terça-feira, 12 de junho de 2018

MORRE ZÉ CARLOS, O VOLANTE CAMPEÃO BRASILEIRO DE 1978 E O MEIA DO CRUZEIRO DA LIBERTADORES

Boa noite amigos,
O volante Zé Carlos, no Guarani campeão
brasileiro de 1.978. Foto de galeria.
Soube, agora à tarde,  do falecimento do jogador Zé Carlos, o inesquecível volante do Guarani Futebol Clube, campeão brasileiro de 1.978. Aos 73 anos, o atleta sofria de problemas de saúde desde que foi acometido por um acidente vascular cerebral e vivia atualmente em Contagem, nas Minas Gerais. No Cruzeiro, clube onde jogou por 12 anos e que o projetou para o futebol brasileiro e mundial, sua posição era de meia. Destaque em grandes times montados pela  Raposa, foi o segundo jogador que mais jogou pelo Cruzeiro em todos os tempos. Foram 619 jogos, perdendo apenas para o goleiro Fábio, que recentemente superou a casa dos 700. Pelo clube celeste ganhou a Taça Brasil, torneio que equivalia ao Brasileirão atual, foi campeão da Libertadores e nove vezes campeão mineiro. Aos 32 anos, em 1.977, por um ato de esperteza da Diretoria do Guarani, veio para o Bugre, que venceu a competição com grandes equipes do futebol brasileiro, que já haviam avançado nas negociações com o clube mineiro para trazê-lo e acabaram frustrados. Prevaleceram, além do assedio da Diretoria,  a predileção do jogador por Campinas, uma cidade do interior de São Paulo que, à época, oferecia condições de vida mais tranquila e segura, era dotada de recursos de primeiro mundo, e se situava em posição geográfica privilegiada em relação à Capital do Estado. E, ainda, a amizade com o técnico recém-contratado, Carlos Alberto Silva, igualmente mineiro de nascimento e coração.  Zé Carlos veio para suprir a lacuna deixada por Flamarion, o último volante do Bugre, ídolo do clube e da torcida. E o experiente atleta caiu como luva, num time de jovens talentos e que lograria o título inédito do campeonato brasileiro de 1.978, encantando o Brasil e o Mundo, com um futebol objetivo, ofensivo e de arte, onde despontavam os laterais Mauro e Miranda, os meias Zenon e Renato, e principalmente um menino de 17 anos, Careca, que iria fazer grande carreira no Brasil e no exterior e seria o nosso centroavante na Copa de 1.986.  Zé Carlos jogou com a camisa 5, na posição de volante. Um volante de futebol eficiente e refinado e que comandava a equipe com a sua experiência, ora cadenciando, ora fazendo lançamentos

Zé Carlos logo após o AVC que determinou o encerramento
de sua carreira no futebol, como técnico e olheiro que foi
tanto de Guarani, quanto do Cruzeiro, clubes que defen-
deu como atleta exemplar, na mocidade.

primorosos, cobrando faltas, criando jogadas para os atacantes e, sobretudo, dando segurança e proteção à defesa, cujos laterais tinham liberdade para apoiar o ataque. Um amigo que, certo dia, assistia comigo a uma das partidas daquela equipe bugrina no Brinco do Ouro, encantado com o futebol do volante, afirmou literalmente que a bola “gostava do Zé”, estava sempre ali, no seu pé, ou aos seus pés. E eu, fingindo entender bastante do assunto, lhe garanti que era Zé Carlos que tinha um sentido de posicionamento no campo de jogo, que lhe permitia receber qualquer bola: a que vinha na cobrança de longo tiro de meta, a segunda bola rebatida pela defesa, e assim por diante. Foram de seus pés, de sua visão de jogo, de sua liderança, de sua competência ofensiva e defensiva, que aquela jovem equipe pode superar todos os obstáculos, chegando ao título do campeonato. Era ele quem dava o equilíbrio entre os departamentos do time.  Por isso sempre afirmei que Zé Carlos estava para aquele Guarani campeão de 1978, como Ademir da Guia estava para o Palmeiras da Academia. Sem qualquer exagero. O tempo passou. Agora se foi. A história, porém, de seu futebol invejável, vigoroso e vitorioso, o seu futebol de talento e competição, deixou saudades e alegria na memória de torcedores e de todos quantos apreciam o esporte mais popular do Brasil. Descanse em paz, Zé. Tive muito prazer nesta vida de vê-lo em campo tratando sua majestade, a bola, com carinho, cuidado e respeito. Obrigado por tudo.

domingo, 13 de maio de 2018

MÃES......


