domingo, 9 de outubro de 2016

E O GUARANI VOLTA Á SERIE B DO BRASILEIRO

Amigos,

Foto oficial da equipe do Guarani Futebol Clube tirada no

jogo de ontem. Imagem emprestada de globoesporte.glo

bo.com.
O ex-goleiro e treinador, Leão, disse um dia  que o pior medo de uma equipe não era o medo de perder, mas o medo de ganhar. Junto a esse pensamento, outro do saudoso jornalista e comentarista esportivo, Armando Nogueira, que de certa feita, ao falar sobre uma dessas formações medíocres do Botafogo do Rio de Janeiro, time pelo qual torcia desde pequeno, desabafou: - O problema é que esse time não tem alma. Bem, fui ontem ressabiado para o Estádio Brinco de Ouro da Princesa. Bugrino, desde menino, me acostumei,  tanto com as vitórias, quanto com as derrotas, embora estas tenham sido a tônica do Guarani das últimas décadas, uma das equipes, senão a equipe que mais experimentou descensos nos campeonatos que disputou nos últimos anos. Resta sempre o consolo de falar do Bugre de outrora. Daquela equipe campeã brasileira, única do interior do Brasil, até hoje, como se mandou escrever, em letras garrafais, em cima do Tobogã do Brinco,  e que alguns amigos pontepretanos acham cafona, certamente por despeito,  para relembrar de um passado de glória que o torcedor das gerações mais novas jamais testemunhou. Mas se é verdade que é no sofrimento, no revés,  na desgraça, que as paixões mais se intensificam, certo é que esse ditado tem tudo a ver com a nova torcida bugrina. Nos anos 60, 70, o time do Guarani sempre merecia destaque, com ou sem a conquista de títulos. Mas a torcida não comparecia aos estádios com regularidade e em número compatível com a qualidade da equipe e do espetáculo. Reclamava-se de sua suposta indiferença, coisa que na época era sinônimo de clube de elite, não de massa, o que também se dizia do São Paulo e do Fluminense do Rio.  Lembro-me que o comentarista Juca Kfouri , destacado por um órgão de imprensa para cobrir a final entre Palmeiras e Guarani no Brinco de Ouro em 1.978, escreveu de madrugada, para sua coluna, de um hotel em que se hospedara na cidade,  que era incrível o silêncio que se sentia nas ruas, na noite da conquista do título inédito e importante. Os bugrinos teriam preferido comemorar a láurea no Tênis Clube de Campinas ou em outros locais mais elitizados da cidade. Os tempos mudaram, por certo. Voltando ao presente, fui ao estádio relutante, mas convicto de que era meu dever como bugrino ir lá e acreditar que a equipe seria capaz de reverter um resultado totalmente adverso na fase do mata-mata.  Uma equipe que há uma semana, simplesmente não entrou em campo na longínqua Arapiraca, no Estado das Alagoas para jogar contra o  ASA, apenas o quarto classificado da outra chave. 

O centroavante Eliandro, que veio do Bragantino, contrata-

do apenas para as duas partidas decisivas. Acabou sendo 

o grande herói do acesso ao marcar dois dos três gols do

Bugre na vitória de ontem sobre o Asa pelo placar de --

3 a 0. Imagem emprestada de www.yndooutube.com.
E que tomou três gols inacreditáveis, numa defesa que tinha feito um campeonato até então de muita regularidade e segurança. O que aconteceu? Coisas dos Deuses dos Estádios como diria um antigo locutor campineiro. Não era dia. Não era ano. Não era a vez. Tudo isso se misturava no pensamento durante a semana. E as estatísticas todas fatídicas: o Guarani não fez diferença de dois gols em praticamente nenhum jogo desse campeonato. As exceções foram 2 em 18 rodadas.  Tinha mais. O treinador   se especializara em fazer grandes campanhas na série C, e perder o acesso no mata-a-mata. Isso aconteceu nos dois anos anteriores. Com toda essa carga contrária, teve ainda um amigo bugrino que insistia em suspeitar do goleiro ou de jogador da defesa, que teria sido “comprado” no jogo de ida, como supostamente acontecera também em 1.982, na semifinal do Brasileiro, na derrota para o Flamengo. O nosso goleiro, o carioca Wendel,  tinha tomado três gols "suspeitos", em noite pouco inspirada, em que o Brinco de Ouro recebia mais de 52.000 torcedores, o seu recorde de público até hoje. O Fla, porém, era aquele timaço de Zico, Junior e Cia., capaz de reverter qualquer resultado negativo e que foi campeão brasileiro naquele ano, com todos os méritos.  Bem, vou, não vou. Fui. Animei-me com as notícias de que até a véspera mais de 10.000 ingressos tinham sido vendidos. A torcida acreditava. Estaria ao lado do time. E que alguns dos heróis do título brasileiro de 1.978, foram ao Brinco, para falar aos jovens atletas da necessidade de confiança e dedicação,  para uma perspectiva de sucesso e superação. Careca, Zenon, Renato Pé Murcho e Bozó teriam ilustrado a mensagem com histórias da superação do Guarani de 1.978.
Capa da revista de esportes PLACAR, edição

