quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O HOMEM COMUM E O HUMANISMO SECULAR

Boa noite amigos,

                         1.  Outro dia na Império, a novelinha atual das oito  da Globo, que começa às 9,15, e quando tem horário político, às 15 para as 10, a filha do personagem José Pedro (vivido pelo ator Alexandre Nero),  um nordestino que veio para São Paulo sem lenço, nem documento, e que se tornou, por força de algumas coincidências do destino, um dos mais famosos comerciantes de diamantes do Brasil, pergunta ao pai, diante da afirmação dele que  tem projeto de se tornar mais rico e poderoso  à frente da empresa de jóias,  se ele já não se sente suficientemente rico e poderoso. Em resposta o empresário afirma que esse objetivo visa apenas distraí-lo, fazendo-o esquecer que  vai morrer como um homem comum.  E remata: - Não acho certo, não acho justo ter que morrer, não me conformo  de ter que morrer como um homem comum. 


                             2. É isso, pensei. Realmente, os homens têm dificuldade em aceitar a condição humana que os submete a um viver temporal comum a todos da mesma espécie (o tempo, o envelhecimento, a morte).   Ser apenas comum.  Unicamente um exemplar temporal de uma espécie, dentre as milhões de espécies do reino animal existentes no universo e na história da humanidade, e que um dia qualquer vai desaparecer, sem deixar pistas,  é uma possibilidade que assusta cada um de nós e desconstrói todos os sonhos e o mito de uma vida espiritual, para além da morte, onde seríamos nós, para sempre, relevantes. Mas, afinal,  não é também uma possibilidade?

                            3.  Na minha infância e juventude ouvi muitas explicações a respeito da importância da religião e da crença na existência de uma vida eterna. Garantiam alguns que a crença em Deus, na espiritualidade, na possibilidade de uma vida eterna no Reino dos Céus, destinada a compensar as agruras de uma vida terrena que poderia ser pobre, sofrida e injusta seria fundamental para o equilíbrio na vida social. Logo, a existência das religiões e a profecia que elas, a seu modo, oferecem ao povo, aos que vivem de fé e esperança, consistiria, no passado e para sempre, a garantia de uma moral objetiva calcada em valores, na prática do bem em detrimento do mal. Será? Sem a fé e o credo no merecido paraíso, os homens deixariam prevalecer os seus instintos e muitos se dedicariam ao mal, à pratica de crimes, sem compaixão, cientes de que teriam que ter o que mais pudessem, nessa única vida apenas, sem volta. O que me intrigava é que o mito da Justiça Divina e do Reino dos Céus servia  para manter o conformismo de milhões de homens submetidos às mais cruéis e desumanas condições de existência. Ora, para servir a própria religião e aqueles que dela se utilizavam de forma mercantilista e odiosa, ora, em nome e na defesa da Nação, do Estado, da moral, do patrão, da família, do raio que o parta.

                            4. - Sempre achei uma sacanagem aquela história de que, até a última hora, nós eternamente pecadores, poderíamos nos arrepender de tudo o que fizemos de errado nessa vida, lá no finzinho dela,  que Deus nos concederia o perdão incondicional. Sem nem uma passadinha rápida pelo purgatório.  Mas vá que a gente morra sem dar tempo do arrependimento eficaz, sem dar tempo do padre ou o pastor chegar para ouvir a nossa confissão e nos conceder o perdão, em  nome de Deus. Aí, negão, primários ou não iríamos arder no fogo do inferno para o resto da eternidade. Resto? E eternidade tem resto?

                          5.  Não se trata de fazer apologia do ateísmo ou do agnosticismo, nem de criticar a posição de quem quer que acredite ou professe qualquer crença, seita ou religião.  Minha natureza liberal e de respeito à diversidade, me impediria, como me impede, tal.  O que deixo claro é que acredito meus amigos, na existência e validade de um humanismo laico ou secular, não inspirado no divino ou no transcendental, preconizado por homens que,  com talento, sensibilidade e obras magníficas, disseminam o bem e os valores de um humanismo verdadeiramente voltado para a solidariedade e a justiça social. Esses seres acreditam que o compromisso de uma vida inteira voltada para o bem e as obras sociais, é um objetivo que justifica, compensa e satisfaz, por si só, tornando feliz e plena a vida de um homem.  Como diz a  canção popular: A  gente leva da vida, a vida que a gente leva.

Até amanhã amigos,


P.S. (1)  O humanismo secular ou laico é uma postura filosófica que abraça a razão humana, a ética, a justiça social e o naturalismo filosófico, rejeitando o dogma religioso, sobrenatural, pseudociência ou superstição como a base da moralidade e de tomada de decisões. Ele postula que os seres humanos são capazes de ser éticos sem religião ou sem um deus. Fundamental para o conceito de humanismo secular é o ponto de vista fortemente defendido de que a ideologia, seja ela religiosa ou política, tem de ser cuidadosamente examinada por cada indivíduo e não simplesmente aceita ou rejeitada na fé. Junto com isso, uma parte essencial do humanismo secular é uma busca contínua da verdade, principalmente através da ciência e da filosofia.