AMIGOS,
UM POEMA ESCRITO AGORA DE MANHÃ.

Imagem emprestada de Calle 2.com.br
MÃES.

Mães há,
De um, de vários, de todos.
Mãe que pariu,
Mãe que criou,
Que assistiu,  que renunciou.


Há  mães pretas, brancas, mães de leite, mães-rainhas,
Mãe do mato, Mãe do ar, do mar, do céu.
Mães comuns e marginais,
Adotivas, adotadas, sagradas e profanas.





Mães com Deus, Mães sem  Deus.
Mãe-pai, pai-mãe, mãe-homem, homem-mãe, mãe de gênero, mãe sem gênero,
Gênero de mãe.


Conheci
Mães que morreram, mães que mataram.
Mãe universo, mãe do universo, universo de mães, de mãe.
Fecundas e estéreis,
Mãe da filha, filha da mãe.
Mãe pobre, mãe rica, miserável.


Superficiais e profundas,
Preocupadas e preocupantes
Mães fortes,  frágeis, suaves e agressivas,
Absorventes e absorvidas,
Mãe que explica, que entende, que não entende, que justifica,
Mãe que entrega, que não entrega, que mente,
Mães que sonham, que elevam, que machucam.

Mãe loucura, loucura de mãe,
Mãe que é cega, instruída, analfabeta.
Mãe que protege, que inspira, que encaminha,  que advoga,

Doente, carente, forte, frágil, bendita e maldita,
Mãe que acolhe, que aquece, que ignora, que lamenta, que sublima, que abandona.

Mãe-origem, começo, fundamento,
Mãe-conceito, pleno, indescritível, intangível, imensurável,
Condição síntese do incondicional amor,
Um Amor incondicional,  conquanto controverso,
Como as várias  formas de amor de  todas as múltiplas mães do mundo.


Bom domingo amigos.





domingo, 6 de maio de 2018

SOBRE O DERBY (OU DÉRBI) CAMPINEIRO DO PASSADO E DE ONTEM.

Boa noite amigos,

André Luis, atacante da Ponte Preta, comemorando o gol
da virada sobre o Guarani, no derbi de ontem disputado no

Estádio Brinco de Ouro da Princesa. Imagem emprestada

de Jovem Pan Uol.
                                                              Aconteceu ontem o 191º derbi entre Guarani e Ponte Preta, considerado o mais importante clássico do interior do Brasil. E também o mais antigo do Estado de São Paulo. O palco o Brinco de Ouro da Princesa, estádio do Bugre. O encontro não acontecia desde 2.013, por causa da diferença entre as divisões em que as equipes atuavam, tanto no campeonato paulista, quanto no Brasileiro.

Essa história começou em 24 de março de 1.912, quando as equipes se enfrentaram pela primeira vez e o resultado é desconhecido até hoje.  Das 191 partidas entre os clubes constata-se o equilíbrio existente: foram 66 vitórias do Guarani, 62 vitórias da Ponte e 62 empates. O Bugre marcou 261 gols e a Ponte 255, incluídos os anotados ontem na vitória da Macaca por 3 a 2;

Cada uma das equipes venceu na casa do adversário os primeiros dérbis disputados nos estádios atuais dos clubes. Em 26 de setembro de 1.948 o Bugre venceu a Macaca por 1 a 0 no Estádio Moisés Lucarelli. E a Ponte fez 3 a 0 sobre o Guarani em 07 de junho de 1.953 no então recém-inaugurado Brinco de Ouro da Princesa;

O lateral esquerdo Odirlei, da famosa equipe

da Ponte Preta, vice-campeã paulista de -

1.981, que fez o gol de desempate no derbi
que decidiu o Primeiro Turno do Campeo-
nato Paulista de 1.981.
O jogo considerado o mais importante entre as equipes aconteceu em 05 de agosto de 1.981, no Estádio Moisés Lucarelli, valendo como final do 1º turno do Campeonato Paulista daquele ano. A Macaca venceu por 3 a 2 e foi para a final do campeonato contra o São Paulo, ficando com o vice-campeonato. Os gols da  Ponte foram anotados por Osvaldo, Serginho e Odirlei, enquanto Ângelo e Jorge Mendonça descontaram para o Bugre;


O único derbi fora de Campinas foi disputado no Estádio do Pacaembu em São Paulo no dia 03 de junho de 1.979. O mando era da Federação Paulista e nenhuma das duas equipes aceitava jogar no campo do outro. Curiosamente, disputado na Capital, registrou o recorde de público no clássico, que reunia na ocasião as duas excelentes equipes, consideradas entre as melhores do Brasil: 38.900 pagantes.  2 a 0 para o Bugre foi o resultado, com gols de Zenon e Capitão.


