domingo, 18 de janeiro de 2026

O FIM DOS CAMPEONATOS ESTADUAIS

 

Boa tarde amigos,

O rei Pelé à época de ouro
dos campeonatos esta-
duais.
 

Sou e sempre fui fã ardoroso dos campeonatos estaduais. Seja pela tradição, pelo saudosismo dos velhos tempos em que tudo acontecia em espaços geográficos limitados, por que o nosso mundo era pequeno longe da tecnologia e da chamada globalização,  o grande lance e o charme da regionalidade era seguramente responsável pela rivalidade e as paixões dos torcedores e admiradores do esporte,  que nasceram e se mantiveram por muitos anos, enquanto não se falava em longos campeonatos nacionais que envolvessem equipes fora do eixo Rio-São Paulo ou sudeste e sul do Brasil. Nada se comparava – e nem se compara ainda hoje – aos grandes clássicos regionais. Basta perguntar ao torcedor se existe jogo mais importante do que um Grêmio e Internacional, Corinthians e Palmeiras, Flamengo e Fluminense ou Vasco, e a resposta certamente será a mesma: não, não há nada comparável à conquista de um título em cima de seu maior rival. É assunto e gozação por toda a semana. O mesmo ocorre em todo o país com os confrontos históricos entre Bahia e Vitória, Remo e Paysandu, no Pará, Sport e Santa Cruz ou Náutico no Recife, Cruzeiro e Atlético em Minas. Os campeonatos carioca e paulista sempre tiveram prestígio que nenhuma copa ou taça chegava a tangenciar. No Rio de Janeiro, ainda capital do país, os confrontos entre os quatro grandes (Vasco, Botafogo, Fluminense e Flamengo), lotavam o Maracanã em qualquer situação em que se encontrassem os clubes na tabela de classificação; o mesmo se dava no Morumbi ou no Pacaembu, envolvendo o Corinthians e Palmeiras (o grande derby) ou o São Paulo e Santos (o San-São), sobretudo na era Pelé. A esse tempo a Portuguesa de Desportos também se mantinha em patamar dos grandes e os chamados “clássicos” envolviam também a simpática Lusa do Canindé, a equipe que mais foi prejudicada pelas arbitragens ao longo de sua existência, segundo o jornalista Milton Neves. Em Campinas, interior de São Paulo, Ponte Preta e Guarani criaram e mantiveram, desde o distante ano de 1.911,  quando o alviverde foi fundado (a Ponte existia desde 1.900), uma tradicional rivalidade, com o conhecido derbi campineiro, considerado o  maior  clássico do interior do país e que já foi disputado no Pacaembu, em São Paulo, nos áureos tempos dessas equipes. Merece destaque também o confronto denominado “comefogo”, reunindo o Comercial e o Botafogo do Dr. Sócrates,  em Ribeirão Preto, importante eixo econômico e político do interior de São Paulo. Com a apertada agenda do futebol brasileiro, a criação de um campeonato nacional de pontos corridos, que se desenvolve em nada menos que 38 rodadas (durando praticamente todo o ano), o envolvimento das equipes brasileiras nas Taças Libertadores da América e Sul-Americana, e o interesse pela Copa do Brasil, que passou a distribuir milhões de reais aos clubes participantes, em premiação crescente a cada fase atingida, já não há espaço para os estaduais, que viraram pequenas Copas ou Taças, como preferirem, porque nada têm de campeonato. O Campeonato Paulista deste ano (por causa da Copa do Mundo) está reduzido, acreditem, a 8 rodadas na fase de classificação, e mais 4 nas quartas e semifinais (com jogo único) e finais em 2 jogos, enquanto no Carioca são 6 rodadas apenas, na fase de classificação. Em pouquíssimas rodadas, não há tempo para nenhuma equipe entrar numa chamada “má fase”, porque ela pode cair para a segunda divisão, se perder ou empatar quatro ou cinco jogos Nada obstante, as principais equipes de São Paulo vão poupando seus craques porque misturado a tudo isso (simultaneamente), tem rodada do Campeonato Brasileiro, da Copa do Brasil, da Libertadores, da Sul-Americana.  Haja elenco e tempo de recuperação dos atletas lesionados! Por isso, o Flamengo desistiu este ano,  da disputa da Copa São Paulo, a maior vitrine de base do futebol brasileiro, preservando o sub-20 inteiro para disputar o Campeonato Carioca, revelando todo o desprestígio que sua diretoria confere ao certame e desrespeito ao torcedor,  “queimando” seus meninos da base  e a própria tradição  do clube (no grupo B, está em penúltimo lugar entre os 6 participantes com apenas 1 ponto em 3 jogos). Resta aos torcedores e fãs dos estaduais a possibilidade de ver o seu time jogar, na gama de canais de streaming que hoje existem, transmitindo todo e qualquer jogo de futebol, seja em TV aberta, fechada e redes sociais como o Youtube. Num campeonato estadual como o de São Paulo, disputadíssimo e que hoje conta, além dos grandes, com equipes de ponta como o Mirassol, Novorizontino e Bragantino, além dos tradicionais (embora em fases ruins), Botafogo, Ponte Preta, Guarani, Ituano e Portuguesa de Desportos, a sua extinção anulará as possibilidades dos torcedores de equipes menores virem os seus times enfrentar as grandes equipes, hoje distribuídas em módulos diversos (séries A, B, C e D) no nacional. Uma Pena!

