domingo, 18 de fevereiro de 2018

ESCOLINHA DO PROFESSOR RAIMUNDO - NOVA VERSÃO - VELHA FÓRMULA DE SUCESSO

Boa noite amigos,

Imagem do elenco do remake da Escolinha do Professor 

Raimundo. Foto emprestada de paranaonline.com.
Concebido com o único objetivo de prestar homenagem póstuma ao  humorista Chico Anísio e ao vasto elenco de comediantes de muitas gerações, nos quase 60 anos de vida da Escolinha do Professor Raimundo, o remake de 2.015 fez tanto sucesso que a TV Globo decidiu incluí-lo na grade fixa da emissora. Nesta terceira temporada tem apresentação semanal às 13,30 horas dos domingos. Vi poucos episódios, um dos quais neste domingo. E confirmei a minha impressão de que o remake é muito bom e pode ser apontado como uma das gratas revelações dos novos programas de humor da emissora, a despeito de conservar a velha fórmula de explorar uma sala de aula com alunos de várias origens e perfis, sob o comando do Professor Raimundo Nonato, um nordestino como o próprio Chico Anísio, nascido em Maranguape, no agreste do Ceará. Os atores e atrizes escolhidos para viver os velhos personagens se superam na difícil missão de caracterizá-los. Bruno Mazzeo, o filho e sucessor artístico do pai, Chico Anísio, comanda a sala de aula com a mesma inteligência e maestria do pai. Marcelo Adnet,  no papel de Rolando Lero, personagem imortalizado por Rogério Cardoso, demonstra toda a sua facilidade na arte de imitação; Matheus Solano, o impagável Zé Bonitinho, do lendário Jorge Loreto, a Catifunda de Zilda Cardoso, reencarnada  na pele de Dani Calabresa, uma das mais talentosas comediantes da nova geração, Marcos Caruso, como o homossexual Seu Peru, vivido outrora por Orlando Drummont Cardoso (a semelhança física entre os atores é impressionante), a magrela Betty Gofman, interpretando Dona Bela, da saudosa Zezé Macedo e, especialmente, Lúcio Mauro Filho, com toda a sua versatilidade na homenagem que presta ao seu pai, Lúcio Mauro (o puxa-saco, Sandoval Quaresma) dentre outros, são exemplos de como o remake conseguiu reviver para  a nova e a velha geração, na qual me incluo, claro, a graça simples do programa de humor de outrora,  pelo qual passaram praticamente todos os comediantes dos vários estilos (Grande Otelo, Zé Trindade Costinha, Brandão Filho, Sérgio Malandro), muitos dos quais ganharam visibilidade e surgiram para o sucesso, na oportunidade que lhes concedeu  o olho clínico e a generosidade de Chico Anísio, como Tom Cavalcante, Pedro Bismarck e Cláudia Gimenez, para exemplificar.

Chico Anysio e Bruno Mazzeo, pai e filho vivendo no original

e no remake, respectivamente, o personagem e Professor Rai-
mundo Nonato, o comandante da Escolinha do Professor
Raimundo. Imagem emprestada de Bolnoticias.com.
O clima entre o elenco, sob direção da inexorável (como diria o Faustão), Cininha de Paula,  é do mais alto astral. Os atores só decoram as suas próprias falas, de tal maneira que a graça dos textos e das interpretações dos colegas só é sentida no set das gravações. Daí as risadas constantes e especialmente os aplausos, mais ou menos efusivos, que eles próprios se concedem reciprocamente, como se fossem mesmo espectadores, assistindo ao programa em poltronas de um teatro ou na sala de casa. Surpreendi este domingo a Fernandinha Souza, fazendo foto, com o seu indefectível celular, durante apresentação de Dona Bela (Betty Gofman), no melhor estilo de como agiria uma jovem e entusiasta fã qualquer  em relação ao seu ídolo. Essa clima espontâneo e alegre contagia a todos. E, sem dúvida, aos espectadores.A redação final, sob responsabilidade de Péricles Barros e Marcelo Saback, sem deixar de contemplar as características dos personagens, pelos quais se tornaram célebres, passa pelas piadas que envolvem a vida das celebridades, a política e seu rico cabedal de assuntos que enchem cotidianamente os noticiários das mídias, os pobres e suas dificuldades, com ênfase, ainda,  à malandragem brasileira e as questões de gênero. Longe, porém, da escatologia e da grosseria que poderia indignar os defensores mais fanáticos do chamado “politicamente correto”.  


