quinta-feira, 8 de maio de 2014

FUTEBOL - A SEGUNDA BOLA E A CONVOCAÇÃO DA SELEÇÃO BRASILEIRA

Boa noite amigos,


° Na vasta linguagem própria do futebol, você certamente já ouviu falar em “segunda bola”. – O Flamengo precisa tentar ganhar a segunda bola, afirma um comentarista.  – Orientei meus jogadores para ficarem atentos à segunda bola, declara o  técnico. Bem, no futebol, em regra a expressão “segunda bola” se refere ao rebote, a bola que vem do adversário entre a intermediária e a zona de arremate a gol.  Assim, geralmente quando uma equipe está jogando na retranca (defesa), rebatendo a bola que chega próxima de sua área, e essa  bola cai no meio de campo invariavelmente no pé de um  jogador adversário, diz-se que o time que está no ataque está ganhando “a segunda bola”. Consequentemente a rebatedora está perdendo essa “segunda bola” e, assim, se vê sufocada pela ação de “abafa” do adversário. Ganhar a segunda bola é, pois,  fundamental para o contra-ataque, nessa contingência.  Em outra acepção, também se diz “segunda bola” quando um atleta passa a bola para um companheiro e corre para recebê-la novamente em posição mais adiantada.  – Neymar tocou e se apresentou para a “segunda bola”, por exemplo.

° O futebol no país e no mundo passa necessariamente, neste ano de 2.014, pela Copa do Mundo, o principal e mais importante evento da FIFA. Há pouco mais de 1 mês de início do torneio, o técnico brasileiro Luiz Felipe Scolari, o Felipão, polarizou  a atenção de milhões de brasileiros, de especialistas do mundo inteiro e da mídia em geral,  nesta segunda-feira, ao anunciar os convocados, cuja tarefa histórica será a de levar o país à conquista do sexto título mundial de futebol.  A lista teve pouca surpresas e raras discordâncias. Pelé lamentou a não convocação de Kaká e de Robinho. O respeitado jornalista Juca Kfouri não viu fundamento para a convocação do quarto-zagueiro Henrique; queria Miranda. Mas, como se disse, aqui e acolá, com alguns bairrismos, a base foi aprovada. Agora, como disse o chefe, é torcer por esses aí. Essa é a seleção oficial que deverá ser prestigiada por todos os brasileiros;

°  Concordo com o ex-jogador e comentarista Caio Ribeiro, da TV Globo, quando considera que a conquista da Copa das Confederações pelo grupo que, na ocasião,  foi chamado por Scolari, especialmente com o bom comportamento técnico e tático da equipe na histórica vitória sobre a Espanha, foi fundamental para traçar a base da seleção e até mesmo do esquema tático que deverá ser adotado, quando tiver pela frente, grandes e tradicionais adversários como a Alemanha, a Argentina e a própria Espanha. Daí a pouca contestação sobre os convocados. Se esse mesmo grupo vai conseguir o mesmo sucesso é outra história. Agora restar apenas esperar e torcer;

° Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Robinho e Lucas foram chamados por Felipão e não produziram o que deles se esperava, nem se encaixaram no esquema pretendido pelo treinador. Também não os convocaria. Os três primeiros são craques com passagens bem sucedidas pela Seleção Brasileira. Mas agora é notório o declínio técnico e físico por que passam, até por força da idade. Já Lucas é um menino em quem se apostava, mas que está em má fase e não correspondeu à expectativa que se depositou sobre ele.  Certamente ainda terá chances no futuro se voltar a jogar com espírito coletivo e amadurecer em alguns fundamentos indispensáveis hoje ao futebol.


° Em visita ao Brasil, o ex-atleta português Luis Figo, de 41 anos,e que já ganhou prêmio de melhor jogador do ano pela FIFA,  declarou que o sucesso ou fracasso da Seleção de seu país na Copa do Rio,  dependerá  do desempenho de Cristiano Ronaldo. Foram suas palavras à imprensa que cobria a visita: “Temos a esperança de que é possível chegar á final se o Cristiano fizer uma grande Copa”.  Já para o técnico Paulo Bento, CR7 não tem que carregar a seleção, embora se saiba de sua qualidade indiscutível. Afinal, que seleção poderia dispensar o concurso de um jogador simplesmente espetacular, o melhor do mundo no momento, que faz jogadas e gols de todas as maneiras e é praticamente impossível de ser marcado ou anulado? É claro que o que se pretendeu afirmar é que o resto da equipe está muito aquém da qualidade do atacante. Isso também não é novidade. Por isso – e só por isso – a seleção portuguesa não é favorita ao título na Copa do Rio;