P.S. (2)  Alguns humanistas seculares notórios apontados pela organização não governamental norte-americana Council for Secular Humanism e outras fontes: Voltaire, David Hume, John Lennon, Frank Zappa, Sam Harris, Bertrand Russel, Richard Dawkins, Andrei Sakharov, Jeremy Bentham, Steve Allen;

P.S. (3) No Brasil  são apontados,  o médico Drauzio Varella e Herbert de Souza, o Betinho.

P.S. (4) A imagem da coluna de hoje (do meu celular) é da Estátua da Liberdade, não a original que se acha em Nova York, mas a sua imponente réplica levantada em um hotel de Las Vegas, que visitei recentemente e aqui ilustra o pensamento da coluna de hoje, ou seja, da beleza da liberdade conferida a cada ser humano de conduzir a sua vida e a sua fé, ou falta de fé, à sua própria maneira e deliberação.



sábado, 27 de setembro de 2014

TURISMO - EEUU. CALIFORNIA E LAS VEGAS.

Boa noite companheiros do blog,

1) Depois de quase um mês de férias, retorno à coluna para dividir com os amigos um pouco do que vi e senti na viagem cujo roteiro começou em San Francisco, seguiu pelo oeste da Califórnia, às margens do belo Oceano Pacífico, com Monterrey e Carmel, depois Santa Bárbara,  Los Angeles, San Diego e terminou na mágica Las Vegas, no Estado de Nevada, com os seus cassinos e hotéis que reproduzem os pontos mais conhecidos do planeta. Às vezes, confesso, tenho preguiça enorme de viajar para o exterior. E um pouco de receio também. Acho que essas duas coisas (preguiça e medo) inconfessáveis é que levaram o imortal Nelson Rodrigues à hipócrita afirmação: “Nunca viajo porque a partir do Méier sinto saudade do Brasil.”, ou ao exagero do comentário xenofóbico, segundo o qual, a “Europa é uma burrice aparelhada de museus”. De qualquer maneira depois que entro no avião tento relaxar, afastar os maus pensamentos e encarar a viagem com muito bom humor. E mesmo naquelas coisas repetitivas ou de mau gosto, gosto de reiterar com os meus botões aquela frase genial de Albert Einstein: “Há duas maneiras de viver a vida. Uma é como se nada fosse um milagre. A outra é como se tudo fosse um milagre”. Pensando bem, agora me ocorreu que esse pensamento deve ter sido, ainda que inconscientemente, a gênese de outro mais conhecido de autoria do poeta lusitano Fernando Pessoa, e que todo mundo gosta de enfatizar em discursos políticos ou de formatura: “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Por isso acredito que não seja uma má companhia para os meus parceiros de viagem, pois temos repetido algumas duplas de casais ao longo da vida, sem grandes queixas, de lado a lado.

2) O Estado da Califórnia é um dos destinos mais procurados dos Estados Unidos por imigrantes e turistas americanos e do resto do mundo, incluindo nós, brasileiros. Penso que a explicação seja simples: o Estado concentra grande diversidade de raças que ali convivem, de forma respeitosa e democrática.  Tem também: o Charme de San Francisco, considerada a mais européia das cidades americanas, com muito de sua arquitetura no estilo vitoriano e sua Golden Gates, uma das obras de engenharia mais belas do mundo moderno; a Costa Oeste e suas paisagens à beira do gelado e mágico Oceano Pacífico; a lendária Los Angeles, sede de Hollywood,  do elegante Beverly Hills e do tapete vermelho do Oscar, mais calçada da fama e museus. A isso se acresça um pulo até  Las Vegas, em Nevada, para garantir beleza, arte e divertimento.  E tudo termina perfeito, se nada de extraordinário acontecer.

3) Saímos de Campinas para o Aeroporto de Guarulhos em São Paulo, no dia 31 de agosto, sob o impacto da notícia do terremoto que abalara, dias atrás, a cidade de Napa, a 105 km. de San Francisco, a maior produtora de vinhos estadunidense. Alguns amigos tentaram nos animar, dizendo que nada demais estava previsto para ocorrer na região. Outros, garantiam, no entanto,  que era muito provável que outros abalos sísmicos, ainda que menores, acontecessem,  justamente por força do terremoto anterior. Era ir ou ficar. Fomos instruídos e confiantes. Não aconteceu nada que nos colocasse em risco. Por isso em homenagem a esse vazio histórico, postei uma imagem de uma inscrição de muito humor, colocada na entrada de uma das lojas do bairro mexicano de San Diego, ressaltando exatamente esse “nada”: “On This Site in 1897 Nothing happened”.Traduzindo:"Neste local, em 1897, nada aconteceu". Muito espirituoso, sem dúvida.

