quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

CENTO E DEZ ANOS DE ADONIRAN BARBOSA

 

Amigos, bom dia.

 

                                    Acordei hoje com a música Amor e Samba, de Chico Buarque na cabeça.

                                  Os primeiros versos da composição dizem: “Eu faço amor e samba até bem tarde. E tenho muito sono de manhã”.

                                Sei lá a razão, mas suponho que seja porque continuo tendo muito sono de manhã e fico preocupado, na medida em que esse sono exagerado perdeu a sua etiologia  (não faço amor e muito menos samba).

                                Bem, o assunto de hoje é samba. Samba paulista da melhor qualidade. Samba de Adoniran Barbosa.


                             Vou dividir Adoniran e sua obra em várias postagens para não cansar o leitor,  pois o assunto rende... E muito...

                                Se vivo fosse, o autor de Trem das Onze e Saudosa Maloca, teria hoje cento e dez anos, a caminho de cento e onze, que faria em agosto deste ano.                                                                     

                                  Proponho, aos historiadores, aos escritores, aos amantes da música e do samba que, diante do silêncio e afastamento que marcou o trágico ano de 2.020, por causa da pandemia do coronavírus, todas as merecidas homenagens a esse grande artista, em suas variadas formas (escritas, cantadas, encenadas, reproduzidas pela tecnologia) sejam prestadas neste ano, trazendo ao conhecimento das novas gerações, a vasta produção do maior (não o único, claro) compositor do chamado “samba paulista”.

                              No assento de seu nascimento, João Rubinato veio à luz na cidade de Campinas, Estado de São Paulo, no dia 06 de agosto de 1.910, mas em verdade nasceu mesmo na vizinha  Valinhos, que, àquela época, contudo, era simples distrito do município campineiro.  Faleceu no dia 23 de novembro de 1.982, em São Paulo, a grande metrópole onde viveu, compôs e trabalhou a maior parte de sua vida, palco de inspiração de grande parte de suas composições.

                                      Era filho dos italianos Francesco Rubinato e Emma Ricchini,  oriundos de  Cavarzere, província de Veneza,  que imigraram para o Brasil,  desembarcando no porto de Santos no ano de 1895, seguindo para Tietê, município paulista, onde foram trabalhar nas lavouras, como tantos imigrantes que substituíram o trabalho escravo no campo, com a abolição da escravatura no Brasil.

                                    Foi compositor, cantor, ator e humorista, mas também, para ajudar a família, aos 14 anos,  entregador de marmitas, cujos conteúdos dividia, pelo caminho, com os incautos clientes, em conduta que, segundo ele próprio, estava justificada por manifesta necessidade famélica.

                                  João Rubinato começou tentando a vida como ator e o nome de um de seus personagens, o Adoniran Barbosa, acabou sendo adotado como nome artístico e, assim, se popularizou e se eternizou.

                                   Sua vida artística, em parte preponderante, se apoiou – e vice versa – na vida e história do conjunto Demônios da Garoa, que ainda hoje continua ativo, com substituição de vários músicos originais por outros de gerações posteriores.

                                  Abaixo algumas frases e bordões de autoria de Adoniran, que se tornaram célebres e bem evidenciam o seu humor e filosofia de vida:

                                 “Não nasci, porque pobre não nasce, aparece”.

                                “Tá certo, seu Paulo, o senhor continue estudando, tá, e quando chegar o dia de sua formatura, me avise”  (Resposta que deu ao Doutor Paulo Machado de Carvalho, proprietário da Rede Record quando a ele pediu aumento de salário e o dito cujo disse que iria estudar).

 “Chega de homenagens. Eu quero o dinheiro.”

“Mulher é uma mistura completa de vitaminas e sais minerais. Fortalece o homem, faz bem para a saúde.”

“Nóis viemos aqui pra beber ou para conversar?” Bordão que se tornou popular extraído de  comercial da cerveja Antarctica dos anos 1970. 

“Bom de briga é aquele que cai fora.”

 “Que tristeza que nóis sentia, cada táuba que caía, doía no coração” (do samba Saudosa Maloca).

“Eu sou um cara triste, sabe, eu faço piada, mas é tudo por fora”.  

