sábado, 12 de setembro de 2026

DRUMOND E A CRISE NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Boa noite amigos,


QUADRILHA. Carlos Drumond de Andrade.

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

 

Caros amigos,

 

No já distante ano de 1.930, o nosso poeta mineiro, Carlos Drumond de Andrade escreveu esse poema, em única estrofe, que se tornou um dos mais conhecidos e invocados dentro de sua vasta Antologia.

Considerado o maior poeta de sua geração (segunda metade do movimento Modernista), suas obras se caracterizam pela  linguagem coloquial  e abandono de regras consagradas, como o uso da rima na poesia.

Segundo estudiosos do poeta, o poema fala dos encontros e desencontros que permeiam a vida humana e das dificuldades de encontrar e concretizar o amor.

Não sem razão a única personagem que se casou foi Lili, justamente aquela que não amava ninguém. e teria sido por suposto e mero interesse financeiro, tanto assim que o marido é citado com o prenome abreviado, em circunstância que sugere tratar-se de uma empresa de sociedade mercantil, uma metáfora para destacar o móvel da união matrimonial.

Pensei nesses versos durante a semana, que bem podem ser adaptados ou parodiados, para descrever a crise que assola o Supremo Tribunal Federal, com embates recíprocos e acusações de parcialidades e decisões políticas, diante da revelação do conteúdo de inquérito da polícia federal, envolvendo a aproximação de Ministros, ou participação direta ou indireta no escândalo do caso Master, o maior e mais vigoroso golpe financeiro da história do Brasil, pela abrangência das consequências danosas ao Erário Público, aos particulares de todas as classes sociais e a já combalida economia do país.

Há muito que as condutas de alguns Ministros vêm ofendendo preceitos constitucionais e o estado republicano, além de normas legais e morais, com interpretações livres e distorcidas, em proveito próprio ou de alguns privilegiados poderosos, o que é inconcebível e que agora surge de forma escancarada nas investigações supostamente  apolíticas da Polícia Federal, Coaf, Receita Federal, Banco Central, etc.

A sobreposição de decisões monocráticas recentes, ignorando o princípio do juízo natural constitucional , com afronta à competência definida na Carta Magna e no regimento do próprio Supremo, causam a um só tempo, desconfiança e perplexidade, desgastando a instituição perante outras instituições públicas e privadas e a própria população, num racha que se agora se agrava em vésperas de eleição para a Presidência da República e o Congresso.

Então, vamos lá à paródia:

Fux que não gosta de Moraes[1], que não gosta do Mendonça[2], que também não gosta de Moraes, que não gosta de Nunes Marques, que não gosta do Dino[3],  que gosta do Facchin[4], que não gosta do Toffoli[5], que gosta do Zanin[6], que gosta da Carmen Lúcia[7], que não gosta do Gilmar Mendes[8], que não gosta de ninguém.

Uma coisa é certa: A opinião pública e a sociedade abalizada não aceitará sessão fechada e muito menos que o julgamento seja adiado, com a estratégia muito comum entre ministros, de pedido de vista, sobretudo do Ministro Gilmar Mendes, que, segundo a imprensa, já teria procurado o Presidente da Corte, sugerindo o adiamento da sessão, cuja pauta supõe-se seja apenas para autorizar ou não o aprofundamento das investigações em relação ao todo-poderoso Ministro Alexandre de Moraes.

A conferir!

Bom final de semana, amigos.



[1]   Votou pela absolvição de Bolsonaro, embora tenha votado  pela condenação de outros réus em iguais circunstâncias;

[2]  Que, na qualidade de Relator do Caso Master abriu o sigilo das investigações da Polícia Federal que registram ligações  e contatos do banqueiro Vorcaro com o Ministro Alexandre de Moraes;

[3] Que não gostou de notícia da mídia envolvendo o uso de automóvel público por familiares, sugerindo a investigação  do jornalista e de sua fonte, o que foi determinado pelo Ministro Alexandre de Moraes, provocando protestos de diversos juristas e mídias, pela quebra da garantia constitucional de sigilo da fonte e, sem ter competência, fundado porém em prevenção com processo já findo, mandou reintegrar o Diretor da Polícia Federal, afastado por Mendonça;

[4] Correligionários do Partido dos Trabalhadores e de Lula, mantiveram-se afinados com as respectivas decisões.

[5]  Em cuja presidência determinou-se a instauração, de ofício, do chamado inquérito das fakes News, cujo objeto foi ampliado e que continua aberto 7 anos depois de deflagrado, dentro do qual Alexandre de Moraes, relator, inseriu o Ministro André Mendonça numa evidente retaliação à conduta deste; também renunciou à relatoria do caso Master, quando veio à tona transação entre o grupo Master e pessoa jurídica de que o Ministro era sócio.