4) Algumas notas importantes e mínimas sobre o país será sempre muito útil para quem viaja e não sabe bem o que encontrar. Os Estados Unidos da América são (usar sempre no plural) uma república constitucional federal composta por cinquenta Estados e um distrito federal da capital (Washington). O país possui 9,37 milhões de quilômetros quadrados de área e cerca de 310 milhões de habitantes. A maior parte de seu território situa-se na região central da América do Norte, entre o Oceano Pacífico e o Oceano Atlântico. Mas os Estados do Alasca e do Havaí ficam distantes do resto do país. O primeiro faz fronteira com o Canadá ao norte e com a Rússia a Oeste. E o segundo é um arquipélago no Pacífico Central distante 3.300 quilômetros do ponto mais próximo dos demais Estados americanos.  Anote-se também que o país possui vários territórios no Caribe, é o quarto maior em área total e o terceiro em população. Sua moeda, forte, cujo câmbio movimenta toda a economia mundial, é o dólar americano;

5) Aspecto de realce para quem gosta de pluralismo é o fato dos Estados Unidos serem uma das nações mais multiculturais e etnicamente diversas do mundo, produto de forte imigração vinda de outros países. Sua geografia é igualmente diversificada, com desertos, planícies, florestas e montanhas;

6) San Francisco é uma das mais bonitas cidades da Califórnia e de todo os Estados Unidos. Sua temperatura, agradável pela proximidade com o Pacífico e a Bacia que leva o mesmo nome, flutua entre 14 a 21 graus. Tem uma população de aproximadamente 810.000 pessoas, mas é um dos núcleos mais procurados pelos turistas, justamente pelo clima ameno, verões frescos, colinas íngrimes, mistura eclética entre arquitetura e marcos  históricos. Dentre as dicas para visitar na cidade estão: a) a Ponte Golden Gatem, b) o bairro chinês (Chinatow) e c)  os bondes de tração que ainda circulam, muito mais como atração turística e memória do glorioso passado do que como forma eficiente de opção de transporte coletivo;

7) A Era Vitoriana foi o período no qual a Rainha Vitória reinou sobre a Inglaterra, no século XIX, de junho de 1.837 a janeiro de 1.901. Essa época foi importante na história inglesa por ter sido marcada por um grande desenvolvimento econômico e industrial do país, além de muitas conquistas coloniais;


8)   Há quem sustente  que a arquitetura vitoriana não é em si um estilo de arquitetura, mas um termo que engloba vários estilos arquitetônicos, caracterizando-se pela recuperação de muitos estilos antigos, incluindo gótico, românico, clássico, folclórico e uma mistura entre eles e os elisabetano e jacobino (pt.wikinoticia.com).            

9) Na primeira imagem da coluna de hoje uma perspectiva da cidade de San Francisco com sua exuberante arquitetura vitoriana; na segunda, foto da Ponte Golden Gatem, uma de suas mais importantes atrações; na terceira, a placa posta em loja satirizando a importância que os americanos dão aos fatos e acontecimentos por menos relevantes que possam ser.

Nos próximos dias vamos continuar falando de San Francisco.

Até amanhã amigos.




sábado, 23 de agosto de 2014

FORNEIRO PARILLA BRASILEIRA - OUTRO BOM "STEAK HOUSE" NO CAMBUÍ

Boa noite amigos,

Inaugurado há aproximadamente 9 meses, aqui em Campinas, na Rua Emilio Ribas, no nosso charmoso bairro do Cambuí, sem dúvida o maior centro gastronômico da cidade, o restaurante Forneiro Parilla Brasileira (imagem n. 3 da coluna) já vem recebendo muitos elogios, mostrando desempenho especial como “Steak House” e Restaurante. Seu site www.forneiro.com.br tem sido muito visitado e há comentários altamente positivos em grande número nas redes sociais. Todos os que li são realmente positivos (a média das avaliações ficou em 4,5, bastante próximo à perfeição de um conceito 5,0),  destacando-se a excelente qualidade de seus produtos, o bom atendimento, a suficiência e simpatia de suas acomodações e a relação custo-benefício acentuada (os preços são muito bons pela qualidade e requinte dos produtos e do atendimento). O almoço, que é servido de 2ª. a 6ª. feira,  pelo que me disseram ontem, tem sido muito concorrido em função do cardápio especial executivo, que sai por menos do que R$30,00, afora bebida. No jantar, às sextas e sábados, uma boa surpresa: Música ao vivo com o pianista campineiro Antonio Carlos Aprile (o Toninho Aprile), apresentando o seu vasto repertório que vai do Jazz à Música Popular Brasileira nos seus multifacetados estilos. Ontem, a casa contou também com a presença de um violinista que,  solo ou em dueto com o pianista, brindou os clientes da casa com clássicos da música universal. Um detalhe importante é que em nenhum momento o som melodioso e agradável dos instrumentos se sobrepôs às conversas desencadeadas nas mesas ou aos diálogos entre fregueses e garçons, o que permitiu o gozo do duplo prazer de desfrutar dos “papos” com os amigos e parentes e o de ouvir as melodias que agraciavam os ouvidos, oferecendo um tom especial e mágico ao encontro. Perfeito no meu modo de entender. Bem, voltando ao menu, a minha sugestão para a entrada são os Provoletes servidos quentinhos e o torresmo, bem sequinho. Se preferir um prato mais suave e refrescante,  peça o Tomate Paizzá, um tomate caqui com mussarela de búfala, manjericão e molho da casa (cf. imagem n. 1 da coluna emprestada de www.forneiro.com.br). Dentre os grelhados há os tradicionais (filet mignon, picanha, maminha etc.) e os da linha Grelhados Premium, carnes de corte argentino e uruguaio, como o Bife de Chorizo e  Ancho, de 350 g. Por sugestão do garçon, provei o Bom Bom, que é um selecionado corte de baby beef, de 440 g., servido em 2 medalhões, o suficiente para duas pessoas. Meu pessoal também elogiou o Ojo de Bife (cf. imagem n. 2, abaixo, emprestada de www.tripadvisor.com.br,  muito saboroso, pois se trata do “olho” do contra-filet). Na linha dos pescados, há grelhados de abadejos, salmão e linguado. Um dos que chama a atenção é o Linguado com amêndoas, realmente um prato requintado para os apreciadores dos pescados. Todos os pratos são servidos com o molho da casa (molho chimichurri). Os Grelhados Premium incluem dois acompanhamentos, a escolher, entre farofa especial, cebola assada, batata forneiro, purê de mandioquinha e arroz piamontese ou forneiro. Uma boa indicação, sem dúvida, para os paladares exigentes de gente que gosta de se divertir, comer e beber bem, em ambiente aconchegante e relaxante, sem ser explorado. Também dou nota 4,5.