“Eu vou pro samba, não sei que horas eu vou voltar”.

“E melhor viver um dia de cada vez, do que sonhar com um futuro que talvez possa não acontecer”.

“Quanto a você, da aristocracia, que tem dinheiro, mas não compra alegria, há de viver eternamente, sendo escrava desta gente, que cultiva hipocrisia.” 

Até amanhã amigos.

P.S. A imagem da coluna de hoje, obtida de meu celular, retrata a estátua, em bronze, do cantor e compositor, exposta no Centro de Artes, Cultura e Comércio de Valinhos, Estado de São Paulo.

                                     

 

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

SONHO MEU - O CAUSO DO BARRIL DO EXÉRCITO

Boa noite amigos,

De repente, interrompendo a programação normal da grade, surge na tela da TV aquela porção de microfones girando, indicando notícia importante e urgente.  Atentos e, em seguida, absortos, ouvimos entrar a jornalista Renata Lo Preti, da Rede Globo, anunciando, direto de Brasília, notícia bomba com a repórter, Andréa Sadi: -- O Palácio do Planalto acaba de anunciar que a Polícia Federal apurou a autoria do caso do Barril do Quartel, que interessa, especialmente, ao Exército, ofendido, no caso, como instituição permanente e respeitável do Estado Brasileiro. O caso estava sendo apurado, há vários meses, em absoluto sigilo, no interior do Estado de São Paulo. Fiquei branco e imediatamente fui sendo questionado pela mulher e pela filha: - E agora, o que você pretende fazer? indagou a esposa. – Eu avisei pai,  cansei de avisar, hoje em dia não se pode falar nada, não se pode brincar, você é acusado de crime de racismo, de homofobia, de todas essas coisas que estão nas redes sociais e nos movimentos populares.  Eu avisei, e agora? lamentou a filha. --Mas a culpa não foi minha, retruquei. --- Foi o Evandro que mencionou o caso na classe, vocês sabem disso, eu comentei. Só se na turma tinha algum aluno ligado ao SNI, à Polícia Federal, ao Gabinete do ódio, às Forças Armadas. De qualquer forma é uma piada, uma brincadeira, não há intenção de ofender ninguém. Não é possível que o Supremo vá entender que se trata de crime contra a honra --. Nisso o telefone fixo de casa toca insistentemente e eu acordo para atender. Do outro lado da linha ninguém responde ao “alô, alô”, que eu pronuncio, enquanto suspiro de alívio. O interlocutor, seja quem tenha sido, me causou um grande alívio, me acordando do pesadelo que eu estava vivenciando com o tal caso do Barril. Cada sonho hein, gente? Qualquer dia eu conto o “causo”. Pensando melhor, melhor não. De repente, o sonho pode ter sido um prenúncio do que pode acontecer de verdade. E nesse país maluco, no “caça às bruxas” dos radicais do chamado “politicamente correto da pós-modernidade”, alguém sabe quem vai ser a bruxa da vez?  Tô fora sô! como diria o mineiro.

 Bom ano de 2.021, amigos e leitores. 

Forte abraço.

 

P.S. Curioso como em sonhos é relativamente comum juntar pessoas, coisas ou instituições de tempos diversos, que nunca existiram contemporaneamente. O SNI (Serviço Nacional de Inteligência) foi criado em 1.964 pelo governo militar e se transformou em órgão de espionagem da ditadura. Foi extinto em 15 de março de 1.990, no primeiro dia de mandato do  Presidente Fernando Collor de Melo. Suas funções foram absorvidas pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), criada em 1.999, no governo Fernando Henrique Cardoso.

P.S. A imagem do barril com furo é do meu celular e foi tirada em San Diego, Califórnia, no ano de 2.014.  Ela está também na postagem do dia 9 de outubro de 2.014, na qual contei exatamente o "causo" do barril a que me refiro no sonho da noite passada.

 

 


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

CRÔNICA - DAR UMA DE MORTO......