de agosto de 1.978, noticiando a conquista-

do título brasileiro pelo Bugre campineiro.

Imagem emprestada de imortaisdofutebol.

com.
Uma equipe do interior de São Paulo que tinha sido ridicularizada pela imprensa gaúcha, um dia antes de ter metido um 3 a 0 inesquecível sobre o temível Internacional de Porto Alegre de Falcão, Batista e outros craques, em pleno Beira Rio. Que nada obstante, ter sofrido uma goleada implacável de 5 a 0, imposta pelo Remo de Belém do Pará, em tarde inspirada de um tal jogador Bira, que não iria fazer  história relevante no futebol, foi capaz de superar tudo com vontade, qualidade e raça. Ao chegar no estádio senti a força da torcida presente.  Firme, barulhenta, alegre, transmitia otimismo e confiança na onda da ola que se seguia, envolvendo todos e cada um dos presentes. Busquei uma cadeira vaga na lotada vitalícia. Havia uma ao lado de um torcedor ilustre: Arthur Antunes Coimbra Junior, filho de ninguém mais, ninguém menos, do que o lendário jogador Zico. Junior torce pelo Bugre desde 1.986, quando o alviverde desclassificou o Vasco da Gama e foi para a final com o São Paulo, perdendo o título nas penalidades máximas. Quando a equipe surgiu em campo  aplaudida de pé, os jogadores devem ter sentido toda a energia que exalava das arquibancadas. O jogo começou a mil. Nesse exato momento não sei por que não tive dúvidas: O Guarani iria alcançar o seu objetivo. Tiraria a diferença e selaria o seu destino de acesso à série B do Campeonato Brasileiro. O time vibrava. Sem nenhuma exceção. Havia entrega absoluta dos atletas em campo. 

