domingo, 24 de novembro de 2024

O CÉREBRO HUMANO E AS MEMÓRIAS

 

Amigos, bom dia.

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Somos o que nossa memória ainda é capaz de dizer sobre nós.  Sem memória apenas estamos neste mundo. Ou já fomos embora dele e só arrastamos a matéria de que somos feitos pelos caminhos e veredas do planeta.  Se “esquecer” é  o verbo que nos liberta do passado, da culpa, de outros sentimentos positivos ou negativos, a verdade é que também, quando a memória desaparece por completo, deixamos de existir na perspectiva de um ser humano ciente de sua história e dotado da dignidade que ela possa nos trazer, do ponto de vista individual e social.           O grande neurocirurgião Nubor Facuri, que por vezes encontro passeando, de braços colados,  com sua esposa, pelo Shopping Iguatemi, foi o responsável, com absoluto sucesso, por uma cirurgia delicada a que minha mãe teve que se submeter, há mais de 40 anos,  por causa de um aneurisma cerebral. A cirurgia, indispensável pelo risco de vida que o aneurisma expunha a paciente, resultaria, quase que certamente,  em alguma sequela física ou mental. E mesmo com o resultado 100% positivo da delicada intervenção, o Dr. Nubor, não atribuía a si, ao seu talento, à sua expertise, a ausência dessas prováveis sequelas, mas às condições orgânicas da paciente e o posicionamento do aneurisma no cérebro. E, finalmente, à ajuda espiritual que eventualmente estivesse recebendo durante essa e outras intervenções profissionais. E é essa figura humana incrível que, em elucidativo artigo acessível na internet[1], nos ensina que possuímos a memória semântica e  a episódica, ambas fazendo parte da memória declarativa, e a memória implícita ou de procedimentos. Enquanto a memória semântica refere-se ao conhecimento que aprendemos durante a vida (Paris é a capital da França, o Brasil fica na América do Sul, etc. etc.), a memória episódica é personalizada, isto é, ela se refere a fatos pessoais vividos por nós, o que implica dizer que ela é narrativa, e por isso mesmo, falha. A memória episódica refere-se a eventos pessoais vividos por nós, recentes ou não (onde almocei ontem,; em que ordem se encontram os quadros de Picasso na exposição de seus quadros etc.). A memória episódica tem um viés temporal e é fortemente contextualizada, com as marcas do tempo (fui à praia no verão passado, viajei a Aparecida na Semana Santa), ou ligadas ao contexto (quebrei a perna quando estávamos chegando ao cinema; assisti ao filme que venceu o Oscar de 2.022; fiquei surpreso ao encontrar Vera naquele evento). E,  conquanto possam ser resgatadas, como são retidas, principalmente, no hipocampo, são fugidias e enganosas. Por isso a cada lembrança ou relembrança, necessariamente, fazemos uma nova descrição daqueles fatos. Em resumo, recontamos o fato, nunca exatamente como fizemos na última vez, ou como ele ficou retido na lembrança no momento em que se passou.  Por isso há incerteza nos testemunhos dos episódios da vida. Essa narrativa, essa recontagem, não tem necessariamente qualquer componente consciente do narrados,  ou sua intenção de inverter, aumentar, subverter. Como juiz sempre considerei essas pequenas diferenças, durante a coleta da chamada prova testemunhal, ao ouvir versões recontadas pelos depoentes e avaliar a existência de crime de falso testemunho, que só existe na modalidade dolosa.   Tais memórias, quando carregadas de forte emoção física ou psíquica, explicam em boa parte os nossos medos, fobias, crises de pânico, o pavor de entrar num elevador, de encontrar uma cobra ou simplesmente uma barata, uma lagartixa, falar em público.  Dr. Nubor sempre foi espírita e, sem embargo de sua visão transcendental ou religiosa, é um cientista e clínico cirurgião da mais alta qualidade e traz, nesse artigo, valioso cabedal de conhecimento de neurologia, ao esclarecer de forma didática, como nosso cérebro é composto, as funções neurológicas e a sua participação na teoria do conhecimento ou cognitiva. E nos ajuda a entender um pouco das dificuldades que ainda cerca esse ramo da medicina e seu objeto: o maravilhoso e misterioso cérebro humano, cujos comandos ilimitados, nos proporciona todas as sensações, lembranças,  dores e prazeres a que todo ser humano está sujeito neste mundo.

