Boa tarde amigos
A imagem acima é do filme de 2.024, inspira do na obra de Rosa e foi emprestada do blog Templo Culturas Delfos. |
A obra prima de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, um romance modernista publicado em 1.956 tornou-se um dos mais importantes livros da literatura luso-brasileira. Narrado em primeira pessoa por um velho sobrevivente do cangaço, Riobaldo, retrata toda a saga de uma vida miserável e errante, vivida nos sertões de Minas Gerais, Bahia e Goiás, escrito numa linguagem peculiar, em que o autor reúne idiomas e dialetos de diferentes culturas (porque, segundo ele, para duas vidas um léxico apenas não seria suficiente), tornou-se uma obra complexa, com diferentes estudos e interpretações, abarcando uma gama de experiências, sentimentos e assuntos. Na saga vivida por Riobaldo, há filosofia sobre a vida e a morte, a questão de gênero, amor e afeto na atração e afinidade que se estabelece entre o narrador e Diadorim, outro personagem relevante na trama e, ainda, a força da religião, incluindo Deus, o Diabo e o ateísmo, doenças e perseguições e uma crítica social intensa e profunda. Hoje decidi postar um trecho que considero precioso, dentre outros, que trata de Deus e da importância da crença ou fé na sua existência para a esperança e a sobrevivência ética de todos os seres humanos, enquanto houver renovação de gerações da raça humana. Vamos lá: /Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos dôidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim, que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do senhor.,,”/
P.S. (1) O texto extraído
da obra Grande Sertão: Veredas encontra-se na página 60, da primeira edição na
versão publicada em 2006, pela Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro;
P.S. (2) Médico,
escritor e diplomata o mineiro João Guimarães Rosa nasceu em 1.908 na pequena
localidade de Cordisburgo, Minas Gerais e faleceu em 1967, no Rio de Janeiro,
com 59 anos de idade. Recebeu, como escritor e poeta, inúmeros prêmios na
carreira, inclusive o Prêmio Machado de Assis em 1961 e o Jabuti em 1.993, pos
mortem;
P.S. (3) Para o escritor Luiz Fernando Veríssimo, que nos
deixou recentemente, o ateísmo nem explica e nem consola;
P.S. (4) Não decidi se quero ser cremado ou inumado. Na última
hipótese se precisarem de um epitáfio que minimamente me reconheça, vai esse
aqui: “VIM SEM PEDIR E FUI SEM QUERER”. NADA ENTENDI. MAS FOI LEGAL.”
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