Zenon à esquerda e Careca à direita, campeões bra-

sileiros pelo Guarani em 1.978. Zenon fez um dos gols

do Derbi disputado no Pacaembu para 38.900 torce-
dores, vencido pelo Bugre pelo placar de 2 a 0.
SOBRE O DERBI DE ONTEM.


Desde que a Confederação Brasileira de Futebol divulgou a tabela do campeonato brasileiro da série B, marcando o primeiro dérbi, depois de cinco anos de ausência do principal clássico do interior do Brasil,  para o Estádio Brinco de Ouro, logo na 4ª. rodada, bugrinos e pontepretanos passaram a alimentar grande expectativa de como seria esse espetáculo, sobretudo porque as equipes estavam hoje muito modificadas em relação ao passado. E enquanto a Macaca vinha em queda, depois de um ressentido rebaixamento da série A do Brasileiro,  onde permanecera por vários anos, disputando e quase conquistando o Campeonato Sul-Americano, dispensando vários jogadores e apostando na formação de uma equipe renovada, sob orientação do experiente técnico Doriva, o Guarani parecia ressurgir das cinzas, mantendo-se na série B do Brasileiro, a duras penas no ano passado, mas conquistando o seu retorno para a serie A do Paulistão, com a melhor equipe que havia conseguido formar nos últimos anos. Jogando em seu estádio, contando mais uma vez  com o apoio maciço dos torcedores (foram 18.078, recorde de público em Campinas no ano) e o entusiasmo de dirigentes, comissão técnica e jogadores, com 10 dias de folga para descansar, treinar e preparar os seus atletas para o clássico, enquanto o adversário vinha de duas derrotas em casa, uma pela série B contra o Londrina,  outra pela Copa do Brasil contra o Flamengo, embora ninguém assegurasse, havia sim uma ponta de favoritismo em favor do Bugre. Mas os mais escolados sabiam que “derbi é derbi” e não há favoritismo que resista às peculiaridades únicas desse tipo de disputa. Mas vamos ao jogo. A Ponte não se intimidou em qualquer momento com a presença da torcida, que fez uma grande festa nas arquibancadas para recepcionar o dono da casa e incentivá-lo a partir para o ataque, nem mesmo quando logo aos 15 minutos de jogo, sofreu o primeiro gol, contra de Danilo. Marcando firme desde o início, com garra e velocidade, a Macaca se impôs no meio de campo, anulando o bom entrosamento entre os atacantes do Bugre, especialmente com marcação serrada sobre Bruno Nazário e Bruno Mendes. Com isso forçou os erros de passe e as jogadas de contra-ataque, realizadas em alta velocidade pela dupla Danilo Barcelos e André Luis, este, sem dúvida, o melhor jogador do clássico, também, mas não só por ter marcado dois dos três gols da Macaca. Com maior posse de bola o Guarani não conseguiu traduzir essa vantagem em efetividade, quer no número de gols, quer nas chances reais ou chutes a gol. Foram no final 11 da Ponte contra 09 do Bugre. Nos 95 minutos de jogo era nítida a maior raça dos pontepretanos, que se traduzia em roubadas de bola, velocidade e acerto dos passes, sempre com objetividade e jogando em verticalidade, ao contrário do adversário, muitas vezes lento e sentindo dificuldades para criar jogadas, a maior parte anuladas pela boa marcação realizada. Vários jogadores bugrinos estiveram abaixo das condições em que vinham jogando, entre os quais, o volante Baraka, Erik, Bruno Mendes e Bruno Nazário e especialmente o lateral Marcílio, o pior em campo, ausente no ataque e deficiente na defesa. Sua escalação era duvidosa e se suspeita, inclusive, que não estivesse em perfeitas condições para entrar num jogo dessa importância.  Em resumo, a vitória por 3 a 2 foi justa e premiou a equipe que, no campo de jogo,  demonstrou mais humildade, maturidade e raça para enfrentar o adversário na casa deste, supostamente mais entrosado e favorecido por diversos fatores que,  como se sabe, desaparecem quando o árbitro apita o início do jogo. Para o Guarani e seu jovem técnico resta assimilar o resultado e as lições extraídas dessa partida, diferenciada pelo seu caráter de clássico e de intensa rivalidade local, já pensando, porém,  na continuidade do campeonato, que é longo e difícil. E à Ponte, igualmente, preparar-se para mais uma missão difícil: encarar o Flamengo, já na 5ª. feira, no Maracanã,  pela partida de volta da Copa do Brasil.