Até mais amigos,

Outra dupla pai e filho nos dois momentos. A esquerda o

velho Lúcio Mauro e à direita o filho Lúcio Mauro Fi-
lho, encarnando o personagem Aldemar Vigário no-
original e no remake, respectivamente. Imagem em-
prestada de purepeople.com.
P.S. (1) A Escolinha do Professor Raimundo era apresentada como um quadro do programa de humor nominado de Noites Cariocas na TV Rio. Foi também exibido pelas extintas, TV Excelsior e TV Tupi, até sua estreia na TV Globo, ainda como um dos módulos do programa Chico City. Só na década de 90 que ganhou autonomia, a pedido do próprio Chico Anysio;


P.S. (2) A atriz Betty Gofman, ao mesmo tempo em que interpreta Dona Bela, personagem de Zezé Macedo, leva para o teatro a peça “A inesquecível Zezé Macedo”, uma biografia da comediante morta em 1.999 que se converteu numa lenda do cinema brasileiro das chanchadas, ao lado de Zé Trindade, Ankito, Oscarito e Grande Otelo.



terça-feira, 30 de janeiro de 2018

MARLON BRANDO - A FACE SOMBRIA DA BELEZA - BIOGRAFIA DO MITO DO CINEMA

Boa noite amigos,

Imagem de capa do livro biografia de
Marlon Brando.
Escrita pelo respeitável jornalista e novelista francês, François Forestier,  traduzida por Clóvis Marques para o português e lançada no Brasil pela Editora Objetiva, em 2.014,  MARLON BRANDO – A FACE SOMBRIA DA BELEZA, é uma biografia do ator considerado o melhor e mais influente de sua geração, além de ser reputado um dos mais belos e sedutores do mundo, ao lado de ALAIN DELON. Confesso que não sou propriamente apaixonado pelo gênero, na medida em que a vida privada, quiçá secreta, de celebridades, não me seduz, nem me importa. Prefiro conhecer as suas obras e apreciá-las ou não. E preservar o mito, não o homem ou a mulher que está por trás dele. Mas a ânsia de conhecer detalhes dos bastidores de Hollywood, de atores e atrizes da época de ouro do cinema, dos filmes que me cativaram nas décadas de 50 e 60, assim como o que acontecia nos sets de gravações e como nasceram os roteiros, os romances, as grandes produções, os sucessos inesperados, os fracassos retumbantes de bilheteria ou crítica, as grandes adaptações de obras literárias para o cinema, tudo isso que está no entorno da magia da sétima arte me levam a eventualmente manifestar certo interesse por uma ou outra obra específica do gênero. Comprei assim o livro numa de minhas muitas investidas pelas livrarias da vida, depois de pesquisar sobre a reputação do jornalista e escritor, à cata de algo que me parecesse relevante ou que valesse a pena, dependendo, sempre e é claro,  dos meus reais interesses momentâneos, pois assim como confessa Cecília Meirelles em seu poema Lua Adversa,  também tenho “fases como a lua”. As famosas e inesquecíveis personagens que o ator desempenhou no cinema, em filmes como Sindicato dos Ladrões, O Poderoso Chefão, Apocalypse Now, Uma Rua Chamada Pecado, estavam e estão guardadas para sempre na minha memória dos grandes atores e atrizes e dos filmes extraordinários, que marcaram época e se eternizaram na história da sétima arte. Li o livro e o achei meritório desse ponto de vista, além é, claro, das opiniões manifestadas por todos aqueles que o jornalista ouviu para colher dados e impressões. 
Foto  dos últimos anos de vida do ator, doente e obeso.
Imagem emprestada de www.ameninaquecompravalivro
com.br

E foram muitas as personalidades consultadas, na longa lista de agradecimentos que o autor publica, ao final da narrativa. Claro que o autor mostra os eventos da vida privada de Brando, relata as conquistas obtidas em função de sua inteligência e perspicácia, o seu poder de controle e sedução de homens e mulheres, as esposas e os filhos, e todos os dramas que marcaram a sua vida de 80 intensos anos. Mas para contar essa história o escritor necessariamente se reporta à influência e participação de outros grandes atores e divas do cinema, de escritores e dramaturgos como Tenesse Williams, de cineastas do porte de Francis Ford Coppola, de produtores poderosos e tudo que gira em função do cinema. Para quem gosta de cinema. Para quem, como eu, conheceu e apreciou parte considerável da filmografia de Marlon Brando e  viveu a época em que ele era celebrado como o grande e definitivo mito do cinema, arrastando para as bilheterias do mundo inteiro, milhões de fãs que queriam vê-lo representar, ou simplesmente contemplá-lo como um sex- simbol (esses fãs, como eu, homens ou mulheres, devem estar certamente beirando os 60 anos), a biografia é curiosa e interessante.


