sábado, 8 de março de 2014

LITERATURA - JOGOS HEDONISTAS DE LINGUAGEM

Boa noite amigos:


São 11 (onze) contos distribuídos em 114 páginas. Adverte a editora, na orelha da contracapa do livro,  que o autor é mestre e doutor,  de cujas penas se produziram trabalhos relevantes de cunho científico-acadêmico no terreno da educação, mas que esta seria a sua primeira inserção no campo da literatura.Pese embora esse suposto noviciado, eu, que presumo conhecê-lo razoavelmente, posso afirmar que se trata de um desses raros eruditos de hoje em dia, que transitam, com competência, por várias áreas do conhecimento humano, seja no campo das  Ciências, seja no das Artes. Antonio Miguel  no seu “Jogos Hedonistas de Linguagem”  reúne contos, cujos personagens são meros objetos culturais (formas simbólicas) que, ganhando vida própria e se apropriando dos humanos, vão narrando situações e vivências, num plano ficcional, mas com reflexões sobre a realidade. Bach, aqui, por exemplo, não é personagem. O personagem é o seu Prelúdio número 1, que pede licença para contar a sua história.  O que têm de comum esses contos, na obra que Miguel, classifica como “um ensaio de hedonismo estético” é exatamente o convite a um prazer onírico e sem culpa, experimentado por meio de  sensações, única realidade da vida, segundo Fernando Pessoa. Apropriando-se da sugestão de Wittgenstein,  as palavras aqui ganham sentido próprio e relativo,  não devem ser compreendidas na sua expressão semântica, mas sim considerada a intenção de seu uso, consoante os contornos do respectivo jogo de linguagem. Com esse escopo e essa regra do jogo, o leitor deve viajar com o autor por esses contos, extraindo do deleite da  leitura o máximo de prazer. Afinal, não há pecado algum em buscar na vida o prazer como forma de minimizar as dores e vicissitudes da condição humana e nisso se fundamentam todas as formas de hedonismo, muito variadas, contudo, nos fundamentos e limites. Experimente.  Garanto aos amigos que a leitura é extremamente agradável e nesses contos o autor revela muito de seu potencial de criação literária, de sua engenhosidade, recursos e vivacidade, tudo de maneira leve e inteligente. Uma leitura que pode, à primeira vista, parecer difícil, mas que, no fundo, não é, e que deve ser enfrentada como mero entretenimento, pois essa deve ter sido a intenção do autor, que, em regra, não se preocupa em conduzir seus interlocutores aos conceitos, ideologias e convicções de que se apropriou na sua agora sexagenária existência (completou 60 anos no final do ano passado), pois é um democrata na mais pura expressão da palavra.

Até amanhã amigos,

P.S. (1) Os contos que compõem o livro são: 1) O Jantar; b) Um Minuto na Vida de Igor Fraslanszky; c) A Vingança; d) O Malabarista; e) O Sorriso de Margareth  Mead; f) O Prelúdio Número 1 de Bach; g) Os Perfumes; h) O tecelão de Máscaras; i) Sob a Proteção de Suas Asas; j) Dom de Iludir; k) O Sonho de Turing; l) O Rio;

P.S. (2) Ficha de catalogação: Miguel, Antonio. Jogos Hedonistas de linguagem/Antonio Miguel.São Paulo: Plêiade, 2.008. 114 p. ISBN: 978-85-7651-085-7. 1. Contos I. Título.


 P.S. (3)  Um trecho: “É alucinante sentir-se resto de si próprio: sentir um resto de si próprio de que um outro poderá se apropriar, usar, abusar, como e quando quiser. Você acaba descobrindo, com o tempo, através do uso que o outro faz do seu resto, qual é a natureza desse resto. Na verdade, eu nunca havia chegado a vivenciar, no corpo, a natureza desse resto. Pensava mesmo que esse resto  poderia, um dia, se anular quando um outro qualquer se apossasse dele com carinho e ternura. Pensava que minha relação com o outro poderia ser consonante, comensurável.” (Um Minuto na Vida de Igor Fraslanszky, p.12);


P.S. (4) Outro excerto: “Impossibilitado de contemplar a sua própria máscara, e mais ainda inebriado pelo prazer dessa impossibilidade, meu tecelão deitou-se calmamente ao lado de seu corpo-espelho, fechou os olhos, e surpreendido pelo surgimento instantâneo, por uma fração de segundo, do vulto de sua própria máscara, sorriu para ela e depois adormeceu”  (O tecelão de Máscaras, p.  63);