Até mais amigos.

P.S. (1) O melhor jogador da partida no dérbi de ontem, o atacante (ponta direita) André Luis, tem apenas 21 anos, é mineiro e veio do Cianorte, tendo disputado o campeonato paranaense neste ano. No ano passado jogou pelo Santa Cruz pelo campeonato brasileiro da série B  e foi rebaixado com a equipe pernambucana. Canhoto, veloz, habilidoso, recentemente contratado pela Ponte Preta, promete ser um grande reforço para a Macaca na disputa do longo campeonato. 

P.S. (2) Careca e João Paulo estavam ontem nas Vitalícias do Estádio Brinco de Ouro torcendo e sofrendo pelo Guarani, cuja história enriqueceram no passado. O centroavante que chegou à Seleção Brasileira é um dos mais importantes jogadores na história do Bugre. No campeonato brasileiro de 1.978, encantou a torcida e dirigentes fazendo os dois gols da vitória do Bugre contra a Ponte, no Brinco de Ouro e conquistando, junto com os atletas daquele time inesquecível o título de campeão. Ambos (Careca e João Paulo) estavam em campo na decisão do Campeonato Brasileiro de 1986, entre Guarani e São Paulo, igualmente disputado no Estádio Brinco de Ouro. Mas em lado opostos. Enquanto João Paulo, um ponta esquerda de velocidade, atormentava a defesa de seus adversários, com seus dribles infernais e precisos, Careca era o centroavante da equipe da Capital. O jogo acabou empatado em 3 a 3 e a decisão foi para as penalidades. Mais feliz, o São Paulo sagrou-se campeão nos pênaltis, frustrando a torcida que esperava o bicampeonato brasileiro, um feito que seria inimaginável, mas era merecido. O Bugre fez 53 pontos no campeonato, enquanto o São Paulo tinha conquistado 48. Não se cogitava, porém, do campeonato de pontos corridos, naquela ocasião;

P.S. (3) O jogo entre Guarani e São Paulo  pelo campeonato de 1.986 foi marcado por outras curiosidades envolvendo os dois jogadores, hoje grandes amigos aqui em Campinas, onde residem. A partida estava 3 a 2 para o Guarani quando numa das arrancadas mágicas, João Paulo ganhou do lateral e sofreu pênalti claro. O árbitro José de Assis Aragão, porém, não assinalou a penalidade, favorecendo a equipe paulistana. Quando faltavam apenas dois minutos para o final, Careca, fez o gol de empate e a partida, uma vez encerrada, foi para as penalidades, vencida, como se disse, pelo tricolor do Morumbi. O famoso comentarista Milton Neves, da Jovem Pan e TV Bandeirantes até hoje garante que esse foi o pênalti mais claro que ele já viu. Coisas do futebol!

sábado, 21 de abril de 2018

MORRE NO RIO, NELSON PEREIRA DOS SANTOS, UM DOS NOSSOS MAIS IMPORTANTES CINEASTAS E INTELECTUAIS

Boa noite amigos,

Nelson Pereira dos Santos em fotografia recente. Imagem

emprestada de Jornal do Comércio Uol.com.
O Brasil perde hoje, perdemos todos nós hoje, amantes da cultura e da arte, uma grande personalidade, um dos nossos mais expressivos e importantes cineastas. Aos 89 anos, Nelson Pereira dos Santos faleceu no Rio de Janeiro, deixando um legado extremamente relevante para o cinema nacional, que ele amou desde a infância, quando acompanhava os pais em sessões de cinema e já se interessava pela magia da sétima arte. O nome de Nelson está ligado inexoravelmente ao cinema novo, como um de seus precursores. Estudioso e dedicado, Nelson, a exemplo dos artistas liberais deste país, e como outros de sua geração, teve seu trabalho muitas vezes interrompido e censurado pela ditadura militar.
Subsistiu, porém, íntegro e integral a ela, nos legando preciosidades como Rio Quarenta Graus (1.955), Rio Zona Norte (1.957), Como Era Gostoso o Meu Francês (1971), Vidas Secas (1963), Tenda dos Milagres (1.977) e Memórias do Cárcere (1.984),  este baseado na obra homônima do grande Graciliano Ramos, sem dúvida  a sua obra-prima. Lembro perfeitamente como o filme me impressionou na minha mocidade, quando o cinema era até então, para mim,   um  mero e descompromissado meio de entretenimento apenas. 

