quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

CONTO - FALA QUE EU TE ESCUTO OU CHEGA DE PROSA?

Boa noite amigos,


Imagem emprestada de 

https://www.youtube.com/watch?v=s2CRX7IeLyI
Hoje vai uma crônica escrita ainda agora à noite, que relata um antigo episódio envolvendo as minhas crônicas confusões e o  querido amigo Dr. Romeu Santini. Vai lá:

"O Romeu Santini é uma figura marcante na história política e social da cidade de Campinas. Foi vereador do município durante sete mandatos diferentes, ao longo de sua carreira política. Na década de 60, disputando eleição para Prefeito, foi derrotado pelo carismático então jovem candidato, Orestes Quércia, que, depois, foi deputado, senador da República e governador do Estado de São Paulo. Nem por isso perdeu prestígio. Muito ao contrário, de temperamento alegre e cativante, Romeu só granjeou simpatia de seu vasto eleitorado e círculo de amizade. Desde os primeiros anos de minha advocacia se tornou cliente e dileto amigo por via de outro amigo comum, o Dr. Walter Hoffmann. A ele devo a iniciativa do projeto que me concedeu o título de cidadão campineiro, de que muito me orgulho.  Mas o que vou contar nos une em torno de um episódio pitoresco que rendeu e rende muitas risadas, por onde ele é contado e, muitas vezes, recontado.  Romeu tinha um programa diário numa televisão local, afiliada, se não me engano, da rede Bandeirantes. Nesse programa, o Romeu político, no exercício do mandato e, ao mesmo tempo, sempre candidato natural a sucessivas reeleições, ouvia o povo da periferia, dando voz a ele para  formular, no ar, sugestões, pleitos e reclamações quanto a questões locais negligenciadas pela Administração Pública. Era a falta do asfalto prometido, aumento da conta de água, do IPTU, árvores que ameaçavam cair ou provocar danos por falta de poda e assim por diante. O programa completava, naquela noite, um ano e a audiência, segundo se soube, não era desprezível. Não sei por que cargas d’água, decidiu-se por uma grande festa comemorativa desse aniversário, a ter lugar num dos elegantes salões do Hotel Resort Royal Palm Plaza. Era grande o número de convidados, numa lista que levava em conta a importância de autoridades e, ainda, de personalidades da sociedade local e, finalmente, de amigos do vereador-apresentador. Não sei se ainda era Juiz em Campinas, Comarca na qual me aposentei, ou se já estava aposentado. O evento, é claro, seria coberto pela imprensa escrita e também pelo mesmo canal no qual o programa era diariamente exibido. Cheguei usando traje esporte fino, como se recomendava no convite, acompanhado de minha sempre elegante esposa (e aqui aproveito para ganhar pontos com ela). Ainda na porta do salão, avistei, e fui avistado, por uma jornalista baixinha, simpática e que eu já conhecia por ela ter trabalhado na TV Puc, universidade na qual lecionava e leciono ainda hoje. Sorridente, ela me convidou para dar uma entrevista sobre o evento e o programa, a respeito do qual eu não tinha grandes dados. Sabia algo por cima.  Não me fiz de rogado. Microfone na mão, indagado acerca do que eu achava do Romeu e do programa, deitei simpáticos elogios. Dentre outras coisas, acabei afirmando que por ele abria-se um importante canal de comunicação entre o cidadão e o vereador, permitindo que este ouvisse daquele, no ar, a reivindicação desatendida ou negligenciada. E, assim, o vereador poderia levar diretamente ao Prefeito as demandas da comunidade, exigindo providências. Por isso mesmo – e aí eu disse textualmente – “o programa se chama FALA QUE EU TE ESCUTO, numa clara alusão à atenção e oportunidade que Romeu confere ao pessoal mais carente e que não tem meios de fazer chegar ao Prefeito suas reclamações e carências”.  Nesse momento, fez-se um silêncio geral em torno de mim. A entrevista estava sendo mandada ao ar ao vivo. E, como diz o Faustão, quem sabe faz ao vivo. E eu concluo, quem não sabe se estrumbica também ao vivo. O antigo programa FALA QUE EU TE ESCUTO, como todo mundo sabe, é franquia da IGREJA UNIVERSAL, tem conotação religiosa e é mandado ao ar pela TV Record, do Pastor Edyr Macedo. O Programa do Romeu, cujo aniversário estava sendo comemorado e que eu nunca assisti, se chamava CHEGA DE PROSA, um jargão que ele usava em seguida à reclamação do distinto ouvinte, batendo numa espécie de tribuna: - Então Prefeito, CHEGA DE PROSA! Vamos atender a Dna. Maria ou vamos esperar que a árvore caia sobre ela? Putz! E eu sei que ficou por isso. Não sei, mas acho que a entrevistadora, minha amiga, em seguida chamou os comerciais para ter tempo de se refazer. E o episódio virou, como eu disse, um motivo para muitas e muitas risadas.