Eu e meu vizinho no setor de vita

lícias do Brinco de Ouro, o torce

dor ilustre, Arthur Antunes Co-

imbra Junior, filho de Zico, em 

imagem do meu celular.
A cada jogada de  recuperação de bola, cada metida para a lateral ou "limpada" de área era acompanhada de uma ovação da plateia. E quando a bola estava nos pés do adversário eram apupos e ensurdecedoras vaias. O trio de arbitragem sentia o peso do público. Pelo menos um cartão amarelo foi mostrado para jogador do Asa, por imposição daquela ruidosa platéia. Aí veio o gol. Fuma, o grande Fumagalli, o herói bugrino, levanta a bola na cabeça de Leandro Amaro, que fulmina para as redes, sem chances para o goleiro. 1 a 0. A torcida explode no estádio, comemorando a abertura do placar e o caminho para a  vitória e a classificação. A equipe se empolga. E ataca sem medo ou temor. Acaba o primeiro tempo, não sem antes sofrermos duas vezes o sufoco de chances perdidas pelo adversário. Fazia parte da estratégia do jogo. Que a sorte estivesse conosco, pois transpiração, ousadia e confiança não faltavam. O segundo tempo começa a todo vapor. Vem o segundo gol da forma mais improvável. O goleiro, ao cobrar um tiro de meta mete a bola contra a perna do centroavante Eliandro. E a pelota, com o choque, segue caprichosamente de mansinho para dentro do gol. 2 a 0 e a classificação encaminhada. Eram apenas 8 minutos do segundo tempo. O jogo poderia acabar ali. Mas restavam 37 longos minutos, uma eternidade no futebol. Pressão do adversário que, aquela altura não tinha nada a perder. O time faz menção de recuar, o que é natural. Mas fica firme na marcação, sufocando o adversário. Cada atleta se desdobra ao máximo. São bolas disputadas no alto e no chão. Muitas divididas. Aí aparece um jogador de entrega de corpo e alma e  que fez um campeonato irrepreensível: O volante Auremir nas suas cortadas, na sua velocidade, no seu empenho, era o símbolo do time em campo. A dupla de zaga, Leandro Amaro e Ferreira, soberba, representando a melhor defesa do campeonato e que  veio junto e entrosada, batizada no acesso do Mirassol para a divisão de elite do Paulista. Uma dupla competente que defende com firmeza e faz gols. Os laterais Lenon e Gilton que auxiliam na defesa e frequentemente sobem para o ataque muito bem. E Wesley, um 7, que inferniza a defesa adversária, com seu jeito moleque e a sua velocidade incrível. No meio campo, dos pés do sempre lúcido Fumagalli  se repetem as tabelas com Renatinho e Pipico, este um dos mais sérios e regulares jogadores dessa equipe e que merece muito destaque pela sua experiência e dedicação. Vários foram os contra-ataques que o Bugre armou sobre o desespero do Asa. Num deles, Eliandro, vocacionado ou iluminado pelo destino, faria o terceiro gol, o golpe de misericórdia, aos 27 minutos, para nova explosão dos torcedores. Ganhando dos zagueiros no corpo, vê o goleiro saindo e de cabeça, o encobre, mandando a bola para as redes. Acabou! Mais alguns minutos e o destino estaria selado. O Bugre, depois de longos e penosos 4 anos de série C, garantiria o acesso à segundona do Brasileiro. Um acesso que teve sabor de alívio e de conquista, com superação. 
O técnico Marcelo Chamusca que levou o Guarani de volta

à série B do Campeonato Brasileiro. Imagem emprestada-

de www.guaranifc.com.br.
Superação também para o  técnico Marcelo Chamusca que com o acesso encerra a maldição de perder no mata-a-mata. O placar eletrônico adverte para que a torcida não invada o campo, temendo por punição ao clube. Mas o que se viu foi um final com uma torcida disciplinada. Sem deixar o estádio e ao som do hino do clube e dos fogos de artifício que a Diretoria mandou soltar depois do jogo, aplaudia e gritava o nome de cada jogador que dava a volta olímpica. Os aplausos também foram para o técnico Marcelo Chamusca que tirou de vez a  "nhaca" que rondava a sua carreira, valorizada daqui para a frente, por certo.

Jogadores festejam no final da -

partida junto com a torcida.   -

Festa e volta olímpica como-

se fosse um título. Imagem do

meu sobrinho Silvano Bressan.
Aqui os nomes dos jogadores que estarão na história de um Guarani vencedor: Leandro, Lenon, Leandro Amaro, Ferreira, Auremir, Gilton, Wesley, Renatinho, Fumagalli, Eliandro e Pipico. E, ainda, Denis Neves, Evandro, Marcinho, Zé Antonio, Diogo, Caio, Bruno, Roger, Lucas Bahia, Pegorari e alguns outros do elenco montado para a disputa da série C.


Até mais amigos.



 P.S. (1) Com o tobogã ainda interditado pelo Corpo de Bombeiros, o Estádio Brinco de Ouro recebeu um público de 12.713, o maior do ano na cidade de Campinas. 

sábado, 1 de outubro de 2016

ADEUS VELHO CHICO.

Amigos,

foto do ator Domingos Montagner, protagonista de Velho 

Chico, morto por afogamento no Rio São Francisco, em -

acidente que sensibilizou todo o Brasil (imagem em-

prestada de famososnoweb.com.).