°  A goleada (4 a 0) que o Real Madrid, a melhor equipe do mundo no momento, com um Cristiano Ronaldo impossível, vivendo a melhor fase de sua carreira, impôs ao Bayer na Arena Allianz, em Munique,  no segundo jogo de uma das semifinais da Liga dos Campeões ainda repercute na imprensa de todo o mundo. O largo placar surgiu a partir da necessidade do time da casa se impor, partindo para o ataque por ter perdido a primeira partida em Madri, na semana anterior, pelo contagem mínima. E jogar no contra-ataque, em velocidade, era tudo o que o técnico Carlo Ancelotti queria. Foi assim que o placar impiedoso foi sendo construído. Agora, a final é espanhola e será  disputada em Lisboa. Real Madrid e Atlético de Madrid, rivais  da capital espanhola se enfrentarão pela primeira vez na história da Liga européia. Também é a primeira vez que duas equipes do mesmo país fazem a final.

° O Brasil jogou na Copa das Confederações, em especial na final contra a Espanha, do mesmo jeito. Marcou sob pressão, não deu espaço para os talentosos meias e atacantes da seleção galega, ganhou a segunda bola e de posse da pelota partiu em rápidos contra-ataques com Oscar, Neymar e  Cia.

Até mais amigos.

P.S. (1) A caricatura (primeira imagem da coluna) foi emprestada do site amarildocharge.wordpress.com. A segunda imagem é de Cristiano Ronaldo, o craque do Real Madri e da Seleção Portuguesa,o melhor jogador do mundo pela FIFA e foi emprestada de caixapretafc.wordpress.com;

P.S. (2) A terceira e última imagem é do meia Luis Figo, um dos mais importantes jogadores portugueses de todos os tempos. Jogou de 1.989 a 2.009, quando se aposentou, após 20 anos de atividades.  Foi jogador do Real Madrid e do Barcelona, duas equipes de maior rivalidade no futebol espanhol, na Seleção Portuguesa e em grandes clubes portugueses e europeus. Em 2001 foi eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA. A imagem foi emprestada de avidaeumpalco.com



domingo, 4 de maio de 2014

CAUSO - DESEMBARGADOR ACAMADO


Amigos, boa noite,

Segue aí, na coluna de hoje, mais um "causo" extraído do meu livro "Causas & Causos" I, publicado pela Editora Millenium.


"Já tive mulheres de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, com umas até certo tempo fiquei, pra outras apenas um pouco me dei” (Toninho Geraes).


  "Austero, sem ser grosseiro ou deseducado, o Desembargador Tobias não era efetivamente um tipo com o qual se pudesse supor algum tipo de intimidade ou brincadeira.

Em regra, honesto e cumpridor de seus deveres, como todo cidadão neste mundão de Deus, tinha lá  as suas fraquezas.

Sem rodeios e mais especificamente, o certo é que o Desembargador não resistia a um “rabo de saia”, sobretudo se esse “rabo de saia” envolvesse uma bela bunda, de uma bela dona.

Todo mundo sabia dessa fraqueza do Tobias no Tribunal, pelo menos no meio social e profissional que ele atuava e frequentava, mas ninguém ousava fazer qualquer comentário a respeito do assunto.

Fato é que, certa vez, o advogado Henrique, colega de turma do Tobias, interpôs um agravo de Instrumento que foi distribuído à Câmara do Desembargador e a ele, especificamente, como Relator.

Como o caso era de urgência, havia pedido de suspensão do ato judicial, pedido esse que o relator haveria de apreciar.

O Doutor Henrique não se fez de rogado e, sabendo que o recurso tinha sido distribuído ao Desembargador Tobias, foi ao Tribunal procurá-lo logo no começo da tarde.

A escrevente do Gabinete gentilmente tratou de atendê-lo, com o máximo de atenção.

-  Estou procurando o Doutor Tobias porque tem um agravo distribuído a ele desde ontem e há urgência na apreciação, pois pretendo suspender a eficácia do ato judicial agravado, salientou.

- Olha, doutor, responde a escrevente educadamente, o Desembargador infelizmente está acamado.
                                          

                                             - Acamado?!!!

                                             - Sim, reafirmou a servidora, desde ontem.

