domingo, 23 de outubro de 2016

"VIAJANDO" SOBRE DETERMINISMOS E LIVRES ARBÍTRIOS.

Meus caros,

Pintura retratando com fidelidade e competência 
o filósofo e escritor espanhol, Ortega y Gasset.-
Imagem emprestada de www.viagemlenta.com.
Outro dia,  numa das minhas viagens mentais pelo passado, me lembrei de uma afirmação do penalista ANÍBAL BRUNO, o qual, discorrendo sobre o fundamento da sanção penal  considerava ser bastante para justificá-la a “ilusão do livre arbítrio”. E há de se convir que a explicação é conveniente, "quebra todos os galhos" e não entra em seara filosófica nenhuma. Certamente,  o dogma resolve a questão do ponto de vista operacional, pois a convivência em sociedade exige de cada cidadão a abstenção da prática de atos que ofendam a honra, a dignidade, a indenidade e o patrimônio de cada um dos integrantes daquela coletividade, vendo-se, na transgressão, culpabilidade para punir o agente, baseada na crença da possibilidade de conduta diversa[1]. Filosoficamente, no entanto, a polêmica continua e não há mais quem possa sustentar a ocorrência cem por cento, de cada uma das vetustas teorias, a dirigir ou presidir a vida humana. Não pedimos para nascer e não temos como evitar a morte, cedo ou tarde. Sobre esses dois extremos da vida humana, não temos qualquer livre arbítrio. Em todas as situações em que circunstâncias subjetivas ou objetivas, excluem a chamada conduta diversa, o livre arbítrio fica igualmente excluído ou comprometido, assim como a Ética fundada numa moral que supõe fundamentalmente escolha entre duas ou mais condutas.  O “sou eu e minha circunstância” do grande filósofo espanhol Ortega y Gasset ilustra o feixe de condicionantes de ordem subjetiva e objetiva, interferindo no comportamento humano, condicionantes de quem ninguém, em sã consciência, pode duvidar[2].  E o que dizer, então, da herança genética e sua importância preponderante, cada vez mais a ditar as várias espécies de “insanidade mental”, como a civilização batiza pensamentos e comportamentos excêntricos em relação aos “padrões” de normalidade?[3] Agora a neurociência tem estabelecido novos parâmetros para a liberdade humana, colocando em xeque  a noção clássica de culpabilidade.[4] Quando visitou o Brasil o Papa Francisco foi questionado sobre o fato de ter se unido à multidão, driblando imprudentemente o aparato de segurança. E sem pestanejar, tentando justificar a sua conduta  mandou um clichê sobre o qual não deve ter refletido: -  Ninguém morre na véspera. Ora, se não se morre na véspera, temos um dia certo para morrer. E nada do que fizermos durante a trajetória, vai mudar o dia da nossa morte. Então é o Chefe do Vaticano fazendo apologia do determinismo? Mas determinismo e pecado não combinam. E aí? Nietzsche ao criticar  toda a produção filosófica anterior ao iluminismo,  contestou os lógicos e a base de sua fundamentação. A afirmação cartesiana do Penso logo existo, para o filósofo alemão não é uma constatação válida, pois nada indica que sou eu que penso  ou se é o pensamento que se impõe a mim.  “Um pensamento vem quando “Ele” quer, não quando “Eu” quero”.[5] Certo? Errado? Sei lá.  Sei lá também porque me veio toda essa questão, nem porque resolvi escrever a respeito.  Ah! Acho que sei sim. Estava lembrando  de uma piada que me contaram semana passada: “O marido no restaurante, ao lado da esposa de 40 anos de vida em comum, depois de sorver 3 garrafas grandes de cerveja, com o copo ainda cheio e os olhos distantes diz em alto e bom som: Eu te amo, eu te adoro, eu não vivo sem você. A esposa ergue a sobrancelha direita, olha de soslaio para as mesas no entorno com um ar de desculpa, e num gesto de desconfiança e censura, sem dó, nem piedade, manda essa no ouvido do marido -  Eu já  não sei a esta altura se é você quem está falando, ou se é a cerveja. Ao que o distinto, também sem dó, nem piedade, respondeu: - Não estou falando com você. Estou falando com a cerveja.” 