Terminou, ontem, de forma emocionante para o elenco, a direção e para o  espectador da categoria, a novela Velho Chico, que uma equipe comandada por Benedito Ruy Barbosa escreveu e a TV Globo produziu e mandou ao ar, no horário nobre das 21,00 horas, entre 14 de março e 30 de setembro de 2.016.  E o que dizer dessa telenovela, no vasto rol  da rica dramaturgia da emissora, que já não tenha sido dito anteriormente de produções que arrancaram emoções, suspenses, suspiros e elogios de toda ordem, do público e da imprensa, no país e no exterior, de que é insuspeitada testemunha a conquista, por várias vezes,  de prêmios internacionais de realce, como o Grammy, equivalente ao Oscar da Televisão. Diferente das últimas produções do horário, Velho Chico não se preocupou em prender o telespectador com entretenimento. Ao contrário, não havia um só núcleo da novela voltado para o humor, a caricatura ou a exploração da já consagrada cultura do escracho, do deixa a vida me levar, da malandragem brasileira,  ou de qualquer forma de  leveza ou alívio ao telespectador, que vive dias difíceis com a estagnação da economia e  seus nefastos efeitos, como inflação e desemprego. 
A atriz e cantora, Lucy Alves, com sua inseparável sanfo-
na, um dos destaques da trama, como Luzia, mulher de
Santo dos Anjos, apesar de seu noviciado na arte de
interpretação (imagem emprestada de www.detonatv.
com.br)

Séria,  e por vezes sombria, a novela registrou pesados diálogos entre os personagens para marcar a intenção das mensagens explícitas ou sublineares: a ditadura dos coronéis no sertão do nordeste brasileiro, a exploração predatória da terra e das águas,  o desapreço pelos recursos da natureza, tendo como pano de fundo o Rio São Francisco e o intrincado projeto de sua transposição,  isso tudo intrometido com a corrupção institucionalizada nos meios políticos. Esses temas, não dispensaram, porém, aqueles ligados à natureza humana e suas contradições: vida e morte, arbítrio e humildade, vingança e perdão e a vitória do amor para além do tempo e da vida.  Por fim, uma colher de chá à esperança, com a prisão dos políticos corruptos comandados até então pelo Coronel Saruê (Antonio Fagundes), convertido no seu alter-ego, Afrânio,  e sua delação premiada à Polícia Federal, esta no foco da principal, senão única instituição com credibilidade no país, neste momento, para combater eficazmente o crime organizado e levar à prisão figuras exponenciais da política brasileira ou em torno dela.  No folhetim, papel destinado ao deputado federal, Dr. Carlos Alberto (Marcelo Serrado), personagem emblemático do parlamentar que se sustenta no crime e na corrupção, morto por fim, sufocado na própria gana de poder. Embora tais temas não sejam, nem de longe, virgens na dramaturgia[1] foram tratados com atualidade e realismo, talvez com a deliberada intenção de levar o espectador a uma reflexão sobre a sua própria vida e o seu papel de cidadão dentro da comunidade. Intenções à parte, a novela termina com crédito e com uma audiência  média dentro dos padrões da emissora para o horário. 

O veterano ator Umberto Magnani, participou dos primeiros
capítulos da novela, encarnando o Padre Romão. Morto no 
começo das gravações, seu personagem deu lugar a ou-
tro padre, o Benício, interpretado por Carlos Vereza -
(imagem emprestada de www.tvshow.com.br.).
Foi impulsionada, por certo, pela morte de dois dos atores durante as gravações: Umberto Magnani, em abril de 2.016, de causas naturais,  obrigando os escritores a trocar o seu personagem (o Padre Romão), por outro padre (o Padre Benício), na pele do excelente ator, Carlos Vereza. Muito mais sentida, porém, foi a inesperada morte de um dos protagonistas, o ator Domingos Montagner (Santo dos Anjos), que se deu no último dia 15 de setembro, no município de Canindé de São Francisco,  Estado de Sergipe, aos 54 anos de idade, afogado nas águas do próprio Rio São Francisco, o mesmo manancial que carregou  seu personagem Santo, ferido à bala, até próximo a uma aldeia, onde foi resgatado e socorrido pelos indígenas. O episódio comoveu todo o país, por diversas razões, dentre as quais: a) o ator era muito querido pelo seu temperamento ameno, sua generosidade e o seu elogiado caráter; b) estava no frescor de sua carreira como ator e no seu principal papel até então; c) contava apenas 54 anos, estava bonito e saudável; d) deixou mulher e três filhos menores e era considerado bom marido e pai presente e dedicado à prole: e) foi tragado pelas águas traiçoeiras daquela praia, embora soubesse nadar e estivesse próximo à atriz e companheira de elenco,  Camila Pitanga que, tendo logrado abrigar-se numa pedra no meio do rio, nada pode fazer para salvar o companheiro, senão gritar inutilmente por socorro e vê-lo afundar no rio, sem voltar à superfície, para ser resgatado, quatro horas depois, já falecido; f) a praia em questão era considerada perigosa e imprópria para banho, por causa da formação de redemoinhos, invisíveis na superfície, que dificultavam a movimentação de banhistas, arrastando-os perigosamente para o ferimento ou o afogamento.O acidente porém não alterou os rumos que os escritores tinham dado à novela, já nos últimos capítulos, nem o destino do personagem Santo dos Anjos. Em homenagem a Domingos, não houve substituição do ator e seu personagem termina casando com sua amada, Tereza (Camila Pitanga). Foi representado nas cenas faltantes, subjetivamente,  por sua voz sobreposta e uma câmera para a qual o seu interlocutor falava. Uma solução técnica que agradou a todos e fez emocionada homenagem póstuma ao ator.