Até mais amigos,


P.S. (1)  Lembram-se do João de Barro, aquele pássaro que tem sido cantado em prosa e verso e que se destaca pelas suas qualidades de construtor de ninhos e fidelidade às namoradas. Pois bem, o nome científico dele é furnarius  rufis, ou forneiro, exatamente porque constrói seus ninhos de barro em forma de forno. É encontrado no Brasil, no Paraguai, no Uruguai, na Bolívia e na Argentina, onde recebeu a consagração máxima  ao ser escolhido como a  “ave nacional”. Pois o  forneiro, nome do restaurante, homenageia exatamente o nosso popular João de Barro;


P.S. (2) O  Fornero Parilla Brasileira fica na rua Emílio Ribas, n. 1.510, Cambuí, Campinas, e as reservas podem ser feitas pelo fone (19) 2517 3737;

P.S. (3) O pianista e professor Antonio Carlos Aprile pode ser  contatado pelo site toninhoaprile@hotmail.com e contratado para vários tipos de eventos como almoço musical, casamentos, happy hour, piano bar (noite) e ainda para ministrar aulas para iniciantes. Tem metodologia própria para crianças. Seu endereço: Av. Francisco Glicério, 600, apto. 105;

P.S. (4) O restaurante oferece razoável carta de vinho, aperitivos e chopp de duas marcas, Heineken e Xingu (300 ml). Se preferir cerveja em garrafa o freguês pode escolher entre a boa e consagrada Original, a Serra Malte, a veterana Brahma e a Heineker. Em long neck, destacam-se a encorpada Cerpa, a Brahma Extra, a Stela Artois, que já caiu no gosto dos brasileiros, e a Amstel;

P.S. (5) Se você, depois de uma bela entrada e do prato principal, alguns copos de chopp ou de cerveja, ou ainda de um vinho tinto encorpado para acompanhar esses grelhados magníficos, tiver disposição para a sobremesa, há coisas tradicionais e outras interessantes: ao lado do consagrado Tiramissu, do Browne ou de um creme de papaia, para os mais “lights”,  a casa oferece a Panacota de Limão Siciliano (um pudim com caldas de frutas vermelhas) e deliciosos sorvetes. Sou vidrado em sorvete com calda de frutas vermelhas, sempre minha escolha natural, mesmo no inverno.



domingo, 10 de agosto de 2014

VIDA DE ESTAGIÁRIO

Bom dia amigos,
(......) O "Estagiário" de qualquer área prática do conhecimento humano,  por causa da necessidade de “por a mão na massa, sem conhecer suficientemente os ingredientes e, muitas vezes o resultado esperado daquela atuação”, tem protagonizado - ou sido o autor presumido – de uma série de situações de desencontro.  A sua condição de jejuno ou principiante, aquela vontade, em regra,  de fazer tudo certo, melhorar a autoestima e receber aprovação quanto à conduta adotada, o coloca em condição manifesta de vulnerabilidade diante da Chefia e, sobretudo, dos demais profissionais veteranos que trabalham na empresa (loucos para tirar um sarro ou por a culpa no “dito cujo”). Fato é que já se generalizou a máxima segundo a qual “estagiário só faz merda”. Lá no escritório, o meu mais “recente” antigo estagiário, que agora virou advogado e continua ali, desfrutando, porém, de outra condição profissional, sempre ouviu o “sábio” conselho (segundo meu Juízo) de que “a culpa é sempre do estagiário” e qualquer controvérsia a respeito está  fora de cogitação. Brincadeiras que rendem histórias e mais histórias, causas ganhas e perdidas. E causos. Muitos....

(.......) Daniel Blikstein é advogado atuante, Professor da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e atualmente Presidente da Sub-Seção de Campinas, da Ordem dos Advogados do Brasil. O  “causo” que transcrevo abaixo e  que está no meu livro “Causas e Causos”  (o primeiro, de 2006), é verdadeiro, ele próprio me contou e aconteceu no saudoso tempo de sua vida de estagiário. Vai lá:

 (.......) “VIDA DE ESTAGIÁRIO


Vida de estagiário de Direito não é fácil.

Conta nosso amigo Daniel, companheiro de docência da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, a gafe que ele cometeu nos primeiros dias de seu primeiro estágio.

Incumbido pelo chefe do jurídico da empresa, de verificar o andamento de certo processo no foro central de São Paulo, para lá se dirigiu.

E já no cartório:

- O processo está aguardando o retorno do mandado de citação, disse o funcionário, indagado a respeito dos autos.