Bom final de semana meus amigos.

P.S. (1) Enquanto o mundo gira, as ciências antigas e modernas tentam explicar os mistérios da vida e da morte, vamos tomando a nossa cervejinha, acreditando que o fazemos no pleno exercício do livre arbítrio, longe dos olhares censores da patroa, se possível, e das advertências do médico de plantão.  E ainda fazendo apologia do tal princípio da autodeterminação.




[1] "De maneira mais ou menos pacífica, juristas e filósofos sustentam que a finalidade do Direito é a paz social e não a realização da Justiça, porque esta, enquanto valor etéreo e absoluto,  só pode existir no plano ideal, jamais passível de redução a uma unanimidade, em situação concreta.
[2] “Desde que publicou as Meditações do Quixote Ortega y Gasset entende circunstância como parte da realidade pessoal. Nos livros de El espectador amadurece o conceito de circunstância que usará nos últimos trabalhos das décadas de quarenta e cinquenta. A mudança significa a ampliação do sentido para além das sugestões da Biologia. O conceito alargado nos livros de El espectador inclui o entorno ao eu, isto é, o meio exterior e as características do organismo: tanto físicas quanto psicológicas que envolvem o eu. Circunstância passa a ser tudo o que rodeia o eu: a realidade cósmica, a corporalidade, a vida psíquica, a cultura em que se vive, nela incluída também as experiências acumuladas no tempo . Ortega y Gasset denominará habitação a circunstância que o eu reconhece como seu ambiente familiar. Edmund Husserl já denominara Uexküll a este entorno reconhecido pelo eu, mas para o alemão o entorno tinha um caráter restrito ao temporal. Apesar de próximo do proposto por Husserl, o conceito orteguiano é mais amplo”.  O conceito de circunstância em Ortega y Gasset -  José Mauricio de Carvalho Universidade Federal de São João Del-Rei.
[3]  E é um tal de criar ou suprimir doenças no chamado Código Internacional de Doenças, ao sabor das valorações que a sociedade necessita fazer para proteção de padrões morais e sociais de ocasião.
[4] Afirma Klaus Gunther, com base nas descobertas da neurociência queSe nossas decisões e ações são predeterminadas de maneira absolutamente causal por meio de processos neurológicos, não resta nenhum espaço para o livre-arbítrio. E se a vontade não é livre, então um autor também não pode ser responsável por um crime, pois ele não poderia agir de outra forma naquela mesma situação e, portanto, também não poderia ter omitido o crime. Se a tão fundamental liberdade da pessoa é colocada em questão, sem dúvida o Direito, como um todo, é colocado na mesma situação”. Responsável pelos próprios atos? O direito penal e o conceito de culpabilidade – uma velha discussão com novos impulsos. In: Forschung Frankfurt 4/2005, p. 26.

[5]  ASSIM FALOU ZARASTRUTA, famoso romance psico-filosófico do escritor.