P. S. (5)  Um último: Entre ser e não ser, na língua portuguesa, não se tem nem ao menos a possibilidade de se abster. E ainda dizem que foram os gregos que inventaram a lógica clássica! Bem, mas isso é uma outra história. Não vou aborrecer vocês com a história da minha colega “lógica clássica”, pois essa forma simbólica tem passado,ultimamente, por maus bocados. Ela vem sendo tão difamada, que me disseram que ela anda com uma depressão danada. Não sei bem se depressão, ou doença do pânico. É sempre muito difícil caracterizar quando é uma dessas coisas OU quando é a outra, como de resto, tudo na vida é difícil de se encaixar nessa coisa de OU isso OU AQUILO.” (O Prelúdio número 1 de Bach, p. 43);


P.S. (6)  Os jogos de linguagem, para o austríaco Ludwig Wittgenstein, são múltiplos e variados e atendem a finalidades diversas: às vezes a linguagem é empregada para dar ordens, outras vezes para pedir desculpas. Assim, supor que a função primordial da linguagem seja a de descrever ou representar os fatos é uma generalização precipitada provocada por se tomar um jogo de linguagem particular, como paradigma de todos os demais. Na sua obra  Investigações, Wittgenstein afirma que o significado de uma palavra é estabelecido pelo uso que se lhe dá num determinado jogo de linguagem e para saber o que significa a palavra, nesse jogo de linguagem, é preciso descrever os traços mais destacados do jogo e revelar qual é o papel desempenhado pela palavra em questão.



P (7) – O autor, que é meu irmão mais novo,  é respeitadíssimo em sua especialidade: educação matemática. E um apaixonado por música. É também instrumentista com domínio sobre violão e piano. Teve uma de suas composições musicais, “De Ponta Cabeça”  classificada no Festival Universitário da Música Popular Brasileira da extinta TV Tupi, na década de 80. A canção foi interpretada, naquela oportunidade pelo cantor José Augusto.  


P.S. ( 8) – A proximidade entre Matemática e Música foi demonstrada por Pitágoras, inventor das palavras “Matemática” e “Filosofia”. Assinala ele que  a harmonia matemática pode ser obtida também na música. Assim, se dividirmos uma corda em determinadas proporções vamos obter vibrações proporcionais que vão formar a harmonia das notas musicais. Se dividirmos essas notas em determinadas frações e a combinarmos com as notas simples, vamos obter sons harmoniosos. Já frações diferentes produzem sons não harmônicos. Como todos os corpos que se movem velozmente produzem som, isso acontece também com os corpos celestes. O movimento dos astros produz o som correspondente a uma oitava. Este som não é percebido pelas pessoas pois nós o ouvimos desde que nascemos e nossos ouvidos não são próprios para percebê-los.

 P.S. (9)  O hedonismo é uma palavra que vem do grego hedonê, que significa “prazer”, “vontade”. Trata-se de uma doutrina filosófico-moral surgida na Grécia, que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. Várias foram as modalidades de hedonismo defendidas por filósofos de todos os tempos.Um dos filósofos modernos que defende tese hedonista é o francês Michel Onfray.


P.S. (10)  O movimento hippie, que surgiu nos Estados Unidos em 1.966 e se difundiu por todo o mundo, apregoava uma espécie de hedonismo, que sinaliza para o sentido moderno da doutrina. Contrários aos ideais da sociedade daquela época, tinham uma filosofia orientada por mestres espirituais, cultuavam a natureza, viviam em comunidade e apreciavam a utilização de drogas como o LSD, maconha e outras. Eram contra a propriedade privada, sempre viajavam em trailers ou viviam em conjunto com seus iguais. Contrários à guerra, proclamavam a inexistência de nações ou fronteiras separando os países. Para eles, o mundo seria de todos e cada um deveria buscar sua paz espiritual. Contrários à religião cristã, acreditavam que o paraíso deveria ser encontrado aqui na terra (do lema adotado, Paradise Now). Eram contra punições e a favor da busca pelo prazer, fosse pela espiritualidade, fosse pelas drogas. O lema “Peace and Love” (Paz e Amor) é um dos mais difundidos de sua cultura, em todo o mundo.  

P.S. (11) A imagem da coluna de hoje é da capa do livro.





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