terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ELE O PALHAÇO - MAGIA EM TODAS AS IDADES.


Boa tarde amigos,

Casal de terceira idade homenageia o palhaço, legítimo re-
presentante de uma infância saudosa e mágica.  Imagem -
emprestada do site www.enoismesmoeueaxuxu.com.br
Ele entra atabalhoado, tropeçando nos próprios pés ocultos pelos enormes sapatos de bicos voltados para o céu. Sorriso largo expressa um tácito convite ao riso e ao canto. E vai entoando: O bom menino não faz xixi na cama/O bom menino não faz malcriação/ O bom menino vai hoje à escola/....O ruidoso auditório, repleto de crianças de todas as idades quase vem abaixo com o som alto, de todos os tons concomitantes e desafinados, acompanhando a canção. Uma energia positiva  brota, se espalhando por todo o ambiente. Agora outro palhaço menor que o primeiro aparece no picadeiro. E outro, ainda menor que os dois. E mais outro, nanico. Anão e palhaço combinam e são capazes de conduzirem crianças e adultos, moços e velhos, por um mundo encantado que surge, como nos contos de fada, logo que se abre a janela do quarto dos fundos e se salta por ela.  Justamente, como aconteceu com Alice, lembram?  É só fechar os olhos e sonhar. Como um anjo ele surge do espaço sideral,  apaga o desenho do cenário cinza do mundo real e o troca por outro iluminado, de cores claras, num tempo em que reis e rainhas, bichos, florestas e castelos conduzem o visitante para um lugar imaginário em qualquer parte do universo. Ali todos são felizes, solidários, saudáveis e fraternos.  E se parecem com o palhaço-anjo.  Aquele de nossa infância. O palhaço bom e inocente.  O palhaço herói e salvador. O palhaço tantas vezes injustiçado, humilhado, ignorado, discriminado. Sucessor do "bobo da corte" que se descartava depois de servir para alegrar e satisfazer a soberba do rei e seus súditos.  Rei como nós, pretensiosos e injustos, que também não raras vezes ignoramos o nosso amigo e seus dramas reais, logo que a cortina se fecha atrás dele.  O palhaço que tem sempre o mesmo rosto e o mesmo destino: o de servir à alegria. O ser humano  que nos faz acreditar que tudo tem jeito, que existem razões para viver e comemorar a vida, que nos convida à utopia e à esperança, combustíveis necessários para a crença na existência de um mundo colorido e de  uma vida digna de ser vivida. Em algum lugar da nossa memória, ao menos.  Em algum canto esquecido e doce do nosso coração, talvez.... Viva o palhaço! Vivam os palhaços!

Até mais amigos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

CORINGA DE PHOENIX - UM FILME MERECIDAMENTE PREMIADO


Boa noite amigos,

Imagem  mostrando o ator Joaquin Phoenix, en-
carnando o controvertido personagem, cuja origem e   -
causa de sua loucura e criminalidade constitui o fio con-
dutor do premiado e festejado longa de Todd Phillips.
O roteiro original quer contar a história inusitada de como se construiu um vilão, a partir da loucura e dos ressentimentos pelas dificuldades e crueldade impostas por  uma sociedade que ignora aqueles que estão à margem, os desafortunados, os excluídos. No “Eu existo e as pessoas estão começando a notar”, uma das frases pronunciadas pelo nosso protagonista, bem revela o seu sentimento pelo desprezo e o seu desejo de vingança. O principal antagonista  do super-herói Batman  aqui está sozinho, fora de qualquer trama, num grande e interminável monólogo existencial, atormentado por uma mãe doente, a ausência de paternidade conhecida e um subemprego. Com Todd Phillips na direção (indicado para o Oscar, sem vencer) e Joaquim Phoenix como protagonista (vencedor do Oscar na categoria), esse Coringa sorri, dança, chora, gira pelas calçadas e ruas da cidade, tenta existir e nesse desiderato se torna um ser violento e criminoso.  Os anônimos palhaços, como ele, saem às ruas para protestar contra a insensibilidade pública com as mazelas sociais. Phoenix, ao receber o merecido Oscar  pelo desempenho, num filme em que contracenou consigo mesmo, com os objetos, num drama introspectivo, sem luz,  de cores escuras que mesclavam os dias e as noites,  ambientes inóspitos captado por lentes que liam cada gesto,  trejeito,  careta, mímica, o trançar dos pés flanando sobre degraus de escada, protestou contra o homem de seu tempo, reclamou de como ele maltrata  o seu habitat, a natureza, o semelhante, o diferente, o gênero, os animais, as minorias,  num processo lento de degradação e destruição de recursos e valores.  Não esperou por aplausos ou apupos. Disse o que queria dizer. O que o Coringa diria se existisse concretamente.  O filme bateu recordes nas bilheterias e continua a percorrer o seu caminho, elogiado pela crítica e pelo público que aprecia um cinema mais profundo, reflexivo, que não é apenas para recreação. Belo filme, magnífico Phoenix quase 20 quilos mais magro, soberbo e superior nessa interpretação memorável de um personagem do mal, conhecido por suas maldades e crimes, mas cuja origem e formação de caráter e personalidade, nunca foi contada antes do longa,  nem na literatura, nem pelo cinema.