Até amanhã amigos.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

NATAL LUZ EM GRAMADO PARTE DOIS - O FESTIVAL DE CINEMA

Boa noite amigos,

Interior da entrada do Palácio dos Festivais,

destacando o Kikito, o Deus do humor, esta-
tueta conferida aos vencedores.
Neste segundo dia do novo ano, o clima no litoral paulista está convidativo para praia ou piscina. O calor beira os 35 graus e nem penso em deixar o apartamento aqui na Riviera para encarar uma estrada com quilômetros e quilômetros de congestionamento no já tradicional transtorno da volta dos feriados de Natal e Ano novo. Não programamos mesmo retorno antes do dia 10 de janeiro, uma esticada providencial, mas necessária, especialmente para o Rafa, que este ano,  promovido do pré para o infantil, deve voltar às aulas no final de janeiro.   Voltamos  a falar de Gramado, na segunda postagem sobre o assunto. Um dos programas obrigatórios para os amantes da sétima arte, os cinéfilos, é visitar o Palácio dos Festivais, prédio majestoso em estilo colonial, que reúne o teatro onde acontece todo ano o maior e mais importante Festival de Cinema da América Latina, salas de projeção, e, ainda, o Museu do aludido festival. O Festival de Cinema de Gramado surgiu modestamente em 1.973, como mero festival nacional, e gradativamente foi ganhando corpo e importância. Em todos os anos recebeu inscrições e premiou as principais categorias do cinema nacional, posteriormente do cinema nacional e latino, separadamente, e finalmente, assumiu o perfil de festival internacional, admitindo inscrições e premiando filmes estrangeiros de qualquer nacionalidade.

Placa homenagem ao ator Lima Duarte,

destacando seu pronunciamento acerca
da importância do Museu do Festival.
Entre momentos de apogeu da produção do cinema nacional, como em 1.996, ano em que venceu o ótimo filme de José Jofeily, Quem Matou Pixote? e crises intensas, como em 1.992, durante o governo Color, quando, pela única vez, o festival apenas premiou um filme estrangeiro (Técnicas de Duelo – Uma Cuestiòn de Honor) do colombiano Sérgio Cabrera, por falta de produção e inscrição de filmes nacionais, o evento, a cada versão,  atrai  mais produtores, diretores, atores e agências interessadas na participação e especialmente  nos prêmios, simbolizados pelo Kikito[1], a estatueta que representa o troféu de conquista conferida aos vencedores. Em 2.006 o Festival foi declarado patrimônio histórico e cultural do Estado do Rio Grande do Sul. Em 2.016 deu-se a mudança do Museu do Festival para o prédio atual situado na rua Borges de Medeiros, 2.697, Centro. Ali, na entrada do prédio, que abriga todo o acervo e ainda, o teatro, uma escultura do Kikito, o deus do bom humor e ao lado, do ator Hugh Jackman, o popular Volverine da série americana.  Defronte ao prédio, copiando Los Angeles, criou-se a calçada da fama, onde se pode conferir os contornos das mãos de gente famosa que visitou e prestigiou o festival, como a cantora Sandy, seu pai Xororó e o ator e diretor Selton Mello, dentre outros. 
Exercendo o meu direito de visitante que pa-

gou ingresso, minha self levantando o kikito, 
simbolizando hipotética vitória.
No interior do prédio, placas espalhadas por todos os lados, marcam os momentos mais relevantes do festival. Homenagens a vários atores e diretores, nacionais e internacionais,  que lá estiveram e que fizeram da sétima arte um grande e apreciável projeto de vida, encantando o mundo com enredos, mitos e lendas incorporadas para sempre ao imaginário popular, coisa que só o cinema, com a sua magia, consegue eternizar na memória afetiva. Dentro do museu pode-se acompanhar o depoimento de atores e diretores que venceram ou concorreram nas diversas edições do festival, ressaltando a importância do prêmio para o currículo deles e dos respectivos filmes. E, ainda, se permite levantar o kikito em tamanho original, registrando o momento com uma self simbólica, criando a boa ilusão de ter sido um cineasta de sucesso, coisa que nunca fui.


Até a próxima postagem amigos,

As mãos do sertanejo Xororó, imortalizadas na calçada da
fama de Gramado.



P.S. (1) Poucos foram as indicações e os prêmios que o cinema nacional recebeu ao longo de sua existência. Não me parece, particularmente, por isso, que o nosso cinema seja desimportante. Críticos e especialistas em cinema ovacionam mitos que produziram filmes originais e relevantes, embora nunca tenham sido premiados nos festivais mais importantes do mundo, especialmente o Oscar. Como se sabe há fatores, muito além da qualidade dos filmes, que interferem nas indicações e nos prêmios conferidos pela Academia de Hollywood. Por isso, embora seja inegável que nós, cinéfilos de carteirinha, não ignoremos o Oscar, a cada ano, adquirimos a sabedoria de conferir a ele um valor relativo na avaliação geral das produções cinematográficas de todo o mundo;



P.S. (2) Queiram ou não a questão política americana, e suas várias facetas, jamais foram apartadas das indicações e premiações da Academia de Hollywood. Daí a sua relatividade a ser sempre considerada, sem dúvida.