                                               O Doutor Henrique, entre irritado e incrédulo, disparou:

                                                 - Com quem?

                                                E sem esperar resposta saiu da sala, ante o olhar estupefato da escrevente e de dois outros assessores.

                                                Passada a surpresa, certo é que a história correu o Tribunal, e o Desembargador jamais perdoou a ironia do colega de turma.

                                                  Por via das dúvidas e em homenagem à clareza e precisão, o Desembargador proibiu a escrevente e os assessores, a partir daquele dia, de usar a expressão “acamado” em qualquer de suas acepções, notadamente ao se referir ao seu eventual estado de saúde."

Até  mais.

P.S. (1) A caricatura acima corresponde à ilustração de autoria do artista lusitano,  Nuno Saraiva, vencedora do Prêmio Stuart de Imprensa em Lisboa, Portugal, edição de 2.010, com o seguinte título "A Literatura Portuguesa é  má na cama?  



terça-feira, 29 de abril de 2014

BLUE JASMINE DE WOOD ALLEN

Boa noite amigos,


Depois das homenagens prestadas a Paris (Meia-Noite em Paris- 2.011) e Roma (À Roma com Amor – 2.012), o que foi considerada a  fase européia de sua carreira, o ator, diretor, músico e roteirista Wood Allen volta às origens, desta vez escrevendo e dirigindo a comédia dramática americana Blue Jasmine (2.013), que tem como palcos as cidades de Nova York e São Francisco.  Com orçamento de 18 milhões de dólares e uma arrecadação que já supera a casa dos 80 milhões de dólares, o longa de 98 minutos, tem de mais significativa a interpretação exuberante da protagonista, a australiana,  Cate Blanchett, no papel de Jeanette (Jasmine) Francis (imagem da coluna emprestada de dialpforpopcom.blogspot.com),  com o qual bateu concorrentes de peso  ao levar o Oscar de Melhor Atriz, circunstância que, ao lado da fama do diretor, foram os indicativos mais precisos para a curiosidade dos espectadores e o sucesso de bilheteria. A crítica também foi bastante favorável (5 estrelas do New York Times e The Guardian, 4 do O Globo e do crítico Rubens Ewald, 3 da Folha de São Paulo, ficou com uma bela média de 3,8 entre 23 especialistas de imprensa). No Brasil o longa não está em muitas salas atualmente, foi visto no cinema por menos de 500.000 espectadores (um número expressivo por não ser  Wood Allen considerado popular por aqui),   e já pode ser visto em vídeo ou mediante aquisição ao canal Now, que foi a minha opção de fim de semana. No roteiro,  a história de duas irmãs adotadas, que seguem caminhos diferentes. Jeanette (Jasmine) vive em Nova York, onde se casa com o empresário milionário Harold Francis (Alec Baldwin) e passa a ter uma vida de socialite, com muitos recursos, badalações e requinte, enquanto a irmã Ginger (Sally Haw Kiss), separada do marido, leva uma vida simples e apertada em São Francisco. Jasmine contudo vê seu casamento ruir, o marido ser preso e ela, agora pobre,  tem que recomeçar a vida, pedindo o auxílio da irmã que tanto renegou, o que lhe causa profundo desconforto. O recurso muito utilizado por Allen de alternar o presente com flashes do passado (flash back) também está presente no longa e garante uma boa dinâmica de alternância. Experimente! Um drama com um roteiro simples, mas muito longe de ser superficial, na medida em que mergulha com realismo na profundeza dos sentimentos humanos e é valorizado, como se disse, pela ótima interpretação dos atores.


Até amanhã amigos. 

P.S. (1) Cate Blanchett, de 44 anos,  é atriz e diretora teatral. Na sua filmografia destacam-se os papéis da Rainha Elizabeth em Elizabeth A Era de Ouro (2006) e da atriz Katherine Hepburn em  O Aviador (2004),  de Martin Scorcese,  pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.  Esteve também presente na trilogia O Senhor dos Anéis (A Sociedade do Anel, As Duas Torres  e o Retrato do Rei).



