Boa noite amigos,
“Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar.”
(Preciso Me Encontrar - Cartola)
Boa noite amigos,
Para o leigo explico previamente que há um processo chamado de
interdição, cuja finalidade é declarar um sujeito que não consiga cuidar de sua
pessoa ou administrar os seus bens, incapaz. Com essa declaração o juiz nomeia um parente ou terceira pessoa idônea, curador do incapaz, devendo esse curador, na sua defesa, atuar legalmente como seu representante. O primeiro ato num processo dessa natureza é o interrogatório do
“dito cujo”, em audiência, pelo juiz do processo. Quando o cidadão não pode ir
ao Fórum o Magistrado tem que colher o seu depoimento onde ele
se encontrar, seja em clínica ou hospital, seja na sua casa. Assim fui eu, quando ainda era
Juiz da 5ª. Vara Cível de Campinas, junto com o meu escrevente, com carro
próprio, até um bairro afastado, onde supostamente se encontraria o
interditando. Para localizar a casa não foi fácil, pois ela se situava numa ladeira, espécie de favela e os números dos imóveis, quando existiam, não seguiam a ordem crescente ou decrescente, conforme o caso. Chegamos lá, finalmente. Casa
humilde, a mãe do rapaz, diante da nossa identificação, pediu que entrássemos.
Solicitei a presença do rapaz, a fim de que pudesse interrogá-lo, ato que se
destina à verificação, pelo Juiz pessoalmente, do estado mental do interditando, sua
compreensão sobre o mundo e as coisas da vida. Ela disse que o moço ainda estava deitado e
que iria chamá-lo. Depois de muita discussão lá no quartinho, porque ele se
recusava a levantar e a se sujeitar ao tal interrogatório, finalmente levantou, passou por nós e
saiu, sem dar atenção aos pedidos insistentes da mãe para que voltasse e falasse conosco. A genitora, com um sorriso
glacial no rosto, explicou que esse filho, desde cedo, dormia muito e, quando
levantava, caminhava o dia todo por todo canto e, às vezes, nem aparecia para as refeições. Ficamos ali
por cerca de 40 minutos aguardando, que o jovem eventualmente retornasse. Eis
que ele surge de volta, não se sabe se por curiosidade de quem éramos e o que
fazíamos aí. A mãe, então, segurou no seu braço direito e tentou nos
apresentar, rogando que ele parasse ali porque “o juiz queria e precisava falar
com ele”. Ele olhou para mim, olhou para o escrevente que me acompanhava, olhou
para a máquina de escrever que portávamos e, em seguida, sem se dirigir nós e
sim para a mãe disse em tom grave e malcriado: - Foda-se! E saiu de novo. Como não
havia a menor condição de sucesso no tal interrogatório (nem tentei uma
modalidade assim “itinerante” porque não conseguiria acompanhá-lo na dinâmica
de sua caminhada frenética e ininterrupta), deixei o local, registrando no
processo que o ato judicial se frustrara e os motivos da frustração da empreitada. Hoje, mais de 30 anos depois,
acordei ouvindo Cartola cantando Preciso Me Encontrar, um samba-canção
que fala da busca pelo autoconhecimento e das respostas para as dúvidas de todo ser humano. E os versos do poeta,
clamando por deixar que ele ande, ande sem parar, procurando a alegria, o riso,
a busca do sol e da natureza, além de me fazer recordar do rapaz, cujo nome nem
me lembro, me transportou para o episódio e seu significado. Suponho que o rapaz já sabia, ou tentava descobrir, caminhando
por lugares e objetivos nunca revelados, da inutilidade da maior parte dos anseios e desejos do ser humano. E assim, ignorando a presença do Juiz e da
autoridade que ele representaria, assim como a finalidade daquele ato burocrático a atitude do rapaz me causou riso, pela maneira espontânea com que
mandou que tudo se fodesse, incluindo o objetivo em si, a própria figura do
Magistrado e sua autoridade estatal. E hoje, cá está o velho
aposentado da Magistratura, mas não da luta e da vida, por enquanto, mergulhado
em reflexões sobre a natureza, a razão e o destino da raça humana, e na procura interminável da essência da vida. Com vontade, quase incontida, de mandar muita coisa, muita gente e seus
conceitos e preconceitos, se foder!
P.S. (1) Agenor de Oliveira era o nome de batismo do
poeta, compositor, músico e violonista CARTOLA, que só terminou o estudo
primário, mas aprendeu violão com o pai. Com dificuldades financeiras, sua numerosa
família foi morar na região onde nascia uma favela no Rio de Janeiro, a
Mangueira. Foi trabalhar como servente de pedreiro e por causa de um chapéu
coco que usava para se proteger do cimento que caía de cima, ganhou, dos
colegas, o apelido de Cartola, com o qual passou a ser conhecido e se
imortalizou como um dos mais sensíveis compositores da música popular
brasileira;
P.S. (2) Seus maiores sucessos foram, além de Preciso Me Encontrar, As Rosas Não Falam, o Mundo é um Moinho e Alvorada, quatro preciosidades do nosso cancioneiro. Das centenas de gravações de suas composições, destaque para a belíssima interpretação de Cazuza para "O Mundo é um Moinho";

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