Até mais amigos,


Outra veterana, a atriz Selma Egrei participou das duas
fases da novela, como Encarnação de Sá Ribeiro, an-
cestral da tradicional família de coronéis. Na segunda
fase, com um excelente truque de maquiagem, seu -
personagem completou 100 anos, sem perder a-
força de seu forte temperamento (imagem em--
prestada de fonosidade.com.br.).
P.S. (1) O elenco fixo foi um dos menores, senão o menor, das novelas das nove. Apenas 30. E,  à medida em que os capítulos iam se desenvolvendo, era nítido o crescimento dos atores, nos respectivos papéis. Tanto dos veteranos, como Fagundes (Afrânio ou Coronel Saruê), Christiane Torlone (Iolanda de Sá Ribeiro), Dira Paes (Beatriz, a professora que se elegeu Prefeita no final da trama), Irandhir Santos (Bento dos Anjos), com destaques para as sensacionais interpretações de Selma Egrei ( como a centenária, Encarnação de Sá Ribeiro) e de Marcos Palmeira (o matuto Ciço), como dos iniciantes, Lucas Veloso (Lucas),  Giullia Buscácio (a graciosa e determinada Olívia) e destaque para Lucy Alves (no difícil e rançoso papel de Luzia e sua inseparável sanfona) e de Gabriel Leone (o idealista e revolucionário Miguel, filho de Santo dos Anjos e neto do Coronel Saruê Afrânio, a quem couberam as mais profundas reflexões, diálogos e mensagens que os autores pretenderam enviar). Loas.

P.S. (2) A trama teve 173 capítulos, desenvolvidos em duas fases.  Na primeira fase contou com Rodrigo Santoro, Carol Castro, Selma Egrei, Tarcísio Meira, Rodrigo Lombardi, Fabiula Nascimento, Cyria Coentro,Chico Diaz, Marina Nery, Júlio Machado, Bárbara Reis, Rafael Vitti, Pablo Morais, Larissa Góes, Julia Dalavia e Renato Góes nos papéis principais.





[1] A chamada “politicagem” ou a demagogia na política brasileira foi explorada, com retumbante sucesso e de forma bem humorada, na novela “O Bem Amado” de 1.973, tendo como protagonista o saudoso ator Paulo Gracindo, num de seus mais memoráveis papéis, o do Prefeito Odorico Paraguaçu.

domingo, 18 de setembro de 2016

TEATRO DE COMÉDIA - HISTERIA - FREUD E DALI NO TEATRO BRASILEIRO

Boa tarde amigos,

Cena da comédia Histeria, com Cassio Scapin à esquerda 
como Dali e Pedro Paulo Rangel, encarnando Freud. Ima-
gem empestada de www.guiadasemana.com.br.
Esteve em Campinas, semana passada, no Teatro Brasil Kirim, do Shopping Iguatemi,  a comédia teatral Histeria, que focaliza o encontro, em Londres, no ano de 1.938, do pai da Psicanálise, Sigmund Freud com o ícone do Surrealismo, o pintor espanhol Salvador Dali.  O encontro foi real, como real e intensa teria sido a influência da teoria psicanalítica de Freud na vida e na obra de Dali. A peça teatral teve como autor, o britânico Terry Johnson que em 1.993, escreveu o texto, que  John Malkovich  montou e encenou, com sucesso retumbante em toda a Europa. A versão brasileira surgiu a partir de Jô Soares que, assistindo a uma das encenações contemporâneas em Paris, com ela se encantou e cuidou de traduzir o texto, sugerir a montagem brasileira e dirigir a peça. O elenco absolutamente competente, um dos pontos altos da comédia, tem Pedro Paulo Rangel no papel de Sigmund Freud, Cassio Scapín como Dali e ainda, Milton Levy e Erica Montanheiro, dando um show de interpretação. O espetáculo é sucesso de público e crítica, merecidamente. Alguns defeitos que possam ser atribuídos à montagem, por mero perfeccionismo, como a falta de um caderno com explicação sobre o texto e sua inspiração, e o tempo da peça, um pouco longo demais, nem de longe chegam a empanar as suas virtudes. O público aplaudiu de pé, reconhecendo a qualidade do espetáculo. E a versátil e impagável interpretação de Cassio Scapin para Salvador Dali merece entrar para a antologia do teatro brasileiro. Se tiver oportunidade, não deixe de ver.