domingo, 9 de outubro de 2016

E O GUARANI VOLTA Á SERIE B DO BRASILEIRO

Amigos,

Foto oficial da equipe do Guarani Futebol Clube tirada no

jogo de ontem. Imagem emprestada de globoesporte.glo

bo.com.
O ex-goleiro e treinador, Leão, disse um dia  que o pior medo de uma equipe não era o medo de perder, mas o medo de ganhar. Junto a esse pensamento, outro do saudoso jornalista e comentarista esportivo, Armando Nogueira, que de certa feita, ao falar sobre uma dessas formações medíocres do Botafogo do Rio de Janeiro, time pelo qual torcia desde pequeno, desabafou: - O problema é que esse time não tem alma. Bem, fui ontem ressabiado para o Estádio Brinco de Ouro da Princesa. Bugrino, desde menino, me acostumei,  tanto com as vitórias, quanto com as derrotas, embora estas tenham sido a tônica do Guarani das últimas décadas, uma das equipes, senão a equipe que mais experimentou descensos nos campeonatos que disputou nos últimos anos. Resta sempre o consolo de falar do Bugre de outrora. Daquela equipe campeã brasileira, única do interior do Brasil, até hoje, como se mandou escrever, em letras garrafais, em cima do Tobogã do Brinco,  e que alguns amigos pontepretanos acham cafona, certamente por despeito,  para relembrar de um passado de glória que o torcedor das gerações mais novas jamais testemunhou. Mas se é verdade que é no sofrimento, no revés,  na desgraça, que as paixões mais se intensificam, certo é que esse ditado tem tudo a ver com a nova torcida bugrina. Nos anos 60, 70, o time do Guarani sempre merecia destaque, com ou sem a conquista de títulos. Mas a torcida não comparecia aos estádios com regularidade e em número compatível com a qualidade da equipe e do espetáculo. Reclamava-se de sua suposta indiferença, coisa que na época era sinônimo de clube de elite, não de massa, o que também se dizia do São Paulo e do Fluminense do Rio.  Lembro-me que o comentarista Juca Kfouri , destacado por um órgão de imprensa para cobrir a final entre Palmeiras e Guarani no Brinco de Ouro em 1.978, escreveu de madrugada, para sua coluna, de um hotel em que se hospedara na cidade,  que era incrível o silêncio que se sentia nas ruas, na noite da conquista do título inédito e importante. Os bugrinos teriam preferido comemorar a láurea no Tênis Clube de Campinas ou em outros locais mais elitizados da cidade. Os tempos mudaram, por certo. Voltando ao presente, fui ao estádio relutante, mas convicto de que era meu dever como bugrino ir lá e acreditar que a equipe seria capaz de reverter um resultado totalmente adverso na fase do mata-mata.  Uma equipe que há uma semana, simplesmente não entrou em campo na longínqua Arapiraca, no Estado das Alagoas para jogar contra o  ASA, apenas o quarto classificado da outra chave. 

O centroavante Eliandro, que veio do Bragantino, contrata-

do apenas para as duas partidas decisivas. Acabou sendo 

o grande herói do acesso ao marcar dois dos três gols do

Bugre na vitória de ontem sobre o Asa pelo placar de --

3 a 0. Imagem emprestada de www.yndooutube.com.
E que tomou três gols inacreditáveis, numa defesa que tinha feito um campeonato até então de muita regularidade e segurança. O que aconteceu? Coisas dos Deuses dos Estádios como diria um antigo locutor campineiro. Não era dia. Não era ano. Não era a vez. Tudo isso se misturava no pensamento durante a semana. E as estatísticas todas fatídicas: o Guarani não fez diferença de dois gols em praticamente nenhum jogo desse campeonato. As exceções foram 2 em 18 rodadas.  Tinha mais. O treinador   se especializara em fazer grandes campanhas na série C, e perder o acesso no mata-a-mata. Isso aconteceu nos dois anos anteriores. Com toda essa carga contrária, teve ainda um amigo bugrino que insistia em suspeitar do goleiro ou de jogador da defesa, que teria sido “comprado” no jogo de ida, como supostamente acontecera também em 1.982, na semifinal do Brasileiro, na derrota para o Flamengo. O nosso goleiro, o carioca Wendel,  tinha tomado três gols "suspeitos", em noite pouco inspirada, em que o Brinco de Ouro recebia mais de 52.000 torcedores, o seu recorde de público até hoje. O Fla, porém, era aquele timaço de Zico, Junior e Cia., capaz de reverter qualquer resultado negativo e que foi campeão brasileiro naquele ano, com todos os méritos.  Bem, vou, não vou. Fui. Animei-me com as notícias de que até a véspera mais de 10.000 ingressos tinham sido vendidos. A torcida acreditava. Estaria ao lado do time. E que alguns dos heróis do título brasileiro de 1.978, foram ao Brinco, para falar aos jovens atletas da necessidade de confiança e dedicação,  para uma perspectiva de sucesso e superação. Careca, Zenon, Renato Pé Murcho e Bozó teriam ilustrado a mensagem com histórias da superação do Guarani de 1.978.
Capa da revista de esportes PLACAR, edição

de agosto de 1.978, noticiando a conquista-

do título brasileiro pelo Bugre campineiro.

