domingo, 29 de agosto de 2021

TEMPOS MODERNOS: O OUVIR EQUIVOCADO, O USO INADEQUADO E AS REPRODUÇÕES INEXISTENTES NO LÉXICO DA LÍNGUA PORTUGUESA.

 

Boa noite amigos,


Não precisa ser velho, com elevado déficit auditivo para que o nosso cérebro, muitas vezes,  faça a leitura incorreta da audição.   Aquela velha surda, personagem do antigo humorístico televisivo  A Praça da Alegria, do saudoso Manoel da Nóbrega e, depois, de  A Praça é Nossa, de seu herdeiro e filho, Carlos Alberto da Nóbrega, se popularizou e, assim, se tornou um ícone,  em função dessa possibilidade que, como eu disse, não é exclusiva dos deficientes auditivos. E que, em função disso, a nossa memória acabe gravando frases inteiras ou expressões isoladas erroneamente.  Lendo constantemente, por força das minhas carreiras de juiz, advogado e professor de Direito, escritos de advogados, Promotores, clientes e alunos, conservo ainda na retina, um rol de expressões incorretas e engraçadas. Algumas reproduzidas inúmeras vezes, o que comprova a tese de que tanto o certo, quanto o errado, em tempos de redes sociais, se espalham como pólvora. Dezenas de vezes ouvi o registro da expressão “é ponto passivo” no lugar de “é ponto pacífico”[1]:  O estagiário ou advogado que não muito familiarizado com os inventários da vida, pede ao cartorário o “formol de partilha”, em vez de “formal de partilha”. Ouvi dizer (não vi, nem li) que um Juiz do Trabalho Classista, erigido à condição de Desembargador de um Tribunal Trabalhista, lá pela década de 80 do século passado, durante uma sessão pública de julgamento, teria dito que o reclamante não se desincumbira do “ânus da prova” pretendendo, na verdade, referir-se a “ônus da prova”.  Ah, mas li muitas vezes, em tempos de máquinas de escrever, mas também de computadores, a palavra “peido” no lugar de “pedido”, bastando para tal que se tenha engolido o “d” que vem antes do “i”. E olha que “pedido” é um termo constantemente usado na linguagem forense escrita e falada. Se ninguém, na linguagem oral, diz peido quando quer dizer pedido,   pode perfeita e inadvertidamente anotar, em petições não revisadas depois de elaboradas, a expressão, pensando ter anotado “pedido”. Ouvi algumas vezes advogados nervosos, forçados pelo Magistrado (no caso euzinho),  a elaborar suas razões finais orais e  em plena audiência, limitarem-se a pronunciar, a esse título, a seguinte e lacônica frase: “Excelência, o autor reintera a inicial”. Hum, Reintera? (O verbo é reiterar). Infinitas vezes li e ouvi que “o réu reconviu” por “reconveio”, a lei vigiu, ao invés de “viger”, assim como vigindo em lugar de “vigendo”. Orações como “A  polícia deteu o réu”, no lugar de “deteve” e outros equívocos que, se devem ser censurados de todos os que possuem curso superior, dentre os quais engenheiros e médicos, são absolutamente imperdoáveis no Bacharel em Direito, no advogado, no Juiz, no Promotor, no Delegado, os quais têm como instrumento principal do exercício da função, a palavra escrita, a correção da linguagem, a comunicação direta, objetiva,  culta e adequada. Pois é. Há ainda “invenções” que se espalham prodigamente e se lê em petições, arrazoados e Acórdãos  aos montes, como “Inobstante” no lugar de “não obstante”[2] ou “nada obstante”, além da permanente dúvida sobre quando usar “onde”  ou “aonde”[3]. E o que dizer das intermináveis dúvidas sobre o uso da crase. Quanto a esta felizes os ingleses que não precisam se preocupar com acentuação para distinguir palavras homônimas, ditongos ou hiatos e essa tal crase com a qual muitos tem uma verdadeira relação de amor e ódio.[4]

Abraço amigos e bom domingo.



[1]  Por exemplo: “Saiba Vossa Excelência que o réu sempre foi bom pai e bom marido. Isso é ponto passivo...”

