha família aconteceu em novembro de 1.958 e, como eu não tinha ainda concluído o ano letivo, fiquei lá na casa de minha Madrinha, Dona Dulce. Na data do exame final fiquei doente, com infecção dentária e, com febre e mal estar, permaneci em casa acamado. Três dias depois a professora foi até a casa para que eu fizesse o meu exame, de forma oral. A última cena de Piramboia que eu retive na memória foi surreal. Eu, sentado na cama defronte a professora,  pronta para me sabatinar.   Minha madrinha, por sua vez, entrou no quarto se posicionou atrás da distinta. Quando a docente me indagou sobre quanto era 12 mais 12, minha madrinha com um gesto labial aberto e inequívoco, sem ruído, contudo, permitiu que eu lesse claramente, vinte e quatro. Fui aprovado e no inicio das férias vim para Campinas me reunir com o restante da família.

 Boa noite amigos.

P.S. (1) Pirambóia já foi sede do município de Anhembi entre os anos de 1.934 e 1.948. Hoje é distrito de Anhembi e conta aproximadamente com 1.400 habitantes (o município todo tem pouco menos de 6.000).

P.S. (2)  Pirapora do Bom Jesus, cidade histórica e religiosa situada na região metropolitana de São Paulo, onde fui batizado há 72 anos, atrai ainda hoje milhares de peregrinos ao seu Santuário. Conhecida também como “Aparecida Paulista” oferece aos turistas sua exuberante beleza natural e passeios com barcos e ecoturismo.

 P.S.  (3)  As imagens que ilustram essa postagem são, respectivamente, da antiga estação de ferro original de Piramboia, construída e inaugurada em 1.888 e, do meu batizado em Pirapora do Bem Jesus com minha família e meus padrinhos.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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