Arduino Colassanti e Ana Maria Magalhães, nos papéis do

francês e da índia, protagonistas do excelente Como Era
Gostoso o Meu Francês, uim dos bons filmes do cineasta.
Acho que esse filme foi um marco na minha vida, mudando completamente a minha visão de cinema e especialmente do cinema intenso, engajado, comprometido com a nossa história, cultura e  literatura e as discussões políticas relevantes do país. Aos meus amigos mais jovens, de uma geração que não conheceu a obra de Nelson, quero dizer que se trata de um intelectual da mais alta expressão para a nossa cultura e a nossa memória. Imortal pela Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que, no passado, foi do nosso poeta Castro Alves, Nelson Pereira dos Santos ainda assinou, antes de nos deixar, uma verdadeira relíquia, qual seja, o delicado filme A Música segundo Tom Jobim (2.012), uma das cinebiografias de outro monstro sagrado que ele tanto admirava: o Maestro, Músico e compositor, Antonio Carlos Jobim

Cartaz de promoção publicitária do filme

Memória do Cárcere, obra-prima do-
cineasta, baseada no livro de Graci-
liano Ramos.
Ave Nelson! Sua morte não nos retira, antes reafirma, a expectativa de que sua obra continue  a inspirar  as novas gerações de cineastas a pensar e realizar  um cinema verdadeiramente comprometido com a realidade dura e crua de nossa sociedade e com a altivez de um povo que aprendeu e aprende, nos revezes por que passa, a descobrir a sensível necessidade de se envolver politicamente  para manter viva a chama da esperança de que tenhamos, um dia qualquer no futuro, uma sociedade minimamente ética, justa e solidária.


Até amanhã amigos.


P.S. (1) O ator Carlos Vereza foi o protagonista do filme Memórias do Cárcere, vivendo, no cinema, Guimarães Rosa, preso durante 10 meses no Presídio da Ilha Grande,  sob a acusação infundada de que era comunista. O livro, que ficou inacabado pois Rosa morreu antes de conclui-lo é uma denúncia das condições daquele presídio e do despotismo da ditadura Vargas;

P.S. (2)   O filme está entre os nacionais que levaram aos cinemas mais de um milhão de espectadores. Com um elenco vasto e de qualidade, entre eles a ótima Glória Pires, vivendo na tela a mulher de Guimarães,  o longa tem 185 minutos de duração.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

A MORTE - CRENÇAS E RITUAIS DAS RAÇAS ANTIGAS E A PÓS MODERNIDADE

Boa noite amigos,


Caveirinhas de açucar - Dia dos Mortos no México. 
Imagem emprestada de Galeria de Fotos Windows
Ontem falamos sobre a animação Coco (Viva: A Vida é uma Festa), baseada na cultura mexicana e nos festejos tradicionais do Dia de los Muertos. A morte e a existência ou não de outra vida para além da terrena, sempre constituíram, para todas as gerações, um mistério, que cada civilização resolvia à sua maneira e segundo suas crenças. No livro A CIDADE ANTIGA, um clássico do historiógrafo Fustel de Coulanges,  pequenos trechos que destaquei, nos dão ideia de que é muito antiga a crença de que os mortos vivem uma segunda vida debaixo da terra, próximos de seus amigos e familiares, e conservam corpo e alma, pelo que precisam, além dos rituais, das mesmas necessidades dos vivos e da lembrança permanente de seus familiares para não desaparecer de vez, como se viu na bela animação, fiel à tradição mexicana.