 

Até mais amigos.

 



sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

DEUS EXISTINDO E O GRANDE SERTÃO: VEREDAS - JOÃO GUIMARÃES ROSA

 

Boa tarde amigos


A imagem acima é do filme de 2.024, inspira
do na obra de Rosa e foi emprestada do 
blog Templo Culturas Delfos.

A obra prima de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, um romance modernista publicado em 1.956 tornou-se um dos mais importantes livros da literatura luso-brasileira. Narrado em primeira pessoa por um velho sobrevivente do cangaço, Riobaldo, retrata toda a saga de uma vida miserável e errante, vivida nos sertões de Minas Gerais, Bahia e Goiás, escrito numa linguagem peculiar, em que o autor reúne idiomas e dialetos de diferentes culturas (porque, segundo ele, para duas vidas um léxico apenas não seria suficiente), tornou-se uma obra complexa, com diferentes estudos e interpretações, abarcando uma gama de experiências, sentimentos e assuntos. Na saga vivida por Riobaldo, há filosofia sobre a vida e a morte, a questão de gênero, amor e afeto na atração e afinidade que se estabelece entre o narrador e Diadorim, outro personagem relevante na trama e, ainda, a força da religião, incluindo  Deus, o Diabo e o ateísmo, doenças e perseguições e uma crítica social intensa e profunda. Hoje decidi postar um trecho que considero precioso, dentre outros,  que trata de Deus e da importância da crença ou fé na sua existência para a esperança e a sobrevivência ética de todos os seres humanos, enquanto houver renovação de gerações da raça humana. Vamos lá: /Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo. Mas, se não tem Deus então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor. E a vida do homem está presa encantoada – erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços. Dor não dói até em criancinhas e bichos, e nos dôidos – não dói sem precisar de se ter razão nem conhecimento? E as pessoas não nascem sempre? Ah, medo tenho não é de ver morte, mas de ver nascimento. Medo mistério. O senhor não vê? O que não é Deus é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver – a gente sabendo que ele não existe, aí é que ele toma conta de tudo. O inferno é um sem-fim, que nem não se pode ver. Mas a gente quer Céu é porque quer um fim: mas um fim com depois dele a gente tudo vendo. Se eu estou falando às flautas, o senhor me corte. Meu modo é este. Nasci para não ter homem igual em meus gostos. O que eu invejo é sua instrução do                  senhor.,,”/

 

P.S. (1)  O texto extraído da obra Grande Sertão: Veredas encontra-se na página 60, da primeira edição na versão publicada em 2006, pela Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro;

 

P.S. (2)  Médico, escritor e diplomata o mineiro João Guimarães Rosa nasceu em 1.908 na pequena localidade de Cordisburgo, Minas Gerais e faleceu em 1967, no Rio de Janeiro, com 59 anos de idade. Recebeu, como escritor e poeta, inúmeros prêmios na carreira, inclusive o Prêmio Machado de Assis em 1961 e o Jabuti em 1.993, pos mortem;

 

P.S. (3) Para o escritor Luiz Fernando Veríssimo, que nos deixou recentemente, o ateísmo nem explica e nem consola;

 

P.S. (4) Não decidi se quero ser cremado ou inumado. Na última hipótese se precisarem de um epitáfio que minimamente me reconheça, vai esse aqui:  “VIM SEM PEDIR E FUI  SEM QUERER”. NADA ENTENDI. MAS FOI LEGAL.”

