quarta-feira, 28 de novembro de 2012

BOCÓ DE MOLA

Boa noite amigos,
Bocó de Mola I
Na minha infância e mocidade, décadas de 50 e 60, ouvíamos muitas expressões no interiorzão  de São Paulo, cujo significado desconhecíamos por completo. Muitas delas vinham do pessoal do sítio que gastava fiado, por ano, no armazém do meu pai, lá em Pirambóia, pequena localidade ao pé da Serra de Botucatu.  Confesso que tempos depois, quando descobri por exemplo que o “calipá” a que se referiam os adultos era uma plantação de eucaliptos, portanto, um “eucaliptal”, quase tive um treco. Esta semana, não me lembro porque, me lembrei de outro verbete muito utilizado naquela época, mesmo em casa, por minha mãe, parentes, colegas e  até pelo pessoal da imprensa. Trata-se do “bocó de mola”. Bem, a gente tinha uma vaga noção do significado da palavra, por certo um insulto, sem chegar a ser palavrão. O bocó seria um tonto, um imbecil, um “stupid personal” como vi agora há pouco num site que cuida de traduzir palavras do nosso idioma para o inglês. Afinal, ser um “stupid personal” deve ser mais chique do que ser um “bocó de mola”, assim como “fazer cocô atrás do eucaliptal”  supõe-se mais elegantemente  higiênico do que “cagá atrás do calipá”, que era pra o que servia o próprio,  para a molecada.  Não achei a expressão por inteiro nos dicionários mais conhecidos. O “bocó” sim, no sentido do que a gente desconfiava. Do Dicionário Brasileiro de Insultos, porém, de autoria de Altair J. Aranha, lançado pela Editora Ateliê, existe o seguinte registro, verbis: “Bocó – o que tem um comportamento meio infantil, apatetado. “Bocó de Mola” – um bobo a quem se dá corda; “nasceu e cresceu bocó”; vai  morrer assim”. Pois bem, agora acabo de me lembrar a razão de me vir a mente o tal “bocó de mola”.  Ouvi pela rádio as justificativas que um determinado político estava dando a respeito de certa conduta supostamente criminosa a ele imputada. Coisa mais estapafúrdia, inverossímil, improvável. Daí me veio a mente, numa espetacular e instantânea retrospectiva da memória, a tal expressão. Estava  sozinho. Por isso nada disse. Mas pensei cá comigo:  Tá achando que eu sou um “bocó de mola”, é?

Bocó de Mola II

Quando alguém chamava alguém de “bocó de mola” o destinatário imediatamente se ofendia. Não raro, partia para a briga e saía a socos e pontapés contra o agressor... Batia e apanhava, ou apanhava, ou só batia, mas era questão de honra.

Na outra versão, aquela ali de cima, o “bocó de mola” era uma forma de indignação quando éramos atingidos no nosso “brio”, ou reagíamos em nome da nossa sociedade, contra a lesão praticada ao patrimônio público ou a direito fundamental nosso ou de terceiro; contra o absurdo, o inaceitável, o abominável.

Hoje não reagimos contra os nossos agressores e  aceitamos o abominável, o saque, a lesão, como se tudo isso fosse natural, ou não nos dissesse respeito.

Ganhamos o medo, perdemos a honra, o brio, a capacidade de indignação.
Somos bocós de mola, sim, em nome exclusivo de nosso egoístico sentido de auto-preservação e  de preservação de nosso mundo restrito.

Até amanhã amigos,

P.S. (1) A imagem da coluna de hoje foi emprestada ao blog musicasparacantarbrincando.blogspot.com.;

P.S. (2) A indignação e a coragem são virtudes irmãs. Delas assim falou Augusto dos Anjos: “A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem a mudá-las.”;

P.S. (3) Indignação também é o nome de uma poesia de Henrique do Carmo, triste e desalentadora que reza: “Indignação. Promessas não cumpridas.  Mortes sem motivo. Indiferença de extrema falta de piedade. Somos mais sujos que o solado dos sapatos dos ditadores. Nosso cheiro causa ânsia. Nossa fala causa indignação. Nosso comportamento, causa vergonha. Tenho nojo dos humanos. Tenho nojo de mim. Por ser um. O ser mais inteligente. É o ser mais ignorante. É preferível a pureza dos animais.À podridão dos seres humanos.”;

P.S. (4) “Deus é justo juiz. Deus que sente indignação todos os dias”, Biblía Sagrada, Salmo 7.11;

P.S. (5) “Observo hoje uma falta de indignação coletiva. Os valores morais que alicerçaram a sociedade mudaram ou fomos nós que mudamos ao nos tornarmos indiferentes?” – Esse o questionamento de Plinio Lopes Junior.

 


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