Imagem emprestada de imortaisdofutebol.

com.
Uma equipe do interior de São Paulo que tinha sido ridicularizada pela imprensa gaúcha, um dia antes de ter metido um 3 a 0 inesquecível sobre o temível Internacional de Porto Alegre de Falcão, Batista e outros craques, em pleno Beira Rio. Que nada obstante, ter sofrido uma goleada implacável de 5 a 0, imposta pelo Remo de Belém do Pará, em tarde inspirada de um tal jogador Bira, que não iria fazer  história relevante no futebol, foi capaz de superar tudo com vontade, qualidade e raça. Ao chegar no estádio senti a força da torcida presente.  Firme, barulhenta, alegre, transmitia otimismo e confiança na onda da ola que se seguia, envolvendo todos e cada um dos presentes. Busquei uma cadeira vaga na lotada vitalícia. Havia uma ao lado de um torcedor ilustre: Arthur Antunes Coimbra Junior, filho de ninguém mais, ninguém menos, do que o lendário jogador Zico. Junior torce pelo Bugre desde 1.986, quando o alviverde desclassificou o Vasco da Gama e foi para a final com o São Paulo, perdendo o título nas penalidades máximas. Quando a equipe surgiu em campo  aplaudida de pé, os jogadores devem ter sentido toda a energia que exalava das arquibancadas. O jogo começou a mil. Nesse exato momento não sei por que não tive dúvidas: O Guarani iria alcançar o seu objetivo. Tiraria a diferença e selaria o seu destino de acesso à série B do Campeonato Brasileiro. O time vibrava. Sem nenhuma exceção. Havia entrega absoluta dos atletas em campo. 