Vale a pena ver, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes de 2.019.

Até mais amigos.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

CINEMA NACIONAL - MINHA MÃE É UMA PEÇA 3




Imagem ao lado emprestada de Metrópoles retrata, da esquerda para a direita,  os atores Rodrigo Pandolfo, Paulo Gustavo e Mariana Xavier, respectivamente nos papéis de Juliano, Dna. Hermínia e Marcelina, no terceiro filme da série que ganhou o Brasil. Assim como Dona Nenê da Grande Família, a protagonista é uma mulher forte e decidida, que não mede esforços e sacrifícios para proteger sua família, criando empatia com o público em geral. O longa, em poucas semanas de exibição nos cinemas, já levou um público superior a seis milhões (6.000.000) de espectadores, devendo ainda fazer longa história e aproximar-se, senão superar o segundo filme da série, que chegou a mais de nove milhões (9.000.000) de espectadores, um quarto lugar nos filmes brasileiros mais assistidos de todos os tempos. 

Boa noite amigos, 

Vi os dois primeiros filmes nacionais da série “Minha Mãe é uma Peça”, em que Paulo Gustavo, inspirado em sua própria mãe, encarna a Dna. Hermínia e sua problemática familiar e fui ao cinema com a expectativa de que veria “o mais do mesmo”. Não acreditei que a história da divorciada senhora de classe média, às voltas com a educação dos dois filhos adolescentes, pudesse ter rendido uma terceira temporada. Minha expectativa, porém, não se confirmou. O terceiro longa da série surpreende e supera os dois anteriores. É mais engraçado, os recursos utilizados são bem superiores, o andamento do roteiro é dinâmico e interessante, a ponto de não permitir ao espectador marasmo ou cochilo. A emancipação dos filhos que deixam a casa materna para viver suas próprias vidas, longe da tutela da mãe, a solidão da casa vazia, o casamento dos dois filhos, um dos quais em união homoafetiva, a preocupação com o nascimento e o futuro dos netos  são os pontos fundamentais que movimentam e atormentam o cotidiano da nossa protagonista, envolta nos seus indefectíveis bobes. No entorno do fio condutor do roteiro, a proximidade do ex-marido que passa a viver em apartamento ao lado e tenta dividir a preocupação com os filhos,  os arranca-rabos com as irmãs e a coragem para enfrentar os preconceitos sociais e difundir o amor entre os membros da família, em quaisquer circunstâncias, geram ensejo para discursos ideológicos contra a direita radical, a burguesia falsa e tradicional, e as posições da Igreja em relação às uniões fora do casamento e os recursos disponíveis pela tecnologia para a criação de filhos adotivos ou biológicos. Filme também enfatiza à reiteração do amor de Paulo Gustavo pela mãe inspiradora e faz inédita homenagem ao pai.  E ao marido, o médico Thales Bretas,  com quem o artista  mantêm um casamento aparentemente sólido e com o qual divide a criação dos dois filhos. Tudo isso retratado nos ótimos créditos, no final do longa. Para se divertir, esquecendo as preocupações. Se você for da classe média, tem mais de 50 anos, não fala inglês,  mas tem dinheiro para viajar para os Estados Unidos e frequentar lugares sofisticados, está reciclando os conceitos e valores que aprendeu com seus pais e avós e tem horror aos excessos do politicamente correto vai se ver no filme. E como  gosta muito de você certamente vai gostar do filme. Então por que não ir ao cinema, né?