Até mais amigos,


Tela denominada "A Tentação de Santo Antonio" da fase  
surrealista do pintor catalão Dali. Imagem emprestada -
de www.livreopiniaoportal.files.wordpress.com.


P.S. (1) O Teatro Brasil Kirim do Shopping Iguatemi de Campinas tem sido bem utilizado e reconhecido como um dos melhores e mais modernos espaços existentes na cidade, para a apresentação de espetáculos de médio porte. Com capacidade para 600 espectadores, sua disposição, conforto e recursos tecnológicos de ponta, garantem  a diretores, artistas e público, um ótimo resultado relativamente às suas respectivas expectativas. Os grandes musicais e mega espetáculos, contudo, continuam a ser montados no Teatro de Paulínia, localidade situada na região metropolitana de Campinas, até que a cidade volte a ter um grande teatro municipal, empreitada prometida por várias gerações de políticos que administraram a cidade.

P.S. (2) Salvador Dali, depois de ler a Interpretação dos Sonhos de Freud e se apaixonar pela sua obra e pela teoria psicanalítica, tentou varias vezes, sem êxito, um encontro com ele. Na conturbada política européia da época, esse encontro só acabou acontecendo, por insistência de Dali e intervenção de um amigo de Freud, no ano de 1.938, quando Freud se refugiou da expansão nazista, em Londres. O neurologista, porém, já estava muito doente, acometido de um câncer avançado na mandíbula que o levaria a óbito no ano seguinte. Dali teria, na ocasião, demonstrado toda sua admiração pelo médico e relatado o quanto as suas teorias teriam contribuído para as suas convicções e mudanças pessoais e servido como inspiração de suas pinturas, arquétipo do movimento batizado como surrealismo;


P.S. (3) Salvador Dali foi um importante pintor catalão,conhecido pelo seu trabalho surrealista. Os quadros de Dali merecem destaque pela incrível combinação de imagens bizarras, como nos sonhos, com excelente qualidade plástica. As duas maiores coleções de trabalhos do pintor estão no Museu Salvador Dali, em Saint Petersbourg, na Flórida, Estados Unidos e no Teatro-Museu Salvador Dali, em Figueres, na Catalunha, Espanha, localidade onde nasceu e morreu.

sábado, 10 de setembro de 2016

TEATRO - GALILEU GALILEI, BRECHT, ZÉ CELSO E DENISE FRAGA

Boa tarde amigos,
Imagem de propaganda e de capa do caderno distri-

buído ao público na entrada do teatro, com explica
ções sobre a montagem e outras particularidades. 
(www.ecult.com.br).
Galileu (1): A heresia atribuída ao físico e matemático Galileu Galilei (1.564-1.642) teria sido, o de pretender “transferir o homem do centro do universo, para algum lugar na periferia”, provocando os teólogos da idade média para que  “dessem um jeito de recompor o céu”. Os textos entre aspas são do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1.898-1.956) e de sua peça Leben Des Galilei,  que adaptou para o teatro o drama vivido pelo personagem real, perseguido pela Santa Inquisição por suas afirmações de que a Terra girava ao redor do sol e que era o Astro-Rei que comandava o universo, enquanto a Terra era apenas um planeta como muitos outros que por ele se espalhavam. Após uma investigação que durou 13 anos, Galileu foi condenado e obrigado a abjurar suas descobertas científicas para não ser queimado vivo e permaneceu oito anos, até sua morte em 1.642, em prisão domiciliar, o que lhe permitiu, na sobrevida obtida com a abjuração de suas descobertas, escrever o seu livro mais importante (Discorsi e Dimonstrazioni Matematiche Intorno Duo Nuove Scienze).  Há mais de uma versão para a peça considerada a obra-prima do escritor e que revela, segundo os estudiosos,  o seu testamento filosófico, sintetizado na frase “Infeliz a terra que precisa de heróis”, com o que chama à reflexão e questiona “o problema do herói, sua discutível necessidade e o uso da razão como instrumento de luta contra a barbárie”. Brecht, por um novo texto escrito em 1.945,  modifica o desfecho da obra e o significado do personagem, depois que, vivendo nos Estados Unidos,  assiste  o uso da bomba atômica contra os japoneses: “Eu te digo, aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”, afirma na readaptação.

