sábado, 28 de dezembro de 2024

CASIMIRO DE ABREU - MEUS OITO ANOS

 

Boa tarde meus amigos,

  

Casimiro de Abreu (1839-1860), poeta do romantismo, viveu cerca de  três anos em Portugal, país no qual, segundo Sergius Gonzaga  "elaborou boa parte de suas obras e  desenvolveu o sentimento de exílio, que tanto perseguia os românticos. Inspirado em Gonçalves Dias escreveu uma série de poemas impregnados de nostalgia da terra natal, denominado “canções de exílio”. No entanto, não é apenas a saudade do Brasil e a correspondente sensação de estar exilado que anima a sua lírica. O que o consagrou foi a nostalgia típica dos românticos, daquelas realidades pessoais que ficam para trás: a mãe, a irmã, o lar, a infância” [1]. Essa paixão pela infância e seus encantos o consagrou como o poeta da  “aurora da vida”. O seu poema Meus Oito Anos é um exemplo típico dessa nostalgia lírica tão bonita, tão cara, a despeito das diferenças entre os “viveres” de cada um de nós, de ter ou não ter tido  uma infância como a dele, com afagos de mãe e irmã e um folgar nas sombras de bananeiras e laranjais.  O poema Meus Oito Anos explora o encanto da infância, trazendo à tona um turbilhão de emoções e  sensações de um tempo perdido, mas nunca  esquecido. E que serviu, certamente, para moldar a nossa história, os nossos valores e a nossa personalidade. Salve o poeta da aurora da vida!

 



Até breve.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

CINEMA - O TREM ITALIANO DA FELICIDADE


 Boa noite amigos, 



O Trem Italiano da Felicidade (2024, Netflix) é uma das raras preciosidades do bom cinema italiano, que, em alguns momentos, lembra o badalado “Cinema Paradiso” (1988) e “O Carteiro e o Poeta” (1994), sem, porém,  o acabamento e o primor de seus antecessores.  As questões que se colocam não são fáceis de responder: É possível perseverar na busca de uma vocação num mundo cruel e impiedoso que rejeita todas as possibilidades de ascensão? Pode uma criança conviver com a repetida afirmação de que é "um castigo de Deus"  para a família? O sentimento de amor e cuidado é compatível com a aspereza, a agressão física e moral, em nome de uma segurança hipotética ditada pelo sofrimento e desilusão? É ainda possível converter em amor um ato de caridade de uma mãe “postiça”, que desconhece o afeto, endurecida pela ideologia política de desprezo ao fascismo e amor ao comunismo? Com adaptação do romance CRIANÇAS DE GUERRA: A HISTÓRIA SOBRE O TREM ITALIANO DA FELICIDADE, de Viola Ardone, o longa se passa no pós segunda guerra mundial, dando ênfase ao movimento do Partido  Comunista Italiano e da Unione Donne Italiano, entre 1945 e 1.952, de enviar crianças do Sul da Itália, para famílias do Norte, tendo em vista a  absoluta precariedade e miséria em que elas viviam nas famílias de origem, sem o mínimo para sobrevivência com alguma dignidade. Nesse cenário, o menino Amerigo Spera (Christian Cervone) é enviado ao Norte, onde é adotado provisoriamente por uma mulher solteira e passa a receber  o essencial como boa alimentação, teto, roupas adequadas e educação, até retornar para o lar materno onde encontra novamente a mãe biológica na mesma vida de penúria. Com direção da italiana Cristina Comencini, o tempo presente mostra  um famoso maestro, já na maturidade, recebendo a notícia do falecimento de sua mãe de sangue, antes de uma de suas famosas apresentações públicas com teatro lotado, mas prefere manter o espetáculo. Depois se dirige à humilde, quase miserável residência daquela mãe, com quem teve grandes embates e desencontros  e ali, enquanto revê objetos e fotos, vêm à tona à sua memória episódios de sua vida e seus relacionamentos, desde a infância, a sua transferência para a família adotiva e a luta para estudar música e se tornar uma referência internacional na arte. Profundo, o longa transmite comportamentos  antagônicos dos personagens que buscam subsistir no caos e na miséria, mesclando sentimentos de amor e revolta, incompreensão e desrespeito, paixão, admiração, amizade, lealdade e tudo o mais que a supressão do mínimo existencial possa provocar em mães e filhos, ricos e pobres e a discussão sobre os rumos políticos da Itália pós guerra com o crescimento do comunismo e a forte rejeição ao fascismo e ao nazismo, derrotados no final da segunda guerra mundial. Sensível e delicado, melancólico e, ao mesmo tempo, didático e humano,  talvez sejam os adjetivos que melhor expressem o que os ótimos atores, especialmente as crianças conseguem transmitir. Não deixe de ver!

