Amigos, boa noite,
Os olhos assustados de criança nascida naquele pequeno
lugarejo rural, sem beleza, nem colorido, escondido no sopé da serra de Botucatu,
interior de São Paulo, se fixaram na
tela. E nada do que pudesse ocorrer ao redor seria capaz, naquele momento,de afastá-los dos movimentos intermitentes e inebriantes daquelas luzes e cores.
As imagens veiculadas pelo cinema que ainda há pouco chegara a Pirambóia, me fascinavam e ficariam para sempre gravadas
na minha retina. Já tinha visto luzes, já tinha visto cores. Nunca, porém,
tantas luzes e tantas cores juntas, transformando a noite num enorme clarão. O tempo passou. Mudei para a cidade
grande e toquei a vida. Muitas coisas iriam acontecer. Os projetos de trabalho,
estudo, conquistas e amadurecimento, não abriram tempo ou espaço para que essas
imagens voltassem à mente. Era assim algo de um tempo distante, uma estória que
se perdera na noite dos tempos, lá na
primeira infância e que, supunha, jamais voltaria com as mesmas impressões e
intensidade. Las Vegas, amigos, fez assim parte da minha infância, mas longe de qualquer possibilidade de ser vista,
tocada ou convivida. Os Estados Unidos da América, para nós, eram um outro planeta e, como tal, inacessível.
Quando
completei 40 anos de idade é que pude, já casado e com filha e uma vida
relativamente estável, viajar para o exterior, começando por Buenos Aires, a encantadora capital portenha,
cidade que gosto muito, e para a qual
voltei outras vezes. Depois, muitas outras para a Europa, especialmente, para a Itália e a França e, pelo menos, cinco vezes para
Miami e Orlando, na Flórida. Não fomos a Las Vegas, porém. O ano passado, mais
de cinquenta e cinco anos depois daquelas imagens fascinantes, decidimos
conhecer as maravilhas que os amigos diziam do Estado da Califórnia, com destaque para São
Francisco e San Diego e o charme da
grande Los Angeles, a capital do cinema, dentre outras atrações.A viagem
terminaria então em Las Vegas, já no Estado de Nevada. Quando deixamos San Diego e mergulhamos, de
automóvel, no deserto de Nevada, as imagens voltaram à
minha mente. Memória diferente, já vivida, sacudida, sopesada e um tanto cansada
da minha terceira idade. Já não havia nessa lembrança tanto encanto, tanto
sonho, senão simples curiosidade de como eu sentiria o encontro das sensações
do presente com a memória afetiva do
passado.
Chegamos no começo da noite e de longe já pude observar, distante, aquela iluminação peculiar de uma cidade inteira de fantasia. Quando adentramos a avenida
principal, surgiram os imponentes hotéis e seus imensos casinos, cada qual
reproduzindo uma cidade, um monumento,
uma obra-prima do patrimônio histórico mundial. Era como se estivéssemos viajando pelo espaço e
há pouco minutos saíssemos de uma tumba de faraó no Egito para tomarmos café em
Nova York; de uma oração na Capela Sistina para um sorvete num elegante café do Louvre de
Paris. Ali se concentrava a réplica de tudo e de cada um dos símbolos da
civilização humana de ontem e de hoje. Eram os irmãos americanos a mostrar ao
mundo sua superioridade: nós conseguimos reproduzir cada uma dessas maravilhas
que diferentes povos e culturas construíram. Fiquei realmente encantado com
essa manifestação de talento, essa capacidade ímpar de produzir, mediante tecnologias
de ponta, o protótipo de qualquer coisa que existe ou tivesse existido neste
mundo. Mas não me emocionei, como um dia me emocionei no Largo de São Marcos em
Veneza, ou ao visitar a Capela Cistina no Vaticano, vislumbrando cada detalhe
da pintura de Da Vinci. Ficamos dias desfrutando do que a cidade podia nos
proporcionar, como espetáculos teatrais e bons restaurantes. Não gostamos de
jogos, nem de casinos.
No final, cheguei à conclusão que as luzes, as cores e
as imensas construções com suas monumentais obras de arquitetura e engenharia
merecem ser vistas e admiradas. Mas com a certeza de que tudo ali é de mentira.
Sem a verdade, o sofrimento, a paixão,
o orgulho e qualquer outro sentimento
humano de todos aqueles que fizeram, de cada uma dessas maravilhas do mundo,
uma história de vida, de luta, de
sofrimento ou de glória. Esse foi o significado de meu encontro do passado com
o meu presente de Las Vegas. A belíssima Las Vegas. Sem os sonhos e as emoções do menino. Com um tranquilo e maduro reconhecimento de seu valor estético e tecnológico. Uma cidade que merece sim ser vista e
admirada. Como, porém, um cenário de um filme futurista.
Até
amanhã amigos.
P.S.
(1) As imagens da postagem de hoje são fotos do meu celular documentando trechos de hotéis e casinos de Las Vegas.
P. S. (2) As noites de Las Vegas são impressionantes. Multidões de gente de todas as matizes, todas as origens e, sobretudo, todas as expectativas. Uma verdadeira "fauna humana.". Gente à busca de felicidade ou prazer momentâneo, seja no jogo, seja no álcool, na música, nas luzes, na comida, no sexo, em atos de loucura espontânea que se via pelas ruas e avenidas da cidade, ou qualquer ópio que possa conduzir a um sonho, um sonho do qual não se pretende acordar e que o sol quente do deserto do dia seguinte impiedosamente sepulta. Mas todas as noites voltam,depois dos dias. E as noites de Las Vegas, com os seus truques, continuam a arrebatar multidões ávidas por encontrar beleza, prazer ou aventura.
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