segunda-feira, 25 de setembro de 2017

MORRE BOZÓ - TORCEDOR SÍMBOLO DO BUGRE

Boa noite amigos,

Bozó nos últimos tempos em foto do site oficial  Guarani Fu-
tebol Clube
Volto a escrever para o blog depois de exatos dois meses. E o faço nesta segunda-feira, longe de Campinas, para falar de uma pessoa muito querida dos campineiros e dos bugrinos, em especial. Nas primeiras horas desta manhã, meu sobrinho Silvano, sempre bem informado, me comunicou o falecimento de José Carlos Roque de Oliveira (quem?), conhecido  como Bozó (assim eu sei), um dos torcedores-símbolo do Guarani Futebol Clube, conhecido em toda a cidade. Sem idade confirmada (dizem que os mágicos não contam idade, pois são atemporais), Bozó era o retrato da alegria e da paixão pelo futebol e pelo  seu clube de coração. Uma paixão que se manifestava com leveza e mansidão, com respeito às divergências, sem que dele ou contra ele se tenha notícia de qualquer episódio de violência. Por isso era bem recebido e respeitado por todos os torcedores e cidadãos, indistintamente. Sua alcunha não vinha, como seria natural, daquele famoso ponta esquerda campeão brasileiro de 1.978, e que formava o badalado trio de  atacantes  com Capitão e Careca, ao lado de Renato e Zenon.


Imagem emprestada de R7 Diversões. O ator Vlademir Brich

ta, à esquerda, vivendo o protagonista, Arlindo Barreto, em

Bozo - O Rei das Manhãs, filme brasileiro indicado para

representar o Brasil no Oscar 2.018.
Nem decorre de um variação de "Bozo" (paroxítona com acento tônico na penúltima sílaba e não na última), palhaço que marcou a arte circense de muitas gerações e que tem até filme em cartaz, indicado como representante do Brasil no Oscar 2.018. O Bozó veio mesmo do personagem de Chico Anysio, gago e dentuço, com quem o nosso era parecido, que  propalava prestígio por trabalhar na Globo, para azarar  as gatinhas de plantão. Sempre animado, Bozó menos famoso comandava os torcedores no Brinco de Ouro, dando ritmo aos Olas,  nos grandes jogos e viu o clube, depois do apogeu dos anos 70/80, mergulhar em crise permanente e profunda, com rebaixamentos seguidos em todos os campeonatos dos quais participava, perdendo a gloriosa 13ª. colocação no ranking do futebol brasileiro.


O personagem Bozó, imortalizado por Chico Anysio. Imagem

emprestada de Diário gaúcho.com.
Essa vertiginosa queda de prestígio e de posição,  não foi motivo suficiente para abalar  sua paixão. Ao contrário, seguia o time na 2ª. e 3ª. divisões do Paulista e Brasileiro,  com o mesmo entusiasmo e otimismo do passado.


imagem recente do jogador Bozó, campeão brasileiro pelo -
Guarani Futebol Clube em 1.978. Foto emprestada de ter-

ceiro tempo. uol.
Nos últimos anos Bozó já não esbanjava a vitalidade da juventude. Muito mais gordo, tentava driblar algumas doenças sérias. No dia do jogo do Guarani com o Internacional pelo campeonato da série B deste ano, sofreu um infarto, que ontem se repetiu. Desta vez, o coração levou Bozó para sempre. E por certo com ele um pouco da pureza do torcedor símbolo que afirmava, a cada momento da vida e em todos os lugares por onde passava,  a sua paixão incondicional pela equipe de seu coração, vestindo a camisa verde e branca com o G no centro e duas estrelas laterais, a qual exibia com orgulho, mas sem arrogância. Fica o exemplo de uma pessoa doce, cordata, simples e que, por isso mesmo, simbolizava a alegria do futebol, esse esporte que é paixão nacional, embora muitas vezes lamentavelmente seja o pretexto para  discórdias, violências e mortes. Hoje o Brinco de Ouro amanheceu mais triste, pobre  e vazio. Descanse em paz caríssimo Bozó. E que Deus o proteja e conforte sua família e amigos, os muitos que fez por aí nesse nosso mundinho de passagem.

Até amanhã amigos.
  