 

 

 

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

WINTER PARK - O LIXO POLITICAMENTE POLARIZADO E O SONHO AMERICANO

Bom dia amigos, 


Domingo, 11 de janeiro de 2.026. Nesse nosso período de férias em Orlando, reprogramamos uma viagem à simpática cidade de Winter Park, situada no Estado da Flórida, condado de Orange, a cerca de 47 km. daqui. A população fixa é de quase 28.000 habitantes, dentro da média das cidades menores americanas, mas a fluência de turistas é grande, especialmente de brasileiros, quando deixam um pouco os parques da Disney e da Universal e os outlets e shoppings da grande Orlando. Cidade bem organizada, limpa e com muitas lojas, incluindo livrarias, cafés e restaurantes charmosos, oferece uma gama de gastronomia de culturas diversas, destacando-se, no entanto, a culinária italiana, asiática e americana, sim senhor, com direito a batata frita acompanhando carnes, massas e legumes.O que me chamou a atenção ao caminhar ao longo da estação de trens da localidade, onde, de um lado estão as lojas, cafés e restaurantes, e de outro um imenso jardim, margeando o prédio da estação, foram as lixeiras fixas inseridas próximas umas das outras. Nas tampas foram colados adesivos idênticos com o nome do Presidente Donald Trump, seguida da expressão “memorial”, inseridas por pessoas adeptas à corrente contrária ao Presidente e ao seu Partido, o Republicano, dito conservador.  Certamente, admiradores do Presidente, inconformados com a crítica e a ironia contida nos adesivos, resolveram arrancá-los, com êxito, ao menos parcial. As duas imagens (com os adesivos intactos e com sobras deles), documentadas por mim, com meu celular, e que ilustram a coluna de hoje, dão ideia dessa dicotomia de comportamentos. Fato é que tudo o que se vê por aqui (quiçá pelo mundo todo) é a polarização política, separando esquerdas e direitas, extremos e meios, a falta de equilíbrio, diálogo e sintonia, a intolerância e, sobretudo, serenidade dos políticos que assumiram os comandos das nações, muitas das quais mergulhadas em profundas e intermináveis guerras, com mortes e destruição, em nome do poder e de sua expansão. Relativamente aos brasileiros aqui residentes há pouco ou muito tempo, com os quais tive oportunidade de cruzar e conversar, notei que a maioria significativa apoia irrestritamente o Presidente Trump, ainda que este manifeste – e execute  - uma política anti-imigração, com caça e deportação de imigrantes ilegais (o que, sejamos justos, também foi uma prática adotada pelo Presidente Obama, do Partido Democrata, nas suas gestões). O que chama a atenção, no entanto, no comportamento do atual mandatário, são as tentativas de impor arbitrariamente  restrições severas ao reconhecimento de nacionalidade e cidadania a pessoas reputadas tais por preceitos constitucionais, tudo a movimentar extraordinariamente as querelas levadas aos Tribunais do país. Também cruzei com brasileiros que estão, a todo custo, tentando vir para os Estados Unidos, de forma regular é claro, decepcionados com a condução política e econômica do Brasil nesses tempos, o que me faz crer que o sonho americano não acabou e está longe de acabar. Bem, o terceiro setor, voltado aos serviços essenciais e braçais, aqueles que os americanos de todas as classes sociais não se animam em executar (área de alimentação como garçons, cozinheiros, ajudantes de cozinha, arrumadeiras e funcionários de hotéis, construção civil etc.), está em crise, como era previsto, constatando-se, como constatamos quase diariamente, a carência e inexperiência de empregados em restaurantes com filas imensas e atendimento moroso e precário, num estado que recebe milhões de turistas o ano todo e que se organizou, com logística e tecnologia, para bem recepcionar seus visitantes, mas dependente, porém, de seres humanos estrangeiros,  que ainda não podem ser ignorados, nem substituídos totalmente, no bom atendimento a essa massa de turistas que aqui movimentam extraordinariamente a economia do  estado e do país.