Até amanhã amigos,


P.S. (1) - Para nós brasileiros há uma curiosidade extra na vida e filmografia de Marlon Brando. O seu filmeUltimo Tango em Paris de 1.972, foi proibido no Brasil, pela censura da ditadura militar, considerado imoral, pelo alto grau de erotismo,  pelas cenas seguidas de sexo envolvendo os protagonistas (Brando e  a então jovem atriz Maria Schneider). E a proibição, é claro, gerou entre nós intensa curiosidade. Ficou famosa a chamada cena da manteiga em que Brando usa o produto para facilitar a penetração em suposta cena de sexo anal. O filme, com o fim da ditadura, foi liberado, mas rendeu declarações muito fortes por parte da atriz que se disse sentir-se estuprada com a postura tanto de Bertolucci, quanto de Brando, este ao sugerir cenas que não estavam no roteiro;
P.S. (2) O original, com o título de Un Si beau Monstre (Um  Monstro tão Bonito) foi publicado em 2.012 pela Editora Albin Michel;
P.S. (3) O autor François Forestier é jornalista da revista Nouvel Observateur e escreveu inúmeros romances e biografias, dentre as quais: “Aristóteles Onassis – O homem que queria tudo” (2.006), “Martin Luther King, O  visionário” (2.008) e “Marilyn e JFK - história (2.008). Este último foi um sucesso retumbante e publicado em 10 idiomas;
P.S. (4) O cineasta Martin Scorsese sobre o polêmico ator: “Ele é o marco. Há o “antes de Brando” e o “depois de Brando”.



quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O ESPELHO - CONTO FILOSÓFICO DE MACHADO DE ASSIS

Olá amigos, 

Esboço da imagem do escritor Machado de Assis, 

emprestado de pixabay.com.br
Reli, ontem à noite, um dos contos que mais aprecio de Machado de Assis: O Espelho. É que, além de ser uma obra literária de qualidade, vazada naquela peculiar linguagem enxuta, escorreita e requintada do mais talentoso e versátil representante do realismo brasileiro, o conto revela sua incursão pelo campo dos ensaios filosóficos, aspecto que já vem denunciado no subtítulo que ele próprio elegeu, ao usar a expressão “esboço de uma nova teoria da alma humana”.  No colóquio de cinco personagens, reunidos em uma noite, num lugar qualquer não elucidado, Jacobina (alterego do próprio Machado?) traz à tona uma experiência por ele vivenciada na mocidade, que lhe permitiu concluir seguramente pela existência de duas almas, conclusão que em nenhum momento pôs em discussão para os demais companheiros: “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro.... Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo, não admito réplica. Se me replicarem acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens,um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades perde naturalmente metade da existência, e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.”
Para ilustrar a alma exterior, Machado se refere à patente de Alferes conferida a Jacobina. E de tudo o que tal lhe rendeu em termos de reconhecimento familiar e social, de maneira tão intensa e inevitavelmente imposta e assimilada que a alma exterior acabou por sufocar a interior: “O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.” E colacionou fatos para justificar a conjetura, relatando os detalhes de sua permanência de três semanas em modesta casa de uma tia, a tia Marcolina,  que não se cansava de ressaltar a importância de sua patente de alferes e lhe conferira privativo e adequado aposento, para onde determinara a remoção do único móvel valioso, um grande e tradicional espelho que se encontrava dantes adornando a sala de visitas.
Ah! Aquele espelho traria à tona o que sua mente jamais poderia suspeitar. As duas naturezas de Jacobina: a alma interior e a alma exterior, conforme o caso.
A primeira era a imagem de um mero autômato, de uma figura humana fragmentária, sem contornos definidos: “Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo, não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra.” Quando, porém, o alferes lembrou-se da farda e a vestiu, outra foi a sensação. A imagem se revelava  soberba, completa, cabal,  de contornos bem definidos, de um homem valente e seguro: “o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso: era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior.”  Acho que bem ou mal todos nós pressentimos a existência dessa dualidade. Vivendo necessariamente os nossos papéis sociais (pais, mães, marido, mulher, amigo, inimigo, vizinho, engenheiro, advogado, nacional, estrangeiro, patrão, empregado, etc. etc.) damos vida a nossa alma exterior,  seguindo regras e modelos bem definidos, que não constituem, porém, a nossa essência como seres individuais, únicos na espécie,  com vontades e sentimentos, razão e emoção, juízos de dúvida, em busca de uma coerência inútil e inexistente. Aqui, olhando de fora para dentro, buscando a nossa alma interior, já não há espaço para regras ou interferências. Penetramos no nosso “psique”  mais profundo, seja ele um anjo, uma alma, uma aura, uma natureza humana interior,  ou coisa que o valha, numa operação que comumente se apelida de busca de autoconhecimento. O equilíbrio entre as duas almas, as duas vertentes,  constitui a forma mais salutar de se viver neste mundo, sem enlouquecer. Nem sempre é fácil. Mas na medida em que não temos como evitar essa dualidade, num mundo que nos cobra muitos papéis na diversidade das relações humanas, é aceitável que se apele para as fantasias do personagem ou dos personagens sociais e seus papéis, quando eles alimentam a  auto-estima e nos auxiliam a suportar as nossas perdas e  dramas  existenciais, que a gente enfrenta, ou nega veementemente, como nega a realidade, preferindo substituí-la[1] pela fantasia, pela poesia e sua eficácia redentora[2]. Pela poesia e sua capacidade transformadora. Pela poesia e sua peculiar descrição da realidade sob a perspectiva de quem vê. Sem razão, portanto, o nosso poetinha[3] quando confessa piedade por sua poesia, que reputa bela, porém inútil.[4].  