Abraço. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

BOM SUCESSO - BOA TRAMA NUM ANO DE LUGARES COMUNS


Boa tarde amigos,


Em imagem emprestada de gshow.globo.com., os autores Paulo

Halm e Rosane Svartman, que  não esperavam a grande recep-
tividade do trabalho entre público e crítica. A  audiência bateu
na casa dos 30 pontos na Grande São Paulo, um recorde para o
horário.
Termina hoje a novela BOM SUCESSO (Globo, 19 horas), com a morte esperada de seu protagonista, o editor de livros, Dr. Alberto Prado Monteiro.O empresário teve os seus exames de laboratório trocados com a da jovem Paloma, no primeiro capítulo. O velho dono da editora, apaixonado pela literatura e pelos grandes clássicos é que, em verdade, está condenado à morte por força de patologia grave, progressiva e letal, resultado essa comunicado à moça. Passa então Paloma a viver o drama de como irá enfrentar a doença e a morte iminente, com três filhos adolescentes para criar. Comunicada, porém,  a troca dos exames, a jovem, aliviada, decide conhecer o outro paciente que realmente é o portador da moléstia para saber como ele se sente e como pretende enfrentar essa difícil situação.  A aproximação cria entre os personagens, de classes e cultura diferentes, uma empatia que vai então trazer a vida e os dramas de cada um e das respectivas famílias  para uma zona de interface e envolvimento recíprocos. A escolha do experiente Antonio Fagundes e da atriz Grazzi Mazzafera para os papéis de Alberto e Paloma funcionou bem, na prática. O público e a crítica jogaram juntos com a dupla e deram sinal verde para o incremento na exploração da mensagem que o roteiro pretendia: disseminar grandes textos de clássicos da literatura, tratar sobre a importância e a necessidade  da educação e da cultura e de como se pode se pode viver a vida de maneira simples e lúdica,   com respeito a todas as diferenças, valorizando cada momento e o convívio com as pessoas que se ama.  “A novela fala sobre a importância de viver com a consciência de que nossos dias são finitos e únicos. É sobre saber valorizar, de forma intensa, as pequenas coisas do cotidiano” explica um dos autores, Paulo Halm. O expediente de encenações de excertos de obras e personagens memoráveis, enquanto  Fagundes declamava o texto  alusivo ao tempo, lugar e modo em que os fatos relatados ocorriam, deu uma maior colorido a essas obras e autores, especialmente para uma geração que prefere a imagem à linguagem,  e que muitas vezes tem dificuldade em vislumbrar, de forma imaginativa e abstrata, todo o clima, o sabor, o cheiro, as cores e os lugares por onde os grandes escritores nos conduzem para viagens que seus textos nos remetem.  A identificação com esses personagens centrais, mas não únicos, garantiu  o bom andamento e o interesse permanente do espectador pelo desfecho da trama em relação a cada um deles. Destaque-se, ainda, a boa atuação de todo o elenco com menções honrosas à Fabiula Nascimento, no papel de Mariana, da jovem Valentina Vieira,  como Sofia, neta de Alberto,  e de Ingrid Guimarães na pele da excêntrica atriz, Silvana Nolasco.  A novela em boa medida deixou-se contaminar pelos clichês de tantas outras, apresentando situações improváveis e principalmente a inadequada abordagem jurídica de certas relações, aspectos que mereceram acirrada crítica em postagem sobre o assunto, que fiz aqui mesmo neste blog, O conjunto da obra, no entanto, foi positivo, especialmente pela temática central que é a importância da instrução e da educação num país como o Brasil, como forma de melhorar a vida das pessoas e do papel da literatura universal de gabarito como parcela ponderável dessa mudança. De quebra não teve receio de enfrentar o tabu da morte, vista como uma forma natural de fechamento do ciclo da vida, que deve ser encarada de maneira serena e tranquila, sem traumas para quem vai e para quem fica.   

Até mais amigos, 



domingo, 19 de janeiro de 2020

LITERATURA - A SAIDEIRA DE BARBARA GANCIA.



