Amigo,
"Então,
eu pretendia te ligar bem lá pela meia noite para lhe desejar saúde no ano
novo. Posto que
não temos possibilidade de um encontro e um abraço pessoal, ao menos poderíamos
ouvir nossas vozes e não ficar só na leitura da mensagem de whatsapp. Mas, considerei provável que você, no barulho
que os seus filhos, genros, noras e netos estejam fazendo aí na bagunça da sua
casa, no horário da virada, com aquela
chatice de cantoria do “adeus ano velho....” você não escute. Não, não venha me
dizer de novo que sua audição está perfeita. Não está, como a minha também não
está. Se estivesse, segundo a tese da minha mulher, não estaríamos falando
alto, quase berrando. Já levei broncas verbais e chutes na canela por causa
disso. Tem outra hipótese a ponderar: o seu celular pode estar no silencioso, o
que, convenhamos, não é coisa difícil de acontecer. E lá virá você depois com a
ladainha de dizer que alguém mexeu no seu telefone e mudou o toque. Seria um de
seus genros ou noras, que não tem o seu sangue, nem a sua sensibilidade e te
persegue, num boicote velado, só para você não dar mais trabalho do que dá.
Pelo menos para não ficar sabendo de algum velório de amigo, porque a sua
família acha que você não tem mais condições de suportar perdas nesta altura do
campeonato, sem baixar no hospital, bem naquele inconveniente horário da
madrugada. Coraçãozinho fraco é o que
eles pensam que nós temos, né? Suspeito
que o melhor a lhe desejar é que esteja vivo e com saúde, na fluência do
ano novo. Acho até que é tudo o que podemos almejar nesta altura do campeonato.
Dinheiro, ganhar na loteria, nem pensar. Já ganhamos o suficiente para garantir
o padrão de vida nosso e de nossos filhos. E que eles complementem isso e se
virem porque não têm mais idade para receber intermináveis mesadas ou auxílios
financeiros. E, ainda, rezar para que nossas mulheres, filhos e netos não
venham programar longas viagens para o exterior, arrastando a gente para
empreitadas malucas, nos obrigando a viajar por 12 ou mais horas de avião, na
classe econômica,
de máscara, arrastando malas e mais malas pelos aeroportos da vida, cheias daquele
“tudo” que eles resolvem comprar, porque não tem no Brasil, ou porque aqui tem,
mas é mais caro. Nos meus áureos tempos de juventude, nem pensar em viajar para
o exterior. Na escola recebi autorização de meu pai, e algum pouco dinheiro,
para viajar de excursão do colégio para Limeira. Destino: Visitar a festa da
laranja. Uma emoção indescritível para aquele menino sonhador, que conseguiu
sentar do lado da janela de ônibus e ir apreciando, encantado, a paisagem da
velha Via Anhanguera, passando por Campinas, Nova Odessa, Sumaré, Americana.... Depois, a gente comprava o que precisava, o
que era indispensável, ou, pelo menos, útil. Agora basta não ter no Brasil que
a gente compra. E não se admite ponderação. Conflito de geração? Você está
ultrapassado, aquilo logo chega aqui, porque a tecnologia está dinâmica e aí a
precoce aquisição vai lhe dar o reconhecimento de que você é um sujeito de
vanguarda. Às favas com essas bobagens da juventude. Sabe, na última viagem
consegui superar algumas dificuldades motoras e fui arrojado. Ainda encontrei o
Alexandre Pires no Walmart. Preciso te contar, mas sei que só depois do dia 02.
Vamos marcar aquele café na conveniência do posto. Eu, você e os nossos amigos
de lá, dos quais estou saudoso, nem que seja para ouvir outra vez as mesmas
piadas e histórias, tomar aqueles 2 cafés pausados e saborear o melhor pão de
queijo do Brasil. Hoje eu entendi aquela
piada em que o feito, por maior que seja e por si só, não satisfaz o homem,
senão quando ele logra contar para “a turma da Bocha”, onde deverá receber a
sagrada coroa do reconhecimento. Amigo, o final do ano sempre me traz
lembranças e reflexões. Este ano comemoramos os oitenta anos dos geniais,
Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil. E perdemos uma de nossas
musas preferidas como a Gal que não teve a sorte de atingir essa marca e nos
deixou de repente com as lembranças de sua voz potente, mas doce, nas letras
poéticas de Fera Ferida, Baby, Vapor
Barato, Folhetim, Coração Vagabundo, Tarde de Domingo e outras memoráveis canções
da extraordinária e diversa música popular brasileira. Ah, e como considerar as perdas de dois
gigantes de outras áreas: o Jô Soares e o Pelé, nossa maior referência nacional
no exterior. Olhe, não sei se você tem o DVD. Eu tenho e posso lhe emprestar.
Se conseguir encontrar até lhe dou de presente. “Pelé Eterno” é o melhor
documentário que eu conheço da vida do “Rei”. Bom já está ficando tarde e eu
estou me estendendo com a minha mania de “viajar na maionese”. Faço isso ainda
hoje, em sala de aula, depois de 43 anos de docência. E ainda consulto os meus
alunos: “O que eu estava dizendo mesmo?”. Sabe penso seriamente em me aposentar
de vez da minha Faculdade de Direito da Puc. Não estou conseguindo, ou melhor,
gostando do sacrifício de acordar muito cedo e ministrar aulas com dias e
horários certos. Como você sabe sempre gostei de dormir tarde e de acordar
tarde. Lembrei daquela musiquinha do Chico
que diz “Eu faço samba e amor até mais
tarde. E tenho muito sono de manhã.” Só fiquei hoje com a segunda parte. E
convenhamos: o Chico também, pois essa história que ele vai casar ou se casou
com uma jornalista muito mais nova é coisa de noticiário de fofoca. Até pode
ser. Mas, funcionar ali como no tempinho da música nem com Viagra, aposto. Dor
de cotovelo? Inveja? Nem uma coisa, nem outra. Nunca quis ser ou fazer o que
outra pessoa é ou faz. Desse pecado não tenho que me penitenciar. Bem, estou
mandando esse recado para dizer na verdade que eu quero lhe agradecer pela
velha amizade e pelo fato de você continuar sendo meu amigo, apesar de mim. Li
isso em algum lugar e gostei. E, ainda, que considero que a nossa convivência, nossos
encontros e desencontros, nossas paixões e pieguices, nossas diferenças, nossas
formas de existir e nos relacionar, jamais foram capazes de solapar esse
sentimento que eu nutro por você. Que eu lhe desejo tudo, tudo o que for
precioso não a mim, nem a todos, mas a você, respeitando sempre o seu “eu”. Ser seu amigo, tentar cuidar de você como você
tenta fazer comigo, sempre foi um constante desafio. Esse seu jeito de seguir
nos seus objetivos de vida, nos seus valores e ideais, sem medo de
consequências, sem acomodação, me fazem admirá-lo ainda mais. E aí damos um
jeito com os processos que essa sua teimosia possa provocar. Se eu morrer antes
de você, você que se foda. Em resumo, meu
amigo velho e teimoso, meu recado a ser escrito no telefone era
simplesmente o seguinte: “Passando para
lhe desejar um ano que seja feliz na sua dimensão de agora. E cuidado com a tal
“virada”. Não é pra nós. Ou, ao menos vamos girar devagar para não desafiar a
labirintite. Te amo, cara! Felicidades.
Beijão extensivo a essa sua família linda e que eu amo.” Como ficou longo virou
uma postagem para o blog..