 Amigos,


Na sossegada rotina do interior da minha infância ouvi jargões e ditados que carreguei pela vida afora. Essas pequenas frases, adverte Rebeca Fuks,[1] “fazem parte da tradição oral da sabedoria popular e sintetizam ideias sobre a convivência em sociedade, trazendo muitas vezes conselhos valiosos a respeito das relações humanas”.  O  “ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão” revela uma espécie de tolerância e  justificativa popular à ancestral aceitação da vingança privada  baseada no “olho por olho, dente por dente”, da Lei do Talião.  “Quem não tem competência não se estabelece” é ditado invariavelmente  usado para censurar a petulância de quem sai de um casamento para outro e não consegue  ganhar o suficiente para sustentar ou  pagar pensão para duas mulheres e uns tantos filhos menores.  E por aí se multiplicam: “O olho do dono é que engorda o boi”, lembrando a necessidade do patrão estar à testa do negócio, vigiando como se comportam os empregados perante os fregueses. E é nesse cipoal de clichês (por que não?), que muitas pessoas repetem, ignorando muitas vezes  o seu  real significado, que se insere o conhecido ditado que exalta a  discrição e  a esperteza como estratégias  contra o adversário ou o oponente: “ dou uma de morto para entrar no cu dos vivos”. OK, morto é morto, vivo é vivo. O morto morreu e dele nada se pode esperar. Nenhuma reação, mas também nenhuma imputação pela singela razão de que ele não pode ser agente de ato algum, doloso ou culposo, por ação ou omissão. Mas não é que ultimamente a criatividade dos larápios de plantão, defendendo seus esquemas contra as expertises da segurança que, a todo tempo, o serviço de inteligência do Estado e das instituições visam aprimorar, ameaçam esses ditados, cunhados na longeva observação de tudo que acontece neste planeta desde o tempo dos dinossauros. Ouvi agora há pouco na TV que uma quadrilha está sendo desmantelada pela Polícia Federal, especializada em fazer migrar as multas de trânsito e, bem assim, os pontos perdidos pelo motorista infrator, para outras pessoas. Muito bem. E quem seriam essas pessoas? Acreditem os senhores são pessoas mortas. Não há no país qualquer esquema conjunto que permita o compartilhamento dos óbitos ocorridos no território nacional com os arquivos eletrônicos da segurança pública. Então, pensei cá comigo: O que esses caras tão fazendo é inverter o velho ditado. O larápio não dá uma de morto para entrar no cu dos vivos. Dá uma de vivo (esperto) para entrar no cu dos mortos. Sai fora, diria minha secretária Márcia.  Seria nova modalidade de crime de vilipêndio a cadáver? Gente safada, filho da puta não?

Até mais amigos.

P.S. Na imagem de hoje, caveirinhas de açúcar, uma das guloseimas apreciadas pelos mexicanas na famosa festa do Dia dos Mortos. 

 



[1]     62 Ditados Populares e seus Significados, in < https://www.culturagenial.com/ditados-populares-e-seus-significados/> acesso em 18 de dezembro de 2.020.

sábado, 5 de dezembro de 2020

EU ERA FELIZ E NÃO SABIA 1 - EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS

Boa tarde amigos,



No final da década de 70 fomos surpreendidos com o aparecimento de um novo e terrível vírus, o HIV, potencialmente letal. Na época, assim como agora, e possivelmente assim será no futuro, se a humanidade não se emendar, foi ele vinculado à praga divina contra os ímpios e às práticas homossexuais, ou seja, os carolas e os heterossexuais estariam livres desse mal, que representava a vingança de Deus contra os “veados” e suas “poucas vergonhas”. O tempo mostrou, porém, que o vírus poderia contaminar pessoas de qualquer gênero, em relações homo ou hetero, e se propagaria, nas condições que a ciência indicava, entre ateus e crentes, patrícios e plebeus, homo ou heterossexuais, aumentando-se o risco significativamente, conforme a variação de parceiros, ou seja, o grau de promiscuidade. Remédio não havia, nem expectativa de cura ou longevidade para aqueles que desenvolviam a chamada AIDS. Porém, mantendo os parceiros em relações sexuais monogâmicas ou utilizando a chamada “camisinha”, tanto a masculina e, também a feminina, posteriormente inventada e eventualmente com o uso correto de antirretrovirais,  o risco praticamente era zero. A experiência mostrou que mais expostos a risco não eram os homens ou as mulheres, os heteros ou homos, mas sim os que se frequentemente praticavam a penetração anal, sem proteção, e os que compartilhavam agulhas de seringas para consumo de drogas. Risco também acentuado corriam as pessoas que dependiam de sucessivas transfusões de sangue, como os hemofílicos, descoberta que serviu para um controle mais rigoroso dos doadores e da exigência prévia de exame específico para HIV. De forma natural o coito vaginal oferece menos riscos teóricos de contaminação que o anal, explicavam os especialistas, porquanto a mucosa vaginal é mais espessa e tem lubrificantes naturais que a tornam menos suscetíveis a traumas, por onde o vírus costuma ingressar, enquanto a mucosa do ânus, além de ser mais fina, não conta com tais lubrificantes, sujeitando a mucosa a mais frequentes traumas e feridas, por onde o vírus penetra. Bem, isso todo mundo já sabe hoje. O que quero registrar é o meu mais veemente protesto contra o coronavírus, agente propagador da Covid-19. Naquele tempo, a gente podia restringir os parceiros, usar camisinha e levar uma vida mais ou menos normal. Essa porra do corona, no entanto, não me deixa sair de casa. Estou no grupo de risco, a vacina não chega, tenho de usar máscara que me sufoca e dizem que se eu puser o pé pra fora da porta de casa, uma carrocinha da Prefeitura denominada “Cata veio” me pega e me leva preso. Puta que pariu! Diria a minha amiga Terezona que, esperta, antes de chegar esta merda, se mandou desse mundo. E dizem que lá onde supostamente ela está (e não há qualquer indicação que seja no céu, obviamente), não tem perigo de você pegar a Covid. Sei não! 

Até mais amigos.


P.S. (1) Caros amigos, o respeito ao outro, seja ele de qualquer cor, raça, religião, condições de saúde e econômica, a humildade de se sentir igual a qualquer outro ser humano, na ciência de que essa igualdade humana significa que somos todos potencialmente capazes da prática de toda sorte de atos nobres ou torpes, constituem os segredos para viver a vida com alegria e gratidão, tornando-nos preciosos para a família, os amigos e para aqueles que, cruzando o nosso caminho por qualquer circunstância, se sentirem relevantes e recompensados, em razão do nosso interesse, paciência e compreensão.

sábado, 31 de outubro de 2020

MORREU JAMES BOND - O 007.

 

Boa noite amigos,

O ator Sean Connery encarnando o agente secre
to, James Bond, no primeiro longa da série, que
virou franquia. Foto de Ronald Grant.

 

Aos 90 anos, morreu hoje, nas Bahamas, onde vivia atualmente, o ator irlandês, Sean Connery, que imortalizou, no cinema, o agente secreto mais conhecido, charmoso e competente de todos os tempos, o James Bond, criação do escritor, Ian Fleming.  Acompanhei, desde menino, como apaixonado pela Sétima Arte, a saga de Sir Bond na luta contra o mal, desde “007 e o Satânico Dr. No”, o primeiro da série que se transformou em  franquia. As notícias sobre óbito de grandes artistas ou cientistas não me emocionam mais, nem me causam qualquer abalo ou sentimento de comiseração. Não há nada mais prosáico do que a morte. Desde a maturidade esta é a minha visão desse evento,  tanto que costumo repetir uma frase que ouvi num velho filme de guerra: não se deve lamentar a morte, mas celebrar a vida do morto. Isto se houver o que celebrar, obviamente. De qualquer maneira, quando ouço queixas lamentosas demais, inconformismo quanto a certa situação ou fato, logo me apresso a animar o meu interlocutor, a quem provoco com a lembrança do tempo:  Não se esqueça meu amigo que tudo é apenas uma questão de tempo, incluindo eu e você. Por isso mesmo a expressão antiga "passamento” de Fulano ou Ciclano, seja talvez a mais fiel para se referir ao óbito de alguém. Bem, Sean se notabilizou como grande ator, não só pelo seu 007 em filmes da série, como por personagens fortes em relíquias como o longa, O Nome da Rosa (1986), baseado na obra homônima de Umberto Eco; Os Intocáveis (1987) e Caçada ao Outubro Vermelho (1990).  Estou tentando colacionar cenas que se tornaram emblemáticas e, pois, inesquecíveis, tanto para o cinema, quanto para imortalizar determinados filmes,  artistas ou personagens. Para mim, uma dessas cenas marcantes vem justamente de um dos filmes de 007. Sob o olhar atônito do nosso herói surge do fundo do mar, como uma sereia, a loiraça,  Ursula Andress, no papel de Honey Ryder, e que foi batizada como “Bond-girl”, por quem me apaixonei profundamente nos meus 12 anos de idade e que, para minha tristeza, nunca soube da minha paixão,  nem sequer da minha existência.