Boa tarde amigos,

Imagem de capa do livro elaborada pelo Departamento de

Criação da Editora Planeta do Brasil e foto de Eduardo -
Knapp.

Quero recomendar o livro A SAIDEIRA, da jornalista Barbara Gancia, cujo subtítulo é “Uma Dose de esperança depois de anos lutando contra a dependência”. O livro, lançado em 2.018 pela Editora Planeta do Brasil Ltda. está na 4ª. edição, e nos primeiros capítulos relata a infância e a juventude da autora, uma mulher especialmente inteligente e sensível,que tomada pelo vício do álcool e do fumo, desafiou a burguesia paulistana e seus conceitos. Num processo de auto-degradação, Bárbara destruiu veículos e se envolveu em inúmeros acidentes, um dos quais lhe custou a visão de um dos olhos, expondo os irmãos, os pais, os amigos e as companheiras com quem manteve relacionamento amoroso, a situações vexatórias e perturbadoras. Mesmo relatando esse triste processo de auto-destruição, a autora recheia o relato com situações curiosas, pitorescas, engraçadas, mercê do denunciado humor atávico[1], de seu talento e sensibilidade para a escrita, provocando no leitor certa piedade,  mas também leveza e diversão. Aliás, curiosamente, conquanto sua vida pessoal, familiar e amorosa ia se afundado em perdas seguidas e decepções, graças ao abuso do álcool, droga e fumo, conseguia manter relativamente estável os seus vínculos com os mais tradicionais e conceituados jornais e revistas, pelos quais divulgava seus conceitos e visões, graças à tolerância de editores, chefes e amigos, que tentavam extrair dela, no dia seguinte à esbórnia (e o dia seguinte eram todos os que se seguiam ao anterior), o cumprimento de suas obrigações. Na Folha de São Paulo está há 32 anos, dos 62 anos atuais e conseguiu apresentar com o repórter esportivo Silvio Luiz, o programa esportivo Dois na Bola,  que foi ao ar durante 10 anos na Bandnews. Nos capítulos posteriores há relato de seus vexames, crises, culpas, impotência etc., e litígio com astros e políticos de renome, relato de processos que seu jornal e ela própria sofreram pelas denúncias que fazia,  suas tentativas frustradas de abandonar o alcoolismo e  o  processo de superação, com as internações seguidas e  a adesão ao grupo dos Alcóolatras Anônimos, instituição que defende veementemente e com conhecimento de causa, nos embates públicos que manteve com psiquiatras e psicoterapeutas de renome e  nos encontros e palestras que passou a proferir em todo o Brasil. Barbara não se diz curada, porque reconhece que o alcoolismo é uma doença incurável e que necessita de tratamento. E que o horizonte de cada um que padece desse mal é sempre o hoje, o cada dia.  Sobre a obra, escreveu o escritor Ruy Castro, amigo da escritora de longa data e que também passou por um processo sério de tentativa de superação do alcoolismo: “Há pessoas cujas vidas imploram para ser escritas. O problema é que, para que isso aconteça, essa pessoa precisa estar viva. E Barbara Gancia preferia flertar com a morte, a bordo de copos e mais copos e ao volante de carros suicidas. Em sua fase esbórnia, Barbara viveu vários filmes de ação, cheios de alçapões invisíveis, quedas no abismo e ataques de ratos. Mas nenhum tão emocionante quanto sua luta pela sobriedade. Um dia, finalmente, depois de muitas recaídas, Barbara conseguiu parar a história. O resultado é A Saideira, um livro que só ela poderia ter escrito. E cuja leitura encerra lições para todos nós que, tantas vezes, achamos que os prazeres que a vida nos oferecia estavam sendo dados de graça”. Bem mais um livro de auto-ajuda muito em moda? Sim, sim, mas não só isso, evidentemente. Uma obra bem escrita que denuncia preconceitos e desrespeito a direitos humanos das minorias, a corrupção e a política que se pratica no Brasil, os privilégios, o abismo social, a hipocrisia da burguesia, enveredando aqui e acolá pelas universais e eternas questões do existencialismo, que a cada faixa etária cada ser humano busca responder para si e para o seu mundo.
Uma leitura interessante para todos os gostos e obrigatória para quem necessita de ajuda na busca de superação do alcoolismo e outras doenças da compulsão.