 -  E onde está o mandado de citação, arrisca o inseguro estagiário, fingindo conhecimento.

 - Está com o senhor meirinho.

 -  Onde eu posso encontrá-lo?

 -  Na sala 427, 4° andar, sala dos Oficiais de Justiça.

Para lá então caminhou o Daniel.

A sala 427, em verdade, era um imenso salão, povoado por homens e mulheres (tudo em São Paulo é imenso, o que aumenta a sensação do tamanho de nossa ignorância).

Delicadamente, pedindo licença, o Daniel indaga de uma pessoa próxima:

 -  Por favor, o senhor meirinho está?

  - Qual deles?

Taí uma coisa que o Daniel não sabia informar.

O Oficial, então, solicitou que ele retornasse ao Cartório, a fim de esclarecer com quem efetivamente deveria falar, qual meirinho era o responsável pelo cumprimento do mandado.

O Daniel foi.

Mas no caminho, pensou inconformado:

 -   Porra, ia eu lá adivinhar que tinha mais de um nego com um nome lazarento desse!”;


(........) O gaúcho Allan Sieber é um ótimo  animador, cartunista, ilustrador e quadrinista. Uma de suas tiras, que eram publicadas no jornal A Folha de São Paulo retratava exatamente a situação e condição do Estagiário. Denominada “Vida de Estagiário”, em 2.007, o conjunto de sua obra virou livro. A imagem n. 1 da coluna de hoje é de uma de suas tiras e foi emprestada de blogdosquadrinhos. blog.uol;

(....) O ator e diretor canadense  Shawn Levy (A Pantera Cor de Rosa; Uma Noite no Museu 1, 2 e 3; Doze é Demais),  com um roteiro nem tanto original, conseguiu realizar um bom filme, contando a história de dois amigos quarentões, Billy (Vince Vaughn) e Nick (Owen Wilson) que, inesperadamente ficam desempregados, justamente por causa do mundo digital (trabalhavam numa fábrica de relógios mas o dono encerra o negócio, alegando que as novas gerações não usam nem precisam de relógio, pois a hora é conferida em celulares e outros equipamentos do gênero).  Resolvem, então, apostar, sem entender nada do assunto, nos desafios da informática. Conseguem para tanto um estágio na empresa Google, onde passam a competir com jovens, mas experimentados “nerds”, de grande talento.  O longa The Internship, cujo título no Brasil é  Os Estagiários, de 2.013, é um bom filme, que fez e ainda faz promissora carreira.

Até breve amigos.



sábado, 26 de julho de 2014

DANO MORAL POR RICOCHETE

Boa noite amigos,

A consideração de que o princípio da dignidade da pessoa humana é, na verdade, na esfera de nossa Constituição Federal de 1.988, um dos fundamentos da própria República Federativa do Brasil (art. 1° III), tem provocado verdadeira revolução na doutrina e na jurisprudência conservadoras, no campo da responsabilidade civil. Um dos aspectos que ilustram essa conclusão é o reconhecimento, de algum tempo para cá, da possibilidade de extensão de indenizações por danos morais, além daquela conferida à vítima direta, também  àqueles que, indiretamente, se sintam atingidos pelo efeito  reflexo do ato ilícito praticado pelo agente. A doutrina francesa, reconhecendo a possibilidade de reflexo do ato danoso também no patrimônio moral de terceiros, passou a admitir o que nominou de dano “par ricochet”, ou seja, o que, derivado do mesmo ato do ofensor, atinge, reflexamente, pessoas que mantém, com a ofendida, estreita relação de afetividade. Tanto na Justiça Comum, como na Justiça do Trabalho, que passou a ter competência para julgar ações que derivem da relação de trabalho, mesmo quando propostas não pelo empregado, mas por outras pessoas de sua família ou rol de amizade, há inúmeros precedentes importantes, nesse sentido. O Superior Tribunal de Justiça, confirmando decisão de Tribunal Estadual, manteve a condenação do patrão a compensar mulher e filho de empregado, vitimado por acidente do trabalho, observando que:  “no caso em apreço, não pairam dúvidas que a esposa e o filho foram moralmente abalados com o acidente que vitimou seu esposo e pai, atualmente sobrevivendo em estado vegetativo, preso em uma cama, devendo se alimentar por sonda, respirando por traqueostomia e em estado permanente de tetraplegia, sendo que  “a esposa jamais poderá dividir com o marido as vicissitudes da vida cotidiana de seu filho, ou a relação marital que se esvazia, ou ainda, o filho que não será levado pelo pai ao colégio, ao jogo de futebol, ou até mesmo a colar as figurinhas da Copa do Mundo.” E o Ministro Relator, referindo-se  a inúmeras situações que devem merecer compensação pelo dano moral, assim prosseguiu: “Dessa forma, não cabe a este Relator ficar enumerando as milhões de razões que atestam as perdas irreparáveis que sofreram essas pessoas (esposa e filho), podendo qualquer um que já perdeu um ente querido escolher suas razões, todas poderosamente dolorosas; o julgamento de situações como esta não deve ficar preso a conceitos jurídicos ou pré-compreensões processuais mas levar em conta a realidade das coisas e o peso da natureza da adversidade suportada” (Agravo Regimental em Recurso Especial n. 1212322-SP 2010/0166978-7). Ainda recentemente, o Tribunal Regional do Trabalho da 15ª. Região, sediado aqui em  Campinas, deferiu pleito do marido de empregada que sofreu acidente do trabalho, em virtude do qual experimentou lesão estética considerável, conferindo indenização a ele, independentemente daquela devida à mulher, vítima direta. Há também precedentes beneficiando cônjuge de empregado que sofre assédio moral ou sexual no trabalho; de marido de empregada que foi acusada da prática de furto; de cônjuge e filho de empregada que sofreu revista corporal abusiva, etc.. Note-se que, segundo esses julgados, para reclamar indenização ou compensação, a pessoa não precisa ser cônjuge, companheiro ou filha dependente do ofendido, bastando que possa demonstrar a existência de relação de afeto capaz de fazer presumir o sofrimento com o ato ilícito praticado.  A diferença consistirá apenas no ônus da prova, pois enquanto os parentes próximos não precisam demonstrar o dano moral ou o sofrimento, no caso sempre presumido, pessoa que não mantenha essa relação com o ofendido, deverá, se contestado o vínculo de afinidade, fazer a comprovação desse elo excepcional. São avanços compreensíveis e desejáveis da jurisprudência que, no entanto, deve sempre estar atenta a cada caso concreto para verificar se não  há abuso e se existe razoabilidade e fundamento para atendimento desses pleitos.