Até mais amigos,

  
P.S. (1) O conto integra a obra, Papéis Avulsos, 3º livro de contos de Machado, publicado no ano de 1.882. Segundo os estudiosos do escritor e de sua rica literatura, nesse conto, se propõe ele a anunciar uma nova teoria metafísica sobre a alma humana.






[1]  "E me deito, feliz por ter vivido e sofrido em outros que não eu mesmo. Vocês talvez me digam: "Tem certeza de que esta lenda é verdadeira? Que importa o que possa ser a realidade situada fora de  mim, se me ajudou a viver, a sentir que sou e o que sou?" Charles Baudalaire em Pequenos Poemas em Prosa.
[2] “O poeta é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente”  - Fernando Pessoa.  Autopsicografia.
[3]  Apelido que Vinicius de Moraes recebeu de Elis Regina num episódio em que ambos se estranharam por causa de questões financeiras envolvendo o filme Garota de Ipanema.  Vinicius, por seu turno, respondeu atribuindo a Elis, a alcunha de “Pimentinha”, por causa de sua forte personalidade e seu gênio indomável. 
[4]      "Resta essa vontade de chorar diante da beleza. Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido. Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil". Parte do poema O Haver.


domingo, 14 de janeiro de 2018

ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE - BOA ADAPTAÇÃO DO ROMANCE PARA O CINEMA