domingo, 24 de novembro de 2024

O CÉREBRO HUMANO E AS MEMÓRIAS

 

Amigos, bom dia.

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Somos o que nossa memória ainda é capaz de dizer sobre nós.  Sem memória apenas estamos neste mundo. Ou já fomos embora dele e só arrastamos a matéria de que somos feitos pelos caminhos e veredas do planeta.  Se “esquecer” é  o verbo que nos liberta do passado, da culpa, de outros sentimentos positivos ou negativos, a verdade é que também, quando a memória desaparece por completo, deixamos de existir na perspectiva de um ser humano ciente de sua história e dotado da dignidade que ela possa nos trazer, do ponto de vista individual e social.           O grande neurocirurgião Nubor Facuri, que por vezes encontro passeando, de braços colados,  com sua esposa, pelo Shopping Iguatemi, foi o responsável, com absoluto sucesso, por uma cirurgia delicada a que minha mãe teve que se submeter, há mais de 40 anos,  por causa de um aneurisma cerebral. A cirurgia, indispensável pelo risco de vida que o aneurisma expunha a paciente, resultaria, quase que certamente,  em alguma sequela física ou mental. E mesmo com o resultado 100% positivo da delicada intervenção, o Dr. Nubor, não atribuía a si, ao seu talento, à sua expertise, a ausência dessas prováveis sequelas, mas às condições orgânicas da paciente e o posicionamento do aneurisma no cérebro. E, finalmente, à ajuda espiritual que eventualmente estivesse recebendo durante essa e outras intervenções profissionais. E é essa figura humana incrível que, em elucidativo artigo acessível na internet[1], nos ensina que possuímos a memória semântica e  a episódica, ambas fazendo parte da memória declarativa, e a memória implícita ou de procedimentos. Enquanto a memória semântica refere-se ao conhecimento que aprendemos durante a vida (Paris é a capital da França, o Brasil fica na América do Sul, etc. etc.), a memória episódica é personalizada, isto é, ela se refere a fatos pessoais vividos por nós, o que implica dizer que ela é narrativa, e por isso mesmo, falha. A memória episódica refere-se a eventos pessoais vividos por nós, recentes ou não (onde almocei ontem,; em que ordem se encontram os quadros de Picasso na exposição de seus quadros etc.). A memória episódica tem um viés temporal e é fortemente contextualizada, com as marcas do tempo (fui à praia no verão passado, viajei a Aparecida na Semana Santa), ou ligadas ao contexto (quebrei a perna quando estávamos chegando ao cinema; assisti ao filme que venceu o Oscar de 2.022; fiquei surpreso ao encontrar Vera naquele evento). E,  conquanto possam ser resgatadas, como são retidas, principalmente, no hipocampo, são fugidias e enganosas. Por isso a cada lembrança ou relembrança, necessariamente, fazemos uma nova descrição daqueles fatos. Em resumo, recontamos o fato, nunca exatamente como fizemos na última vez, ou como ele ficou retido na lembrança no momento em que se passou.  Por isso há incerteza nos testemunhos dos episódios da vida. Essa narrativa, essa recontagem, não tem necessariamente qualquer componente consciente do narrados,  ou sua intenção de inverter, aumentar, subverter. Como juiz sempre considerei essas pequenas diferenças, durante a coleta da chamada prova testemunhal, ao ouvir versões recontadas pelos depoentes e avaliar a existência de crime de falso testemunho, que só existe na modalidade dolosa.   Tais memórias, quando carregadas de forte emoção física ou psíquica, explicam em boa parte os nossos medos, fobias, crises de pânico, o pavor de entrar num elevador, de encontrar uma cobra ou simplesmente uma barata, uma lagartixa, falar em público.  Dr. Nubor sempre foi espírita e, sem embargo de sua visão transcendental ou religiosa, é um cientista e clínico cirurgião da mais alta qualidade e traz, nesse artigo, valioso cabedal de conhecimento de neurologia, ao esclarecer de forma didática, como nosso cérebro é composto, as funções neurológicas e a sua participação na teoria do conhecimento ou cognitiva. E nos ajuda a entender um pouco das dificuldades que ainda cerca esse ramo da medicina e seu objeto: o maravilhoso e misterioso cérebro humano, cujos comandos ilimitados, nos proporciona todas as sensações, lembranças,  dores e prazeres a que todo ser humano está sujeito neste mundo.