A Bond-Girl, Ursula Andress, em cena emble-
mática do  longa "007 - O Satânico Dr. No" 

Ah! Vou pedir aos meus amigos cinéfilos que me contem qual ou quais foram as cenas de filmes, de qualquer tempo e nacionalidade,  marcantes em suas vidas. Depois podemos promover um concurso pelas redes sociais para saber qual seria a mais popular, dentre elas. Que tal?



Abraços e até mais.

E.T: Na década de 60 foi lançada uma pasta de coro igual a que o agente secreto utilizava, cujo modelo foi registrado como 007. Eu tive mais de uma. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

MAIS UMA LIVE DURANTE A PANDEMIA - PARA OS MÚSICOS DE CAMPINAS - APESAR DOS PESARES

Boa tarde amigos,


No dia 25 de setembro passado aconteceu mais uma live, tão em moda como opção de trabalho e entretenimento nesses tempos de forçado afastamento social. Transmitida  pelo canal próprio da franquia ALMA,  no Youtube  (Alma Live Sessions) e, também, pelo Facebook, APESAR DOS PESARES, título que nasceu como "Apesar de Vocês", passou para "Apesar de Tudo", antes de assumir o nome definitivo, nasceu do desejo de produzir um evento que pudesse arrecadar recursos para músicos de Campinas, cuja fonte de trabalho e renda fosse a arte musical, mostrada ao vivo em bares e restaurantes, e, bem assim, em eventos como aniversários e casamentos e que viram secar toda possibilidade de trabalho e de fonte de renda com o fechamento do comércio e proibição de eventos. Liguei ao Thiago, (Thiago Vasconcelos de Souza), meu querido sobrinho socioafetivo, que vi crescer, um jovem advogado, humorista e compositor de marchas,  amante das artes em geral e que tem contato com o mundo artístico do Rio de Janeiro, de São Paulo e também de Campinas, para criar o "link" indispensável à definição do evento e também aos destinatários das eventuais arrecadações. Daí a indicação de um grupo musical da cidade, o Casa Caiada, comandado pelo Silo (Silo Sotil Filho),  que foi responsável pela produção e direção e do Du (Eduardo Palet Matos), empresário que explora vários tipos de comércio na cidade,  e especificamente dois bares da Franquia "Alma", grande apreciador da arte musical e que sempre prestigiou a classe, contratando e divulgando o trabalho de músicos da cidade. A Live foi dividida em duas partes distintas: Na primeira, gravações antecipadas transmitimos a intenção e a destinação do evento e gravamos uma entrevista com Silo e Du. O Thiago, por solicitação minha, leu uma crônica que escrevi especialmente para a abertura e foram exibidas apresentações já gravadas anteriormente, uma de meu irmão, Antonio Miguel, só com seu inapartável violão e  de 10 bandas da cidade. Na segunda parte, ao vivo e do estúdio, o grupo Casa Caiada e os músicos Daniel Batistone e Osmar Dalbon Filho, durante duas horas, se apresentaram e atenderam às solicitações dos espectadores. Com o meu patrocínio e também da empresa Engetax Elevadores a arrecadação e a verba de patrocínio foram destinadas aos músicos referidos, o que não significou muito, mas que lhes possibilitou algum alívio momentâneo e a oportunidade de um recomeço da atividade da qual estavam todos saudosos.  Abaixo o texto alusivo à crônica que escrevi para a abertura "Apesar dos Pesares" com a qual  decidi, prestar justo tributo ao meu prezado ex-aluno, advogado culto e sensível, grande crítico de arte e política, o Paulinho Menna Barreto, (o "Paulinho" é forma carinhosa de tratamento e que,  de maneira alguma,  faz jus à sua estrutura anatômica, nem à sua estatura como intelectual),  que sempre, com muita delicadeza e atenção,  prestigiou os professores e amigos e que acompanhou o evento com interesse e observações sempre pertinentes.  Foto da postagem de hoje emprestado do Twitter. 