Até mais amigos.


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

PECADORES (SINNERS) -- DRAMA E TERROR.

 Bom dia amigos,

O longa “SINNERS”, traduzido literalmente no Brasil para “PECADORES” é um filme norte-americano de drama e terror, dirigido por Ryan Coogler, de duas horas e dezessete minutos de duração, aclamado pela crítica especializada e que rendeu muitas indicações aos principais prêmios americanos e internacionais de cinema, incluindo a de melhor filme e de melhor ator para Michael B. Jordan, o versátil ator de 32 anos, que transita pela carreira em várias modalidades e gêneros, e que no Brasil ficou mais conhecido pelo longa Pantera Negra (2.018), em que viveu o vilão Erik Killmonger, o antagonista do herói, o príncipe T’Challa  (Claudwick Boseman) no reino de Wakanda, país fictício onde se passa a história.   Com toda a versatilidade  que compõe um thriller de cinema (suspense, sexo, medo, drama, terror) num misto de ode à ancestralidade e à negritude, como afirma um crítico, e saudado por outro como um verdadeiro evento cinematográfico, pela reunião, bem amarrada, de ingredientes, que o tornam engraçado, sexy, amedrontador, cuida-se da história de dois irmãos negros gêmeos, Smoke e Stake (Michael B. Jordan), que, agora ricos e poderosos, explorando atividades à margem da lei,  decidem retornar à cidade natal, onde abrem um estabelecimento de diversão, uma “casa de blues” destinada apenas a negros.  No entanto, são surpreendidos por uma comunidade estruturada pelo racismo, que os recebe com a intenção de destruí-los, numa metáfora entre o bem e o mal, suscitando uma velha discussão sobre o pecado e as várias facetas paradoxais que qualquer ser humano pode apresentar ao longo da vida e das circunstâncias. Inserido nos embates desse inesperado retorno dos irmãos,  o jovem Sammie Moore (Miles Caton), protegido pelos egressos, filho de um pastor, vive o drama entre permanecer no pequeno lugar onde vive, respondendo pela continuidade da missão de servir a Deus e aos seus mandamentos, como lhe cobra insistentemente o pai, ou tentar a vida como músico, sonho alimentado pela sua vocação e reconhecido talento. Esse  misto de emoções, bem idealizado e conduzido pelo diretor, com uma empolgante trilha sonora, incluindo excelentes blues eletrônicos e sons ancestrais, tem o condão de manter o espectador vigilante a cada cena, a cada acontecimento, desenvolvendo empatia por esse ou aquele personagem, aguardando o misterioso desfecho reservado a cada um e àquela comunidade como um todo. O filme é imperdível por esse mix bem costurado e curioso,  e lembra muito a euforia com que foi recebido merecidamente o drama Parasita (2.019), obra prima contemporânea do cineasta Bong Joon-Ho, que quebrou a tradição da academia de Hollywood, ao vencer o Oscar na categoria de Melhor Filme, o primeiro e único longa não produzido, nem falado em língua inglesa,  a receber a estatueta, na mais importante categoria, em toda a história do prêmio.

 

Até mais amigos.


 P. S.(1)  A imagem acima foi emprestada do site CNN - Brasil.

 

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

CAUSAS & CAUSOS - AZOOSPERMIA

 

Boa tarde amigos,

Nesta antevéspera de ano novo, sem muita inspiração para encontrar poesia e beleza nesse mundo contemporâneo mergulhado em guerras e ódio, vai aqui um "causo" que se passou comigo mesmo, numa das minhas aulas de Direito Civil do passado. Espero que curtam.