MEMÓRIAS DA INFÂNCIA - A CARTILHA "CAMINHO SUAVE

Boa noite amigos,

Há alguns meses, visitando um dos sebos do centro da cidade, me deparei com uma cartilha: Caminho Suave. Ao contrário das obras de segunda mão, a tal cartilha estava ali sendo oferecida à venda, em primeira mão. Havia muitos exemplares e a edição era de 2.011, com a observação de que era renovada, ampliada e atualizada com o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.  Indaguei do atendente a respeito de se tratar eventualmente  da consagrada cartilha adotada  para alfabetização durante mais de 50 anos, mas já proscrita do ensino público,  pelo MEC, em razão de  suposta superação do método adotado por sua autora, a professora primária Branca Alves de Lima (1911-2001). A resposta positiva me encheu de emoção. Transportei-me para o ano de 1.958, quando eu, aos 6 anos de idade, fui admitido no 1º ano do chamado “grupo escolar”, hoje correspondente à 1ª. série do ensino fundamental. Morava em Pirambóia, minha pequenina terra natal situada ao pé da serra de Botucatu. A única escola existente era pública e de características rurais, ou seja, havia apenas uma sala com três fileiras de carteiras acomodando os poucos alunos. Cada uma das fileiras correspondia a uma série (eram apenas os três primeiros anos do grupo escolar que eram oferecidos e depois disso só saindo da cidade acaso se pretendesse continuar os estudos) e a dedicada professora tinha que dar conta do recado, ou seja, dar aulas, ao mesmo tempo, para alunos das três séries, cumprindo programas diferentes. Enquanto passava lição para uns, explicava o ponto para outros e haja acrobacia, paciência e disposição. Minha irmã cursava já o 3º ano e a professora pedia que ela abrisse um armário que ficava nos fundos da sala de aula e de lá retirasse o cartaz correspondente ao ponto que ela daria ao pessoal do primeiro ano. Isso religiosamente todos os dias letivos.  Seguíamos rigorosamente o método e o esquema da cartilha Caminho Suave, que preconizava a chamada alfabetização pela imagem (“a” a partir de abelha, “b” de barriga, “c” de cachorro, e assim por diante). A professora  afixava num pedestal de madeira, um cartaz colorido e ampliado com o mesmo desenho do livro: Uma beleza. Minha irmã, então, sabendo de minha curiosidade pelos desenhos, não só apanhava no armário o desenho do dia, como às vezes me mostrava, de lá mesmo, os próximos cartazes com as figuras do livro, agigantadas, para meu delírio. No ano seguinte mudamos para Campinas e fui estudar num colégio  estadual próximo de minha casa, num outro esquema, agora de cidade grande. O tempo passou. Jamais esqueci aquela escola, os meus colegas, os recreios que a gente apreciava no pátio, isso quando não passava a boiada ( circunstância comum que nos obrigava a correr para dentro da sala de aula, fechando a porta (pra mor das vacas não entrá e cagá lá dentro). Nem daquela professorinha dedicada, que vinha de fora e morava na Pensão da Lucrécia (única, aliás),  e que às vezes tomava chá da tarde na minha casa. E principalmente jamais esqueci a minha cartilha de alfabetização pela imagem: a minha querida Caminho Suave, de “p” de pato, “r” de rato, “s” de sapo, “v” de vaca e outros bichos ilustrados. Bem, comprei o exemplar, com prazer e nostalgia. E o folheando em casa, com calma, tive uma ideia. Vou dá-lo de presente ao Rafael, meu neto de um ano e oito meses como uma relíquia e, convenhamos, um instrumento de auxílio no seu processo de alfabetização. Isso se não for impedido ou desaconselhado de fazê-lo pela ditadura dos moços ou a arrogância de algum pedagogo metido à besta.

Até amanhã amigos.

P.S. (1)  A obra didática referida, uma cartilha,  teve a sua primeira edição no ano de 1.948 e até meados da década de 1.990 foi referência em alfabetização. Nesse intervalo de quase 50 anos, foram vendidos 40 milhões de exemplares, um fenômeno editorial. Mesmo fora do catálogo do Ministério da educação desde 1.995, a cartilha vende cerca de 10 mil exemplares por ano;
P.S. (2) Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, a autora Branca Alves de Lima (falecida em 2.001), relatou que foi observando a dificuldade de seus alunos, a maioria vindo  da zona rural, que ela criou o método batizado de alfabetização por imagem, unindo o chamado método analítico, ao sintético, o que facilitaria o aprendizado;
P.S. (3)  A cartilha vem acompanhada de instrumentos ou ferramentas de apoio, como carimbos e os cartazes. aos quais me referi no texto acima;
P.S. (4)  Caminho Suave e Cartilha Sodré (de Benedita Stahl Sodré), são os únicos métodos considerados pelos especialistas em pedagogia como realmente brasileiros. O método da Caminho Suave começa pelo estudo das vogais, forma encontros vocálicos e depois parte para a silabação;
 P.S. (5) A imagem da coluna é da capa da cartilha reeditada em 2.011 e foi emprestada de www.livrariacultura.com.br; informações constantes da postagem de hoje foram complementadas com consulta ao site www.wikipédia.com.br