Bom domingo amigos.

 



[1] https://www.oconsolador.com.br/ano12/580/especial.html <acesso em 19 de outubro de 2.024).

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

VIOLÃO COMPANHEIRO

 

Boa noite amigos,

 

O homus sapiens não nasceu para a solidão, assim como só a vivência gregária explica a possibilidade de  subsistência e a proteção recíproca de outras espécies animais indispensável à manutenção do ecossistema.  Precisamos um do outro nesse mundo de tantos perigos e dificuldades. Dependemos de outros seres para sermos concebidos e para nascer. Pequeninos, carentes de autossuficiência  é indispensável que aqueles que nos geraram, ou alguém por eles,  nos alimente, nos ensine e nos proteja. Quando nos tornamos finalmente adultos e nos desligamos dos laços paternos precisamos de amigos e, na maior parte das vezes, de um companheiro ou companheira para conviver e dividir os nossos projetos de existência. A aversão pela socialização é tida, ainda no nosso tempo, como uma característica de doença mental ou social e não como uma maneira de ser ou uma escolha de vida que deve ser, como qualquer outra opção, respeitada. Mas dividir a vida, respeitando cada qual o seu livre arbítrio, ou seja, sem a intenção de posse física ou psicológica do outro,  também tem sido um grande desafio. A necessidade de exercer alguma espécie de poder possível sobre um, alguns, uma comunidade, um povo inteiro, e assim por diante, é marca registrada do ser humano e o que se vê nas relações amorosas ou conjugais, em regra, é um desequilíbrio entre os parceiros, prevalecendo o domínio de um deles sobre o outro em maior ou menor porção. Os possessivos não querem dividir o ser possuído com ninguém. Tornam-se obsessivos na exigência cotidiana da ruptura do companheiro ou companheira com todas as outras pessoas, os amigos, os encontros,  os prazeres, qualquer coisa de um mundo dos quais se sente excluído ou com paixão dividida. Na sociedade machista em que ainda vivemos, normalmente os opressores são os homens, o que explica o grande número de feminicídeos dos nossos tempos e especialmente no país em que vivemos. Mas as mulheres também exercem, sem violência, mas mediante grave ameaça, o que dá no mesmo, a arte da possessão. É o tradicional "Ou ele ou ela, ou eu. Escolha".

O saudoso cantor Nelson Gonçalves se notabilizou na interpretação de sambas-canções que falam do egoísmo e da incompreensão de companheiras a exigir essa exclusividade de paixão e atenção. Uma delas se chama MEU DILEMA e tem os seguintes últimos e trágicos versos: “Fiquei entre a cruz e a espada/quando ela desesperada/obrigou-me a escolher/e agora/ o meu dilema persiste/viver sem ela é tão triste/sem ti não posso viver.”

Tudo por causa de um violão. O cigarro, um instrumento, o trago, os amigos, são companheiros que cada um elege para dividir os momentos de tristeza ou alegria, de reflexão, de aconselhamento, seja lá o que for.  Na literatura e na música tem sido freqüente a eleição do violão como o companheiro leal, sincero e respeitoso, com quem compensa dividir as agruras de uma paixão impossível ou de uma tristeza incontida. E nas notas que as mãos de seu proprietário ou portador vão suavemente deslizando sobre as cordas,  têm sido compostas lindas canções, dando o tom da poesia, do poeta, do compositor. Mas, por que o violão se existem outros instrumentos de corda ou percussão que poderiam desempenhar o mesmo papel?  Suponho que o violão, especialmente ele, pelo seu formato, é que mais se aproxima dos contornos do corpo de mulher, da lembrança da mulher. E com vantagens incontáveis sobre ela, pois como diria um amigo meu, boêmio e convicto solitário, o violão não te contraria, não manda você parar de trabalhar, nem lavar a louça, mudar de amigo,  parar de beber, não tem vergonha de seus porres, não pede dinheiro pra feira, não quer jamais discutir como anda a relação.  Acha pouco? A minha, se por acaso ler essas reflexões antes da postagem certamente dirá: Vai postar isso, mesmo?  É sério? 