"O Professor de Direito Civil tratava, naquela manhã, das hipóteses que a legislação contemplava para autorizar a anulação do casamento por erro essencial quanto à pessoa do outro cônjuge. A maior parte dos alunos se mantinha atenta ao assunto, muito palpitante dentro do não menos palpitante Direito de Família, área preferida pela maioria absoluta dos discentes. Há, explicava o mestre, duas formas de impotência. A primeira, chamada de impotência generandi,  também conhecida como esterilidade e se relaciona com a incapacidade para gerar filhos. Esse tipo de impotência, contudo, não autoriza a anulação do casamento. A outra, denominada impotência coeundi ou instrumental, como o próprio nome revela, refere-se à inaptidão para o coito, para o ato sexual em si, e essa, uma vez alegada e demonstrada pelo cônjuge enganado, é causa admitida pela lei para anulação do casamento, tendo em vista que, em regra, uma das finalidades do matrimônio é permitir a recíproca satisfação sexual dos cônjuges. Os romanos falavam, inclusive, em debitum conjugale,  expressão derivada do direito canônico, que tratava do jus in corpus, ou direito sobre o corpo, aludindo ao dever imposto pelo casamento, a ambos os cônjuges, de disposição para o coito regular,[1] tanto por parte do homem, quanto da mulher[2].  Já a incapacidade de gerar filhos não é, na visão do legislador, uma causa que justifique a invalidação do matrimônio. A literatura médica elenca uma série de patologias que podem impedir a procriação, como por exemplo, a azoospermia[3]. A essa altura era quase inevitável uma piadinha aqui e ali, cochichadas no ouvido do interlocutor próximo, sem que o professor fosse devidamente cientificado. O docente, brincalhão e bem humorado, ao perceber qualquer conversa paralela, rogava que a dúvida, ou mesmo a piada, fosse compartilhada com ele e com os colegas de turma, invocando o dever de solidariedade. O mais extrovertido, também e por isso mesmo representante de classe, não se fez de rogado e com uma ponta de sorriso no canto da boca, questionou o docente se a mulher também poderia ser acusada de impotência instrumental, pelo marido, já que ela não tinha assim propriamente um instrumento.  Pode sim, elucidou o professor. Em relação à mulher a impotência coeundi é denominada de frigidez[4].  Mas como esse mal não impede propriamente o coito, é muito rara a sua invocação em Juízo com vistas á invalidação do matrimônio.  A mulher sem interesse pelo sexo, ou indiferente a ele, acaba descumprindo propriamente o próprio dever de manter relações com o consorte, ensejando a dissolução do casamento por infração a esse dever ou finalidade.  Ou então, o que é mais comum, permite ser penetrada, ainda que indiferente ao ato, ou sem qualquer desejo, apenas para agradar o parceiro, por quem pode, inclusive, nutrir sentimento afetivo sincero, enquanto seu pensamento volta-se para qualquer outra questão externa ao que ocorre[5].  Enquanto discorre sobre essas questões, o professor atento observa que lá no fundo o Jonas está envolvido com o seu celular, eventualmente lendo mensagens e respondendo a elas, pelo que o adverte para que desligue o aparelho e se mantenha atento à aula. O rapaz, desatento, mas educado, rapidamente desliga o celular e finge que doravante não perderá palavra que seja da magnífica aula ministrada pelo professor. O sinal interrompe o encontro, o professor agradece a atenção e vai despedindo-se dos alunos, quando Jonas, numa tentativa de reabilitação com o mestre,  dirige-se a ele e indaga: Professor, me desculpe, o que é mesmo azoospermia? O docente para por um segundo, fita o interlocutor no fundo dos olhos e calmamente responde: Azoopermia? É porra nenhuma! Jonas dá um salto para trás e num gesto de quem pretende por panos quentes na relação que julga severamente desgastada a essa altura, arrisca: - Professor, me desculpe, o senhor não precisa ficar nervoso. E o mestre: - Não estou nervoso garoto! Repito:  Azoospermia é porra nenhuma mesmo, ou ausência de esperma. O jovem dirigindo-se ao mestre com um sorriso glacial, limita-se a afirmar: - Ah, entendi!"

Feliz Ano Novo, meus caros amigos.



[1] O coito regular, a chamada fornicatio simplex (fornicação) refere-se ao ato sexual segundo a natureza, ou seja, homem penetrando a vagina da mulher, o que se convencionou chamar de relação tipo papai-mamãe, embora nem eles saibam muito bem o porque disso.