Eu e meu vizinho no setor de vita

lícias do Brinco de Ouro, o torce

dor ilustre, Arthur Antunes Co-

imbra Junior, filho de Zico, em 

imagem do meu celular.
A cada jogada de  recuperação de bola, cada metida para a lateral ou "limpada" de área era acompanhada de uma ovação da plateia. E quando a bola estava nos pés do adversário eram apupos e ensurdecedoras vaias. O trio de arbitragem sentia o peso do público. Pelo menos um cartão amarelo foi mostrado para jogador do Asa, por imposição daquela ruidosa platéia. Aí veio o gol. Fuma, o grande Fumagalli, o herói bugrino, levanta a bola na cabeça de Leandro Amaro, que fulmina para as redes, sem chances para o goleiro. 1 a 0. A torcida explode no estádio, comemorando a abertura do placar e o caminho para a  vitória e a classificação. A equipe se empolga. E ataca sem medo ou temor. Acaba o primeiro tempo, não sem antes sofrermos duas vezes o sufoco de chances perdidas pelo adversário. Fazia parte da estratégia do jogo. Que a sorte estivesse conosco, pois transpiração, ousadia e confiança não faltavam. O segundo tempo começa a todo vapor. Vem o segundo gol da forma mais improvável. O goleiro, ao cobrar um tiro de meta mete a bola contra a perna do centroavante Eliandro. E a pelota, com o choque, segue caprichosamente de mansinho para dentro do gol. 2 a 0 e a classificação encaminhada. Eram apenas 8 minutos do segundo tempo. O jogo poderia acabar ali. Mas restavam 37 longos minutos, uma eternidade no futebol. Pressão do adversário que, aquela altura não tinha nada a perder. O time faz menção de recuar, o que é natural. Mas fica firme na marcação, sufocando o adversário. Cada atleta se desdobra ao máximo. São bolas disputadas no alto e no chão. Muitas divididas. Aí aparece um jogador de entrega de corpo e alma e  que fez um campeonato irrepreensível: O volante Auremir nas suas cortadas, na sua velocidade, no seu empenho, era o símbolo do time em campo. A dupla de zaga, Leandro Amaro e Ferreira, soberba, representando a melhor defesa do campeonato e que  veio junto e entrosada, batizada no acesso do Mirassol para a divisão de elite do Paulista. Uma dupla competente que defende com firmeza e faz gols. Os laterais Lenon e Gilton que auxiliam na defesa e frequentemente sobem para o ataque muito bem. E Wesley, um 7, que inferniza a defesa adversária, com seu jeito moleque e a sua velocidade incrível. No meio campo, dos pés do sempre lúcido Fumagalli  se repetem as tabelas com Renatinho e Pipico, este um dos mais sérios e regulares jogadores dessa equipe e que merece muito destaque pela sua experiência e dedicação. Vários foram os contra-ataques que o Bugre armou sobre o desespero do Asa. Num deles, Eliandro, vocacionado ou iluminado pelo destino, faria o terceiro gol, o golpe de misericórdia, aos 27 minutos, para nova explosão dos torcedores. Ganhando dos zagueiros no corpo, vê o goleiro saindo e de cabeça, o encobre, mandando a bola para as redes. Acabou! Mais alguns minutos e o destino estaria selado. O Bugre, depois de longos e penosos 4 anos de série C, garantiria o acesso à segundona do Brasileiro. Um acesso que teve sabor de alívio e de conquista, com superação. 
O técnico Marcelo Chamusca que levou o Guarani de volta

à série B do Campeonato Brasileiro. Imagem emprestada-

de www.guaranifc.com.br.
Superação também para o  técnico Marcelo Chamusca que com o acesso encerra a maldição de perder no mata-a-mata. O placar eletrônico adverte para que a torcida não invada o campo, temendo por punição ao clube. Mas o que se viu foi um final com uma torcida disciplinada. Sem deixar o estádio e ao som do hino do clube e dos fogos de artifício que a Diretoria mandou soltar depois do jogo, aplaudia e gritava o nome de cada jogador que dava a volta olímpica. Os aplausos também foram para o técnico Marcelo Chamusca que tirou de vez a  "nhaca" que rondava a sua carreira, valorizada daqui para a frente, por certo.

Jogadores festejam no final da -

partida junto com a torcida.   -

Festa e volta olímpica como-

se fosse um título. Imagem do

meu sobrinho Silvano Bressan.
Aqui os nomes dos jogadores que estarão na história de um Guarani vencedor: Leandro, Lenon, Leandro Amaro, Ferreira, Auremir, Gilton, Wesley, Renatinho, Fumagalli, Eliandro e Pipico. E, ainda, Denis Neves, Evandro, Marcinho, Zé Antonio, Diogo, Caio, Bruno, Roger, Lucas Bahia, Pegorari e alguns outros do elenco montado para a disputa da série C.


Até mais amigos.



 P.S. (1) Com o tobogã ainda interditado pelo Corpo de Bombeiros, o Estádio Brinco de Ouro recebeu um público de 12.713, o maior do ano na cidade de Campinas. 

sábado, 1 de outubro de 2016

ADEUS VELHO CHICO.

Amigos,

foto do ator Domingos Montagner, protagonista de Velho 

Chico, morto por afogamento no Rio São Francisco, em -

acidente que sensibilizou todo o Brasil (imagem em-

prestada de famososnoweb.com.).

