sábado, 6 de junho de 2026

CARTOLA - PRECISO ME ENCONTRAR E A HISTÓRIA DO JUIZ E DO INTERDITO

 


Boa noite amigos,  

                                                          Deixe-me ir preciso andar,

                                                            Vou por aí a procurar,

                                                           Rir pra não chorar

                                                          Deixe-me ir

                                                          Preciso andar

                                                         Vou por aí a procurar

                                                         Sorrir pra não chorar.”

                                                         

                                                         (Preciso Me Encontrar - Cartola)       

                                                                

Boa noite amigos,

 

Para o leigo explico previamente que há um processo chamado de interdição, cuja finalidade é declarar um sujeito que não consiga cuidar de sua pessoa ou administrar os seus bens, incapaz.  Com essa declaração o juiz nomeia  um parente ou terceira pessoa idônea, curador do incapaz, devendo esse curador, na sua defesa, atuar legalmente como seu representante. O primeiro ato num processo dessa natureza é o interrogatório do “dito cujo”, em audiência, pelo juiz do processo. Quando o cidadão não pode ir ao Fórum o Magistrado tem que colher o seu depoimento onde ele se encontrar, seja em clínica ou hospital, seja na sua casa. Assim fui eu, quando ainda era Juiz da 5ª. Vara Cível de Campinas, junto com o meu escrevente, com carro próprio, até um bairro afastado, onde supostamente se encontraria o interditando. Para localizar a casa não foi fácil, pois ela se situava numa ladeira, espécie de favela  e os números dos imóveis, quando existiam, não seguiam a ordem crescente ou decrescente, conforme o caso. Chegamos lá, finalmente. Casa humilde, a mãe do rapaz, diante da nossa identificação, pediu que entrássemos. Solicitei a presença do rapaz, a fim de que pudesse interrogá-lo, ato que se destina à verificação, pelo Juiz pessoalmente,  do estado mental do interditando, sua compreensão sobre o mundo e as coisas da vida.  Ela disse que o moço ainda estava deitado e que iria chamá-lo. Depois de muita discussão lá no quartinho, porque ele se recusava a levantar e a se sujeitar ao tal interrogatório,  finalmente levantou, passou por nós e saiu, sem dar atenção aos pedidos insistentes da mãe para que voltasse  e falasse conosco. A genitora, com um sorriso glacial no rosto, explicou que esse filho, desde cedo, dormia muito e, quando levantava, caminhava o dia todo por todo canto e, às vezes,  nem aparecia para as refeições. Ficamos ali por cerca de 40 minutos aguardando, que o jovem eventualmente retornasse. Eis que ele surge de volta, não se sabe se por curiosidade de quem éramos e o que fazíamos aí. A mãe, então, segurou no seu braço direito e tentou nos apresentar, rogando que ele parasse ali porque “o juiz queria e precisava falar com ele”. Ele olhou para mim, olhou para o escrevente que me acompanhava, olhou para a máquina de escrever que portávamos e, em seguida, sem se dirigir nós e sim para a  mãe disse em tom grave e malcriado: - Foda-se! E saiu de novo. Como não havia a menor condição de sucesso no tal interrogatório (nem tentei uma modalidade assim “itinerante” porque não conseguiria acompanhá-lo na dinâmica de sua caminhada frenética e ininterrupta),  deixei o local, registrando no processo que o ato judicial se frustrara e os motivos da frustração da empreitada.  Hoje, mais de 30 anos depois, acordei ouvindo Cartola cantando Preciso Me Encontrar, um samba-canção que fala da busca pelo autoconhecimento e das respostas para as dúvidas de todo ser humano.  E os versos do poeta, clamando por deixar que ele ande, ande sem parar, procurando a alegria, o riso, a busca do sol e da natureza, além de me fazer recordar do rapaz, cujo nome nem me lembro, me transportou para o episódio e seu significado. Suponho que o rapaz já sabia, ou tentava descobrir, caminhando por lugares e objetivos nunca revelados, da inutilidade da maior parte dos anseios e desejos do ser humano. E assim,  ignorando a presença do Juiz e  da autoridade que ele representaria, assim como a finalidade daquele ato burocrático a atitude do rapaz me causou riso, pela maneira espontânea com que mandou que tudo se fodesse, incluindo o objetivo em si, a própria figura do Magistrado e sua autoridade estatal.  E hoje, cá está o velho aposentado da Magistratura, mas não da luta e da vida, por enquanto, mergulhado em reflexões sobre a natureza, a razão e o destino da raça humana,  e na procura interminável da essência da vida. Com vontade, quase incontida, de mandar muita coisa, muita gente e seus conceitos e preconceitos, se foder!

 

P.S. (1) Agenor de Oliveira era o nome de batismo do poeta, compositor, músico e violonista CARTOLA, que só terminou o estudo primário, mas aprendeu violão com o pai. Com dificuldades financeiras,  sua numerosa família foi morar na região onde nascia uma favela no Rio de Janeiro, a Mangueira. Foi trabalhar como servente de pedreiro e por causa de um chapéu coco que usava para se proteger do cimento que caía de cima, ganhou, dos colegas, o apelido de Cartola, com o qual passou a ser conhecido e se imortalizou como um dos mais sensíveis compositores da música popular brasileira;

 P.S. (2) Seus maiores sucessos foram, além de Preciso Me Encontrar, As Rosas Não Falam, o Mundo é um Moinho e Alvorada, quatro preciosidades do nosso cancioneiro.  Das centenas de gravações de suas composições, destaque para a belíssima interpretação de Cazuza para "O Mundo é um Moinho";

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