[2] Sempre que me refiro a essa expressão oriunda do direito romano, ressalvo que a relação sexual entre os cônjuges ou companheiros nunca deve ser vista como dever, mas sim como uma prática sadia e prazerosa para ambos, corolário do envolvimento amoroso entre os consortes. Hoje, inclusive, é tranqüilo o entendimento de que o marido não pode compelir a mulher a manter relações sexuais com ele, fundado num suposto dever ou obrigação decorrente do casamento. O ato sexual imposto ou forçado é crime de estupro, praticado pelo marido contra a mulher, ou vice-versa.

[3] Azoospermia é causa de infertilidade masculina e significa  ausência de espermatozóides ativos no sêmen ejaculado.

[4] Frigidez  - De acordo com a definição clínica, a frigidez, ou desejo sexual hipoativo, se caracteriza pela ausência ou diminuição de interesse ou desejo sexual, pensamentos ou fantasias sexuais ausentes e falta de resposta ao desejo. 

 

[5] Por exemplo, deitada de costas no leito conjugal observa que no lustre do quarto dos “pombinhos” há uma pequena teia de aranha e planeja as ameaças que fará no dia seguinte à faxineira que jura ter limpado tudo, tudinho. Noutra anedota, a mulher, enquanto o marido se exercita,  aproveita para terminar de ler o livro de auto-ajuda que o seu terapeuta recomendou, pois no dia seguinte terá sessão e o doutor certamente lhe indagará a respeito. Pede desculpas ao companheiro e lhe recomenda que assim que ele terminar, por favor, a avise.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

EU E ELIS REGINA. CAPÍTULO I

 

Boa noite amigos, 


O apresentador pedia silêncio absoluto. Rapazes e moças foram se sentar no chão, bem próximos do pequeno palco improvisado no salão principal do Clube Fonte São Paulo, um dos mais tradicionais aqui em Campinas, Estado de São Paulo. A cantora viajava pelo Brasil, incluindo as capitais e os interiores dos estados, no chamado “Circuito Universitário”, um de seus projetos populares, que lhe dava imensa satisfação, como sempre admitiu.  Eis que Elis Regina surge no palco improvisado e logo o preenche com voz poderosa, a despeito de 1,53 m. de altura, a encantar todos os afortunados acadêmicos presentes. Não sei como eu e minha namorada, depois esposa, tínhamos participado desse encontro, pois não éramos sócios do clube, nem tínhamos dinheiro para pagar ingresso.  Provavelmente tenha sido convite ou doação do Dr. Mário Stucchi, sócio e diretor do clube, pessoa muito querida e que acompanhou a minha trajetória profissional, desde que eu era simples auxiliar de cartório. Hoje falecido e saudoso,  foi um dos nossos padrinhos de casamento no já distante ano de 1.975. Era o ano de 1.973 e o Brasil continuava  a conviver com a ditadura militar e a censura,  ano em que Elis lançava mais um álbum de sua carreira  (Elis, 1973) e participava  do Phono 73, um grande festival de música popular promovido pela gravadora Phonogram no centro de Convenções do Anhembi em São Paulo, que deu origem a três LPs. com as apresentações mais marcantes. Para que se tenha ideia das celebridades participantes e da vastidão de suas origens e ritmos, lá se apresentaram Caetano, Gil, Gal Costa, Jards Macalé, os Mutantes com a então vocalista Rita Lee, além de Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, Milton Nascimento etc. etc.  Elis havia gravado, nesse disco de 1.973, uma faixa que virou música de trabalho, com  uma regravação de antiga composição do desconhecido Pedro Caetano, lançada como samba no carnaval de  1.948 e que, com a interpretação pessoal e o novo arranjo de Cesar Camargo Mariano, virou um estrondoso sucesso nacional. O samba-choro É com Esse que eu Vou, abriu o nosso encontro naquela noite,  e todos nós, surpreendidos  com a potência de voz,  a forte presença cênica, a  afinação e  ginga da Pimentinha, tratamos de ir decorando a letra, que dizia:  /É com Esse Que eu Vou/Sambar até cair no chão/Com esse que eu vou desabafar na multidão/Se ninguém se animar eu vou quebrar meu tamborim/Mas se a turma gostar vai ser pra mim (....). E seguia:“Quero ver o ronca-ronca da cuíca/Gente pobre, gente rica/deputado, senador/quebra, quebra que eu quero ver uma cabrocha boa/ No piano da patroa batucando/É com esse que eu vou/.  Para terminar, com toque de suingue, reproduzindo e misturando trechos da letra (Um Vamp?), criado espontaneamente pela intérprete se ajustando ao arranjo (ou este a ela): /eu sei que vou/com esse que vou/mas é com esse que eu vou, sambar na multidão/até cair no chão/ eu vou, eu sei que vou, eu vou.....” Esse foi o meu primeiro encontro pessoal com Elis que eu já conhecia do começo da carreira, especialmente pela divulgação, pela mídia, da canção “Arrastão”, composição de Edu Lobo e Vinícius de Moraes (com que ela venceu o I festival de MPB da extinta TV Excelsior e documentada num compacto duplo que trazia, do lado B, Aleluia, um samba do mesmo Edu, com letra de Ruy Guerra). Do aludido festival e dos gestos largos da menina de 19 anos,  que girava os braços como se estivesse a voar, foi chamada de Élis Regina (referência a hélice, uma maldade ou sacanagem inventada por Ronaldo Bôscoli, que depois se tornou seu marido). Esse foi só o começo de um encontro pessoal, dos poucos que ainda iriam acontecer ao vivo, mas que projetou, para sempre, a minha crescente voragem antropofágica por essa artista e tudo que ela cantava ou fazia e que se tornou minha maior inspiração, insubstituível antes e depois de seu precoce passamento em 1.982, com apenas 36 anos de idade.