Terminou, ontem, de forma emocionante para o elenco, a direção e para o  espectador da categoria, a novela Velho Chico, que uma equipe comandada por Benedito Ruy Barbosa escreveu e a TV Globo produziu e mandou ao ar, no horário nobre das 21,00 horas, entre 14 de março e 30 de setembro de 2.016.  E o que dizer dessa telenovela, no vasto rol  da rica dramaturgia da emissora, que já não tenha sido dito anteriormente de produções que arrancaram emoções, suspenses, suspiros e elogios de toda ordem, do público e da imprensa, no país e no exterior, de que é insuspeitada testemunha a conquista, por várias vezes,  de prêmios internacionais de realce, como o Grammy, equivalente ao Oscar da Televisão. Diferente das últimas produções do horário, Velho Chico não se preocupou em prender o telespectador com entretenimento. Ao contrário, não havia um só núcleo da novela voltado para o humor, a caricatura ou a exploração da já consagrada cultura do escracho, do deixa a vida me levar, da malandragem brasileira,  ou de qualquer forma de  leveza ou alívio ao telespectador, que vive dias difíceis com a estagnação da economia e  seus nefastos efeitos, como inflação e desemprego. 
A atriz e cantora, Lucy Alves, com sua inseparável sanfo-
na, um dos destaques da trama, como Luzia, mulher de
Santo dos Anjos, apesar de seu noviciado na arte de
interpretação (imagem emprestada de www.detonatv.
com.br)

Séria,  e por vezes sombria, a novela registrou pesados diálogos entre os personagens para marcar a intenção das mensagens explícitas ou sublineares: a ditadura dos coronéis no sertão do nordeste brasileiro, a exploração predatória da terra e das águas,  o desapreço pelos recursos da natureza, tendo como pano de fundo o Rio São Francisco e o intrincado projeto de sua transposição,  isso tudo intrometido com a corrupção institucionalizada nos meios políticos. Esses temas, não dispensaram, porém, aqueles ligados à natureza humana e suas contradições: vida e morte, arbítrio e humildade, vingança e perdão e a vitória do amor para além do tempo e da vida.  Por fim, uma colher de chá à esperança, com a prisão dos políticos corruptos comandados até então pelo Coronel Saruê (Antonio Fagundes), convertido no seu alter-ego, Afrânio,  e sua delação premiada à Polícia Federal, esta no foco da principal, senão única instituição com credibilidade no país, neste momento, para combater eficazmente o crime organizado e levar à prisão figuras exponenciais da política brasileira ou em torno dela.  No folhetim, papel destinado ao deputado federal, Dr. Carlos Alberto (Marcelo Serrado), personagem emblemático do parlamentar que se sustenta no crime e na corrupção, morto por fim, sufocado na própria gana de poder. Embora tais temas não sejam, nem de longe, virgens na dramaturgia[1] foram tratados com atualidade e realismo, talvez com a deliberada intenção de levar o espectador a uma reflexão sobre a sua própria vida e o seu papel de cidadão dentro da comunidade. Intenções à parte, a novela termina com crédito e com uma audiência  média dentro dos padrões da emissora para o horário. 