[2] O Dr. José Maria Costa, meu colega primeiro colocado no 153º. Concurso de Ingresso na Magistratura do Estado de São Paulo, professor de Língua Portuguesa, oferece completa explicação sobre essa praxe forense no uso do termo “inobstante”, respondendo a uma das indagações no tradicional jornal eletrônico forense “Migalhas”. Conferir se tiver interesse no site https://www.migalhas.com.br/coluna/gramatigalhas/29791/inobstante

[3] Sobre a diferença entre as expressões e quando deve ser utilizada uma e outra cf. excelente artigo em  https://ead.uri.br/blog/aprenda-usar-onde-aonde

[4] Há os que resolvem crasear todos os “as” sejam meros artigos femininos, sejam isoladas preposições ou a junção de ambas. Outros que preferem ignorar completamente a sua existência na língua portuguesa.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

LITERATURA - CRÔNICA DE BERNARTZ & BERTRAN

 

Boa tarde amigos, 

O mais recente romance de Luiz Carlos Ribeiro Borges, “CRÔNICA de BERNARTZ & BERTRAN”,[1] é uma obra cuidadosamente elaborada, como adverte o autor no prefácio, tecida a partir de duas dentre as suas confessadas paixões: a Provence do sul da França e a obra dos trovadores medievais, que criaram e cantaram as líricas trovas de amor, trazendo poesia, vida e luz à escuridão da Idade Média, marcada pelo teocentrismo e pelas delações, perseguições, condenações sumárias e execuções da Igreja Católica Apostólica Romana[2]Protagonistas reais do romance, com o único traço comum da notoriedade e reconhecimento como grandes trovadores que foram, Bernart de Ventadorn e Bertran de Born, dão título ao livro e têm os seus currículos explorados com apoio nas inúmeras pesquisas e obras consultadas pelo autor. Mas o caráter biográfico da obra fica por aí. A partir da notícia de que ambos os trovadores teriam se recolhido, numa mesma abadia, em Dalon,  por volta do ano de 1.195,  onde o primeiro se tornou monge, o autor supõe razoavelmente que eles teriam se encontrado e, a contar dessa probabilidade e de como teria sido esse relacionamento breve[3], cria o romance, construindo todos os outros personagens fictícios, com os quais os notáveis trovadores  teriam dividido uma convivência, ora harmônica, ora tensa e difícil, às vezes próxima, outras de distanciamento, num  mundo de desconfianças, medo e perseguições, que marcaram o obscurantismo da Idade Média e o desenvolvimento das várias correntes filosóficas então contemporâneas ou anteriores, voltadas para o homem, sua origem e finalidade[4]

 

Os diálogos são primorosos e cada um dos personagens fictícios foi construído e se conduz, no desenvolver do romance, em consonância com as bases da doutrina que professa ou censura, fidelidade que agrega ao romance, além da beleza estética, um apreciável valor pedagógico e histórico no que respeita aos precursores das doutrinas que deram vida às correntes filosóficas suscitadas.

 

Ao leitor é lícito supor que as reflexões a que se permitem os personagens, oriundos que são de mundos e experiência diversos, a par de enriquecedoras, por certo também revelam muito do próprio autor, na busca da compreensão pelo que seja a natureza humana, a finalidade e o destino do homem e, especialmente, as facetas do amor, nas suas diversas manifestações, não o amor platônico apenas, não só o amor divino, não só o amor de pai, de mãe,  mas também, dentro dessa natureza humana animal,  a legitimidade do amor-paixão, breve, arrebatador, real ou onírico e  o sexo perseguido como expressão única de prazer mundano, inevitável, buscado sem culpa ou pecado, como mera expressão hedonista[5].                               

Se o  livro é a viagem de quem perdeu o trem, ou que não tenha recursos para viajar, Borges, na sua desenvoltura para criar e conduzir o leitor pelo romance, vai apresentando os personagens,  inserindo-o  no  cotidiano deles, contando a sua história passada e revelando em que medida agora são  eles reflexos da experiência amealhada, do seu caráter, dos seus temores e conflitos, e bem assim, as suas dúvidas entre dedicar-se ao recolhimento monástico ou retornar à vida secular.


 Não é difícil, assim, compartilhar da loucura de Serapião, dos temores de Quirino, das informações do bibliotecário Isidoro, do monge Honorato, do abade Prudêncio e suas predileções pelos escritos apologéticos dos primeiros anos de Cristianismo e de tantos outros personagens com quem os trovadores se  cruzam no convívio da Abadia.