Até mais amigos.

 

 

 


sábado, 22 de novembro de 2025

NOSSA SENHORA REDENTORA?

 

Boa tarde amigos,

 

Imagem da Virgem Maria criada por
IA.

Recentemente, por decreto do Papa Leão XIV, o Vaticano reafirmou a sua posição já manifestada anteriormente, de que a Virgem Maria não é redentora, nem corredentora, em eventual parceria com  Jesus Cristo, seu filho. O assunto me interessou sobremaneira, mas especialmente porque não me lembro de ter ouvido, nas lições de catecismo da minha infância e começo da juventude,  afirmação  de que a Virgem Maria detivesse o poder de perdoar os pecados e livrar, assim, a humanidade, da chamada morte definitiva. A Deus,  na forma humana de Jesus Cristo, que padeceu com a condenação, o sofrimento imposto e a morte, é que os católicos reservam o monopólio da redenção. Por curiosidade, então,  fui rever o inteiro teor das orações clássicas voltadas à Nossa Senhora, dentre as quais, a “Ave Maria” e a  “Salve Rainha” e, em ambas, o que se destaca é a sua condição fundamental de mera intercessora,  Vejamos, então: Na Ave Maria “... Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós os pecadores, agora e na hora de nossa morte. Amém”   E na Salve Rainha: “.......  Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei.[1] E, adiante: “Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. Para que sejamos sempre dignos das promessas de Cristo.” [2] Na obra literária, Auto da Compadecida,  ficção do escritor e poeta Ariano Suassuna,  a Virgem Maria surge no julgamento de João Grilo como- advogada-defensora, que intercede em seu favor,   rogando  para que o Criador lhe permita voltar à vida terrena e nela a oportunidade de se redimir dos pecados que ameaçam a sua eternidade no céu. No cinema, esse papel foi desempenhado, com autoridade e competência, pela nossa Fernanda Montenegro. À primeira vista, o decreto papal, parece sugerir uma novidade, retirando da Virgem Santa prerrogativa que estaria na sua órbita de competência (misogenia?).  Todavia, tal não  corresponde à realidade, pois em verdade o decreto papal reproduz a verdade teológica, que nunca reconheceu o poder de redentora à santa mãe de Cristo, senão de mera interventora.  E como advogada, dispensada de registro na OAB e isenta do pagamento das anuidades, esperamos que continue a interceder por todos nós, pobres pecadores, pelo seu dom de misericórdia e  prestígio perante o Pai e o Filho.

 Até mais amigos.

 

 



[1] Em Latim:  “Eia ergo, advocata nostra, illos tuos misericordes oculos ad nos convertde.

[2] Em Latim: “Ora pro nobis, Sancta Dei Génitrix. R: Ut digni efficiemur promissionibus Christi.”