domingo, 18 de janeiro de 2026

O FIM DOS CAMPEONATOS ESTADUAIS

 

Boa tarde amigos,

O rei Pelé à época de ouro
dos campeonatos esta-
duais.
 

Sou e sempre fui fã ardoroso dos campeonatos estaduais. Seja pela tradição, pelo saudosismo dos velhos tempos em que tudo acontecia em espaços geográficos limitados, por que o nosso mundo era pequeno longe da tecnologia e da chamada globalização,  o grande lance e o charme da regionalidade era seguramente responsável pela rivalidade e as paixões dos torcedores e admiradores do esporte,  que nasceram e se mantiveram por muitos anos, enquanto não se falava em longos campeonatos nacionais que envolvessem equipes fora do eixo Rio-São Paulo ou sudeste e sul do Brasil. Nada se comparava – e nem se compara ainda hoje – aos grandes clássicos regionais. Basta perguntar ao torcedor se existe jogo mais importante do que um Grêmio e Internacional, Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Fluminense ou Vasco, e a resposta certamente será a mesma: não, não há nada comparável à conquista de um título em cima de seu maior rival. É assunto e gozação por toda a semana. O mesmo ocorre em todo o país com os confrontos históricos entre Bahia e Vitória, Remo e Paysandu, no Pará, Sport e Santa Cruz ou Náutico no Recife, Cruzeiro e Atlético em Minas. Os campeonatos carioca e paulista sempre tiveram prestígio que nenhuma copa ou taça chegava a tangenciar. No Rio de Janeiro, ainda capital do país, os confrontos entre os quatro grandes (Vasco, Botafogo, Fluminense e Flamengo), lotavam o Maracanã em qualquer situação em que se encontrassem os clubes na tabela de classificação; o mesmo se dava no Morumbi ou no Pacaembu, envolvendo o Corinthians e Palmeiras (o grande derby) ou o São Paulo e Santos (o San-São), sobretudo na era Pelé. A esse tempo a Portuguesa de Desportos também se mantinha em patamar dos grandes e os chamados “clássicos” envolviam também a simpática Lusa do Canindé, a equipe que mais foi prejudicada pelas arbitragens ao longo de sua existência, segundo o jornalista Milton Neves. Em Campinas, interior de São Paulo, Ponte Preta e Guarani criaram e mantiveram, desde o distante ano de 1.911,  quando o alviverde foi fundado (a Ponte existia desde 1.900), uma tradicional rivalidade, com o conhecido derbi campineiro, considerado o  maior  clássico do interior do país e que já foi disputado no Pacaembu, em São Paulo, nos áureos tempos dessas equipes. Merece destaque também o confronto denominado “comefogo”, reunindo o Comercial e o Botafogo do Dr. Sócrates,  em Ribeirão Preto, importante eixo econômico e político do interior de São Paulo. Com a apertada agenda do futebol brasileiro, a criação de um campeonato nacional de pontos corridos, que se desenvolve em nada menos que 38 rodadas (durando praticamente todo o ano), o envolvimento das equipes brasileiras nas Taças Libertadores da América e Sul-Americana, e o interesse pela Copa do Brasil, que passou a distribuir milhões de reais aos clubes participantes, em premiação crescente a cada fase atingida, já não há espaço para os estaduais, que viraram pequenas Copas ou Taças, como preferirem, porque nada têm de campeonato. O Campeonato Paulista deste ano (por causa da Copa do Mundo) está reduzido, acreditem, a 8 rodadas na fase de classificação, e mais 4 nas quartas e semifinais (com jogo único) e finais em 2 jogos, enquanto no Carioca são 6 rodadas apenas, na fase de classificação. Em pouquíssimas rodadas, não há tempo para nenhuma equipe entrar numa chamada “má fase”, porque ela pode cair para a segunda divisão, se perder ou empatar quatro ou cinco jogos Nada obstante, as principais equipes de São Paulo vão poupando seus craques porque misturado a tudo isso (simultaneamente), tem rodada do Campeonato Brasileiro, da Copa do Brasil, da Libertadores, da Sul-Americana.  Haja elenco e tempo de recuperação dos atletas lesionados! Por isso, o Flamengo desistiu este ano,  da disputa da Copa São Paulo, a maior vitrine de base do futebol brasileiro, preservando o sub-20 inteiro para disputar o Campeonato Carioca, revelando todo o desprestígio que sua diretoria confere ao certame e desrespeito ao torcedor,  “queimando” seus meninos da base  e a própria tradição  do clube (no grupo B, está em penúltimo lugar entre os 6 participantes com apenas 1 ponto em 3 jogos). Resta aos torcedores e fãs dos estaduais a possibilidade de ver o seu time jogar, na gama de canais de streaming que hoje existem, transmitindo todo e qualquer jogo de futebol, seja em TV aberta, fechada e redes sociais como o Youtube. Num campeonato estadual como o de São Paulo, disputadíssimo e que hoje conta, além dos grandes, com equipes de ponta como o Mirassol, Novorizontino e Bragantino, além dos tradicionais (embora em fases ruins), Botafogo, Ponte Preta, Guarani, Ituano e Portuguesa de Desportos, a sua extinção anulará as possibilidades dos torcedores de equipes menores virem os seus times enfrentar as grandes equipes, hoje distribuídas em módulos diversos (séries A, B, C e D) no nacional. Uma Pena!