P.S. (1) O Guarani Futebol Clube, no seu site oficial, lamentou a morte de seu torcedor símbolo, ressaltando a sua importância para a história do clube e deve a ele prestar homenagens justas nos próximos jogos e eventos;

P.S. (2)  Conversei pela última vez com o Bozó lá no Tonico’s Bar, em uma noite de muito samba, com a presença da neta de Dorival Caymmi, Juliana, e um time respeitável de sambistas, encontro que noticiei em postagem do dia 25 de junho de 2.011;  sambista também  foi o pai de Bozó,  no humilde bairro Manoel da Nóbrega, aqui em  Campinas

P.S.(3) Bozo - O Rei das Manhãs, é o nome da cinebiografia de Arlindo Barreto (Vladimir Brichta), o palhaço Bozo e seu drama. O filme foi indicado para representar o Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano que vem;

   





terça-feira, 25 de julho de 2017

REALIDADE DE MARÍLIA MENDONÇA

Boa noite amigos,

Então não casa não/ por favor não casa não”, apelo de ex-namorada, em forma de refrão musical, que se ouve muito frequentemente nas rádios e especialmente nos bailes da vida. Trata-se de mais uma das composições de Marina Mendonça, uma goiana, cantora e compositora, que completou 22 anos no último dia 22 de julho. Sua voz firme de contralto, seu corpanzil de mulher aparentemente mais madura e o carisma dessa moça, que lembra a singeleza do interior ou da periferia mais pobre, preenchem qualquer palco onde regularmente se apresenta para mais de dezena de milhares de espectadores.  A maioria é de mulheres jovens, gênero a que não se resume o seu vasto público, de todas as regiões do país e que compreende pessoas de todos os sexos e idades, incluindo as crianças. É um dos novos fenômenos da música pop brasileira. O grande prestígio com o público feminino pode ser explicado pelas bandeiras que levanta nas letras de suas composições, identificadas com o perfil da mulher moderna, livre, forte, sofrida, na busca pela igualdade e independência e que não tem vergonha de falar de prazer, de sexo, de traição do companheiro, de despeito, de sofrimento[1]. De encarar até mesmo o politicamente incorreto: “Esse menino nada a ver/ E faculdade/ academia/ hora certa pra dormir. Eu bebia todo dia/ hoje eu mal posso sair/ Ele regra tudo o que vou fazer”, para completar: “Terminei com o parceiro que virava o copo/ Bebia comigo do jeito que eu gosto/ Ele que era homem de verdade/ Ai que saudade do meu ex”[2].  Há quem veja na sua postura e nas letras de suas composições uma emblemática sugestão do chamado "empoderamento feminino", expressão muito em moda para evidenciar o poder das mulheres na luta pela igualdade social e pessoal entre os gêneros.[3], espécie de versão do feminismo dos anos 60/70. Há, no seu repertório, coisas também surpreendentes: preciosidades que qualquer dos nossos poetas consagrados certamente assinaria[4]. Se existem músicas para serem ouvidas, outras dançadas e canções para serem cantadas, pode-se afirmar que a música de Marina sugere, em regra, as três coisas. Gênero: dizem os entendidos que é sertanejo. Não sei. Sou contra esse tipo de rótulo, que impõe reducionismo.  O artista, qualquer que seja a sua arte, sempre foi sinônimo de liberdade e de ausência de limites.[5] Não identifico na arte dessa jovem um único gênero, nem o chamado clássico sertanejo. A não ser que este, como de resto os demais, comporte uma infinidade de desdobramentos, como é o caso do samba, o nosso ritmo mais nacional e tradicional, e que ao longo de sua subsistência considerou multifacetados sub-gêneros, incorporando até mesmo o pagode[6]. Experimente perguntar a ela qual foi a sua influência musical. Não, não será Rio Negro e Solimões. Nem Chitaõzinho e Xororó, nem qualquer das antigas duplas caipiras. Gênero brega? Existe? Versão atual de saias do falecido Reginaldo Rossi e seu Garçon, que embalou todos os bebuns de carteirinha ou ocasionais, com dor de cotovelo? Talvez o ritmo das versões mais atuais do chamado sertanejo universitário, como Michel Teló, Paula Fernandes e que tais. A influência, segundo ela, é de Maria Gadú, Ana Carolina e Vanessa da Mata.  Sua trajetória começou muito cedo, no começo da adolescência, quando cantava em coral de igreja. Antes da estreia pessoal em 2.015, fez música para variadas duplas do mesmo gênero. Em julho de 2.016 lançou Marília Mendonça ao Vivo, seu primeiro disco, no qual se destacaram dois sucessos: Infiel  e Eu Sei de Cor, esta última canção reproduzida na faixa n. 1 do CD lançado agora em março de 2.017, gravado em Manaus e que é retumbante sucesso. Sucesso também no nordeste, onde vem cantando com regularidade, a cantora se envolveu recentemente numa polêmica com artistas da música regional,  herdeiros do som  de  Luis Gonzaga e Dominguinhos A cantora Elba Ramalho criticou a invasão do sertanejo nas festas juninas típicas do nordeste e Marília respondeu publicamente argumentando que o povo quer música  boa, como a sua, independente do gênero, alfinetando os seus críticos e gerando variados comentários, pró e contra, nas redes sociais.  De qualquer maneira, só o tempo vai dizer se a música composta e cantada por Marília Mendonça vai permanecer. E se não permanecer terá servido enquanto existir e embalar os bailes da vida de muita gente nestes tempos em que tudo é rápido e descartável e memória é coisa pra ficar guardada no Google, com finalidade utilitária. No momento o seu sucesso é incontestável e o seu público tem se mantido fiel, ao contrário dos amantes e namorados das suas composições.