Até amanhã amigos.

P.S. (1) Esclarece  o jurista Yussef Said Cahali, em sua obra DANO MORAL, Editora RT,  que “embora o dano deva ser direto, tendo como titulares da ação aqueles que sofrem, de frente, os reflexos danosos, acolhe-se também o dano derivado ou reflexo “le dommage par ricochet”, de que são os titulares que sofrem, por consequência, aqueles efeitos, como no caso de dano moral sofrido pelo filho diante da morte de seus genitores e vice-versa”;

P.S. (2) Alguns precedentes do STJ admitindo a compensação do dano moral reflexo ou por ricochete: REsp. 1.041.715/ES, Rel. Min. MASSAMI UYEDA, DJe 13/06/2008; AgRg no AREsp. 104.925/SP, Rel. Min. MARCO BUZZI, DJU  26/06/2012; e AgRg no Ag 1.413.481/RJ, Rel. Min. RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, DJe 19/03/2012;


P.S. (3) A imagem caricatural da coluna de hoje foi emprestada de www.concurseirosligadosnotrt.com.


terça-feira, 22 de julho de 2014

BOA SORTE! COMEÇA O 6º PAULÍNIA FILM FESTIVAL.

Boa noite amigos,

Começa hoje, com cerimônia de abertura marcada para as 19,00 horas, o 6º Paulínia Film Festival, suspenso desde 2.012, por determinação do Prefeito da ocasião, José Pavan Junior, o que gerou fortes protestos da classe artística, política, Intelectual e do público em geral apreciador da sétima arte, na medida em que na última versão, o Festival de Cinema de Paulínia já havia registrado grande sucesso, pelo nível dos filmes e ainda pela presença maciça do público e vinha se transformando num dos mais importantes do país.  Há grande expectativa, pois,  nessa retomada do projeto pelo atual Prefeito, Edson Moura Junior. O festival vai de hoje até o dia 27, com programação que envolve exibição de filmes competitivos nas categorias de longas (9 entre ficções e documentários) e curtas-metragens (8 concorrentes). Os prêmios oferecidos totalizarão 800 mil reais em 20 categorias (o vencedor do longa metragem receberá sozinho 300 mil). Há ainda mostra paralela que terá também presença internacional, outro objetivo do novo projeto que busca pôr em funcionamento o formato híbrido do festival (nacional/internacional) já  para as próximas edições. Durante a semana haverá ainda oficinas e debates, com participação franqueada a qualquer pessoa. O ingresso é livre e grátis para todos os eventos do Festival, observada, porém,  a ordem de chegada e  o limite de lotação do Theatro Municipal Paulo Gracindo, que é de 1.300 lugares.  Há confirmação da presença de inúmeros atores-celebridades como Debora Secco, Fernanda Montenegro, Marcelo Novaes, Felipe Camargo, Irandhir Santos, Sandra Coverloni (vencedora do Urso de Prata do Festival de Berlim por sua atuação em Linha de Passe), Matheus Nactergale, dentre outros. Serão exibidos, em pré-estreia mundial, os filmes “Não Pare na Pista – A melhor História de Paulo Coelho”, de Daniel Augusto e Bem Vindo a Nova York de Abel Ferrara. O projeto tem tudo para se firmar definitivamente como um dos mais relevantes do Brasil, o que contribuirá para o incremento de retomada, também,  do Polo de Cinema da cidade de Paulínia, onde já foram rodados inúmeros filmes importantes. Finalmente,estão programadas duas homenagens: na abertura, à distribuidora brasileira Imovison, pelos 25 anos de existência e parceria com o Paulínia Festival; no encerramento, ao cineasta Cacá Diegues, pelo conjunto de sua obra. A expectativa também se dá por conta da anunciada presença de convidados estrangeiros, como a atriz britânica Jacqueline Bisset e  o cineasta norte-americano Abel Ferrara. De minha parte desejo sinceramente que o festival seja um marcante sucesso e que os homens públicos continuem investindo seriamente (em todos os sentidos, claro), em mais esse relevante segmento de cultura e lazer que é o cinema nacional.