Até mais amigos.
           




[1]Sou uma mulher engraçada, rodeada por pessoas hilárias. O humor é um valor venerado na minha família, sempre tão dada à desenvoltura social. Significa elegância,  leveza e reflete uma filosofia cheia de sabedoria. A vida é isso, e não muito mais, drama existencial não vai mudar o fato de que somos todos tão perecíveis quanto um pastel de palmito.”  (Capítulo GRAÇA E DESGRAÇA, p. 75.)













quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

CARTA AO TERAPEUTA

Bom dia amigos,

Imagem do badalado quadro de Edvard Munch datado de 
1.893:  "O Grito". A interpretação gera ainda hoje grande
polêmica entre os especialistas.E o mais famoso dos qua--
tros quadros e se encontra na Galeria Nacional de Oslo.
Acho essa coisa de crise de existencialismo uma merda. Mas como em todo ser humano que pensa, dotado de raciocínio e inteligência, vez em quando baixa aí uma necessidade de pensar e repensar a vida no estágio em que se encontra e de exteriorizar o que sente (ninguém teria nada a ver com isso, claro).  As linhas abaixo não foram escritas agora, mas nos últimos meses do ano passado quando bateu uma nostalgia da vida passada e de como ela poderia ser vivida de maneira mais sábia ou proveitosa, sabe-se lá, fruto talvez dessa insatisfação permanente que assola todo ser humano.  Em todo caso, compartilho esse desabafo com quem pretender tomar conhecimento dele por qualquer razão ou, então, por nenhuma. Abraço afetuoso.