 

Até mais amigos.

 



sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

DEUS EXISTINDO E O GRANDE SERTÃO: VEREDAS - JOÃO GUIMARÃES ROSA

 

Boa tarde amigos


A imagem acima é do filme de 2.024, inspira
do na obra de Rosa e foi emprestada do 
blog Templo Culturas Delfos.

A obra prima de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, um romance modernista publicado em 1.956 tornou-se um dos mais importantes livros da literatura luso-brasileira. Narrado em primeira pessoa por um velho sobrevivente do cangaço, Riobaldo, retrata toda a saga de uma vida miserável e errante, vivida nos sertões de Minas Gerais, Bahia e Goiás, escrito numa linguagem peculiar, em que o autor reúne idiomas e dialetos de diferentes culturas (porque, segundo ele, para duas vidas um léxico apenas não seria suficiente), tornou-se uma obra complexa, com diferentes estudos e interpretações, abarcando uma gama de experiências, sentimentos e assuntos. Na saga vivida por Riobaldo, há filosofia sobre a vida e a morte, a questão de gênero, amor e afeto na atração e afinidade que se estabelece entre o narrador e Diadorim, outro personagem relevante na trama e, ainda, a força da religião, incluindo  Deus, o Diabo e o ateísmo, doenças e perseguições e uma crítica social intensa e profunda. Hoje decidi postar um trecho que considero precioso, dentre outros,  que trata de Deus e da importância da crença ou fé na sua existência para a esperança e a sobrevivência ética de todos os seres humanos, enquanto houver renovação de gerações da raça humana. Vamos lá: /Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos dôidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim, que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do                  senhor.,,”/

 

P.S. (1)  O texto extraído da obra Grande Sertão: Veredas encontra-se na página 60, da primeira edição na versão publicada em 2006, pela Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro;

 

P.S. (2)  Médico, escritor e diplomata o mineiro João Guimarães Rosa nasceu em 1.908 na pequena localidade de Cordisburgo, Minas Gerais e faleceu em 1967, no Rio de Janeiro, com 59 anos de idade. Recebeu, como escritor e poeta, inúmeros prêmios na carreira, inclusive o Prêmio Machado de Assis em 1961 e o Jabuti em 1.993, pos mortem;

 

P.S. (3) Para o escritor Luiz Fernando Veríssimo, que nos deixou recentemente, o ateísmo nem explica e nem consola;

 

P.S. (4) Não decidi se quero ser cremado ou inumado. Na última hipótese se precisarem de um epitáfio que minimamente me reconheça, vai esse aqui:  “VIM SEM PEDIR E FUI  SEM QUERER”. NADA ENTENDI. MAS FOI LEGAL.”

 

 

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

WINTER PARK - O LIXO POLITICAMENTE POLARIZADO E O SONHO AMERICANO

Bom dia amigos, 


Domingo, 11 de janeiro de 2.026. Nesse nosso período de férias em Orlando, reprogramamos uma viagem à simpática cidade de Winter Park, situada no Estado da Flórida, condado de Orange, a cerca de 47 km. daqui. A população fixa é de quase 28.000 habitantes, dentro da média das cidades menores americanas, mas a fluência de turistas é grande, especialmente de brasileiros, quando deixam um pouco os parques da Disney e da Universal e os outlets e shoppings da grande Orlando. Cidade bem organizada, limpa e com muitas lojas, incluindo livrarias, cafés e restaurantes charmosos, oferece uma gama de gastronomia de culturas diversas, destacando-se, no entanto, a culinária italiana, asiática e americana, sim senhor, com direito a batata frita acompanhando carnes, massas e legumes.O que me chamou a atenção ao caminhar ao longo da estação de trens da localidade, onde, de um lado estão as lojas, cafés e restaurantes, e de outro um imenso jardim, margeando o prédio da estação, foram as lixeiras fixas inseridas próximas umas das outras. Nas tampas foram colados adesivos idênticos com o nome do Presidente Donald Trump, seguida da expressão “memorial”, inseridas por pessoas adeptas à corrente contrária ao Presidente e ao seu Partido, o Republicano, dito conservador.  Certamente, admiradores do Presidente, inconformados com a crítica e a ironia contida nos adesivos, resolveram arrancá-los, com êxito, ao menos parcial. As duas imagens (com os adesivos intactos e com sobras deles), documentadas por mim, com meu celular, e que ilustram a coluna de hoje, dão ideia dessa dicotomia de comportamentos. Fato é que tudo o que se vê por aqui (quiçá pelo mundo todo) é a polarização política, separando esquerdas e direitas, extremos e meios, a falta de equilíbrio, diálogo e sintonia, a intolerância e, sobretudo, serenidade dos políticos que assumiram os comandos das nações, muitas das quais mergulhadas em profundas e intermináveis guerras, com mortes e destruição, em nome do poder e de sua expansão. Relativamente aos brasileiros aqui residentes há pouco ou muito tempo, com os quais tive oportunidade de cruzar e conversar, notei que a maioria significativa apoia irrestritamente o Presidente Trump, ainda que este manifeste – e execute  - uma política anti-imigração, com caça e deportação de imigrantes ilegais (o que, sejamos justos, também foi uma prática adotada pelo Presidente Obama, do Partido Democrata, nas suas gestões). O que chama a atenção, no entanto, no comportamento do atual mandatário, são as tentativas de impor arbitrariamente  restrições severas ao reconhecimento de nacionalidade e cidadania a pessoas reputadas tais por preceitos constitucionais, tudo a movimentar extraordinariamente as querelas levadas aos Tribunais do país. Também cruzei com brasileiros que estão, a todo custo, tentando vir para os Estados Unidos, de forma regular é claro, decepcionados com a condução política e econômica do Brasil nesses tempos, o que me faz crer que o sonho americano não acabou e está longe de acabar. Bem, o terceiro setor, voltado aos serviços essenciais e braçais, aqueles que os americanos de todas as classes sociais não se animam em executar (área de alimentação como garçons, cozinheiros, ajudantes de cozinha, arrumadeiras e funcionários de hotéis, construção civil etc.), está em crise, como era previsto, constatando-se, como constatamos quase diariamente, a carência e inexperiência de empregados em restaurantes com filas imensas e atendimento moroso e precário, num estado que recebe milhões de turistas o ano todo e que se organizou, com logística e tecnologia, para bem recepcionar seus visitantes, mas dependente, porém, de seres humanos estrangeiros,  que ainda não podem ser ignorados, nem substituídos totalmente, no bom atendimento a essa massa de turistas que aqui movimentam extraordinariamente a economia do  estado e do país.