Até mais amigos.

P.S. (1) O CD Realidade apresenta as seguintes canções, praticamente todas de autoria ou co-autoria de Marília, nas  19   faixas: EU SEI DE COR; A GENTE NÃO AGUENTA; TRAIÇÃO NÃO TEM PERDÃO; NEM FOI E JÁ VOLTOU; AMANTE NÃO TEM LAR; EI SAUDADE; DE QUEM É A CULPA; SAUDADE DO MEU EX; MUDOU A ESTAÇÃO; OLHA SÓ VOCÊ; SOFRENDO POR TRES; SE AME MAIS; EU NÃO SOU NOVELA; A GENTE NÃO TÁ JUNTO; POR MAIS TRES HORAS; NÃO CASA NÃO; ATÉ O TEMPO PASSA; PERTO DE VOCÊ; INFIEL;

P.S. (2) Acho que essa discussão entre os artistas do nordeste, defendendo o que julgam ser essencialmente a música popular brasileira e atacando Marília e o gênero de suas canções é uma grande estupidez, fazendo-me lembrar  o conflito entre o pessoal da MPB e da Jovem Guarda nos anos 60 e 70, que acabou superado, como se sabe. Se os artistas da música considerada pura do nordeste – e que indiscutivelmente foi e é muito boa  – não estão sendo contratados para espetáculos públicos ou privados e, eventualmente, para atuar no espaço que antes a ele se destinava, quase à exclusividade, como julgam que estariam a merecer, a questão é complexa e não pode ser debitada à conta do que consideram “invasão do sertanejo nas festas juninas do Nordeste”, nem à música e sucesso de Marília. Sequer tem lógica defenderem uma espécie de reserva de mercado, incompatível  com os anseios da geração atual de jovens. A polêmica, portanto, é desarrazoada e não tem mais lugar no mundo de hoje em que se fala em democracia, o que supõe liberdade e respeito à diversidade, seja em matéria de música, seja lá em relação a qualquer outra coisa.
  












[1] Ela própria se identifica com o título de “Musa da Sofrência” com que foi batizada pela mídia, em razão das letras de algumas de suas composições.
[2] “Que Saudade do Meu Ex”, faixa do disco Realidade, lançado no último mês de março e que e tremendo sucesso de público e crítica.
[3] Cf. www.significados.com.br.                          
[4] Em “De Quem  é a Culpa”: “Quem é você que eu não conheço mais? Me apaixonei pelo que eu inventei de você.”
[5] “Que nada nos limite, que nada nos sujeite, que nada nos defina. Que a liberdade seja nossa própria substância. “ (Simone de Beauvoir).
[6] Há sambas de raiz, sambas paulistas e cariocas, samba de roda, samba de breque, samba-canção, samba-enrêdo etc. etc. etc., cada um com sua origem, sua cultura,  suas regras, sua métrica e assim por diante.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