Boa noite amigos,

Parte dos personagens do filme, em cartaz de divulgação

do longa de Kenneth Branagh.  Imagem emprestada de

http://ovicio.com.br.
Adaptado do romance de 1.934, considerando como a obra-prima da escritora inglesa, AGATHA CHRISTIE, a segunda versão para o cinema[1] de Assassinato no Expresso do Oriente, é uma boa surpresa. O diretor, produtor e protagonista KENNETH BRANAGH (diretor de THOR e especialista em Shakespeare),  investiu pesado na trama e não deve ter se arrependido, pois o filme tem sido sucesso nas bilheterias americanas e estrangeiras, dividindo, porém, como quase sempre acontece, a crítica especializada, entre os que o consideram uma adaptação quase perfeita e aqueles que o reputam mediano. O resultado, segundo meu ponto de vista como cinéfilo inciente, como diria o meu amigo Regis de Morais, é muito bom e agradável de se ver. Numa escala de 0 a 5, merece uma nota quatro com louvor. Tal como no original, a versão cinematográfica resgata o detetive Hercule Poirot, uma das criações da escritora, personagem de vários de seus romances,  que Kenneth encarna com muito talento e  humor. Obra de suspense, traz como linha-mestra um crime de homicídio praticado durante trajeto do famoso trem Expresso Oriente, que o detetive é instado, pelo amigo e coordenador da viagem,  a solucionar, antes que  a polícia seja comunicada do delito. O autor seria um dos passageiros? Um estranho que lograra ingressar na locomotiva durante a noite, praticado o homicídio e depois de evadido? Qual teria sido a motivação do crime?  E assim como no romance, o roteiro também segue acompanhando o tormento do detetive baixinho e cheio de manias,  e as xaradas que vai tentando desvendar, colhendo pistas deixadas no local do crime, a real identidade dos viajantes, o passado de cada um e o envolvimento ou não deles com a vítima. O final é bom e deixa uma interessante brecha para discussão para os amantes e estudiosos do Direito: existe sempre apenas o certo e o errado, dois extremos?
Foto da escritora Agatha Christie   
(1.890/1973). Imagem emprestada de
agathachristiewikia.com.
O elenco de muitos atores consagrados em Hollywood enriquece a trama,  mas nenhum deles, por causa mesmo da condição de meros coadjuvantes, estaria a merecer um troféu pelo desempenho. O destaque maior fica mesmo para a direção de arte e a fotografia esmerada, um colírio para os olhos enquanto o longa se desenvolve, trazendo à tona todo o cenário das colinas e cordilheiras asiáticas e europeias, nos seus mais diferentes momentos (algumas cobertas pela neve), com a utilização da mais moderna tecnologia disponível. Não é imperdível não, mas é um ótimo filme na sua categoria.



Até amanhã amigos.

P.S (1)  Além de Kenneth Branagh, no papel principal do Detetive Poirot, o elenco conta com velhos conhecidos do público brasileiro, como Johnny Depp da série Piratas do Caribe (2.003, 2.006 e 2.007), no papel de Edward Ratchett; Michelle Pfeiffer (Scarface (1.983), Uma Lição de Amor (2.001), incorporando a personagem Caroline Hubbard; Penelope Cruz  (Volver (2.005), Para Roma Com Amor (2.012) como Pilar Estravados;  a atriz inglesa, Lucy Boynton, no papel da Condessa Andrenyr) e o grande ator Willem Dafoe como Gerhard Hardmann. Dafoe, de 62 anos, esteve no Brasil em 2.015, filmando com Maria Fernanda Cândido e Bárbara Paz, Meu Amigo Hindu, último filme do saudoso cineasta argentino, naturalizado brasileiro, Hector Babenco. Aqui deu entrevistas, elogiou as mulheres brasileiras e particularmente a beleza e generosidade de suas colegas de trama Maria Fernanda e Bárbara Paz e encantou seus fãs. Dono de vasta filmografia Dafoe, além de Meu Amigo Hindu (2.015), integrou o elenco, dentre outros, dos filmes O Grande Hotel Budapeste (2.013); A Culpa é das Estrelas (2.014) e já era conhecido como o temível Green Gablin/Norman Osborn (o popular, Coringa) em Homem Aranha (2.002) e Homem Aranha 2 (2.004);

P.S. (2) A escritora, Agatha Christie nasceu em 15 de setembro de 1.890 e morreu em 12 de janeiro de 1.976, aos 85 anos. Seus romances foram traduzidos para mais de 100 idiomas e venderam cerca de quatro bilhões de cópias, um recorde. Só seu conterrâneo William Shakespeare e a Bíblia teriam vendido mais livros que ela, segundo o Guinnes World Records.


P.S. (3) A locomotiva denominada, Orient Express fez  sua primeira viagem em 1.883, ligando Paris a Constantinopla. Em 1.900 passou ao domínio privado e estendeu seu percurso a outros países e localidades.





[1] A primeira versão cinematográfica de ASSASSINATO NO EXPRESSO DO ORIENTE foi lançada em 1.974 com o ator ALBERT FINNEY no papel do detetive belga, HERCULE POIROT.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

CINEMA NACIONAL DE ARTE - O FILME DA MINHA VIDA


Boa noite amigos,
Tony (Johnny Massaro) no cinema, homenagem do diretor
ao cinema de Tornatore e Fellini. Imagem de www.cine-
plaers.

