terça-feira, 30 de dezembro de 2025

CAUSAS & CAUSOS - AZOOSPERMIA

 

Boa tarde amigos,

Nesta antevéspera de ano novo, sem muita inspiração para encontrar poesia e beleza nesse mundo contemporâneo mergulhado em guerras e ódio, vai aqui um "causo" que se passou comigo mesmo, numa das minhas aulas de Direito Civil do passado. Espero que curtam.

"O Professor de Direito Civil tratava, naquela manhã, das hipóteses que a legislação contemplava para autorizar a anulação do casamento por erro essencial quanto à pessoa do outro cônjuge. A maior parte dos alunos se mantinha atenta ao assunto, muito palpitante dentro do não menos palpitante Direito de Família, área preferida pela maioria absoluta dos discentes. Há, explicava o mestre, duas formas de impotência. A primeira, chamada de impotência generandi,  também conhecida como esterilidade e se relaciona com a incapacidade para gerar filhos. Esse tipo de impotência, contudo, não autoriza a anulação do casamento. A outra, denominada impotência coeundi ou instrumental, como o próprio nome revela, refere-se à inaptidão para o coito, para o ato sexual em si, e essa, uma vez alegada e demonstrada pelo cônjuge enganado, é causa admitida pela lei para anulação do casamento, tendo em vista que, em regra, uma das finalidades do matrimônio é permitir a recíproca satisfação sexual dos cônjuges. Os romanos falavam, inclusive, em debitum conjugale,  expressão derivada do direito canônico, que tratava do jus in corpus, ou direito sobre o corpo, aludindo ao dever imposto pelo casamento, a ambos os cônjuges, de disposição para o coito regular,[1] tanto por parte do homem, quanto da mulher[2].  Já a incapacidade de gerar filhos não é, na visão do legislador, uma causa que justifique a invalidação do matrimônio. A literatura médica elenca uma série de patologias que podem impedir a procriação, como por exemplo, a azoospermia[3]. A essa altura era quase inevitável uma piadinha aqui e ali, cochichadas no ouvido do interlocutor próximo, sem que o professor fosse devidamente cientificado. O docente, brincalhão e bem humorado, ao perceber qualquer conversa paralela, rogava que a dúvida, ou mesmo a piada, fosse compartilhada com ele e com os colegas de turma, invocando o dever de solidariedade. O mais extrovertido, também e por isso mesmo representante de classe, não se fez de rogado e com uma ponta de sorriso no canto da boca, questionou o docente se a mulher também poderia ser acusada de impotência instrumental, pelo marido, já que ela não tinha assim propriamente um instrumento.  Pode sim, elucidou o professor. Em relação à mulher a impotência coeundi é denominada de frigidez[4].  Mas como esse mal não impede propriamente o coito, é muito rara a sua invocação em Juízo com vistas á invalidação do matrimônio.  A mulher sem interesse pelo sexo, ou indiferente a ele, acaba descumprindo propriamente o próprio dever de manter relações com o consorte, ensejando a dissolução do casamento por infração a esse dever ou finalidade.  Ou então, o que é mais comum, permite ser penetrada, ainda que indiferente ao ato, ou sem qualquer desejo, apenas para agradar o parceiro, por quem pode, inclusive, nutrir sentimento afetivo sincero, enquanto seu pensamento volta-se para qualquer outra questão externa ao que ocorre[5].  Enquanto discorre sobre essas questões, o professor atento observa que lá no fundo o Jonas está envolvido com o seu celular, eventualmente lendo mensagens e respondendo a elas, pelo que o adverte para que desligue o aparelho e se mantenha atento à aula. O rapaz, desatento, mas educado, rapidamente desliga o celular e finge que doravante não perderá palavra que seja da magnífica aula ministrada pelo professor. O sinal interrompe o encontro, o professor agradece a atenção e vai despedindo-se dos alunos, quando Jonas, numa tentativa de reabilitação com o mestre,  dirige-se a ele e indaga: Professor, me desculpe, o que é mesmo azoospermia? O docente para por um segundo, fita o interlocutor no fundo dos olhos e calmamente responde: Azoopermia? É porra nenhuma! Jonas dá um salto para trás e num gesto de quem pretende por panos quentes na relação que julga severamente desgastada a essa altura, arrisca: - Professor, me desculpe, o senhor não precisa ficar nervoso. E o mestre: - Não estou nervoso garoto! Repito:  Azoospermia é porra nenhuma mesmo, ou ausência de esperma. O jovem dirigindo-se ao mestre com um sorriso glacial, limita-se a afirmar: - Ah, entendi!"

Feliz Ano Novo, meus caros amigos.



[1] O coito regular, a chamada fornicatio simplex (fornicação) refere-se ao ato sexual segundo a natureza, ou seja, homem penetrando a vagina da mulher, o que se convencionou chamar de relação tipo papai-mamãe, embora nem eles saibam muito bem o porque disso.

[2] Sempre que me refiro a essa expressão oriunda do direito romano, ressalvo que a relação sexual entre os cônjuges ou companheiros nunca deve ser vista como dever, mas sim como uma prática sadia e prazerosa para ambos, corolário do envolvimento amoroso entre os consortes. Hoje, inclusive, é tranqüilo o entendimento de que o marido não pode compelir a mulher a manter relações sexuais com ele, fundado num suposto dever ou obrigação decorrente do casamento. O ato sexual imposto ou forçado é crime de estupro, praticado pelo marido contra a mulher, ou vice-versa.