Cena do espetáculo Galileu Galilei, com Denise Fraga e ta-

lentoso elenco. (imagem emprestada de www.funarj.rj.gov.
br.).
Galileu (2) Há algum tempo assisti a uma entrevista da  consagrada atriz Denise Fraga, no programa de Jô Soares. A atriz se dizia na ocasião inteiramente apaixonada pela obra de Brecht, o que teria motivado a encenação da peça A Alma Boa de Setsuan, que levou mais de 220.000 pessoas ao teatro, e a criação de um grupo de leituras dos textos do dramaturgo. Numa das sessões em que Galileu foi lido, a atriz se disse invadida por  uma vontade incontrolável de dizer aquelas coisas relevantes, por meio de seu veículo de comunicação mais importante: o Teatro. Assim, nasceu o projeto de Galileu Galilei, peça que correu o Brasil e que esteve, mais uma temporada, no último fim de semana,  no Teatro Brasil Kirim, aqui em Campinas, no Shopping Iguatemi. Fui ver a peça no domingo. São duas horas e vinte minutos de espetáculo contínuo. É muito? Absolutamente. Durante todo esse tempo não me movi da cadeira. É raro isso acontecer comigo, sobretudo porque sofro de uma espécie de incontinência urinária emocional hereditária que me  impõe a  necessidade de visitar o banheiro muitas vezes durante o dia. Às vezes no cinema, outras nos intervalos das aulas que ainda ministro, com regularidade, por teimosia. O espetáculo é imperdível. Com Denise ao centro, no papel  título de Galileu, o elenco se completa com o veterano Ary França, ótimo como sempre, Lúcia Romano, Théo Werneck, Maristela Chelala, Vanderlei Bernardino, Jackie Obrigon, Luis Mármora, Silvio Restiffe e Daniel Warren. As interpretações todas, sem exceção, podem ser citadas como um dos muitos pontos altos do espetáculo. Os atores, além de interpretarem, cantam, dançam e interagem com a platéia, quando estão ou não estão em cena. No centro da mensagem, além do embate entre ciência e religião e os seus desencontros,  está o prazer pelo conhecimento, um prazer inenarrável que se completa por um ato de filantropia: chamar o outro para ver como eu vejo, para sentir como eu sinto. Numa palavra, ensinar, o ato mais nobre do ser humano e que torna algo divino a atividade do professor. Denise reproduz o que está no texto e que ela diz, como Galileu,  com uma alegria imensa nos lábios: “Eu tenho que saber e depois passar adiante”. E no folheto que apresenta e  resume a intenção do espetáculo, agora na voz e no corpo da própria Denise: “Aqui está o nosso Galileu. Dar comunicação as palavras de Brecht é o que me move, me empurra para o palco. Como Galileu, não vejo a hora de fazer vocês verem o que eu vi”;