Ao assistir a entrevista com Selton Mello, numa das apresentações do extinto talk show de Jô Soares na Globo, falando do lançamento  de seu terceiro filme como diretor[1], O Filme da Minha Vida,  criei uma expectativa muito positiva em torno do longa, considerado pelo próprio ator como a sua melhor obra, nas entrevistas que antecederam o seu lançamento comercial. Baseado no livro Um Pai de Cinema, um romance apenas mediano do chileno Antonio Skármeta[2], autor da obra-prima, O Carteiro e o Poeta, adaptado para um dos mais belos filmes já produzidos pela sétima arte, o drama se passa na pequena Remanso, localidade da Serra Gaúcha, mostrando a vida pacata e harmônica da família de Tony Terranova (Johnny Massari), filho de um francês e de uma brasileira, que, ao retornar da capital para onde foi concluir seu curso universitário e se tornar professor de francês, não se conforma com o abandono do pai,  Nicolas (Vincent Cassel), que teria, segundo a versão corrente, voltado para a França. Mergulhado em profunda melancolia, em busca de si mesmo, inadaptado ao mundo, como definiu o próprio Mello ao falar sobre seus protagonistas e afirmar que eles revelam um aspecto de sua própria personalidade, o personagem busca entender a reviravolta que sua vida experimentara, ao mesmo tempo em que a memória o remete seguidamente para os fatos marcantes de sua infância.

Imagem emprestada de globofilmes mostra o protagonista

Tony (Johnny Massaro) com a namorada Luna (Bruna -

Linzmeyer).
Agora, Tony divide o seu tempo, dedicando-se aos alunos durante e além das  aulas ministradas em uma escola local; a troca de sentimentos e dúvidas com sua amiga, confidente, depois namorada,  Luna (Bruna Linzmeyer) e a companhia da mãe,  Sofia (Ondina Clais), inconformada e deprimida com o abandono do companheiro. Como parceiro constante de Tony,  Paco (Selton Mello), antigo amigo da família, de visão realista e brutalizada da vida, se preocupa em manter o jovem longe de suas memórias do pai e da infância ao lado dele e de seus sonhos futuros. A crítica se dividiu: parte viu no longa defeitos na direção, criando descompasso entre o roteiro e a narrativa, ao contrário do que se passou com o Palhaço, e outra parcela reputou, ao contrário, que a narrativa foi ajustada à intenção do diretor, ao conferir proposital ritmo lento e arrastado à história, com o objetivo de sugerir um tom reflexivo e especulativo à obra. Em algumas cenas como a que o jovem Tony, mergulhado na sua memória de infância, começa a flutuar, ou naquelas em que ele finalmente entra no cinema para assistir o clássico Rio Vermelho, há clara homenagem de Selton ao cinema de Fellini (8 ½) e de Tornatore (Cinema Paradiso)  e para enfatizar ser o cinema importante elo de ligação entre pai e filho. 
Os personagens Nicolas (Vincent Cassel) e Paco (Selton

Mello) em cena do longa. Imagem emrpestada de www.

cinemacomrapadura.com.

O filme, porém, entre virtudes e defeitos é um bom filme. Um filme delicado que fala de amor, de memória afetiva, das relações humanas mais profundas e que contribui com seu indiscutível valor estético para a retomada do cinema nacional de arte. Todos os críticos e críticas destacam, sem exceção, o excepcional trabalho do elenco, especialmente do protagonista, o pernambucano Johnny Massaro, um dos mais expressivos atores da nova geração, revelado no seriado Malhação, da Rede Globo, e da atriz Ondina Clais, ótima no papel da sofrida Sofia. Também ressaltam a excelência da direção de arte de Carlos Amaral Peixoto, da fotografia magnificamente captada pelas lentes mágicas de Walter Carvalho, dos figurinos de Kika Lopes e da trilha sonora de Plínio Profeta, com canções nacionais e internacionais dos anos 60, escolhidas em função do envolvimento de suas letras e mensagens com as cenas focalizadas e de sua musicalidade para dar alma e retoque ao desenvolvimento do roteiro. Não deixe de ver.


Até mais amigos,

P.S. (1) No embalo de HIER ENCORE ("Ainda ontem", sobre as lembranças de um homem a respeito de seus 20 anos) de Charles Aznavour), a trilha sonora traz ainda Nina Simone (I Put a Spell on You), The Animals (The House Of The Rising Sun), Claude François (Comme d’Habitude, versão original de My Way) e Sérgio Reis (Coração de Papel).


P.S. (2) Mais de 90% dos internautas que se manifestaram sobre o filme nas redes sociais,  gostaram do que viram. Nas bilheterias, pelos dados parciais que foram divulgados, o longa atingiu, de 04 de agosto (data da estreia) a 10 de setembro, 1.282.104 espectadores, o que já o inclui no rol dos filmes nacionais mais vistos no ano passado, devendo ultrapassar ou se igualar ao O Palhaço, que vendeu cerca de 1.500.000 ingressos.  