CAUSO - FORA NÚMERO UM

Boa tarde amigos,

Concorrentes de reality show com anãs que é sucesso nos

Estados Unidos. Imagem emprestada de recopia.
Aqui vai para iniciar as férias escolares e o recesso nos trabalhos das nossas combalidas instituições, um “causo” que publiquei no livro “Causas & Causos”, o primeiro, no ano de 2.006. Não sou Luiz Gonzaga, nem safoneiro, mas tenho um compadre Januário. É ele o protagonista desse causo, que posso jurar é inteiramente verdadeiro e se passou na Campinas de outrora, no tempo em que os cinemas todos eram localizados nas ruas do centro da cidade ou dos bairros e não se pensava em Shopping Centers. Vai lá o tal causo:

Caricatura de Mulher Maravilha decadente.

Da coleção "Superheroes Decadence" do
grande cartunista italiano, Donald Sof-
fritti. Imagem emprestada do blog do
Azevedo.

“Meu compadre Januário é um sujeito disposto e agitado. Nos seus quase setenta anos bem vividos, gosta ainda de se movimentar. Há quem garanta (e eu me incluo nesse rol) que para matá-lo, basta obrigá-lo a passar um dia inteiro parado e sem sair de casa. Fato é que, em certa manhã, o compadre se oferece para levar as três netinhas à sessão gazetinha que se anunciava num cinema local, no centro da cidade. Bons tempos, os de gazetinha!!!! A sessão estava marcada para as 10 horas. Às 9,30 horas já se formava uma fila ampla do lado de fora do estabelecimento, aguardando a abertura da porta. O compadre posta-se ali na fila com as crianças. Nada da porta abrir. E ele inquieto, como sempre. Já havia conversado com as netas, com o guarda, com o pipoqueiro. Na fila, imediatamente à sua frente, viu uma menina e um senhor que a acompanhava. Ambos estavam de costas, pois o antecediam na fila. Procurando ocupar o tempo e ser simpático, passa a mão por detrás, sobre a cabeça da menina, esfregando os seus cabelos e já disparando:  - Oi benzinho, você veio assistir a Branca de Neve com o papai. Imediatamente, ambos (o suposto pai ou avô e a suposta criança) voltam o rosto para trás. E aí o compadre constata que não se TRATAVA DE CRIANÇA NENHUMA, MAS SIMPLESMENTE DE UMA VELHA ANÃ. Ensaiando um sorriso amarelo, diante dos fulminantes olhares furiosos da anã e seu marido,  limitou-se o compadre a pedir desculpas pelo engano."


Até mais ver pessoal. 

domingo, 18 de junho de 2017

CRÔNICA - A RUA E SEUS ENCANTOS

Boa noite:


Rua, lugar
De Ver Gente
Divergente.
(Eu).

A Deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar.
(Jorge Farah/Newton Teixeira).










Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Para o meu
Para o meu amor passar
(Mário Lago/Chocolate).

Ode à rua.

Apresento-lhes, senhoras e senhores, sua majestade, a rua, o lugar onde  se experimenta a democracia absoluta, espontaneamente, em qualquer lugar do planeta.  É o espaço onde a vida acontece, sem pedir licença. O ponto de partida e de encerramento da comédia e da tragédia do homem.  É a alma e o encanto do mundo. Desde cedo, soube disso. Ou intuí.  Fui batizado de “rueiro”. Não sei se os dicionários registram esse substantivo, que também pode ser simplesmente adjetivo. Gostava da rua. É nela que eu buscava me situar e me entender no meu contexto e no do outro, dos outros. É nela que fiz amigos que, como eu, eram também  “rueiros”, ávidos pelo cheiro múltiplo, pelo jeito, e pela sabedoria da rua.  Em busca, talvez, do inusitado. Do que existe além de mim, diferente de mim, apesar de mim.  A rua me ensinou a importância da humildade e dos limites. Ensinou-me, especialmente, que o mundo girava além do meu umbigo; o sentido da imensidão e da pequenez, o amor e o respeito  pela natureza  e a necessidade da solidariedade para a subsistência biológica e afetiva. Ensinou-me que precisamos desde cedo abrir a porta da casa e com ela abrir a porta da alma.  Experimentar a sensação da liberdade, de viver a vida no palco do universo. Sem nenhuma garantia, sem a  precisão, como na poesia de Fernando Pessoa.[1]