[3] Azoospermia é causa de infertilidade masculina e significa  ausência de espermatozóides ativos no sêmen ejaculado.

[4] Frigidez  - De acordo com a definição clínica, a frigidez, ou desejo sexual hipoativo, se caracteriza pela ausência ou diminuição de interesse ou desejo sexual, pensamentos ou fantasias sexuais ausentes e falta de resposta ao desejo. 

 

[5] Por exemplo, deitada de costas no leito conjugal observa que no lustre do quarto dos “pombinhos” há uma pequena teia de aranha e planeja as ameaças que fará no dia seguinte à faxineira que jura ter limpado tudo, tudinho. Noutra anedota, a mulher, enquanto o marido se exercita,  aproveita para terminar de ler o livro de auto-ajuda que o seu terapeuta recomendou, pois no dia seguinte terá sessão e o doutor certamente lhe indagará a respeito. Pede desculpas ao companheiro e lhe recomenda que assim que ele terminar, por favor, a avise.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

EU E ELIS REGINA. CAPÍTULO I

 

Boa noite amigos, 


O apresentador pedia silêncio absoluto. Rapazes e moças foram se sentar no chão, bem próximos do pequeno palco improvisado no salão principal do Clube Fonte São Paulo, um dos mais tradicionais aqui em Campinas, Estado de São Paulo. A cantora viajava pelo Brasil, incluindo as capitais e os interiores dos estados, no chamado “Circuito Universitário”, um de seus projetos populares, que lhe dava imensa satisfação, como sempre admitiu.  Eis que Elis Regina surge no palco improvisado e logo o preenche com voz poderosa, a despeito de 1,53 m. de altura, a encantar todos os afortunados acadêmicos presentes. Não sei como eu e minha namorada, depois esposa, tínhamos participado desse encontro, pois não éramos sócios do clube, nem tínhamos dinheiro para pagar ingresso.  Provavelmente tenha sido convite ou doação do Dr. Mário Stucchi, sócio e diretor do clube, pessoa muito querida e que acompanhou a minha trajetória profissional, desde que eu era simples auxiliar de cartório. Hoje falecido e saudoso,  foi um dos nossos padrinhos de casamento no já distante ano de 1.975. Era o ano de 1.973 e o Brasil continuava  a conviver com a ditadura militar e a censura,  ano em que Elis lançava mais um álbum de sua carreira  (Elis, 1973) e participava  do Phono 73, um grande festival de música popular promovido pela gravadora Phonogram no centro de Convenções do Anhembi em São Paulo, que deu origem a três LPs. com as apresentações mais marcantes. Para que se tenha ideia das celebridades participantes e da vastidão de suas origens e ritmos, lá se apresentaram Caetano, Gil, Gal Costa, Jards Macalé, os Mutantes com a então vocalista Rita Lee, além de Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, Milton Nascimento etc. etc.  Elis havia gravado, nesse disco de 1.973, uma faixa que virou música de trabalho, com  uma regravação de antiga composição do desconhecido Pedro Caetano, lançada como samba no carnaval de  1.948 e que, com a interpretação pessoal e o novo arranjo de Cesar Camargo Mariano, virou um estrondoso sucesso nacional. O samba-choro É com Esse que eu Vou, abriu o nosso encontro naquela noite,  e todos nós, surpreendidos  com a potência de voz,  a forte presença cênica, a  afinação e  ginga da Pimentinha, tratamos de ir decorando a letra, que dizia:  /É com Esse Que eu Vou/Sambar até cair no chão/Com esse que eu vou desabafar na multidão/Se ninguém se animar eu vou quebrar meu tamborim/Mas se a turma gostar vai ser pra mim (....). E seguia:“Quero ver o ronca-ronca da cuíca/Gente pobre, gente rica/deputado, senador/quebra, quebra que eu quero ver uma cabrocha boa/ No piano da patroa batucando/É com esse que eu vou/.  Para terminar, com toque de suingue, reproduzindo e misturando trechos da letra (Um Vamp?), criado espontaneamente pela intérprete se ajustando ao arranjo (ou este a ela): /eu sei que vou/com esse que vou/mas é com esse que eu vou, sambar na multidão/até cair no chão/ eu vou, eu sei que vou, eu vou.....” Esse foi o meu primeiro encontro pessoal com Elis que eu já conhecia do começo da carreira, especialmente pela divulgação, pela mídia, da canção “Arrastão”, composição de Edu Lobo e Vinícius de Moraes (com que ela venceu o I festival de MPB da extinta TV Excelsior e documentada num compacto duplo que trazia, do lado B, Aleluia, um samba do mesmo Edu, com letra de Ruy Guerra). Do aludido festival e dos gestos largos da menina de 19 anos,  que girava os braços como se estivesse a voar, foi chamada de Élis Regina (referência a hélice, uma maldade ou sacanagem inventada por Ronaldo Bôscoli, que depois se tornou seu marido). Esse foi só o começo de um encontro pessoal, dos poucos que ainda iriam acontecer ao vivo, mas que projetou, para sempre, a minha crescente voragem antropofágica por essa artista e tudo que ela cantava ou fazia e que se tornou minha maior inspiração, insubstituível antes e depois de seu precoce passamento em 1.982, com apenas 36 anos de idade.

Até mais amigos.