 

Por fim, viajando no tempo, o romance, até então contado, em primeira pessoa, pelo trovador Bernartz, com suas visões e impressões, vai  encontrar   nosso escritor, inserido no mundo moderno do século 20, transmitindo as suas conquistas e frustrações, num ensaio acerca do tempo, seus efeitos inexoráveis sobre a saúde física e mental, reproduzindo, assim,  os mesmos questionamentos que acompanham o ser humano, desde o aparecimento da sua espécie (o homo sapiens), vida e morte, a religião e seu papel e influência nas sociedades de todos os tempos,  amor e sexo, o sexo sem amor,  as virtudes e os pecados, os valores,  a transcendência e a finalidade do homem.

 

Aqui também, como em obras anteriores, Borges volta a uma de suas   temáticas prediletas: a natureza e o  poder do sexo sobre os homens e seus destinos, o  fascínio pelo enigma da mulher e seu poder de sedução e perdição, aproximando-se,  nesse particular, de  um dos elementos presentes na poesia de Vinicius de Moraes[7].

 

Há também, acredito, um certo fascínio por figuras reputadas marginais, ontem e hoje, que desafiam os costumes e valores sociais e morais, revelando a coragem e a possibilidade de alternativas de vida condicionadas apenas às suas próprias convicções e vontade.

 

A despeito de temas pesados e profundos, Borges consegue dar leveza e seguimento ao romance, sem gerar no leitor um fastidio ou cansaço,  mantendo-o envolvido com os personagens e os acontecimentos e a curiosidade pelo desfecho dos conflitos que essa interação provoca, outro aspecto marcante na obra.

 

Em síntese, uma obra que, adjetivada como ficção, um romance, é muito mais que isso e pode aparecer como indica o catálogo como relativa à poesia Medieval, os Trovadores, ao Trovadorismo, à Filosofia, além da biográfica com relação aos protagonistas, os notáveis trovadores, Bernardt de Venadorn e Bertran de Born.

 

Como todos os outros livros do autor não é obra com apelo popular ou comercial. Mas como disse um dia o escritor Manuel Carlos sobre Elis Regina: “Elis (substituo por Borges) não faz obra para o público; faz público para sua obra”. E se me permite o autor sem qualquer envolvimento da estima que nos une há muitas décadas, peço que me admita, modestamente, como fiel integrante dessa  última categoria.

 

Até mais amigos,



[1] Borges, Luiz Carlos Ribeiro. Crônica de Bernartz e Bertran/Luiz Carlos Ribeiro. – 1ª. Ed. Campinas (SP). Pontes Editores, 2020. 252 p.

[2] “Para suprir essas conversações, tive que empreender uma leitura, tão vasta quanto permitiam as minhas limitações: sobre as ideias teológicas, filosóficas e estéticas que vigoravam naquele final do século 12; a paixão medieval pelos livros e as iluminuras que os ornamentavam; os autores que eram então venerados ou execrados; as escolas de filosofia às margens do conhecimento; as heresias; os fatos históricos, tanto os contemporâneos à ação do romance quanto os pretéritos, assim como aqueles, vindouros, que esses fatos faziam prenunciar (por exemplo, o crescimento da heresia dos cátaros, em constante conflito com a doutrina oficial da Igreja, poderia acarretar um desfecho trágico, como em verdade aconteceu, já no século seguinte, com o extermínio dos adeptos da heresia)” (p. 9).

[3] Leituras e pesquisas, realizadas durante a confecção do romance, viriam a revelar que Bertran realmente se recolheu à abadia de Dalon: o encontro fictício e imaginário entre os dois poetas passou a se revestir de probabilidade histórica. (orelha da contra-capa do livro).

[4]Aparentemente, apenas o abade e o bibliotecário conhecem meu passado de trovador e cortesão. Os demais habitantes da abadia nada sabem de mim, nem se interessam, imersos nos motivo pessoais de sua própria reclusão, a maioria ali tendo vindo para cumprir uma sincera vocação monástica, outros para expiar algum terrível pecado da juventude, para se isolar do mundo exterior e de suas intermináveis guerras e tentações ou simplesmente para esperar a morte.”

[5] “Para minha perplexidade, a visão portentosa de suas carnes brancas, aliada ao gesto cerimonial de verter água sobre si mesma, fez refluir rios que eu reputava secos e estéreis...... Possuído, como que estimulado por algum elixir de bruxas, pensei em atacá-la, arrastá-la para a margem, derrubá-la e me espojar sobre ela. Mas tudo se fazia muito urgente, e não havia tempo para qualquer outro gesto.” (pág. 75).

[7] “Resta essa fidelidade à mulher re ao seu tormento. Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.”  O HAVER.

terça-feira, 13 de julho de 2021

O QUE ELES DISSERAM - ERRATA DE JAIR BOLSONARO


Amigos, bom dia.