"Doutor,  qual é o diagnóstico no meu caso? Existe um?  Será um só? Vou ter que tomar um remédio novo? Acrescento ele aos meus oito medicamentos  que eu já tomo por decisão do meu cardiologista, urologista, clínico geral? Como ficam as “interações medicamentosas? É esse mesmo o nome técnico? Ah, estou perguntando tudo de uma vez? Preciso relaxar? Sou ansioso, né? Quais serão as próximas restrições que deverei acrescentar àquelas a que  já me submeto?  É, obedeço a elas,  mais ou menos, porque, o senhor não sabe, mas sou meio rebelde, não totalmente, porque sou cagão também. Doutor! Como o senhor deve saber a gente não é uma coisa só. Está na moda e eu gosto muito de dizer que somos plurais. Andei pela vida procurando coerência, autoconhecimento e outras bobagens. Nunca achei nada que me satisfizesse. Agora, esse negócio de ser plural me convence hoje muito mais. Eu me lembro de quando ouvi  o Tom Jobim dizer a respeito do nosso “poetinha”, que o Vinícius era um sujeito plural, porque se fosse singular, chamaria (ou chamar-se-ia, não sei se ainda usam essa tal mesóclise) Vinício de Moral. O  fato é que não consigo mais segurar a barra da vida. Quero contar uma coisa ao senhor que talvez ajude no diagnóstico e encontre o remédio certo para o meu mal. Ou então para o senhor me mandar embora, informando à minha acompanhante que meu caso não tem remédio: é incurável. Uma semana depois da morte do ator e diretor Jorge Fernando, sua irmã, entrevistada pelo Fantástico, asseverando sua  paixão pelo único mano, de quem se dizia mãe, avó, companheira, amiga, amante e tudo o mais que se pudesse adjetivar para explicar uma relação afetiva intensa  e sem limites, disse que sua filha, sobrinha do falecido, a consolou, dizendo que Jorginho tinha que partir, porque ele não cabia mais naquele corpo. Fiquei pensando por esses dias e cheguei à conclusão que, de certa forma, a mesma coisa vem se passando comigo. Sem comparações com o talentoso ator, a verdade é que nunca fui capaz de deter as viagens que a minha imaginação e a minha cabeça, que muita gente achava brilhante, me levaram enquanto caminhava pela vida, dura e difícil desde o início, mas vitoriosa pelas conquistas pessoais,  sociais e profissionais. Conquistas que me tornaram estimado, mas das quais me sinto “refém” agora na velhice, quando me cobram permanentemente comportamentos estereotipados e convencionais do juiz, do advogado, do professor, do pai, do avô, da idade, da condição social etc. etc. etc.  As minhas viagens, os meus sentimentos, a minha cabeça jamais puderam ser detidos ou controlados.  O corpo, sim. Material e tangível, pode ser preso, seguro, restrito aos limites de paredes e apelos. Limitado aos argumentos, ao bom senso, ao medo,  aos preconceitos, às exigências sociais e morais, às minhas escolhas.  Doutor, o meu corpo já não obedece a maturidade ou loucura da minha cabeça e eu não posso trocar de corpo não é? Nem posso rejeitar a forma com que apareci nesse mundo e pela qual existo na realidade concreta dessa vida. Doutor, o que eu tenho, é grave, tenho pouco tempo de vida? A única coisa que me preocupa mesmo é se posso continuar tomando minhas cervejinhas e fazer as minhas viagens para a terra do nunca. Sozinho, como sempre viajei. Solitário como acredito que todos nós surgimos, vivemos e vamos embora deste mundo. Um Whisky, de  vez em quando, hein? Será que eu serei capaz de dar uma de “macho” e mandar meus remédios todos à merda e tomar um porre, uma última vez nesta vida? Estou mais do que nunca deslumbrado com a juventude. Quando vejo meus alunos, meninos e meninas, começando a vida com sonhos e energia, plenos de saúde e de futuro,  fico com vontade de me envolver nas suas vidas, ouvir as suas preocupações, aconselhá-los, quando me pedem palpites. Tenho vontade de levá-los para casa, me intrometer nos seus sonhos, os quais gosto de incrementar e incentivar,  com o objetivo quase desesperador de que saibam aproveitar a juventude, sem abrir mão de suas crenças, de seus próprios valores e de suas opções; que aproveitem o tempo que lhes é imensurável, por enquanto com a plenitude da sabedoria.  É que a gente descobre – e essa descoberta acontece apenas na velhice -   que a juventude, como dizia Bernard Shaw, é tão maravilhosa que é pena desperdiçá-la em jovens. É um paradoxo mesmo.  Sim, já me senti e de vez em quando me sinto com a sina de um velho vampiro, ávido pelo sangue novo, que lhe garanta um sopro de vida e de juventude por tempos adicionais de existência.  Calma, doutor, não vou chegar a sugar o sangue dos meus jovens, não recomende minha internação.  A comparação é apenas figurativa. E convenhamos, vampiro não existe. Mas,  lá na minha cabeça, fértil e cheia de truques, a condição de ser real algum dia chegou a ser decisiva? Saiba, porém, o senhor que a realidade tem muitas facetas e vertentes. E que um dia disse o poeta francês, com muita razão,  que não importa o que seja a realidade fora da gente, se aquela que a gente sente ajuda a gente a viver e a ser o que a gente é. Para terminar quero dizer ao senhor que eu não vim aqui por vontade própria. Fui quase obrigado. Quando as pessoas ficam assim como eu, falando o que pensam, agindo fora do protocolo e da idade, às vezes sentindo tristeza, noutras alegria, se recusando a acompanhar a família em programas que não agradam, ou seja, agindo diferente, pensando diferente do que sempre supostamente agiu e pensou, ninguém acha que somos camaleões nesse mundo. Mais fácil é indicar o caminho do psiquiatra. E daquele remédio tarja preta que faz a gente esquecer quem a gente é, como disse um dia o Cazuza, em “Exagerado”. Não resista, já me advertiram. É reposição química mesmo que a gente precisa, não adianta só fazer terapia. Tá, não adianta mesmo é argumentar. Doente nunca acha que está doente. O melhor é ceder, deixar levar. Mas antes vou gritar bem alto, naquele tom que as pessoas cultas e educadas não devem usar:   Viva Cazuza! Viva Baudalaire! Viva Bernard Shaw! e  abaixo a ditadura  da coerência e das convenções. Bem, agora é a vez do senhor falar. Qual é o diagnóstico? Ah! Antes que o senhor responda, acrescento mais uma:  estou de saco cheio da política e dos políticos. Me contaram nesta semana que a mais nova denúncia se refere às tais “rachadinhas”, que tudo mundo no meio político, garantem por aí,  já fez  e ainda faz. E o que é a rachadinha, o senhor não sabe? Eu também não sabia. No meu tempo, “rachadinha” era apenas o apelido do órgão sexual feminino tão apreciado por uns e indiferente a outros. Mas hoje, é o nome que se dá àquelas participações “espontâneas” nos salários,  que os políticos ou os partidos recebem dos seus assessores ou dos que eles empregam.  De direita, de esquerda, de centro, da puta que pariu. E se o senhor encontrar o Lula e o Bolsonaro por aí, mande, por mim,  os dois à merda, tá?  Não, não quero saber o seu diagnóstico. Não vou pagar consulta, esqueceu? Isto é só  uma carta. Um desabafo. Um monólogo. Obrigado por me emprestar a sua condição de interlocutor legalmente habilitado e ilustre. Agora que estou postando essas reflexões, vou tomar o meu último remédio do dia e tentar dormir. Para esquecer quem eu sou e a necessidade patológica de saber se  essa porra que eu sou,  presta para alguma coisa ainda."