 Amigos,

Saí neste sábado de manhã, pelo Cambuí, o velho e charmoso espaço da cidade de Campinas, batizado em homenagem à árvore do mesmo nome e que antigamente, muito mais que hoje,  em grande número,se espalhava pelo bairro, oferecendo a trégua de sombra e encanto a moradores e visitantes. Caminhei pela Avenida Julio de Mesquita, a mais imponente do bairro. Lá adiante, perto do Hospital Irmãos Penteado, me detive, num ponto de ônibus. Um daqueles mais modernos erguidos pela Administração Pública para abrigar os passageiros, protegendo-os do sol e da chuva. Apesar de aparentemente novo notei que servia,  além da finalidade pela qual foi erguido, de uma espécie de tribuna livre, onde as pessoas, ávidas de manifestação, buscavam comunicar-se com o mundo, mandando as suas mensagens gratuitas e dirigidas ao público em geral, ou a alguns, em particular, numa espécie de vale tudo. Vi e li as coisas mais diversas possíveis. Incríveis. Inusitadas.

Ofereciam-se “maridos de aluguel” que, ao contrário do que possa sugerir a proposta, não é um convite de suprimento sexual, mas a oferta de serviços domésticos, atribuídos, no passado, por excelência, ao marido, a quem incumbiam tais tarefas no protótipo que dele fazia a sociedade machista e patriarcal. Atividades como conserto de ferro, manutenção hidráulica e elétrica e outras que o homem moderno não executa mais, por inabilidade, ignorância ou preguiça, ressalvadas as exceções, que só confirmam a regra. Ao lado, outra oferta, agora de venda e financiamento de imóvel. Tinha mais. Um convite para que, num certo site, todo e qualquer usuário do ônibus urbano, se queixasse das dificuldades e deficiências desse sistema de transporte na cidade.  Pichações clássicas encobriam parte do registro das linhas e bairros atendidos naquele ponto e, dividindo o mesmo espaço, suficiente para todos, um protesto de alguém com um “Fora Temer”.
















Finalmente, para as mulheres carentes, não interessadas em protestos políticos, nem em ônibus urbanos, nem em financiamentos de casa própria, um certo cidadão, que se dizia  cheio de amor para dar, fazia propaganda de seu dote, jurando carinho e satisfação sexual para solteiras ou casadas interessadas, com promessa de sigilo absoluto “  É a rua, lugar de todos, para todos.

Até mais amigos.





[1]“ Navegar é preciso, viver não é preciso”, trecho de poema de Fernando Pessoa, que tem sua origem, segundo uma das fontes consideradas confiáveis,  em frase  dita por  Pompeu, general romano (106-48 a.C.),  aos marinheiros amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, segundo Plutarco.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

