Amigos,

Suponho que tenha sido lá pelo
final dos anos 50 ou início da década de
1.960. Abrindo um sorriso largo, a vovó, com aquela sabedoria de vivência de
muitos e muitos anos e, fazendo pouco de minha advertência convicta de que não
falasse de sua morte, pois ela não iria acontecer, respondia: “- Saiba meu neto
que ninguém fica pra semente. Nem eu, nem você, nem ninguém. Todos vamos morrer algum dia.” Carreguei por toda a vida aquela imagem feliz,
serena e resignada de minha avó falando a
respeito da própria morte, mas nem por isso sofri menos pelas perdas de muitos
parentes e amigos que fiz por esse vida
afora, e por gente especial com as quais cruzei nesse plano da existência. Hoje,
dia 03 de abril de 2.021, logo que acordei li a notícia inesperada do
falecimento de nosso amigo, Mario de Arruda Leite, em termos delicados
transmitidos pela sua irmã Carminha: “O
Mario se foi para junto de Deus.” Embora a
morte nunca seja inesperada, especialmente para os mais velhos da ala mais antiga do nosso grupo da Creche
Lar Ternura, a do Mário, no entanto, a despeito da imprevisibilidade na evolução
dessa doença nova, que assola toda a humanidade e já matou mais gente do que
guerras somadas, era considerada pouco provável, diante de seu estado de saúde
sempre muito bom, de sua energia aparentemente inesgotável e o fato de que ele
reagia muito bem e melhorava a cada dia, segundo nossa percepção. Frequentemente, enviava um áudio no whatsapp
com mensagens positivas, do tipo “bota a cerveja pra gelar, que eu tô voltando”,
como naquela música da Simone, transmitindo grande otimismo na sua liberação,
que para nós parecia breve e certa. Mas o Mário se foi! E se foi como todos
iremos um dia. E o que nos resta é
aceitar os desígnios do Criador e continuar o “bom combate” que ele sempre
travou. Um combate diário e inesgotável contra a desigualdade e a carência que
afeta grande parte da população brasileira, cada vez mais empobrecida, diante
dos devastadores efeitos da pandemia do Coronavírus. E especialmente à Creche
Lar Ternura, que já completou 40 anos de benfazeja existência, décadas dentro
das quais prestou assistência alimentar, social e educacional a milhares de
crianças, muitas hoje adultas e até quarentonas, mercê de incessante trabalho de funcionários, professores, diretores
e colaboradores voluntários de todas as formas, aos quais se deve a manutenção e
a longevidade da amada instituição. E
mais viva do que nunca, a Creche caminha
e certamente caminhará altaneira e
segura no cumprimento de seu nobre objetivo social, com a nova geração, que aí
já está, suprindo – e com vantagens – as lacunas e os defeitos daqueles que vão ou se aposentam. O Mário, como lembram as mensagens dos
diretores e amigos no grupo da Creche, foi um exemplo de pessoa humana, de pai,
de marido, de avô, de filho, de irmão. E
um amigo muito, muito especial mesmo, pela humildade e respeito com que tratava
todos, sem exceção. E pelo comprometido trabalho que executava, fosse na manutenção
e conservação das instalações do prédio, nas compras mensais, nas vendas de
convites dos diversos eventos e na divisão dos trabalhos que o grupo de
diretores e voluntários realizava, ficando, amiúde, com os mais penosos e
pesados, sem reclamar. Agora o Mário foi encontrar o Gil, o Armandinho, o Zé
Luiz, a Dna. Geny, o Sebastião e as suas piadas rápidas,
engraçadas e certeiras, a Dna. Argentina
e o marido, e tantos outros que, permanente ou episodicamente, abraçaram à
bonita causa, gente generosa e despreendida, que deixou esse mundo e foi morar
lá no Céu, ao lado do Criador. A Mara me lembrou que a nossa querida Geny se
foi no dia seguinte a um domingo de Páscoa. E o Mário se vai agora, um dia antes da data que comemora, para a
cultura judaico-cristã, a ressurreição
de Jesus Cristo, e assim ambos experimentam o privilégio de renascimentos
próximos, muito próximos, ao do filho do
Criador. Há muito tempo que, por ocasião de despedidas de pessoas queridas, reproduzo mensagem de um velho filme americano de
guerra, segundo a qual não se deve chorar ou lamentar a morte de um grande homem,
mas louvar a sua vida rica e proveitosa. E a vida do nosso Mário foi tão
dedicada a tanta gente que ele ensinou o que significa comprometimento, amor,
família, religião, humildade e simplicidade que a gente sempre se referiu a ele
muitas vezes em função das pessoas ou causas que ele abraçou. E não era o Mário
dele. Era sempre o Mário de alguém ou de alguma coisa a quem ou a qual servia. Era o
Mário da Zilda, o Mário do Junior, o Mário da Simone, o Mário da Denise, o
Mário da Rosana, o Mário da Calha e, sobretudo, o eterno Mário da Creche, o seu
epíteto mais relevante pelo número dos beneficiados com a sua intervenção
pronta e oportuna. Vá em paz meu amigo e que a certeza dessa paz, sua história de vida sirva de conforto à sua
Zilda, especial e querida companheira de toda a trajetória, aos filhos e netos. E que essa mesma bela história seja veículo
de inspiração para todos os que, homens e mulheres de boa vontade, buscam servir aos seus e ao
próximo, dando, assim, sentido e razão a
essa vida tão breve e passageira, diante da eternidade dos nossos propósitos e
esperanças. Sem tristeza, por favor, ele diria se pudesse, tenho certeza.
Profundo abraço Zilda, Simone,
Junior, Denise, Rosana, genros, nora e netos. Esse Mário foi muito relevante. E muito amado pela
importância que teve na vida das pessoas. Assim a gente pode aceitar sem mágoas, sem
tristezas e sem revolta a sua partida como vontade do Criador.
Essa a mensagem que deixo aqui
registrada e envio à família e aos amigos com um abraço afetuoso a todos, meu,
da Mara, da Samira, do Renato e do meu neto, Rafael.
Boa Páscoa amigos.
P.S. A imagem de hoje é do nosso Mário com parte de sua estimada família.