Relembrando o que eles disseram:

“Sigam-me os que forem brasileiros” - Duque de Caxias em 06 de dezembro de 1.868, em solo paraguaio, durante a sangrenta  Batalha de Itororó.

Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico”  - D. Pedro I, em 09 de janeiro de 1.822, em resposta aos brasileiros que pediam a sua permanência no país.

Quem não luta pelos seus direitos, não é digno deles.  Ruy Barbosa.

“Saio da vida para entrar na História” – Getúlio Vargas – 24 de agosto de 1.954 em sua carta-testamento.

“Deus deve amar os homens medíocres. Faz vários deles” – Benjamin Franklin.

“Caguei para a CPI”  - Jair Messias Bolsonaro em entrevista coletiva semana passada.

Perdão. Retificando..... O senhor foi é cagado pelo povo brasileiro no segundo turno das eleições presidenciais de 2.018.  Duro está sendo tentar limpar a bunda.

Até mais amigos.

 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

CAUSO - FALA CU BEM ARTO.

                                                      Boa tarde.

O povo do interior de São Paulo, sobretudo os que ainda vivem e convivem na rica zona rural, conserva costumes e valores que a gente das grandes metrópoles há muito abandonou. O respeito aos mais velhos, a separação entre a linguagem que  os homens podem usar entre si e o que é proibido dizer perto das mulheres, novas ou velhas, especialmente o que se convencionava ser “palavrão” ou expressão imoral são princípios absolutos. Pois bem. Esta vem lá das bandas da “Varge”, que é como o pessoal da simpática cidade de Vargem Grande do Sul, próxima da divisa com o sul das Minas Gerais, costuma se referir à terra natal. E com o testemunho do meu querido amigo Dr. Cortez. Certa vez,  pelas bandas de um sítio, a molecada toda brincando e correndo pelo campo aberto, parou para conversar com o tio Zé, parente da maioria deles  e muito querido pela atenção e dedicação que dispensava a meninos e meninas da grande família que lá vivia e trabalhava. Enquanto conversavam, aponta ao longe, e caminha em direção a eles, uma velhinha, tia-avó  dos garotos e que  sempre manifestava exagerado afeto por eles. Estes odiavam  a forma com que ela os apertava nos calorosos abraços e abominavam os seus beijos molhados, cheios da baba vazada das bocas incontroláveis da respeitável dama da terceira idade. Ao avistarem a velhinha a criançada toda correu e tratou de se esconder onde podia. O tio permaneceu lá e não pretendia “dedar” os meninos para a anciã, sempre ávida de amor e baba para distribuir. Ocultos, atrás de um curral, os meninos permaneciam em silêncio absoluto, quando o tio gritou: - Agora podem sair, ela já foi. Como ele gostava de “pregar peças” e zoar a molecada, o Zé duvidou de  sua sinceridade. Mas ele insistiu: - Saiam meninos, ela já foi embora, estou falando. Diante da insistência, mas ainda receoso de estar sendo enganado pelo tio o Zé gritou: - Oi tio, ela saiu mesmo? E o tio: - Foi embora, já falei. E o moleque para se garantir: -- Se ela não tá aí mesmo, então fala “CU” bem arto.

sábado, 12 de junho de 2021

H. L. MENCKEN - LIVRO DOS INSULTOS

 

 

Boa noite amigos,

 

Henry Louis Mencken (1880-1956), um americano de origem judaica,  foi  considerado o precursor do modernismo americano por Edmund Wilson e, sem ele, nos anos 20, o país não estaria, garante o saudoso Paulo Francis, "aplainado para F. Scott Fiztgerald e Ernest Hemingaway". Versátil, quando morreu em 1956, a grande dificuldade da imprensa, segundo Ruy Castro, que traduziu e escreveu o prefácio de sua obra O Livro dos Insultos (Companhia das Letras),  uma seleção de muitos artigos que escreveu para jornais, teria sido escolher uma classificação que melhor o definisse: repórter, crítico, colunista, editor, polemista, escritor, filólogo, humorista. Em verdade ele foi tudo isso com muita autenticidade e talento. Li e reli muitas vezes essa coletânea, composta de artigos diversificados, nos quais sustenta  o  seu pensamento sobre o mundo, a religião, o amor, a vida e a morte, o sentimentalismo e tantos outros temas.  Sobre o Médico e a Medicina Preventiva cutucou:  A medicina preventiva é a corrupção da medicina pela moralidade. É impossível encontrar um médico que nāo avacalhe a sua teoria da saúde com a teoria da virtude. Toda a medicina, de fato, culmina numa exortação ética. Isto resulta num conflito diametral com a ideia da medicina em si. O verdadeiro objetivo da medicina não é tornar o homem virtuoso; é o de protegê-lo e salvá-lo das consequências de seus vícios. O médico não prega o arrependimento; ele oferece a absolvição." Conhecer o seu pensamento, a sua personalidade voltada para a polêmica e a crítica, as suas frases famosas, enfim inebriar-se um pouco  com os ataques de  sua língua afiada e maldita é uma empreitada interessante. E que viva a diversidade em qualquer de suas facetas.