Até mais amigos,


P.S. (1) Os longas-metragens em competição são os seguintes: 1) A Neblina, de Fernanda Machado (documentário-SP); 2) Aprendi a Jogar com Você, de Murilo Salles (documentário-RJ); 3) Boa Sorte, de Carolina Jabor (ficção-RJ); 4) Casa Grande de Felipe Barbosa (ficção-RJ); 5) A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante (ficção, RJ); 6) Castanha, de David Pretto (ficção RJ); 7) Infância, de Domingos de Oliveira (ficção, RJ); 8) Sangue Azul, de Lírio Ferreira (ficção, PE); 9) Sinfonia da Metrópole, de Juliana Rojas (ficção  SP);

P.S. (2) Os curtas-metragens que competem são os seguintes: 1) De Bom Tamanho, de Alex Vidigal; 2) Edifício Tatuapé Mahal, de Carolina Markowicz e Fernanda Salloun; 3) Jessy, de Paula Lice, Rodrigo Luna e Ronei Jorge; 4) 190, de Germano Pereira; 5) O Clube, de Allan Ribeiro; 6) O Bom Comportamento, de Eva Randolph; 7) O Menino Que Sabia Voar, de  Douglas Alves Ferreira; 8) Recordação,  de Marcelo Galvão;

P.S. (3) A primeira imagem da coluna de hoje (emprestada de www.correiobraziliense.com.br) é da frente do belíssimo Theatro Municipal de Paulínia, onde acontecem os eventos do festival. A segunda imagem emprestada de pictify.com.  é da juventude da  atriz britânica, Jacqueline Bisset,  hoje com  69 anos, cuja presença hoje na abertura do festival é esperada. A atriz têm na sua filmografia longas como Ricas e Famosas (1981), Mulheres Diabólicas (1995), Aeroporto (1970) e Cassino Royale (1967).

sexta-feira, 18 de julho de 2014

PELÉ ETERNO - UM DOCUMENTÁRIO PRA VALER

Boa tarde amigos,


Edson Arantes do Nascimento é seu  nome de batismo. Pelé, o epíteto pelo qual se tornou conhecido no mundo inteiro, num tempo em que as comunicações ainda se revelavam difíceis e precárias. Considerado o atleta do século, o jogador foi objeto de muitos estudos e vários documentários.  Criado e dirigido pelo cineasta Anibal Massaine Neto, com roteiro de José Roberto Torero e colaboração do saudoso jornalista Armando Nogueira, Pelé Eterno, é sem dúvida um dos melhores filmes que já se produziu sobre a vida e a carreira daquele que se tornou um mito, muito além do esporte que o revelou para o mundo. Foram 5 anos de extensa pesquisa e separação de toda a documentação que compõe o longa de 125 minutos, concebido e realizado com um orçamento de seis milhões de reais, em 2.004. São entrevistas feitas com familiares, amigos, ex-jogadores, jornalistas, especialistas e celebridades, dentre as quais,  o ex-técnico da seleção argentina, Cesar Menotti. E além disso, passagens e fatos pitorescos narrados por seus companheiros e pelo próprio ídolo.  E o mais importante: cerca de 400 gols dos 1.284 que o atleta fez durante sua prodigiosa carreira, envolvendo todos os campeonatos que disputou (regionais, nacionais, internacionais, mundiais e de quatro Copas do Mundo). Gols de todos os tipos, jogadas de gênio, dribles, gols com os dois pés (era ambidestro), de cabeça, de cobrança de falta, de pênalti, assim como as magníficas tabelas e as assistências que fazia para que seus companheiros de equipe pudessem concluir à meta. Curiosamente, aquele que foi considerado o gol mais bonito de sua carreira não foi documentado. Nenhum fotógrafo, nenhuma câmera de televisão esteve presente no acanhado estádio da Rua Javari, em São Paulo, no qual jogavam, pelo campeonato paulista, Santos e Juventus, para eternizar a sua mais genial jogada, que no longa é ilustrado com uma simulação de bonecos. Feliz foi o saudoso poeta Carlos Drumond de Andrade, ao sintetizar a diferença entre os gols de Pelé e outros de autoria alheia: “Difícil não é fazer mil gols como Pelé. Difícil é fazer um gol como Pelé”. O documentário em grande parte também registra para a história a ascensão do  Santos Futebol Clube das décadas de 60 e 70, a melhor equipe do Brasil, e suas esquadras maravilhosas,com Clodoaldo, Coutinho, Pepe, Zito, Formiga, e outros craques inesquecíveis. O Santos bicampeão da Libertadores e de Mundial de Clubes. O Santos,  oito vezes campeão paulista em 10 anos. Para quem, como eu, conheceu parte da obra de  Pelé, mas muito, muito menos do que se imagina, foi obrigatório ver o documentário com que um amigo me presenteou um dia do ano de 2.009. Um documentário que eu só vi agora, com calma, com a solidão necessária para ver, entender e sentir. E vibrar como nunca. Para os jovens que nunca viram Pelé jogar, é também obrigatório. Para todo brasileiro, qualquer que seja sua profissão ou vocação, mesmo para aqueles que não gostam de futebol, é também impositivo conhecer, em nome da história ou antologia deste país, o desempenho desse craque que encantou plateias do mundo inteiro, que se tornou conhecido em cada pedacinho do planeta, mais que o carnaval, que o samba, que o próprio Brasil. Um ídolo admirado por crianças, jovens, adultos e velhos. Um jogador negro que venceu todos os preconceitos e desafiou os limites; que mostrou categoria em todos os fundamentos do futebol; que aprendeu a vencer e a se livrar de quem quer que buscasse conter os seus avanços, os seus ataques, as suas mirabolantes jogadas, saltando ou se desvencilhando como um acrobata e levando consigo, sempre, colada ao pé, a bola, a sua eterna e obediente paixão. Pelé que injustamente expulso em partida fora do país, teve que voltar logo após, por imposição de toda a torcida que pagara para ver o seu espetáculo em campo, a despeito da partida e da rivalidade em si. Pelé que foi enaltecido pelos humildes e poderosos; que recebeu o reconhecimento e titulo de nobreza até da Rainha da Inglaterra. Pelé, cuja arte foi capaz de parar uma guerra e outros fatos impressionantes. Um documentário para ver, sem dúvida, nenhuma. Para admirar ainda mais e compreender a importância do atleta para a sua raça, para a sua família, para o futebol e o esporte em geral, e especialmente, para o nosso país, que a ele deve muito mais do que se imagina. E um documentário para ter, guardar e presentear os amigos e até, por generosidade, porque não, os inimigos. Em nome da arte. E da memória.