Até mais amigos.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

PECADORES (SINNERS) -- DRAMA E TERROR.

 Bom dia amigos,

O longa “SINNERS”, traduzido literalmente no Brasil para “PECADORES” é um filme norte-americano de drama e terror, dirigido por Ryan Coogler, de duas horas e dezessete minutos de duração, aclamado pela crítica especializada e que rendeu muitas indicações aos principais prêmios americanos e internacionais de cinema, incluindo a de melhor filme e de melhor ator para Michael B. Jordan, o versátil ator de 32 anos, que transita pela carreira em várias modalidades e gêneros, e que no Brasil ficou mais conhecido pelo longa Pantera Negra (2.018), em que viveu o vilão Erik Killmonger, o antagonista do herói, o príncipe T’Challa  (Claudwick Boseman) no reino de Wakanda, país fictício onde se passa a história.   Com toda a versatilidade  que compõe um thriller de cinema (suspense, sexo, medo, drama, terror) num misto de ode à ancestralidade e à negritude, como afirma um crítico, e saudado por outro como um verdadeiro evento cinematográfico, pela reunião, bem amarrada, de ingredientes, que o tornam engraçado, sexy, amedrontador, cuida-se da história de dois irmãos negros gêmeos, Smoke e Stake (Michael B. Jordan), que, agora ricos e poderosos, explorando atividades à margem da lei,  decidem retornar à cidade natal, onde abrem um estabelecimento de diversão, uma “casa de blues” destinada apenas a negros.  No entanto, são surpreendidos por uma comunidade estruturada pelo racismo, que os recebe com a intenção de destruí-los, numa metáfora entre o bem e o mal, suscitando uma velha discussão sobre o pecado e as várias facetas paradoxais que qualquer ser humano pode apresentar ao longo da vida e das circunstâncias. Inserido nos embates desse inesperado retorno dos irmãos,  o jovem Sammie Moore (Miles Caton), protegido pelos egressos, filho de um pastor, vive o drama entre permanecer no pequeno lugar onde vive, respondendo pela continuidade da missão de servir a Deus e aos seus mandamentos, como lhe cobra insistentemente o pai, ou tentar a vida como músico, sonho alimentado pela sua vocação e reconhecido talento. Esse  misto de emoções, bem idealizado e conduzido pelo diretor, com uma empolgante trilha sonora, incluindo excelentes blues eletrônicos e sons ancestrais, tem o condão de manter o espectador vigilante a cada cena, a cada acontecimento, desenvolvendo empatia por esse ou aquele personagem, aguardando o misterioso desfecho reservado a cada um e àquela comunidade como um todo. O filme é imperdível por esse mix bem costurado e curioso,  e lembra muito a euforia com que foi recebido merecidamente o drama Parasita (2.019), obra prima contemporânea do cineasta Bong Joon-Ho, que quebrou a tradição da academia de Hollywood, ao vencer o Oscar na categoria de Melhor Filme, o primeiro e único longa não produzido, nem falado em língua inglesa,  a receber a estatueta, na mais importante categoria, em toda a história do prêmio.

 

Até mais amigos.


 P. S.(1)  A imagem acima foi emprestada do site CNN - Brasil.