Até mais amigos.

terça-feira, 4 de maio de 2021

UFA! FINAL DO BBB 21


Boa noite amigos.



Nesses tempos bicudos de perdas e carências, em função da pandemia que ainda promete fazer muito estrago por aqui antes de ser derrotado, o assunto mais importante do dia é, acreditem, a final do BBB-21. Esse “reality show”, apesar das 20 anteriores versões e sem novidades no seu formato, parece ter sido eleito “a bola da vez”, o entretenimento que mobiliza adolescentes e adultos, em torno de uma disputa pelo prêmio de um milhão e meio de reais e de como eles convivem e se comportam reclusos do mundo, bem alimentados pelos patrocinadores e absolutamente ociosos, em dias e meses seguidos, entre risos e choros, festas e bebidas, crises e estratégias para fugir do paredão, ganhar a simpatia do público, obter lideranças etc.etc. e outras bobagens que nada acrescentam de positivo à educação dos nossos jovens, ainda em processo de formação do caráter e personalidade. De vez em quando, surge, aqui e acolá, uma discussão envolvendo preconceitos sociais e necessidade de respeito à dignidade de toda pessoa humana, mas ainda assim de forma absolutamente incidental e sem abordagem adequada e mais profunda de temas que a sociedade deve discutir com profissionais e especialistas, em instituições educacionais e programas sérios e comprometidos com a preservação ou criação de verdadeiros valores de igualdade e justiça social, de que a humanidade em geral tanto carece. Nada contra entretenimentos leves que, em si mesmos, não têm qualquer pretensão de suscitar reflexão, senão mera diversão e alívio, o que é muito na atual situação de sofrimento e isolamento social pelo que passamos todos. O que preocupa é a dimensão que esse jogo de cartas marcadas, direcionados, ora pelos próprios candidatos, ora pela direção do programa, assume na vida cotidiana das pessoas do mundo real. Chego a afirmar que se no passado o sujeito era beneficiado ou preterido pela cor da sua pele, ou pela opção sexual, agora corre o risco de ser julgado (e executado, se for o caso) em função do candidato pelo qual torce no BBB-21. O fato é que, embora me recusando a assistir esse reality, se você ligar a televisão em qualquer horário e programa da TV Globo e suas afiliadas, não há como fugir da maldição de ver infinitas discussões, previsões, críticas positivas e negativas sobre o comportamento desse ou daquele candidato, celebridades falando a respeito e denunciando o seu candidato de preferência, entrevistas de participantes excluídos pelo paredão e familiares, contando a sua vida passada e seus planos futuros, dentro e fora da reclusão. E o que dizer da avalanche de pseudo “especialistas” que surgem a cada dia com PHD em Big Brothers, anunciando uma nova profissão no mundo digital, a do “Influencer big brothers”, ensinando pretensos futuros candidatos, quais as estratégias para ser escolhido a participar, vender sua imagem e como se conduzir em grupos ou isoladamente. durante o decorrer da competição para aumentar as chances de vitória. Hoje o país especula em torno de qual dos três candidatos finalistas levará o voto em peso do público para ganhar os cobiçados um milhão e meio e, quiçá, um papel de destaque ou secundário na próxima novela das 7. Até eu que não vejo jamais esse programa, mas sofro os efeitos reflexos da intromissão dele (até durante a transmissão do meu futebol o tal do Cleber Machado e o Casão são obrigados a nos convidar para saber quem vai pro paredão no dia seguinte, quem é o “anjo” da vez, qual o tema da festa da noite, etc. e tal), sei que essa chata da Juliete já levou o caneco. A competição acaba hoje? Mas não se iludam meus amigos. Os seus efeitos deletérios reflexos serão produzidos ainda durante muito tempo, graças ao IBOPE que obteve, para compensar a dificuldade e lentidão na produção de novos conteúdos, necessários ao abastecimento das várias plataformas digitais concorrentes, com observância do protocolo sanitário. Deus nos ajude e se (perdão pela heresia senhor), não estiver “fechado”com a Juliete. 