[1] Os dois primeiros longas dirigidos pelo ator foram Feliz Natal (2.008) e O Palhaço (2.011), ótimas produções do cinema nacional.
[2] Com quem foram pessoalmente discutidos aspectos do roteiro adaptado e que também aparece no filme rapidamente numa cena de bordel.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

GRAMADO - TERCEIRA POSTAGEM - TURISMO DE CHOCOLATE ARTESANAL

Boa noite amigos,

Loja Vip da Florybal, Av. das Hortensias ao lado da Loja

Temática - Estrada Gramado/Canela. Imagem empres-
tada de www.montarumnegocio.com/chocolates de -
gramado-para-revender/
Continuando nossas postagens sobre Gramado, na bela Serra Gaúcha,  o turista, chocólatra ou não, não pode deixar de visitar  as  várias lojas e fábricas de chocolates, uma das mais importantes referências da cidade.
Gramado é conhecida, dentre outras inúmeras atrações, por acomodar o maior número de marcas de chocolates artesanais do Brasil e a mais antiga do país, a Prawer, fundada em 1.975, quando um experiente profissional gaúcho, treinado em Bariloche, na Argentina, deu início à fabricação da primeira linha em forma de barras e ramas. Hoje são muitas as marcas que disputam a simpatia do consumidor, todas de qualidade, variando, porém, os preços. São chocolates que competem, sem dúvida,  com as grandes indústrias nacionais e internacionais.  Uma das sugestões para quem pretende empreender negócio nesta fase difícil da economia, é comprar chocolates de Gramado para revender, por conta própria ou mediante franquia ou, ainda, como representante comercial ou distribuidor. Várias são lojas de fábrica e oferecem aos visitantes visualizar como são feitas as iguarias, com direito à degustação de alguns produtos. Grande parte dessas lojas estão situadas na Avenida Borges de Medeiros, a mais comercial e movimentada da localidade, praticamente uma ao lado da outra, o que facilita a visitação, as compras e as comparações de preços e variedade dos produtos. São chocolates brancos ou pretos, doces ou amargos, em vários teores, chocolates com licores, com frutas secas, com  pimenta, em forma de tabletes, bombons, barras, ramas, trufas, em formas de bichos, bonecos, brinquedos, replicando locais famosos, etc.,  cada vez mais desafiando a criatividade dos talentosos confeiteiros. A Lugano inaugurou em março de 2.015, um Parque Temático denominado Mundo do Chocolate, com 200 peças todas confeccionadas com chocolate maciço, que se distribuem em 3 mil metros quadrados, para o que consumiu 30 toneladas do doce.
Móveis e objetos em chocolate maçico do
Parque Temático Mundo do Chocolate.
Imagem do meu celular.
O Parque está situado na rua Borges de Medeiros, 2497.  Além dessa atração imperdível, segue o roteiro dos principais endereços onde o produto pode ser encontrado em centenas de formas e sabores. As embalagens criativas dão ao chocolate um toque especial, fazendo a festa da criançada e também dos adultos, que costumam comprar o chocolate para consumo ou presentes. Um delicado e gostoso presente, sem dúvida:

CHOCOLATES PRAWER – Tem sido considerada a melhor marca em matéria de qualidade. E também a mais antiga. Os preços acompanham a qualidade.

A)  LOJA DE FÁBRICA – Avenida das Hortênsias, n. 4.100, Av. Central, Estrada Gramado/Canela;
B)   ARMAZÉM PRAWER – Avenida Borges de Medeiros, 2.759, Centro;
C)   RÓTULAS DAS BANDEIRAS – Avenida Borges de Medeiros, 1.050, Planalto.


CHOCOLATES CARACOL.

A)  CARACOL BOUTIQUE – Avenida Borges de Medeiros, 2.935.
B)   RUA COBERTA – Rua Madre Verônica, 30, Loja 1.
C)   LARGO DO BORGES – Avenida Borges de Medeiros, 2727, loja 26.

CHOCOLATES LUGANO.

São mais baratos que os da Caracol e da Prawer, mas, ainda assim, muito bons.
A)  LOJA BOULEVARD – Avenida Borges de Medeiros, 2529, Centro;
B)   LOJA BORGES – Avenida Borges de Medeiros, 2784;
C)   LOJA – Avenida das Hortênsias, 585.