 Até mais amigos.

 

 

 

 

 

domingo, 20 de outubro de 2024

O HUMOR E A COMÉDIA QUE SALVAM

 

Boa noite amigos,

 

Através do humor vemos no que parece racional, o irracional; no que parece importante, o insignificante. Ele também desperta o nosso sentido de sobrevivência e preserva a nossa saúde mental” CHARLES CHAPLIN.

 


Muito se disse a respeito do humor e da comédia. O humor salva, dá sentido à vida e às coisas. Sem o humor, afirmou um dia Ary Toledo, que nos deixou recentemente, “a vida é um absurdo”. O humor e a comédia servem a tudo e a todos. Espalham a alegria e sugerem reflexão. O humor inteligente é intrigante, escancara as contradições do ser humano, a sua vileza, a sua pequenez, fere os poderosos com piadas, provocando sorrisos, escamoteando as dores e os sofrimentos do ser humano, condenando a sanha pelo poder e pelo arbítrio, reinante em todos os lugares, em todos os tempos, desde o surgimento da espécie humana. Fazer humor, fazer rir é coisa séria.  Ponderam os atores, com frequência, que o desafio de fazer comédia é maior do que atuar em outro gênero, seja drama ou tragédia.  William Shakespeare com talento e argúcia,  driblou a dura censura inglesa,  na era medieval da Inglaterra Elisabetana anti-semita, ao contar a saga do judeu Shylok e seu sofrimento, dores e perdas,  simplesmente catalogando o seu  “Mercador de Veneza” como o gênero  comédia, que faria rir os incultos censores e à nobreza ignorante,  com o desfecho que ridicularizava o credor que,  sem direito à prestação que por lei faria jus, ainda sofreu penas absurdas como de confisco e de conversão compulsória ao cristianismo. O humor é democrático e, não raras vezes, não se constrói sobre o outro, ou os outros, mas sim sobre o  próprio contador das estórias e casos e, por isso, não é arrogante, nem ultrajante. O humor é também uma opção de vida, uma alternativa de afastar ou minimizar os sentimentos de perda, fracasso, impotência, medo, depressão,  que crescem em tempos de pandemias e de impiedosas e estúpidas guerras.  A mim o humor é fundamental. Em todos os tempos, desde criança. Aprontei situações inusitadas com meus colegas e também fui vítima daquelas por eles arquitetadas. E, ao contrário do que se pode supor, por isso não se desfez amizades, mas ao contrário, fortaleceu os laços de fraternidade que nos unia e que hoje são parte da nossa memória comum e que nos é tão caras, nos encontros raros que ainda acontecem ao acaso, aí pela vida afora, já na terceira idade. Passando da casa dos setenta anos, não perdi o senso de humor, não perdi a alegria, não me entreguei à tristeza, embora não possa responder pelo amanhã. Vivo cada dia como se fosse o último, como um bônus. Brincar com as deficiências e as perdas que a ancianidade nos impõe é, ainda, a mais sábia forma de continuar a vida com leveza. Escrevi três livros de contos. Neles busquei relatar, com minha memória afetiva, os “causos” curiosos que foram aparecendo no exercício das minhas profissões de advogado, professor e Juiz de Direito e que muito me disseram e dizem sobre a antropologia humana, o poder da imaginação e a capacidade de amar, apesar de tudo.

 

Boa semana amigos.

P.S. (1) A imaginação é mais importante que o conhecimento”  (Albert Einstein).

P.S. (2)  “Não é que eu tenha medo de morrer. É que eu não quero estar lá na hora que isso acontecer”  (Woody Allen).


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

FILME NACIONAL - DOCE FAMÍLIA.