P.S. (1) A imagem da coluna de hoje é de Fiuk e Juliete, dois dos finalistas do Reality que termina hoje.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

ADONIRAM BARBOSA- CENTO E DOZE ANOS - A PARCERIA COM VINÍCIUS DE MORAES

 

Amigos,

Uma improvável parceria decorrente do acaso fez nascer um dos clássicos da música popular brasileira. Em maio de 1.957 o selo Continental lançava a gravação de um samba-canção chamado BOM DIA TRISTEZA. Letra de Vinícius de Moraes, música de Adoniran Barbosa, um compositor paulista da terra que um dia, por descuido e posterior arrependimento, o poetinha chamaria de “Túmulo do Samba”. Há duas versões para o nascimento do samba. A primeira é que Vinícius, embaixador do Brasil na França, escrevera esses versos numa folha de papel, que posteriormente enviou para sua amiga Aracy de Almeida,  dizendo que ela fizesse daqueles versos o que quisesse. Aracy então, companheira, a esse tempo, de Adoniran na TV Record de São Paulo, entregou os versos a este, propondo que ele musicasse. Adoniran, na década de 60, entrevistado por Elis Regina durante participação no Fino da Bossa, famoso programa comandado pela Pimentinha na época, confidenciou que achou os versos belíssimos, mas tristes e delicados, entendendo que merecia uma música adequada, um samba-canção, pensou, do tipo “dor de cotovelo”. E assim, sem que os compositores nem sequer se conhecessem surgiu o “BOM DIA TRISTEZA”: “Bom dia tristeza/que tarde tristeza/você veio hoje me ver/estava ficando até meio triste/de ficar tanto tempo longe de você/ Se chegue tristeza/Se sente comigo/Aqui na mesa de bar/Beba do meu copo/E me dê o seu ombro/Que é para eu chorar/Chorar de tristeza/Tristeza de Amar.” A canção foi cantada e gravada por muitos famosos, além do próprio Adoniran.  Maysa, Chico Buarque de Holanda, Elis Regina, Altemar Dutra, Roberto Ribeiro, Jair Rodrigues, a “divina” Elisete Cardoso, foram algumas das celebridades que registraram, para sempre, o som e os versos da triste e suave canção. E, sem dúvida, também Aracy de Almeida, a amiga destinatária dos queixumes do poetinha, escritos, como se supõe, num dos múltiplos rompimentos com parceiras que suscitaram inúmeras paixões. A segunda versão da história é igualzinha a primeira, apenas divergindo sobre o palco em que Vinícius teria escrito os versos (eles não teriam origem em qualquer canto de Paris, mas sim num bar que o poeta frequentava no Rio de Janeiro e isso depois de goles generosos de seu “cachorro engarrafado” e tendo um guardanapo como veículo de assentamento). Ouvi muitas das gravações da música, inclusive a de Aracy de Almeida. E essa gravação me chamou a atenção pois a cantora troca a ordem dos versos na segunda estrofe e com isso provoca um esquisito desajuste. Em vez de dizer “Beba do meu copo e me dê o seu ombro, que é para eu chorar”, diz, “Me dê o seu ombro, beba do meu copo, que é para eu chorar”. Pô? Chorar no ombro é legal, mas no copo...? Vale a pena conferir.

 

CONFIRA https://www.google.com/search?q=bOM+DIA+tRISTEZA+aRACY+DE+aLMEIDA&rlz=1C1SFXN_enBR502BR502&oq=bOM+DIA+tRISTEZA+aRACY+DE+ALMEIDA&aqs=chrome.0.69i59j69i61.5732j0j15&sourceid=chrome&ie=UTF-8

 

P.S. A propósito de Elis e Vinícius, quem primeiro chamou o compositor de “poetinha” foi Elis em momento de fúria reclamando dele quanto à proposta de participação dela no filme “Garota de Ipanema” onde deveria aparecer e cantar, em dupla com Chico Buarque, Noite dos Mascarados (o episódio foi substituído por uma gravação).  Vinícius, comentando a declaração da cantora, é que a chamou de “Pimentinha”. Curioso é que ambos posteriormente voltaram a se entender, mas os dois apelidos se juntaram a eles para sempre.