PARIS PODE ESPERAR - CINEMA PARA MOSTRAR A FRANÇA E SEUS ENCANTOS

Boa tarde amigos, 

A charmosa atriz, Dna Lane, no seu personagem Anne, em

cartaz de propaganda do longa Paris Pode Esperar. Ima--

gem emprestada de CinePOP.
Paris Pode Esperar (2.016)  filme americano de  Eleanor Coppola  é uma ode  à França e à gastronomia e cultura francesas. Na linha de Comer, Rezar, Amar (2.010) do diretor Ryan Murphy,  Eleanor, que também responde pelo roteiro, aborda a mesma temática universal tendo como pano de fundo, o drama do homem moderno, envolvido com compromissos e  refém da obstinada busca pelo  sucesso, poder e dinheiro (no longa representado pela cultura americana), o que o torna  carente de profundidade nas relações familiares e afetivas. O anseio agora é o de um novo modo de vida,  que o aproxime da essência das coisas e das relações humanas de compartilhamento da dor e do prazer.  A beleza da natureza, da arte, da gastronomia, da enologia, entendidas e vivenciadas como substratos da vida que merece ser vivida  se misturam como mensagem nesse filme que conta a história de Anne (Dana Lane), esposa e fiel acompanhante do marido, o famoso produtor de cinema, Michael, (Alec Baldwin) e  que, por circunstância de saúde, não viaja de avião com o marido para a capital da França, como inicialmente planejado.  O percurso da rota Cannes-Paris é feito todo de automóvel, na  companhia do amigo e sócio dele, o co-produtor Jacques Clèment (Arnaud Viard),  um francês solteirão e sedutor que a cobre de atenção e gentilezas durante o percurso,  estendido com desvios propositais para ver, sentir e  não perder as preciosidades da rota que remete à Riviera Francesa. Ilustra a diferença das culturas, a crítica contida no diálogo tomado em um dos restaurantes mostrados no filme, em que Jacques, dirigindo-se à companheira americana observa: - Vocês americanos precisam de uma razão para tudo. Nós, ao contrário, comemos o que gostamos. A proposta da diretora, uma documentarista por excelência, é atingida plenamente no seu novo incurso agora pelo gênero da ficção. Sem realizar nenhum grande filme, logra, o entanto, manter o interesse do espectador, que em nenhum momento sente enfado, mesmo em cenas banais e repetidas de restaurantes e explicações sobre comida e bebida. O intento é muito auxiliado pela ótima trilha sonora e especialmente pela fotografia, numa grande contribuição da direção de arte. O espectador viaja com os personagens e flerta com as curiosidades sobre iguarias da cozinha francesa e a imprescindível participação das ervas e dos cheiros na sua famosa gastronomia, com os museus, como o Lumière, que mostra um pouco dos irmãos que fizeram nascer a sétima arte e com a presença da arquitetura romana da idade média. Vá ao cinema como o estudante ou trabalhador que gazeteia. Celebre a vida!  Depois estique a noite com os amigos numa boa cantina, curtindo o prato de sua preferência, regado a um bom vinho francês. E vá dormir tendo certeza de que la vie est rose.

Até breve amigos. 



terça-feira, 16 de maio de 2017

O APARTAMENTO É UM GRANDE FILME DO BOM CINEMA IRANIANO

Boa noite amigos,

Cena do filme focalizando o professor Emad e sua mulher,
a atriz Rana, no drama, fiel representante do cinema exis-
tencialista do Irã. 

O Apartamento,  nome no Brasil do bom filme, Foushande,  do diretor, Asghar Farhadi, que conquistou, com méritos, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2.017, é um legítimo representante do cinema iraniano moderno. Trata-se de um cinema maduro e denso, com memoráveis exemplares, tais como, Um Instante de Inocência (1.996), Close Up (1.990), Gosto de Cereja (1.997),  Cópia Fiel (2.010), e mais recentemente, A Separação (2.011), do próprio Asghar. O drama vivido por Emad Elesami (Shahab Hossein) , um professor de literatura e ator de teatro e sua mulher,  a atriz Rana Elesami (Taraneh Alidoosti), vítima de agressão e estupro, arrebata o espectador, transmitindo, com intensidade, sensações de  ódio, medo, trauma, insegurança,  suspense, emoção e os valores do perdão e generosidade, ou ainda, de sua impossibilidade, alimentada pela força de uma cultura de machismo e, sobretudo, de discriminação da mulher, para além da questão religiosa. Mas essas sensações, como sóe acontecer em outros clássicos do cinema do Irã, não são comuns. A interpretação dos atores, os cenários, o jogo de câmeras, as questões sutis e subliminares que surgem nos longos períodos de silêncio e solidão dos personagens tornam tudo muito particular, específico e superior. E o mais importante: verossímil, a ponto do espectador imaginar que tudo está acontecendo ali, entre pessoas conhecidas, no prédio vizinho ou na esquina de sua casa, talvez. A universalidade dos temas explorados  e o comum dos sentimentos, reduz a distância entre Oriente e Ocidente, tão distintos, e na briga entre valores abandonados pelo imediatismo do mundo da pós-modernidade. E é justamente essa verossimilhança que faz a diferença de outro ou outros roteiros iguais ou similares. O dilema entre a impunidade ao estuprador e a denúncia pública do estupro, a censura pública, a dúvida, o ciúme, o perdão, tudo isso se mistura e se dosa bem no jeito de fazer cinema existencialista desse talentoso cineasta iraniano. Não deixe de ver.