Bom domingo amigos.

 



[1] https://www.oconsolador.com.br/ano12/580/especial.html <acesso em 19 de outubro de 2.024).

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

VIOLÃO COMPANHEIRO

 

Boa noite amigos,

 

O homus sapiens não nasceu para a solidão, assim como só a vivência gregária explica a possibilidade de  subsistência e a proteção recíproca de outras espécies animais indispensável à manutenção do ecossistema.  Precisamos um do outro nesse mundo de tantos perigos e dificuldades. Dependemos de outros seres para sermos concebidos e para nascer. Pequeninos, carentes de autossuficiência  é indispensável que aqueles que nos geraram, ou alguém por eles,  nos alimente, nos ensine e nos proteja. Quando nos tornamos finalmente adultos e nos desligamos dos laços paternos precisamos de amigos e, na maior parte das vezes, de um companheiro ou companheira para conviver e dividir os nossos projetos de existência. A aversão pela socialização é tida, ainda no nosso tempo, como uma característica de doença mental ou social e não como uma maneira de ser ou uma escolha de vida que deve ser, como qualquer outra opção, respeitada. Mas dividir a vida, respeitando cada qual o seu livre arbítrio, ou seja, sem a intenção de posse física ou psicológica do outro,  também tem sido um grande desafio. A necessidade de exercer alguma espécie de poder possível sobre um, alguns, uma comunidade, um povo inteiro, e assim por diante, é marca registrada do ser humano e o que se vê nas relações amorosas ou conjugais, em regra, é um desequilíbrio entre os parceiros, prevalecendo o domínio de um deles sobre o outro em maior ou menor porção. Os possessivos não querem dividir o ser possuído com ninguém. Tornam-se obsessivos na exigência cotidiana da ruptura do companheiro ou companheira com todas as outras pessoas, os amigos, os encontros,  os prazeres, qualquer coisa de um mundo dos quais se sente excluído ou com paixão dividida. Na sociedade machista em que ainda vivemos, normalmente os opressores são os homens, o que explica o grande número de feminicídeos dos nossos tempos e especialmente no país em que vivemos. Mas as mulheres também exercem, sem violência, mas mediante grave ameaça, o que dá no mesmo, a arte da possessão. É o tradicional "Ou ele ou ela, ou eu. Escolha".

O saudoso cantor Nelson Gonçalves se notabilizou na interpretação de sambas-canções que falam do egoísmo e da incompreensão de companheiras a exigir essa exclusividade de paixão e atenção. Uma delas se chama MEU DILEMA e tem os seguintes últimos e trágicos versos: “Fiquei entre a cruz e a espada/quando ela desesperada/obrigou-me a escolher/e agora/ o meu dilema persiste/viver sem ela é tão triste/sem ti não posso viver.”

Tudo por causa de um violão. O cigarro, um instrumento, o trago, os amigos, são companheiros que cada um elege para dividir os momentos de tristeza ou alegria, de reflexão, de aconselhamento, seja lá o que for.  Na literatura e na música tem sido freqüente a eleição do violão como o companheiro leal, sincero e respeitoso, com quem compensa dividir as agruras de uma paixão impossível ou de uma tristeza incontida. E nas notas que as mãos de seu proprietário ou portador vão suavemente deslizando sobre as cordas,  têm sido compostas lindas canções, dando o tom da poesia, do poeta, do compositor. Mas, por que o violão se existem outros instrumentos de corda ou percussão que poderiam desempenhar o mesmo papel?  Suponho que o violão, especialmente ele, pelo seu formato, é que mais se aproxima dos contornos do corpo de mulher, da lembrança da mulher. E com vantagens incontáveis sobre ela, pois como diria um amigo meu, boêmio e convicto solitário, o violão não te contraria, não manda você parar de trabalhar, nem lavar a louça, mudar de amigo,  parar de beber, não tem vergonha de seus porres, não pede dinheiro pra feira, não quer jamais discutir como anda a relação.  Acha pouco? A minha, se por acaso ler essas reflexões antes da postagem certamente dirá: Vai postar isso, mesmo?  É sério? 

 Até mais amigos.