Vamos lá para conferir:


Katrina - personagem que representa a morte na cultura
mexicana. Imagem emprestada de Galeria de Fotos
Windows.
Por muito que remontemos na história da raça indo-européia, de que as populações gregas e itálicas descendem, notamos não ter esta raça acreditado que tudo se acabasse com a morte, para o homem, depois desta curta vida. As mais antigas gerações, muito antes ainda de existirem filósofos, acreditam já em uma segunda existência passada para além desta nossa vida terrena. Encaravam a morte, não como decomposição do ser, mas como simples mudança de vida.”  (p. 7)[1]

O Paraíso acima das nuvens habitado por deuses
e pelos mortos que o merecessem só foi conce-
bido lá no alto, acima das nuvens, pela civi-
lização grega.  Caricatura emprestada de Can  Stock
Photos.com.

“Desta crença primitiva surgiu para o homem a necessidade de uma sepultura. Para a alma se fixar na morada subterrânea destinada a esta segunda vida, impõe-se, igualmente, que o corpo, ao qual a alma está ligada, seja coberto de terra. A alma que não tivesse o seu túmulo não teria morada. Era errante.”  (p. 9/10)

“Havia troca perpétua de bons serviços entre os vivos  e os mortos de cada família. O antepassado recebia de seus descendentes a série de refeições fúnebres, únicos prazeres usufruídos na sua segunda vida. O descendente alcançava do seu antepassado o auxílio e toda a força de que necessitava. O vivo não podia passar sem o morto, nem este sem aquele. Por este motivo, poderoso laço se estabelecia unindo todas as gerações de uma mesma família, fazendo dela um corpo eternamente inseparável.  Cada família tinha o seu túmulo, onde os seus mortos repousavam juntos, um após outro. Todos os do mesmo sangue deviam ser enterrados ali, com exclusão de toda e qualquer pessoa de outra família. Ali se celebravam as cerimônias e se festejavam os aniversários. Cada família julgava ter ali os seus sagrados antepassados. Em tempos muito antigos, o túmulo estava no próprio seio da família, no centro da casa, não longe da porta, “a fim de que” cita um antigo, “os filhos, tanto ao entrar como ao sair de sua casa, encontrem sempre a seus pais, e, de que cada vez que o façam, lhes dirijam uma invocação.” (p. 30/31).

Caricatura - A Morte Pede Carona. Imagem emprestada
de Depositphotos.com.
Nenhuma religião, nenhuma seita, nenhum culto acredita hoje que o corpo continuaria vivo e encerrado junto com a alma, quando a pessoa morre. No mesmo sentido, pode-se afirmar quanto à suposição da existência de  uma segunda vida, debaixo da terra, dentro da sepultura, assim como que os mortos teriam necessidade de alimentação e bebida para continuarem a existir ali, próximos de seus entes queridos. Apesar disso, continuamos a reproduzir os rituais e os costumes dessas raças antigas, sem que tenhamos consciência de seu significado e muito menos da razão pela qual agimos assim. Alguém já se perguntou por que enterramos nossos mortos? Já nos demos conta de que precisamos fazê-lo numa sepultura? Que essa sepultura recebe, em regra, as pessoas de uma mesma família, excluindo outros? Por que razão os corpos são colocados em um caixão que é fechado e depois enterrado? Essa prática, convenhamos, só tem sentido se acreditarmos, como eles, que é nessa sepultura, debaixo da terra, que o morto passará a viver uma segunda vida. E se não chegamos a levar alimentos e bebida para o cemitério, muitos costumam enterrar com os seus entes queridos, um ou mais objetos que o defunto gostava, usava ou precisava durante a vida.

Curioso, não?

Até mais amigos,













[1] CIDADE ANTIGA, FUSTEL DE COULANGES, Tradução de Fernando de Aguiar, 4ª. edição, 2ª. tiragem, 2.000:  São Paulo,  Editora Martins Fontes.

domingo, 15 de abril de 2018

CINEMA E CULTURA: VIVA: A VIDA É UMA FESTA

Boa noite amigos,

Imagem do filme retratando um dos momentos de Miguel,
o Protagonista, em sua viagem para o mundo dos Mortos.

