domingo, 12 de abril de 2026

ALVARÁ E JUIZ NOVO - CRÔNICA .


 Boa noite amigos, 


Reproduzo aqui nesta coluna, um dos "causos" que constam do meu primeiro livro da trilogia "Causas & Causos", 2.006, Editora Millenium, Campinas (SP).

 

                                                   "Agora eu era herói, era bedel, era também Juiz. E pelas minhas leis a gente era obrigado a ser feliz” (Chico Buarque de Hollanda).

 

"Antigo cartorário, Chefe do Terceiro

Oficio local, o Toninho é procurado, no serviço, por uma vizinha, a Dona Camila, que ficara viúva recentemente.

 

Solícito, procura atender a amiga,

querendo conhecer a sua dificuldade.

 

A viúva lhe exibe um extrato da

Caixa Econômica Federal:

 

_ Ô Toninho, que bom que você está aqui. O falecido não deixou muita coisa prá nós. Tem esse dinheiro na poupança da Caixa Econômica e eu preciso levantar.

 

_ Dona Camila, olha, precisa pedir

 

alvará judicial.

 

_ E como é isso?

 

_ A senhora tem advogado? Se não tiver ou não puder pagar, pode procurar a Procuradoria do Estado que lhe dará um. Fica ali na rua Benjamin Constant. O advogado fará uma petição ao Juiz, dará entrada no distribuidor, depois o Juiz manda ouvir o Curador e dá um despacho final, deferindo o alvará. Aí eu expeço o documento, a senhora leva na Caixa e recebe o dinheiro.

 

_ Tudo isso! Que complicação, tanta coisa por causa de uns caraminguados? Não tem outro jeito?

 

_ Infelizmente, não Dona Camila.

 

 

                                                        A distinta viúva agradeceu a atenção, desceu um andar e leu uma inscrição sobre uma porta aberta que  dizia: Segunda Vara Cível.

 

                                                        Olhou para dentro da sala e viu lá no fundo, sentado, um jovem de terno e bigode, que julgou tratar-se do juiz.

 

 

                                                       E não errou.

 

 

Pediu licença e educadamente a ele se

dirigiu:

 

_ Licença, doutor. O senhor é juiz?

 

 

_ _  Sou, respondeu educadamente o

jovem magistrado.

 

_ Sabe doutor, eu fiquei viúva a

semana passada e como o senhor vê nesse papel da Caixa, meu marido deixou um saldinho lá que eu preciso levantar.

 

O Juiz apanhou o extrato que Dona Camila lhe exibia e constatou a existência da conta, a titularidade e o saldo que não era muito grande.

 

_ Precisa de ordem do senhor pra

eles me liberarem o dinheiro. Foi o que disseram.

 

O Juiz, demonstrando certa surpresa,

apanhou a caneta e no próprio extrato escreveu: Autorizo o

levantamento. Datou, assinou e orientou a mulher a procurar o

Cartório.

 

A viúva despediu-se agradecida.

 

Voltou ao Terceiro Ofício e procurou pelo Toninho.

 

__ Toninho, olha aqui. O Juiz já despachou, eu falei com ele e agora é só pra você me dar a autorização.

 

 

Estupefato o escrevente constatou que efetivamente o Juiz despachara informalmente naquele papel, o tal extrato do banco. Não havia processo, não havia pedido, não havia coisa nenhuma.

 

Não teve jeito.

 

Apanhou o extrato e foi ter com o

Juiz.

 

Pediu licença e entrou na sala.

 

O Juiz era ainda substituto, recém

ingressado. Jovem, bem educado e receptivo, mas como é que se iria explicar a ele que não era possível despachar num papel fora de um processo, um pedido que não havia sido feito, segundo as normas processuais etc.

 

Como fazer isso? Que palavras usar?

Ensinar o padre-nosso para o vigário? E depois, era tão elementar aquilo.

 

Ao lado do Juiz estava um outro

jovem que o Toninho não conhecia.

 

O Escrevente pediu desculpas e trêmulo, com frase entrecortada, pergunta:

 

_ Doutor, sabe o que é. Uma senhora foi até o Cartório me levando este extrato bancário com um despacho. Esse despacho é de Vossa Excelência mesmo?

 

_ É, confirmou o Magistrado.

 

Ah bom,mas doutor,como é que

eu vou expedir o alvará? Não há nenhum processo, nem pedido, doutor.

 

O Juiz ouviu atentamente as explicações, com sincero interesse e simpatia.

 

Nisso, o outro jovem que estava ao

lado, que depois se soube era outro Juiz substituto, colega deste de concurso, confirmou:

 

_ É Armando. Lá na minha Vara

tem que fazer assim. Tem que haver um pedido de alvará escrito feito por advogado, passando depois pelo distribuidor e pelo Cartório que autua o feito e depois é que você despacha, autorizando. Dentro do processo.

 

O Toninho sentiu um alívio, pela providencial intervenção em seu favor.

 

O jovem magistrado, então, riscou o despacho que tinha prolatado no extrato e orientou o escrevente a pedir à viúva que providenciasse, com um advogado, pedido formal de alvará.

 

O escrevente voltou ao Cartório. À viúva restituiu o extrato com o despacho riscado, reafirmando a

tramitação que havia mencionado anteriormente e a nova orientação do Juiz.

 

A Dona Camila perdeu a amizade

com o Toninho.

 

Afinal, que sacanagem era aquela de,

além de criar caso desnecessário, ainda ir convencer o Juiz a prejudicar os interesses da amiga?

 

E vá explicar para alguém que um

Juiz concursado, brilhante, culto e generoso, não tinha a menor idéia de como se requeria, na prática, um alvará?

 

O tal Juiz fez carreira brilhante.

 

Chegou a ser Presidente de um

Tribunal de Alçada.

 

Mas a Dona Camila morreu sem falar,

nem perdoar o Toninho.!


Quanta confusão e incompreensão né gente!


Até mais amigos.