O veterano ator Umberto Magnani, participou dos primeiros
capítulos da novela, encarnando o Padre Romão. Morto no 
começo das gravações, seu pesonagens deu lugar a ou-
tro padre, o Benício, interpretado por Carlos Vereza -
(imagem emprestada de www.tvshow.com.br.).
Foi impulsionada, por certo, pela morte de dois dos atores durante as gravações: Umberto Magnani, em abril de 2.016, de causas naturais,  obrigando os escritores a trocar o seu personagem (o Padre Romão), por outro padre (o Padre Benício), na pele do excelente ator, Carlos Vereza. Muito mais sentida, porém, foi a inesperada morte de um dos protagonistas, o ator Domingos Montagner (Santo dos Anjos), que se deu no último dia 15 de setembro, no município de Canindé de São Francisco,  Estado de Sergipe, aos 54 anos de idade, afogado nas águas do próprio Rio São Francisco, o mesmo manancial que carregou  seu personagem Santo, ferido à bala, até próximo a uma aldeia, onde foi resgatado e socorrido pelos indígenas. O episódio comoveu todo o país, por diversas razões, dentre as quais: a) o ator era muito querido pelo seu temperamento ameno, sua generosidade e o seu elogiado caráter; b) estava no frescor de sua carreira como ator e no seu principal papel até então; c) contava apenas 54 anos, estava bonito e saudável; d) deixou mulher e três filhos menores e era considerado bom marido e pai presente e dedicado à prole: e) foi tragado pelas águas traiçoeiras daquela praia, embora soubesse nadar e estivesse próximo à atriz e companheira de elenco,  Camila Pitanga que, tendo logrado abrigar-se numa pedra no meio do rio, nada pode fazer para salvar o companheiro, senão gritar inutilmente por socorro e vê-lo afundar no rio, sem voltar à superfície, para ser resgatado, quatro horas depois, já falecido; f) a praia em questão era considerada perigosa e imprópria para banho, por causa da formação de redemoinhos, invisíveis na superfície, que dificultavam a movimentação de banhistas, arrastando-os perigosamente para o ferimento ou o afogamento.O acidente porém não alterou os rumos que os escritores tinham dado à novela, já nos últimos capítulos, nem o destino do personagem Santo dos Anjos. Em homenagem a Domingos, não houve substituição do ator e seu personagem termina casando com sua amada, Tereza (Camila Pitanga). Foi representado nas cenas faltantes, subjetivamente,  por sua voz sobreposta e uma câmera para a qual o seu interlocutor falava. Uma solução técnica que agradou a todos e fez emocionada homenagem póstuma ao ator.


Até mais amigos,


Outra veterana, a atriz Selma Egrei participou das duas
fases da novela, como Encarnação de Sá Ribeiro, an-
cestral da tradicional família de coronéis. Na segunda
fase, com um excelente truque de maquiagem, seu -
personagem completou 100 anos, sem perder a-
força de seu forte temperamento (imagem em--
prestada de fonosidade.com.br.).
P.S. (1) O elenco fixo foi um dos menores, senão o menor, das novelas das nove. Apenas 30. E,  à medida em que os capítulos iam se desenvolvendo, era nítido o crescimento dos atores, nos respectivos papéis. Tanto dos veteranos, como Fagundes (Afrânio ou Coronel Saruê), Christiane Torlone (Iolanda de Sá Ribeiro), Dira Paes (Beatriz, a professora que se elegeu Prefeita no final da trama), Irandhir Santos (Bento dos Anjos), com destaques para as sensacionais interpretações de Selma Egrei ( como a centenária, Encarnação de Sá Ribeiro) e de Marcos Palmeira (o matuto Ciço), como dos iniciantes, Lucas Veloso (Lucas),  Giullia Buscácio (a graciosa e determinada Olívia) e destaque para Lucy Alves (no difícil e rançoso papel de Luzia e sua inseparável sanfona) e de Gabriel Leone (o idealista e revolucionário Miguel, filho de Santo dos Anjos e neto do Coronel Saruê Afrânio, a quem couberam as mais profundas reflexões, diálogos e mensagens que os autores pretenderam enviar). Loas.

P.S. (2) A trama teve 173 capítulos, desenvolvidos em duas fases.  Na primeira fase contou com Rodrigo Santoro, Carol Castro, Selma Egrei, Tarcísio Meira, Rodrigo Lombardi, Fabiula Nascimento, Cyria Coentro,Chico Diaz, Marina Nery, Júlio Machado, Bárbara Reis, Rafael Vitti, Pablo Morais, Larissa Góes, Julia Dalavia e Renato Góes nos papéis principais.





[1] A chamada “politicagem” ou a demagogia na política brasileira foi explorada, com retumbante sucesso e de forma bem humorada, na novela “O Bem Amado” de 1.973, tendo como protagonista o saudoso ator Paulo Gracindo, num de seus mais memoráveis papéis, o do Prefeito Odorico Paraguaçu.