"APESAR DOS PESARES"  À PAULO MENNA BARRETO.

"Se é a  arte que imita a vida, ou a vida que imita a arte,  não sei. E como a história do ovo ou da galinha. 

 Sei que não há vida sem arte, nem arte sem vida.

E que para o artista,  tal como a vida,  sua arte é desafio contínuo,  um mergulhar num turbilhão de emoções e sensações, de olhos fechados, sem se saber, tal como na vida, quando e onde tudo  vai terminar.

Há que inventar, construir, desconstruir, reconstruir, num permanente processo de sobrevivência na renovação, na capacidade de sustentar a respiração ofegante diante do olhar novo sobre o velho, num perene exercício de obstinação e  ressurreição diante do estado comatoso de seu ofício.

E resistir, criando estratégias e disposição para o recomeço, pois assim como na vida,  começo, meio e fim constituem o ciclo inevitável de todos e de tudo que existe neste mundo.

Um novo tempo, diz o poeta, apesar dos perigos, aludindo à constante necessidade de fazer a travessia para seguir em frente, mesmo diante de mares desconhecidos e, por vezes, traidores.

São demais os perigos desta vida, alerta outro poeta.

São demais os perigos da arte também para os artistas.

Ah! esses artistas e  seus mistérios,  seus personagens transgressores da ordem, dos costumes, que nos oferecem amiúde a graça de viajar por um mundo transcendente e colorido, sem os limites impostos pela razão, pelos valores morais contingentes, pelo cotidiano,  pela fragilidade do homem.

Que contam histórias  malucas como eles, a sugerir que tudo é possível, que não há fronteiras entre a realidade e o sonho, a história ou o mito, a natureza e a cultura, a vida e a morte.

Ah! esses poetas, escritores, atores,  cantores, músicos, pintores, metidos em quartos escuros e gabinetes solitários ou desafiando a morte, diante de seu público,  por baixo dos picadeiros, fazendo malabarismo barato nas ruas, diante de semáforos fechados e  espectadores apressados e ansiosos, sem se importar com a decadência e a miséria.

Da bailarina que plana sobre o imenso pé direito do teatro, sustentada pelos fios invisíveis da emoção do público, a sugerir ser possível toda forma de sonhos, como os que alimentam os devaneios da criança inocente e  embalaram o frustrado sonho de  Icaro.

Esses loucos varridos que enfrentam toda sorte de preconceitos e perigos. Negros e brancos, deficientes, especiais, falsos, recorrentes, mas  que abraçam gente, que vivem de gente,que apanham de gente, que sofrem de gente, por gente, que vivem de emoções, de aglomerações. Atrevidos a desafiar o bom senso ou o senso comum que só protege as almas de toda forma de mediocridade.

Essa gente maluca que abusa de instrumentos e da imaginação para criar e explorar  todas as misturas, todos os sons, todas as possibilidades de miscigenação humana ou instrumental, além dos limites da normalidade, da sanidade e até da decência.

Não há arte indigna.

Não há arte menor.

Há gente menor, insensível e sem compreensão para a sua importância na vida humana.

Meus senhores, minhas senhoras, meus amigos e parentes, meus inimigos, meus prezados anônimos, incito-os a  homenagear e prestigiar  essa gente tão extraordinária que tenta fazer arte e cultura num país de tantas carências, para gente, para toda gente, de toda condição, de toda cor, de toda religião, de todo lugar,  apesar de todos os pesares.

Amanhã há de ser outro dia, disfarça um terceiro poeta, para enganar a censura.

E nesse momento difícil por que passa toda a humanidade, eles, a eles, os artistas, rendemos a nossa homenagem e oferecemos solidariedade e ajuda.

Foram eles que primeiro saíram de cena.

E serão os últimos autorizados a voltar a ela, a receber e abraçar o público.