Até breve amigos.  


segunda-feira, 1 de maio de 2017

CAUSO - A RAPIDEZ DA DOUTORA ELZA

Boa tarde amigos,


Imagem e charge emprestada de GGC.

Nesse primeiro de maio, dia do trabalho, depois de um gostoso passeio pelo suave sol de outono, mando aos amigos um causo que escrevi e publiquei no livro "Causas & Causos" n. 1, pela Editora Millenium, no já distante ano de 2.006.


                                             

"Doutora Elza ganhara o conceito de competente  e combativa advogada criminal no foro de Campinas.

Especializara-se em relaxamentos de prisões em flagrantes, flagrantes esses que lhe chegavam de forma rápida ao conhecimento, juntamente com a identidade do preso e o nome e endereço de parente próximo, tudo por obra e graça de conhecido investigador do Distrito Policial, por ela regiamente gratificado.

A par da fama de advogada, corria à boca pequena que ela também gostava de prestar, digamos, uma certa “assistência” além da judiciária, aos mais necessitados, sobretudo se fossem jovens, homens e bonitos, sem exigir atestado de pobreza, presumindo mesmo o estado de necessidade e de carência.

Com escritório montado a menos de duas quadras do fórum, tinha fácil e rápido acesso aos Juízes e Cartórios Criminais.

Deu-se em certa ocasião, que: um conhecido lhe pedira, embora com certo temor, para empregar um filho menor, pois a família passava dificuldades financeiras, diante da inesperada perda de emprego do seu chefe e arrimo.

O temor quase não tinha procedência, pois não constava da fama da Dra. Elza qualquer preferência pela prática de pedofilia.

 Havida por autoritária e mau humorada, na verdade a causídica tinha o coração mole e, ainda que achasse que não ia dar certo, concordou em receber, a título experimental, o tal moleque, um guardinha de treze anos, atribuindo-lhe serviços gerais e corriqueiros do escritório.

Eis que na segunda-feira ele se apresenta, e a advogada explica rapidamente a natureza das tarefas, exigindo que tudo fosse feito com presteza e qualidade.

Em seguida, lhe dá o seguinte aviso e advertência:

- Olhe, deve me telefonar o Senhor Fulano, pai de um cliente meu. Diga-lhe que eu fui ao fórum e que volto logo. Peça que ele deixe recado e o telefone de onde pode ser encontrado, que eu ligo logo que puder.

Ato contínuo, sai com o objetivo de ir ao Palácio da Justiça.

Não demoraram dois minutos e veio o telefonema esperado.

Ao receber a notícia de que a doutora não se encontrava no escritório, o Fulano, nervoso, diz ao moleque:

- Como? A doutora não está? Eu combinei com ela que ligaria nesta hora. Meu filho está preso e eu preciso falar imediatamente com ela.

Pouco adiantou ao menino tentar acalmar o cliente, garantindo que a doutora logo estaria de volta.

O homem insistia e exigia que ele fosse imediatamente chamá-la, onde quer que se encontrasse, tudo sob ameaça explícita de denunciá-la numa tal de “OAB”, coisa que o menino não fazia a menor idéia do que fosse, mas que não devia ser coisa boa, isso lá não devia.

Desligando o telefone, atônito e apavorado, o guardinha saí à rua,  pouco sabendo como se dirigir ao fórum.

Parando numa praça avista um policial e dele se socorre:

- O Senhor sabe onde é que fica o fórum?

- Sim, siga em frente, vire à direita e depois outra vez, primeira à esquerda. Pronto, você vai avistar um prédio de quatro andares. É ali.

Orientação cumprida.

Ao entrar no pomposo edifício, meio constrangido, ressabiado, dirige-se ao balcão de informações:

- Senhor! O Senhor conhece a doutora Elza de Tal?

- Conheço, sim.

-  O Senhor sabe onde ela está?

 -  Sei  sim, ela está na Quarta Vara.

O moleque tomou um susto e num misto de surpresa e incredulidade, não se conteve:

- Já? Será? Na quarta Vara? Pô, mas num faz nem cinco minutos que ela saiu do escritório.