 

Amigos, boa noite


Desde o último dia 06 de setembro, a netflix disponibiliza aos seus assinantes, a comédia romântica brasileira, Doce Família, com uma hora e meia de duração, cujo roteiro é adaptado do filme mexicano do mesmo nome (Dulce Familia). Com direção de Carol Durão e roteiro da dupla Carolina Garcia/Camila Agustini, o longa gira em torno do sonho da jovem Tamara (Mariana Xavier), dona de uma confeitaria e noiva de Beto (Gabriel Godoy, que está na TV atualmente como o Carlão da novela Família É Tudo – Globo, 19,00 horas), de se casar com o mesmo vestido que a mãe, Verônica (Maria Padilha), usou no casamento dela, o que se revela impossível diante do fato de ser a única obesa da família. A partir disso, tanto a mãe, como as irmãs Babi (Viih Tube) e Alê (Karina Ramil), que trabalham na área de beleza feminina, decidem convencer Tamara  a se submeter a uma revolução estética, que lhe causa um sacrifício torturante. O roteiro é comprometido com a crítica à ditadura estética, imposta pela sociedade moderna, estimulando os  “diferentes” a se aceitarem como são. A trama é divertida e termina com o casamento da protogonista, numa  cerimônia inusitada, em que os convidados, entre surpresos e encantados,  são convidados a revisitar os seus preconceitos e “amarras” sociais, experimentando, depois de  uma grande catarse coletiva, a sensação de  alegria e despojamento na adoção de  atitudes espontâneas e simples. Mariana Xavier, em atuação irretocável, muito contribui e valoriza a proposta do longa, ao lado da também brava atuação de sua mãe, a  veterana atriz, Maria Padilha,  na pele de uma personal estética que apregoa às suas seguidoras, o ideal do corpo perfeito.  Boa comédia para o fim a que se propõe, ou seja, divertir o expectador. Recomendo!

Boa noite amigos.

 

sábado, 8 de junho de 2024

SACANAGEM! APRENDI COM PAPAI

 

Boa noite amigos,

 

Imagem da cantora Martinália, uma das filhas 
do  compositor e cantor Martinho da Vila.

Navegando nos sites de músicas pela Internet em busca de novidades de qualidade (poucas, aliás) e de reencontrar clássicos antigos, que ficaram lá no fundo da memória, descobri uma gravação de Martinália, cantora com timbre de voz peculiar, sambista da gema, filha do mestre Martinho da Vila. O samba a que me refiro é antigo, de autoria do saudoso Monsueto, uma lenda do samba carioca, morto em 1.973,   batizado de “Casa Um da Vila”. A canção fala das provocações da mulher de um amigo, que morava em frente da casa do sambista e diz assim: /Aluguei a casa um da vila/Meu amigo mora em frente/ e a mulher desse amigo/anda arranjando tempo quente/ Senta a me provocar/Olha a me conquistar/Sorri a me convidar/Até um cego pode notar/. Aí vem o estribilho bastante difundido .../Eu sinto sede/eu sinto fome/mas mulher de amigo meu pra mim é homem/ Muitos gravaram essa música e o próprio Martinho chegou a cantá-la em alguns shows, em tributo a Monsueto.  A curiosidade que me faz escrever sobre o assunto é que, na gravação da Martinália, ela segue a letra original até a expressão “mulher de amigo meu”. Aí,  dá uma parada e, em duas repetições, ouve-se apenas o som dos instrumentos chorando,  em substituição do final (pra mim é homem).  Na terceira vez a cantora termina trocando /pra mim é homem/ por /também se come/, para delírio da plateia. Até aí cuida-se de uma irreverência da própria intérprete. Ignorando as ovações da plateia,  em seguida pronuncia, quase balbuciando,  a seguinte frase: Aprendi com meu pai. Não sei como papai recebeu a delação. Muito menos a mamãe. Mas filho gosta de sacanear os pais, sempre que tem oportunidade. Já viram algum deles falando que aprendeu com o pai a prática de um ato nobre? Ou o conhecimento elogiado de certo assunto?  É possível, mas pouco provável. A verdade é que, se o moleque chega em casa falando palavrão e a mãe manda “lavar a boca”, reclamando, ele logo garante: Aprendi com meu pai durante o jogo de futebol. Sacanagem!

Até mais amigos.