Boa noite!  

P.S. O diretor do Museu Munch, Stein Olav Hernichsen, fazendo coro com a curadora da exposição dedicada ao artista em Londres, Giulia Bartrum, afirma que o quadro representa não uma pessoa que grita, mas uma pessoa que ouve um grito e cobre os ouvidos. A declaração é baseada num litografia encontrada do quadro, em que o próprio Munch nele registra uma inscrição do seguinte teor: "Eu senti um grande grito em toda a natureza". Há todavia controvérsias que certamente jamais serão dirimidas;


P.S. (2) O Grito é uma série de quatro pinturas do norueguês Edvard Munch. A obra representa uma figura andrógina em momento de profunda angústia e desespero existencial. E considera uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, tal qual a Mona Lisa de Leonardo da Vinci. A série tem quatro pinturas conhecidas: dois dos quadros da série, "A Ansiedade" e "O Desespero" se encontram no Museu Munch, em Oslo; outra na Galeria Nacional de Oslo e uma quarta em coleção particular.



















domingo, 5 de janeiro de 2020

CAUSO - SÓ PINGA


Bom dia de domingo minha gente boa!

Em imagem criada por Dinosuch e -
crédito de Getly Images,caricatura
de padre com taça de vinho.

Para alegrar o dia, geralmente modorrento de domingo, um "causo" que está no meu terceiro livro  "Causas & Causos" e que me foi contado pelo Professor Arnaldo Lemos, meu colega de docência na Faculdade de Direito. O Arnaldo fez seminário, foi padre, sim senhor, e depois deixou o sacerdócio para se casar e constituir família. O "causo", porém, aconteceu quando ele ainda jovem, justificava a batina, celebrando missas e mais missas, dada a carência de sacerdotes. Não se sabe, porém, se "o sucedido" contribuiu ou não para a decisão de deixar a sua primeira opção de vida, ou se lhe deu um certo conceito de "cachaceiro". Enfim, vamos lá. O leitor que tire suas conclusões, como o fez o desconfiado sacristão:


"Era a quinta missa que o jovem sacerdote começara a rezar, já no início da noite de sábado, num longínquo bairro da metrópole, encostado à zona rural. O dia tinha sido exaustivo. A primeira missa acontecera logo no começo da manhã na Catedral do centro, e, em seguida, se sucederam os demais compromissos, em pontos opostos da urbe. Dirigindo um velho Fusca, veículo muito na moda naquela época, o padre gastava o tempo entre um e outro culto, atendendo a fiéis que queriam se aconselhar ou confessar e, ainda,  nos duros trajetos entre os pontos distantes que separavam os templos. Assim, durante a quinta liturgia eucarística do dia, após as oferendas, o sacerdote, exibindo o cálice que deveria receber o “sangue de Cristo” ao sacristão, cansado e tendo sorvido vários cálices de vinho, em nome do sangue de Cristo para cumprir a liturgia,  lhe sussurra quase em tom de súplica: “Só pinga, por favor”. O sacristão, entre surpreso e incrédulo, mas de forma decidida, responde ao sacerdote: “Padre, pinga não tem,  só tem vinho”.  Quá, quá, quá! 

Bom domingo amigos.

P.S (1) O padre que toma várias sobras de vinho, após seguidas missas, cumprindo a liturgia da missa, pode dirigir e invocar escusa legal para não ser multado, nem soprar o bafômetro? Com a palavra os advogados leitores do blog.