Bom dia amigos,
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A dama da nossa dramaturgia Fernanda Mon- tenegro vivendo a Eunice Paiva nos últimos dias de vida. |
“AINDA ESTOU AQUI” (2.024), o primeiro longa nacional[1] a ganhar uma estatueta do Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro, já foi objeto de relevantes críticas nacionais e estrangeiras, em todas as mídias hoje disponíveis e não tenho a pretensão, nem conhecimento técnico, para acrescentar algo a tudo quanto foi dito. Só no dia de ontem consegui assistir a essa obra prima do cinema nacional, no Globoplay, e confesso que me emocionei com toda a atmosfera criada pelo elenco talentoso, dos chamados “anos de chumbo”, nos quais o povo brasileiro foi atemorizado pela ditadura militar e as atrocidades de muitos de seus representantes. Destaque, é claro, pela atuação magistral das Fernandas: 1) a TORRES, na pele de Eunice Paiva, em torno da qual se desenrola toda a trama e o drama das buscas incessantes pelo marido, o advogado e deputado federal, Rubens Paiva (SELTON MELLO), e pelos indícios e provas de que ele teria sido preso, torturado e desaparecido nas dependências do DOI-CODI, por supostas ligações com guerrilheiros e ativistas contestadores do regime; 2 – a MONTENEGRO, na glória de seus 95 anos, com participação especial de poucos minutos, retratando essa mesma Eunice, no final da vida, tomada pelas consequências e efeitos do mal de Alzheimer. Contrastando com os movimentos e os ruídos rápidos e ensurdecedores dos filmes americanos de ação e aventura, vale destacar a preciosidade dos momentos pausados em cenas de curtos ou longos silêncios, mediante os quais as atrizes pretenderam (e conseguiram com rara e louvável talento), tocar as emoções dos espectadores, nas trilhas dos grandes clássicos do cinema europeu dos anos 60, 70 e 80. Trata-se do fenômeno conhecido como a “eloquência do silêncio”. É esse sentimento ou emoção que senti no fundo do peito especialmente (mas não exclusivamente) na cena em que a Fernanda Montenegro, a Eunice do final da vida, aparece ouvindo e vendo pela TV, notícias sobre os crimes cometidos pelo regime da ditadura militar que ficaram encobertos e impunes, incluindo o assassinato de seu marido. Sem pronunciar uma palavra, sentada numa cadeira de rodas, a sua expressão suscita no espectador uma imensa curiosidade do que se passa na mente e nas emoções (se emoções restarem) de uma pessoa tomada pela demência, na fase mais aguda e final da patologia, ao se transportar para momentos impactantes de sua própria vivência e trajetória. É de arrepiar! Não vi ainda os longas que competiram na mesma categoria ao Oscar conquistado pelo nosso pouco prestigiado cinema nacional sobre os adversários para opinar sobre a justiça ou injustiça da escolha. Só sei que “AINDA ESTOU AQUI” superou para mim todas as expectativas e se eterniza como um clássico definitivo e antológico do cinema brasileiro de todos os tempos, ao lado de outros como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964, Glauber Rocha, Cinema Novo), Central do Brasil (1.998, Walter Salles) e Cidade de Deus (2002, Fernando Meirelles). Imperdível!
Bom feriado amigos.
[1] Orfeu
Negro, rodado no Brasil, em português e com elenco brasileiro, disputou e
ganhou um Oscar, em 1.959, como produção da França, sem menção ao nosso país
(vide postagem neste blog de 16 de fevereiro de 2021 denominada “Orfeu Negro –
Cadê o Oscar que estava aqui?).

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