Imagem de Bertold Brecht  com trecho de sua

poesia em fase de amor pelo marxismo, provo-
cando o estado capítalista e sua filosofia priva-
dística (
 (homoliteratus.
com). 
Galileu (3)  Seria natural que  Denise, ao se apaixonar pelo texto de Brecht aceitasse  nele um papel feminino secundário na montagem da peça, destinando o do protagonista a um ator, dentre os muitos excelentes deste país. Ou, então, permanecesse na direção ou co-direção do espetáculo, atrás da boca de cena. Mas nem pensar. Denise é essencialmente uma atriz de teatro que precisa estar à frente do palco, dizendo um texto no qual ela acredita com sinceridade e profundeza de alma, diretamente para o espectador e se possível conversar com ele, olhando nos olhos, desafiando-o eventualmente para um embate. Ela é assim. Ou pelo menos é assim que eu a vejo em cena.   Isso explica porque  vai lá querendo e tomando um personagem masculino, numa espécie de vingança de todas as mulheres excluídas no passado do palco elisabetano sem atrizes, reservado todos os papéis exclusivamente aos machos, fossem masculinos ou femininos os personagens. Ah! Meta-se nela uma simples peruca preta ou branca e uma barriga falsa e ela se transforma convincentemente num Galileu jovem ou velho, esguio ou decadente, reproduzindo com entusiasmo ou conformismo textos que revelam a personalidade e as crenças do físico da idade média, na visão do mais importante dramaturgo alemão da era moderna.  Resta agradecer aos céus, à direção competente de Cibele Forjaz, ao próprio Brecht, a Galileu, suas descobertas e suas abjurações, a revelarem a dualidade da natureza humana e suas contradições (coragem e heroísmo, medo e covardia), o que  garante ser esse um tema universal e atemporal, a inspirar poetas e escritores, artistas plásticos, filósofos, antropólogos, sociólogos, psicólogos e todos aqueles que, direta ou indiretamente, trabalham no mundo para refletir sobre a complexa natureza humana.

Foto tirada de celular com o excelente ator Ary França, que-
ao centro, ladeado por mim e pelo meu ex-aluno, advogado-
e colaborador na Faculdade de Direito, Evandro Tolentino-
de Freitas.
Galileu (4)  Algumas afirmações de Galileu, ou a respeito dele: “A verdade tem muitas partes”; “ao velho vinho e ao saber novo ele não diz não”; “vamos por as nossas máscaras, mas o pobre Galileu não tem nenhuma”; “eu tenho que saber e depois passar adiante”;


Galileu (5)  Quando o discípulo se encontra com Galileu, na sua reclusão imposta pelo regime de prisão domiciliar e recebe dele o original de seu novo livro, que seria considerado depois uma relíquia, base das ciências modernas, busca encontrar uma explicação nobre para a renúncia do professor. Então, o senhor é um herói, o senhor cedeu à abjuração de suas descobertas para poder sobreviver e escrever essa obra que servirá de base para a nova geração da ciência, provoca o ex-aluno e admirador.  O Professor, contudo, responde com sinceridade e sem vaidade: Não, não. Abjurei, porque tive medo da fogueira.



Meu neto Rafael conferindo comigo, 
no celular, notícia acerca do espetá
culo que ele não pôde assistir.
Galileu (6) O equívoco na condenação imposta a Galileu Galilei pela Santa Inquisição,  só foi admitida pela Igreja Católica, em 1.992, quando o  Papa João Paulo II,  em moção formal, considerou que “os teólogos que condenaram Galilei não souberam reconhecer a distinção formal entre a Bíblia e sua interpretação:Isso os levou a transpor indevidamente o domínio da doutrina da fé, ao analisarem uma questão que de fato pertencia ao domínio da investigação científica”, disse na ocasião, desculpando, no entanto, os seus algozes,sob a ponderação de que os “teólogos do século 17 trabalhavam com o conhecimento disponível naquela época” (New York Times, edição de 01 de novembro de 1.992);

Galileu (7) - O paulista de Araraquara (SP),  José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, surgiu nos anos 60 como um dos mais revolucionários diretores teatrais do país, numa época em que o Teatro  Brasileiro de Comédia, o tradicional TBC, se notabilizava pela encenação europeizada, e desde então vem construindo um dos percursos mais originais dos palcos brasileiros, sempre em busca e no aperfeiçoamento de  uma linguagem estética que provoque e revolucione o comportamento das pessoas. A ele se deve o rompimento da histórica relação palco/platéia, em que esta desempenha unicamente um papel passivo. O dramaturgo, que fundou em 1.958, o lendário Teatro Oficina, ao lado de Renato  Boghi, Amir Haddad e Jorge da Cunha Lima entre outros, levou para os palcos peças antológicas como o Rei de Vela (1967), de Oswald de Andrade, que expressou as idéias do movimento tropicalista, Roda Viva (1968), de Chico Buarque de Holanda e, no mesmo dia em que foi decretado o AI-5, estreou Galileu Galilei,  a primeira encenação nos palcos brasileiros, e inspiração da nova montagem de Cibele Forjaz e Denise Fraga, nele também inspirada.

Até mais amigos.