A animação computadorizada norte-americana COCO, que no Brasil foi batizada de VIVA: A VIDA É UMA FESTA é mais uma produção bem sucedida da parceria PIXAR ANIMATION STUDIOS e WALT DISNEY STUDIOS MOTION PICTURES. Fruto de longa pesquisa dos diretores e roteiristas Lee Unkrich (Toy Story 3) e Adrian Molina, que se debruçaram durante três anos  sobre a cultura mexicana e as peculiaridades e tradições de sua comemoração ao famoso Dia dos Mortos, e, unindo temas sensíveis como família, amor, memória e música, o resultado final é surpreendente, capaz de sensibilizar pessoas de todas as idades. No roteiro, o protagonista,  Miguel, um menino de 12 anos apaixonado por música e instrumentos musicais, tenta entender e escapar da família, que não aceita e o proíbe de se dedicar à sua vocação. Inconformado, ocasionalmente acaba atravessando a ponte que o leva do mundo dos vivos,  ao mundo dos mortos, no dia de comemoração a estes. 
Cena do filme Coco (Viva: A Vida é uma Festa. Sucesso de
crítica e de bilheterias. Merecidamente.
No mundo do além, é preso, mas foge buscando encontrar seu tataravô, que os parentes vivos riscaram da memória e dos cultos, sob alegação de que teria ele optado, em vida, pela carreira de músico e cantor, abandonando mulher e filha, ainda pequena.  A trilha sonora é tocante com as canções compostas por Michael Giacchino,  com destaque para as várias versões e interpretações do clássico “Lembre de Mim”, em português e espanhol (no original em inglês e espanhol). Na era da tecnologia digital, que, sem dúvida, facilita e  beneficia o gênero, rico de  boas produções como Rio e Rio 2, o filme é  uma preciosidade,  misturando cores, vinhetas, imagens, num roteiro interessante e enredo respeitoso, logrando a difícil tarefa de, sem deturpar  costumes e tradições,  verdadeiramente emocionar os espectadores. Não deixe de ver.

Até mais amigos,

Foto do meu celular tirada em 
outubro de 2.017, no Epcot Center
em Orlando, Flórida, Estados -
Unidos: adereços retratando
a festa e personagens do
Dia dos Muertos no México.

P.S. (1) Lembre de Mim, na versão nacional do filme, é cantada por Arthur Salerno e Maria do Carmo Soares. A versão é da tradicional  canção mexicana, Recuerdame (em inglês, Remember Me). Rogério Flausino também interpreta a canção e todos esses vídeos estão disponíveis no youtube.

P.S. (2) No México, a festa do chamado Dia de Muertos é, ao contrário do que acontece no Brasil, uma data extremamente festiva, uma das maiores comemorações do país,  que começa no dia 31 de outubro e termina na noite do dia 02 de novembro, embora possa ser esticada até os dia 3 e 4;
P.S. (3) As almas, segundo a cultura mexicana, vão para um lugar melhor e a morte faz parte da vida e não deve ser lamentada, senão celebrada. Antigamente os mortos eram enterrados no terreno onde ficava a residência da família, como uma maneira de conservá-lo próximo  e de demonstrar proteção e carinho. Hoje tal tradição não é mais possível. Nem por isso os sentimentos deixam de ser manifestados. E de forma alegre e positiva. No dia dos mortos, as famílias se dirigem ao cemitério, num ritual luminoso e festivo, levando as coisas que o morto gostava em vida, especialmente comidas e objetos. Lá cantam, dançam e muitos desenterram e limpam os ossos do defunto estimado, como forma de demonstração de carinho. 
Caveira fotografada pelo meu

celular na ala referente aos paí
ses (México) do Epcot Center. 
Referência em destaque ao
Dia dos Muertos. 

P.S. (4) Visita que não pode deixar de ser feita, quando se vai a Orlando, nos Estados Unidos: No Epcot Center, na parte destinada aos países, você deve entrar na ala mexicana. Ali você faz uma viagem encantadora, de barco, por réplicas de lugares do país e suas tradições. Algo que ficou na minha memória foi o fato de que lá, apenas lá, me encontrei com o Zé Carioca, o personagem brasileiro de Walt Disney, totalmente ignorado em todos os pontos dos parques de Orlando. No mundo mexicano retratado no Epcot americano, além da aprazível viagem pela noite enluarada, você pode adquirir muitos produtos relacionados com o famoso Dia dos Muertos. Alguns eu fotografei.