Sem tristeza, pois apesar da  pandemia,

Pandemia não rima com tristeza,

Pandemia rima com alegria,

Não rima com laço,

Que rima com abraço,

Que não rima com mudança,

Que rima com esperança,

Que rima com música, dança.

Com pais, filhos e netos,

Que rimam com afetos.

Eu quero para eles e para nós, quando tudo isso terminar, alegria, abraço, esperança, música e dança, netos e afetos. E viva a arte! Vivam os artistas esses heróis responsáveis pelas nossas mais profundas sensações e nostalgias. E desaparecem de nossas vidas quando a cortina se fecha e eles enfrentam sozinhos todas as mazelas e misérias do ser humano comum,  sem que nós, ingratos, estejamos ali  para lhes oferecer  o ombro e a solidariedade com que fomos contemplados no compartilhamento do exercício de sua arte. 

Boa noite."

Até mais amigos.

Pródigos abraços.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

NESSUM DORMA - ÁRIA COM SOM E CHEIRO DE COPA DO MUNDO.

 Boa tarde, amigos.



A última - e para muitos a melhor - ópera do grande compositor italiano, Giácomo Puccini foi Turandot, baseada numa peça de Carlos Gozzi, de 1.762, e adaptação de Friedrich Von Shiller. Trata-se da história de uma princesa chinesa que, forçada pelo pai a contrair matrimônio, mas no intuito de evitá-lo por causa da lembrança de uma tragédia familiar, lança a seus pretendentes um desafio mortal: deverão submeter-se a um jogo em que ela lança três enigmas que cada interessado terá que desvendar. O pretendente que não os solucionar, porém,  estará condenado à morte, enquanto aquele que desvendá-los fica com o direito de desposá-la. O Princípe Calaf se oferece para o jogo como pretendente comum anônimo e consegue o que ela considerava improvável, ou seja,  elucidar os tais enigmas. Agora ela terá que cumprir a promessa. Mas o príncipe lança um novo desafio: se a princesa descobrir sua identidade verdadeira até o dia seguinte, pela manhã,  não só estará livre do compromisso assumido, como terá direito de decidir sobre a vida ou morte do noivo. Desesperada, põe-se a buscar a tal identidade, movimentando, para tanto,  todos os empregados da Corte que ficam proibidos de dormir naquela noite até que a tal identidade seja descoberta. Daí a ária mais famosa da peça, Nessum Dorma (Que ninguém durma), popularizada por Pavarotti e seus convidados em 1.990, quando se apresentou com os cantores líricos espanhóis, José Carreras e Plácido Domingos, na véspera do início da Copa do Mundo de Futebol em 1.990, na Itália. O concerto gravado vendeu mais de dez milhões de cópias, o álbum de música clássica mais vendido no mundo até então. A ária se tornou trilha sonora da Copa e com a grande audiência do evento foi ainda mais  difundida e popularizada. Puccini morreu em 1.924, antes de terminar a ópera,  e essa tarefa coube a Franco Alfano, cuja versão não agradou ao maestro Arturo Toscanini, sob cuja regência a ópera estreou para o público em 1.926, no Scalla de Milão. A partir daí há vários finais escritos para a narrativa.  Puccini afirmava que seria praticamente impossível a um tenor entoar o canto uma oitava acima. Contam que apenas Pavarotti tinha superado esse desafio. Mais recentemente outro tenor conseguiu entoar um “Vinceró” permanecendo durante 23 segundos sem respirar, durante um concerto em homenagem a médicos e trabalhadores da saúde, que atua, na linha de frente de combate ao Coronavírus, na Itália. Veja o resultado no vídeo acima. E abaixo acompanhe com a letra.

 Nessum Dorma.  

/Nessum Dorma!/Nessum dorma! Te pure, oh principessa/Nella tu fredda   stanza/guardi le stelle che tremano/D’amore e di speranza. Ma Il mio mistero é chiuso in me/Il nome mio nessum saprà/No, no,sulla tua bocca ló dirò/quando la luce splenderà/Ed Il mio bacio scioglierà/Il silenzio che ti fa mia/Il nome suo nessun saprà/E noi dovrem, ahimè, morir, morir/Dilegua, oh notte/tramontate, stelle/tramontate, stelle/All’alba vinceró/Vincerà, Vincerò./