[6]  Zanin, também indicado pelo Presidente Lula, de quem foi advogado e que se alia ao grupo favorável à linha de Moraes e dos demais ministros simpáticos à esquerda;

[7] Hoje única mulher no Supremo Tribunal Federal tem endossado os votos de Alexandre no Plenário, mas que me parece inconformada com as revelações das investigações, o que faz supor, em nome da própria honestidade e imparcialidade, que tem apregoado publicamente em defesa própria,  de voto independente na reunião de terça feira próxima, com tendência para autorizar as investigações contra Moraes.

[8] Sagaz e teoricamente preparado, com trânsito livre entre os Poderes, tem adotado postura inequívoca de corporativismo inabalável na defesa de suas decisões e de seus colegas, mas criticado duramente por aceitar esdrúxula prevenção com processo extinto, para neutralizar decisões do Relator do caso Master e do INSS, o Ministro André Mendonça.

sábado, 5 de setembro de 2026

MONÓLOGO - MANDE NOTÍCIAS DO MUNDO DE LÁ.

 

              

Bom dia amigos,

PRIMEIRO ASSUNTO.

Estamos de volta, depois de um pequeno jejum de postagens, fruto. parte da falta de tempo, parte da falta de inspiração e do “saco cheio” de notícias iguais e banais,  que inundam  os jornais e as redes sociais, com o incremento das propagandas políticas em véspera de eleição. Mas vida que segue e é preciso recuperar a capacidade de transformar fatos e comentários,  em humor. Bem, acabo de assistir num programa matinal da TV Globo, uma entrevista com a atriz Arlete Salles. A famosa artista nordestina, de voz grave e inconfundível, no pleno vigor de seus 88 anos, está em cartaz num teatro do Rio de Janeiro,  com a peça “Mande notícias do Mundo de Lá.”.  O título é extraído dos primeiros versos do clássico Encontros e Despedidas  de Milton Nascimento, imortalizado na voz e interpretação da cantora Maria Rita: /Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica/ me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando/ Coisa que gosto é poder partir sem ter planos/ melhor ainda é poder voltar quando quero/ O mundo do lado de lá da canção certamente é o que fica do outro lado da linha do trem (o trem que chega é o mesmo trem da partida), mas o da peça, que é um monólogo desafiador, se refere ao outro lado da vida. A peça se passa inteiramente durante o velório da melhor amiga da protagonista e se concentra nas dúvidas, no sofrimento, nas perdas e nas expectativas de nós, seres humanos, durante a velhice, e o desafio dos mistérios insondáveis que nos assaltam diante da proximidade ou iminência da morte. Mas segundo Arlete não se pense que se trata de um puro drama, porquanto intercala realismo e humor, trazendo junto a empatia e o envolvimento da plateia, numa interação que alimenta tanto a atriz, quanto o público, extasiado com a qualidade do texto de Carlos Jardim e a entrega da atriz. Acredito que vale a pena ver a peça.

SEGUNDO ASSUNTO. 

Enquanto cumpro a tarefa de arrumar a cama (parte das atividades domésticas que me cabe atualmente e, ainda, porque a patroa caiu e está em recuperação de um hematoma no braço direito) peço a Alexa que toque músicas. Às vezes, solicito cantor e canção específica;   outras, apenas indico o gênero. E vou variando, porque ouvi e apreciei, durante toda minha vida, música popular brasileira, samba e bossa-nova, numa variação um tanto quanto restrita.  Hoje dei uma colher de chá para o sertanejo universitário. E dá-lhe Roberta Miranda, Marília Mendonça, Daniel, Leonardo, e as múltiplas duplas como  Fernando e Sorocaba, Mayara e Maraísa, Henrique e Juliano, Bruno e Marrone, Jorge e Mateus, e por aí afora. Tenho, porém,  um protesto a fazer. As letras e enredos das canções sertanejas de agora,  se repetem demasiadamente e se concentram quase sempre nas possibilidades e prazeres da juventude: ser bom ou mau de cama; quem paga o motel; quem traiu quem; se beija bem ou beija mal,  e por aí vai. Como todas essas possibilidades já não fazem parte do rol dos anciões, como eu, mudei de estação e de tempo. Pedi Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Chico, Caetano. Mas nem tudo é impossível. Outro dia eu achei um fio de cabelo no meu paletó. E lembrei do Fio de Cabelo, da badalada dupla,  Chitãozinho e Xororó. Mas para meu desencanto não era de nenhuma musa do passado. Era um bendito pelo do gato da minha filha.

 

Até mais amigos e bom final de semana prolongado.

Salve a República e o Supremo Tribunal Federal!