domingo, 27 de abril de 2014

HISTÓRIA DA MPB - ERNESTO E O SAMBA DO ARNESTO

Amigos,

“Samba do Arnesto”, um dos famosos sambas do paulista nascido em Valinhos, Adoniran Barbosa, é um personagem inspirado num parceiro de mocidade do compositor. Em verdade, a figura não se chamava “Arnesto”, mas "Ernesto".  Ernesto Paulella, embora sempre mantendo o sonho de ser advogado (o que lhe valeu, entre os amigos, o apelido de Acadêmico), só  se formou aos 60 anos e advogou durante mais de 30. Morreu este ano, no dia 26 de fevereiro, aos 99 anos, mas desde 2007, por causa de um acidente vascular cerebral, estava afastado, recebendo auxílio da Carteira dos Advogados de São Paulo (CAASP).  O Dr. Ernesto, em longa reportagem que concedeu ao Jornal do Advogado em 2011, falou de sua amizade com o compositor, das histórias que ambos construíram desde os tempos da boemia e de como nasceu o Samba do Arnesto. Confidenciou que a troca do “E” pelo “A” (Arnesto em vez de Ernesto), foi proposital para manter “o estilo único do compositor”  e, mais, que a história é fictícia, segundo ele “fruto da mente fértil e prodigiosa do compositor”,  pois embora tenha morado no Brás, nunca convidou Adoniran, nem qualquer outro colega de bar “prum samba” na casa dele. Decididamente garante que não cometeu a falta (nós fumu e não encontremo ninguém...),  e não mereceu a bronca que se tornou famosa: “ Você podia ter deixado um recado na porta.....”.

Tchau amigos,

P.S. (1) Grande parte das composições que se tornaram ontológicas na música popular brasileira são inspiradas em personagens e passagens reais. Em outras os personagens são reais, mas as histórias fictícias, como essa do Arnesto, digo, Ernesto. A verdade é que muitos dos personagens anônimos de famosos compositores, acabam ganhando notoriedade pelo sucesso das canções, como é o caso de Helô Pinheiro, que inspirou “Garota de Ipanema”, uma das músicas brasileiras mais executadas no mundo inteiro e que teve versões em vários idiomas;

P.S. (2) Minha amiga, a Desembargadora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,  Ligia Bisogni assegura que teria sido a musa inspiradora da composição “Lígia” do saudoso maestro Antonio Carlos Jobim, a quem foi apresentada em certa ocasião,  embora não tenha tido qualquer relação ou envolvimento com Tom.

P.S. (3)  As imagens da coluna de hoje são, respectivamente: 1) do advogado inspirador do Samba do Arnesto, Dr. Ernesto Paulella emprestada do site www.otempo.com.br; 2) da amiga e Desembargadora Lígia Araújo Bisogni, emprestada de www.youtube.com, e 3) da garota de Ipanema, Helô Pinheiro na época em que inspirou a famosa composição de Tom e Vinícius (www.sitesnobrasil.com).







quarta-feira, 23 de abril de 2014

LITERATURA - A MORTE E A IMPORTÂNCIA DA OBRA DE GABRIEL GARCIA MARQUEZ

“Sem propor a si mesmo, sem nem saber, demonstrou com sua vida a razão que tinha o pai, que repetiu até o último suspiro que não havia ninguém com mais sentido prático, nem pedreiros mais obstinados nem gerentes mais lúcidos e perigosos do que os poetas” (O amor nos tempos do cólera)