Até mais amigos,

P.S. (1) Em 21 (vinte e anos) de carreira, Pelé marcou 1.284 gols, em 1.375 jogos disputados. Foram 59 campeonatos e quatro Copas do Mundo (1.958, 1.962, 1.966 e 1.970), tendo sido tricampeão mundial (58 na Suécia, 62 no Chile e 70 no México). Foi durante dez anos consecutivos o artilheiro do campeonato paulista de futebol.

 P.S. (2) Em 25 de março de 1.958, antes da Copa do Mundo na Suécia, em que o Brasil conquistaria seu primeiro título, o jornalista, escritor e dramaturgo, Nelson Rodrigues, publicou sua primeira crônica sobre aquele menino de 17 anos que tinha encantado o Maracanã, num jogo com o América carioca, pelo Rio-São Paulo. Resultado Santos 5, América 3.  Veja os seguintes trechos dessa crônica: “Depois do jogo América x Santos, seria uma crime não fazer de Pelé o meu personagem da semana. Grande figura, que o meu confrade Albert Laurence chama de “o Domingos da Guia do ataque”. Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: — dezessete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverossímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezessete anos, jamais. Pois bem: — verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racionalmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: — Ponham-no em qualquer rancho e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor.”.  E ao aludir à auto-confiança que marcou também o atleta: “O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento. E o meu personagem tem uma tal sensação de superioridade que não faz cerimônias. Já lhe perguntaram: — “Quem é o maior meia do mundo?”. Ele respondeu, com a ênfase das certezas eternas: — “Eu”. Insistiram: — “Qual é o maior ponta do mundo?”. E Pelé: — “Eu”. Em outro qualquer, esse desplante faria rir ou sorrir. Mas o fabuloso craque põe no que diz uma tal carga de convicção, que ninguém reage e todos passam a admitir que ele seja, realmente, o maior de todas as posições. Nas pontas, nas meias e no centro, há de ser o mesmo, isto é, o incomparável Pelé.”  Finalmente, ao falar sobre mais um gol sensacional do atleta e ao exercer o seu vaticínio sobre o que aconteceria na Suécia alguns meses depois: “Ora, para fazer um gol assim não basta apenas o simples e puro futebol. É preciso algo mais, ou seja, essa plenitude de confiança, certeza, de otimismo, que faz de Pelé o craque imbatível. Quero crer que a sua maior virtude é, justamente, a imodéstia absoluta. Põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha. Hoje, até uma cambaxirra sabe que Pelé é imprescindível em qualquer escrete. Na Suécia, ele não tremerá de ninguém. Há de olhar os húngaros, os ingleses, os russos de alto a baixo. Não se inferiorizará diante de ninguém. E é dessa atitude viril e mesmo insolente que precisamos. Sim, amigos: — aposto minha cabeça como Pelé vai achar todos os nossos adversários uns pernas-de-pau.”

P.S. (3) A insistência da imprensa mundial, especialmente da argentina, de discutir quem foi o melhor jogador entre Pelé e Maradona é absolutamente irritante. São dois grandes jogadores, mas que viveram épocas diferentes, em tempos diferentes, quando o futebol tinha regras e concepções igualmente diversas. Além disso, Pelé não foi simplesmente um jogador de futebol. Pelé é um mito para além do futebol. Pelé, com sua arte e a sua notoriedade, promoveu a revisão de conceitos,  quebrou tabus e alavancou mudanças de valores sociais e morais. Daí a irrelevância e a inutilidade idiota dessa discussão, que absolutamente não leva a nada, nem faz jus aos atletas que merecem respeito pela história que construíram nas respectivas carreiras. Guardadas, é claro e sempre, as devidas e necessárias proporções.