CHOCOLATES FLORYBAL.

     Chocolate bem caseiro, com preços acessíveis.

A)  CONCEITO STORE – Avenida Borges de Medeiros, 2.771, Centro;
B)   LOJA CENTRO GRAMADO – Avenida Borges de Medeiros, Praça do Moinho;
C)   LOJA E FABRICA – CASA DO CHOCOLATE.- Avenida Tristão de Oliveira, 1.200, Floresta;
D)  LOJA VIP – Avenida das Hortênsias ao lado da Loja Temática – Estrada Gramado – Canela.


Até amanhã amigos.











quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CRÔNICA - TEREZA OFICIAL DE JUSTIÇA?

Boa noite amigos,

Escrevi essa crônica agora à noite, recordando-me do episódio e de minha querida e saudosa amiga, Tereza, que continua vivendo alegre como sempre foi, na nossa lembrança e no nosso coração.


Imagem emprestada de Peregrina Cultural Word Press.com.
Conheci Tereza Nascimento Rocha[1] quando ingressei, pela primeira vez, no chamado Páteo dos Leões, o Prédio Central da Universidade Católica de Campinas[2], no final do ano de 1.969, com a finalidade de me inscrever ao vestibular para concorrer a uma das vagas do Curso de Direito. Ali, defronte à Secretaria, estávamos apenas nós dois, com o mesmo objetivo e muitos sonhos. Eu, meninão com 17 anos, e Tereza, com 10 a mais e muitas histórias de uma vida dura e sofrida que ela pretendia deixar para trás. Nascia também uma amizade que duraria uma vida inteira e que se estendeu ao Nivaldo Doro, seu grande companheiro desta vida, e aos filhos, uma das quais, a Paulinha, minha afilhada de batismo. Anos depois de nossa formatura e quando ambos já lecionávamos na mesma faculdade de nossa colação de grau, eu como Professor de Direito Civil e ela docente da cadeira de Direito Penal, Tereza, na sua caminhada de sucesso, estava para realizar um de seus sonhos: o de publicar um livro sobre a área de sua predileção, tanto na advocacia, quanto na docência. Tudo estava sendo preparado com muito capricho para o lançamento editorial em noite de autógrafos. O marido Nivaldo pediu a mim que fizesse o prefácio, tarefa que aceitei com muita honra, dada a nossa intimidade e o carinho recíproco que nos unia. Mas esse prefácio, para garantir maior emoção, haveria de permanecer secreto para a autora até a ocasião do lançamento. E assim se fez. Lembro-me que escrevi um texto emocionado, falando menos das virtudes da obra e mais da mulher que eu conhecera e cuja trajetória na área do Direito se evidenciara independente, corajosa e competente, qualidades que Tereza tinha de sobra. Ao enumerar os vários cargos e funções que Tereza desempenhara, durante o período de estudante e até o início da militância na política e na advocacia, escrevi que ela tinha sido Oficial de Justiça. Tereza tinha sido escrevente da 2ª. Vara Criminal, mas nunca Oficial de Justiça, cargo que quem ocupou foi seu marido Nivaldo. E a coisa ficou assim. Na noite de autógrafos, muitos amigos, alunos, Juízes, Promotores, Delegados e estudantes acorreram à convocação para o lançamento e a autora estava sinceramente emocionada. Filas, abraços, cumprimentos e, de repente, uma das senhoras presentes aproxima-se e à autora assevera: - Eu nunca soube que você tinha sido Oficial de Justiça! Terezona, então,  de pronto, com aquela franqueza e a “boca suja” que lhe era peculiar mandou essa: - Nem eu, o filho da puta do Jamil é que inventou!  O fato é que toda a primeira edição estava pronta e a falsa notícia introduzida no currículo de Tereza permaneceu. Não cheguei a me penitenciar pelo erro que “no conjunto da obra” acabou por se tornar irrelevante. Mas o episódio, a vida inteira, nos meios forenses e acadêmicos e, ainda, entre amigos, foi motivo para boas risadas.  Cada vez que me lembro parece que volta a cara de surpresa, olhos arregalados e indignação da Terezona, me recriminando:  “Esse filho da puta do Jamil é que inventou”.        






[1] Com o casamento Tereza acresceu ao seu nome o patronímico do marido Nivaldo e passou a ser citada, com mais frequência, pelo nome abreviado: Tereza Doro.
[2] Naquela época a Universidade de Campinas ainda não havia obtido o título de Pontifícia.