Caros amigos,

Um amor  capaz de subsistir no tempo e de provocar as mesmas emoções quando o destino reencontra o casal no limiar da terceira idade e os corpos já não ostentam o frescor da mocidade, a beleza das linhas estéticas bem definidas e os hormônios já não transbordam pelos poros. Assim foi o romance de Florentino e Firmina que, verdadeiro e não sopitado pelo tempo, vai se realizar numa viagem que acontece somente  51 anos, 9 meses e 4 dias depois da troca do primeiro olhar. Foi assim que me apaixonei por Gabriel Garcia Marquez. Não pelo Gabriel de Cem Anos de Solidão, considerada a mais expressiva obra do autor colombiano morto recentemente, mas pelo escritor do Amor nos Tempos do Cólera, um romance definitivo na definição de meu gosto literário que teve os primeiros contornos na idade madura  e que  hoje  encontra-se razoavelmente consolidado. Com uma incrível capacidade de traduzir sentimentos e emoções do mais expressivo lirismo num cenário hostil típico da América Latina, com as suas eternas questões políticas, sociais e culturais, o romance é, sem favor algum, um dos mais importantes clássicos da literatura universal. A par disso, Gabriel foi um grande intelectual, um grande pensador, um filósofo, um sociólogo, um  político cujas penas souberam, como poucos, retratar a América Latina e seus problemas. A comunidade em geral, de todas as partes do mundo, está de luto e lamenta a morte do autor, aos 87 anos. Pelo conjunto de sua importante obra foi contemplado com o Premio Nobel de Literatura de 1.982 e segundo o nosso escritor Luis Fernando Veríssimo, a obra de Garcia fez o mundo mudar sua visão sobre a América Latina, o que definitivamente não é pouco.
Até amanhã amigos,

P.S. (1) Alguns pensamentos preciosos do escritor: 1)   Nenhuma Medicina cura o que a felicidade não pode curar; 2) Não acredito em Deus, mas tenho medo Dele; 3)  A Sabedoria é algo que quando nos bate à porta já não nos serve para nada; 4)  O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança;  5) Todo ser humano tem três vidas: a pública,a privada e a secreta; 6) Não chore porque acabou, sorria porque aconteceu; 7) Não é verdade que as pessoas param de buscar seus sonhos porque envelhecem. Elas envelhecem porque param de buscar seus sonhos; 8) Tudo é questão de despertar sua alma; 9)  Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a este artifício conseguimos suportar o passado. 10) Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza;

P.S. (2) Experimente esta: “No dia em que a merda tiver algum valor, os pobres nascerão sem cu”. Você achou, como eu, que essa frase deve ter sido proferida pelo Costinha ou pela Dercy Gonçalves, consagrados e desbocados comediantes brasileiros já falecidos. Errou. Quem construiu esse pensamento foi o intelectual Gabriel Garcia Marquez.

P.S. (3) Memórias de Minhas Putas Tristes foi o último romance escrito por Gabriel Garcia Marquez, antes de declarar que deixaria de escrever. Em 2.012, confirmando que ele estava senil, seu irmão declarou encerrada a carreira de escritor do consagrado poeta que vendeu  mais de 40 milhões de livros em todo o mundo.

P.S. (3) A imagem de hoje, do autor, foi emprestada de www.portalohoje.com.br ;