quinta-feira, 29 de março de 2018

MAIS UMA DECISÃO POR PENALIDADES - E O CORINTHIANS ESTÁ NA FINAL DO PAULISTÃO 2018


Boa noite amigos,

O jovem meia Liziero, de 20 anos,  promessa do São Paulo

fez um grande jogo, mas acabou perdendo a penalidade que
levou o Corinthians para a final do Paulista. Imagem em-
prestada de SAF Conline. 
Terminou agora há pouco o segundo jogo da semifinal do campeonato paulista envolvendo São Paulo e Corinthians. E a exemplo da outra semifinal, que aconteceu entre Santos e Palmeiras, também nesse confronto houve decisão nas penalidades máximas. O tricolor do Morumbi venceu o primeiro jogo pelo placar de 1 a 0 e foi para a segunda partida precisando apenas do empate. A partida, realizada na Arena de Itaquera, casa do Timão, foi toda em ritmo intenso, com dedicação máxima dos 22 jogadores que entraram em campo, mais os seis substitutos. Com recuo estratégico e raras estocadas, especialmente no segundo tempo, o São Paulo soube segurar o ímpeto do dono da casa, que necessitava da vitória, ao menos por um gol de diferença, para levar a decisão para as penalidades. A defesa tricolor, criticada em outros tempos, hoje foi soberana em evitar que os atacantes corintianos chegassem, com efetividade, à meta do goleiro Cidão. O Corinthians, sem um centroavante de referência, abusou dos cruzamentos para a área, praticamente todos afastados pela zaga tricolor. O jogo se arrastou até os 45 minutos do segundo tempo num 0 a 0 que classificava o São Paulo e eliminava o rival. E esse resultado parecia mesmo definitivo até que o improvável aconteceu. Em cobrança de escanteio, já aos 47 minutos, dois da prorrogação dos cinco  estabelecidos pelo árbitro, Rodriguinho, que jogou no sacrifício por não estar curado completamente de lesão muscular,   subiu sozinho, e, com consciência, cabeceou  para o chão, fora de alcance de Cidão. E  a bola foi morrer no canto esquerdo da meta são-paulina: 1 a 0 para o Coringão com direito a delírio de mais de 47 mil  corintianos presentes no estádio, em renda recorde neste campeonato paulista.    Na cobrança de penalidades, 4 a 4, com 1 pênalti defendido por cada lado. Diego Souza  viu, como numa reprise de 2.012 quando jogava pelo Vasco da Gama pela Libertadores, o goleiro Cássio defender a sua cobrança. Pelo lado do Timão, Rodriguinho, o herói da partida, quase se transforma em vilão ao perder penalidade defendida pelo goleiro.  Mas já nas cobranças alternadas o jovem e promissor Liziero, que foi um dos melhores jogadores da partida,  também não marcou. A bola, tocada pelo goleiro Cássio, bateu caprichosamente na trave esquerda e saiu.  E o Corinthians está na final com o Palmeiras. Uma final inédita neste século, assim como há muito tempo não ocorria uma semifinal entre os quatro grandes de São Paulo. A lógica indica que o Palmeiras deverá ser o campeão, pois é hoje o melhor time do Brasil pelo plantel ou elenco que possui. Mas alguém afiançaria isso num clássico dessa tradição? Neste mesmo campeonato o Verdão, favoritíssimo, perdeu para o mesmo adversário pelo placar de 2 a 0.  Melhor mesmo é esperar por dois grandes jogos e aguardar o que os deuses do estádio reservam para corintianos e palmeirenses no outono de 2.018. 

Até mais amigos.

P.S. (1) Os campeões e vices do Campeonato Paulista neste século foram os seguintes:
2.000 -  São Paulo (campeão)      Santos (vice);
2.001 – Corinthians (campeão)  Botafogo (vice);
2.002 – Ituano (campeão)   União São João de Araras (vice). Neste ano os grandes, mais Ponte Preta e Guarani não disputaram o campeonato por estarem, na mesma ocasião, disputando o extinto torneio Rio-São Paulo;
2.003 – Coritinhians (campeão)  São Paulo (vice);
2.004 – São Cetano  (campeão) e Paulista de Jundiaí (vice);
2.005 – São Paulo (campeão)   Corinthians (vice);
2.006  - Santos (campeão)    São Paulo (vice);
2.007 – Santos (campeão)     São Caetano (vice);
2.008 – Palmeiras (campeão)  Ponte Preta (vice);
2.009 – Corinthians (campeão)  Santos (vice);
2.010 -  Santos (campeão)    Santo André (vice);
2.011 -  Santos (campeão)   Corinthians (vice);
2.012  - Santos (campeão)    Guarani (vice);
2.013 -  Corinthians (campeão)    Santos (vice)
2.014  -  Ituano (campeão)   Santos (vice);
2.015 -  Santos (campeão)    Palmeiras (vi ce);
2.016 – Santos (campeão)    Audax (vice);
2.017 – Corinthians (campeão)   Ponte Preta (vice).