segunda-feira, 21 de abril de 2014

A MORTE DE JOSÉ WILKER, A BUNDA DE VADINHO E A BANANA PARA A CENSURA

Caros amigos,


Estava no Aeroporto de Guarulhos quando fiquei sabendo, por minha filha e pelo telefone, da morte inesperada do ator José Wilker.  Dias antes vi o artista se apresentar no programa Vídeo Show da Rede Globo e ele me pareceu perfeitamente bem disposto e cheio de novos projetos. Fiquei sabendo depois que o coração, “que tem razões que a própria razão desconhece”, como garante o compositor, decidiu parar de madrugada, durante o sono profundo e levar o nosso Wilker para outra galáxia. Viajei naquele dia e só retornei oito dias depois de uma viagem  a Barbados, no Caribe, onde fiquei sem Internet e telefone. Não acompanhei as notícias dos funerais e a repercussão do falecimento. Por certo deve ter sido grande, pois na sua vida artística terrena José Wilker teve grande importância e se pode dizer que era um dos mais relevantes e talentosos atores de sua geração, que, por sinal, é também a minha. Não foi apenas ator. Foi diretor,  narrador, apresentador e crítico de cinema. Quando lembro do artista, me transporto sempre para o dia 03 de janeiro de 1.977. Era o aniversário de meu casamento. O segundo aniversário. E por coincidência, o sétimo  aniversário de matrimônio de minha irmã mais velha, que se casara no mesmo dia e mês, cinco anos antes.  Pois resolvemos combinar, os dois casais, um programa para comemorar a ocasião. Fomos à sessão noturna do saudoso Cine Voga, que ficava na esquina da rua General Osório com a rua Irmã Serafina, no centro de Campinas. O cinema exibia um filme brasileiro, Dona Flor e Seus Dois Maridos, uma película de Bruno Barreto, com roteiro adaptado da obra do mesmo nome de Jorge Amado. Os protagonistas eram de peso. No papel de Dona Flor, a morena  Sônia Braga, com seus cabelos negros longos que desciam pelo corpo escultural sobre a pele jambo. E os dois maridos eram interpretados pelo ótimo Mauro Mendonça (o 2º), como o farmacêutico Teodoro Madureira,  e pelo jovem ator José Wilker, no papel do debochado Vadinho (o 1º,  que já tinha morrido,  mas gostava de aparecer para a viúva e com ela relembrar as relações quentes do casal). Ótimo filme, excelente roteiro adaptado, interpretações primorosas. Inesquecível. É por isso que até recentemente era o filme brasileiro de maior público em todos os tempos, mais de 10.000 espectadores. Só perde ainda hoje pelo segundo Tropa de Elite, um outro clássico do cinema nacional. O mais importante foi reservado, porém, para o final. Na última cena a platéia toda se surpreendeu. Aparecia Dona Flor caminhando por uma das ruas do Pelourinho,  com seu marido Teodoro, e no meio do dois, quem? O Vadinho, na pele do Wilker, pelado, peladinho, com a “bundinha” branca magrela todinha de fora. E olha que estávamos em 1.977. Em plena ditadura militar que gostava de censurar tudo o que podia, em nome da família, da tradição e da propriedade, um trio hipócrita que serviu para convencer a classe média conservadora de que era preciso derrubar Jango e a ameaça de comunismo que ele representava. A “bundinha” branca do Wilker foi assim uma bandeira para o pessoal da nossa geração. Com ela dávamos uma banana para os ditadores que cerceavam a nossa liberdade, nela incluída a liberdade artística, tão indispensável. Saímos do cinema e fomos a um charmoso restaurante que já não existe mais: o Armorial, que ficava ali, logo ali, do outro lado da rua General Osório e que servia pratos incríveis, preparados pelo “Chef  Frances” e que se podia degustar ao som do piano de Arnaud, um músico que fez história também na cidade e que eu não sei se ainda está vivo. Um programa perfeito para os dois casais na aurora de seus casamentos e de suas vidas. Acompanhei, sempre com muito interesse, depois disso, a carreira prodigiosa do jovem Wilker, que gostava muito de cinema, entendia da sétima arte como ninguém e era um dos comentaristas da premiação do Oscar americano pela  sua emissora e pelos canais fechados Brasil e GloboNews.  Wilker também teve uma participação de peso num outro  excelente filme nacional, Bye Bye Brasil, considerado pela crítica como o mais importante da década de 70. Fez mais de trinta novelas e minisséries pela Rede Globo, valendo destacar, dentre outros, o seu papel de Roque Santeiro, na novela do mesmo nome, de Dias Gomes, que foi censurada e só apresentada mais de 10 anos depois. Ganhou fama como o mafioso Giovanni Improtta, na novela Senhora do Destino, que em 2.013 virou filme. Um grande artista, uma grande perda para as artes cênicas brasileiras e para os seus amantes. E para mim, por razões históricas, também a inesquecível bundinha branca, que emprestamos do Wilker e que foi uma espécie de triunfo sobre a opressão de uma ditadura que deixou marcas profundas na nossa geração. Respeitosamente!

Até breve amigos.

P.S. (1) José Wilker participou de 68 filmes, desde 1.965 quando apareceu, em papel secundário e sem que lhe dessem sequer crédito, no filme A Falecida, baseada em peça de Nelson Rodrigues. Dentre os longas, podem ser destacados, além de Dona Flor e Bye Bye Brasil, Os Inconfidentes (1971), Xica da Silva (1976), Jango (1984), Dias Melhores Virão (1.989),
Pequeno Dicionário Amoroso (1.996), Guerra de Canudos (1.997), O Homem do Ano (2.003) e Casa da Mãe Joana (2.008) e Casa da Mãe Joana 2 (2.013);

P.S. (2) As imagens da coluna de hoje são: 1) de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1.976) emprestada de veja.abril.com.br,  2) de  Bye Bye Brasil (1.979), de www.yotube.com; 3) de Giovanni Improtta, emprestada de joaoevocespaceblog.com.br.