[1] “O Kikito surgiu na imaginação da artista Elisabeth Rosenfeld em 1967, como representação do deus do bom humor. Desde a primeira edição do Festival de Cinema de Gramado, foi escolhido para ser o seu símbolo. Esta reprodução em cimento, criada a pedido  de Kurt e Elisabeth Berz, foi doada pelo casal à cidade de Gramado em agosto de 1.995” (literalmente inscrição em uma das muitas placas que adornam o museu do festival).

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

NATAL LUZ EM GRAMADO - PARTE UM

Boa tarde amigos,

Paisagem comum em Gramado nesta época do ano: a beleza

das hortênsias, enfeitando toda a serra gaúcha.Imagem do  

meu celular.
Gramado, um pequeno pedaço de céu no coração da serra gaúcha, foi o nosso destino no Natal de 2.017. Há muitos anos que não visitávamos o atraente município turístico. Talvez uns 20 ou 15. Desta vez fomos com toda a família, incluindo, é claro, o nosso xodó, o netinho Rafael, agora com 5 anos de idade. A escolha do Hotel Alpestre acabou sendo muito boa. Trata-se de um quatro estrelas, com um café da manhã completíssimo para americano algum botar defeito.  Talvez seja também o que mais oferece alternativas para as crianças. Além de confortáveis instalações nos apartamentos conta ainda com um bonito parque de diversões interno, unindo o verde da vegetação, as flores e as piscinas,  entre diversos espaços kids, destinados à garotada de todas as idades, um ponto de encontro colorido para diversão e confraternização dos “guris” entre eles e também com  papais, vovôs, monitores e o Alceu, um boneco típico da região, que aparecia em todos os lugares, sem prévio aviso, zoando os hóspedes de todas as idades. E é claro Papai Noel recebendo os baixinhos para recepcionar os muitos pedidos de presentes, que foram entregues pessoalmente, pelo Bom Velhinho,  no dia 24 de dezembro, à tarde, numa grande reunião no salão de festas. Nos seis dias de permanência em Gramado/Canela visitamos quase todos os pontos turísticos obrigatórios e achamos tudo muito bem organizado, incluindo a segurança, um item muito importante para nós brasileiros, cansados da violência crescente de nossas cidades e campos.

Rafael, meu neto, ao lado de dois pilotos, no 
Aeroporto Internacional de Viracopos, antes

da viagem a Gramado, realizando o seu so-

nho de primeira infância: ser piloto de avião.
HOTEL E LOCOMOÇÃO.

Gramado é um município de apenas 34.000 habitantes e que em 2.016 foi o sexto destino mais procurado pelos turistas brasileiros e estrangeiros, com cerca de dois milhões de visitantes. Tendo como principal atração as suas ruas e avenidas centrais, que ficam totalmente enfeitadas e iluminadas durante o período natalino, e onde se situam os principais restaurantes, lanchonetes e o comércio das múltiplas marcas de chocolate (outro atrativo antigo da localidade), a escolha do hotel é muito importante, pois ou você fica em algum daqueles situados no centro da cidade, ou então, terá que depender dos táxis tradicionais ou, por fim,  dos profissionais da uber. O município dispõe de pouco mais de 30 táxis e os motoristas da uber são muito requisitados, mas, como se sabe,  trabalham apenas em certos horários, segundo conveniência pessoal. Resultado: uma dificuldade de locomoção, um dos principais defeitos observados na boa estrutura existente. Alguns hotéis possuem vans que transportam hóspedes para o centro. Mas além de lugares limitados, é claro que essas vans têm horários fixos para ida e volta, o que complica a vida dos turistas que querem liberdade e estão habituados à rotina diversa de  café, almoço, jantar, etc. O remédio – e foi o que nós utilizamos – é a locação de um veículo.

Vista interna do Hotel Alpestre  mostrando
a área das piscinas, lazer e entretenimento.

Mas se a opção for essa saiba que você terá que fazer reserva com antecedência pela Internet. Durante a festa de Natal, por exemplo, já não havia qualquer veículo disponível  para locação. Assim mesmo, considerando a incipiente área da região central em função do número de veículos, encontrar um espaço para estacionar é tarefa complicada, agravada pela inexistência de estacionamentos particulares na disputa por cada metro quadrado. Esse o grande desafio, que não é, no entanto, insuperável. Como tudo é relativamente perto, é bom mesmo andar a pé, pois, além de fazer o seu exercício saudável, você pode observar cada loja, cada enfeite de rua e se maravilhar com todo o conjunto do cenário que pode ser resumido como  a maior árvore de natal que já vi, seja no Brasil, seja no exterior. Uma maravilha mesmo, especialmente quando todas as luzes se acendem no ocaso do dia, programa que já integra a agenda dos eventos turísticos da cidade.

AS ATRAÇÕES QUE DEVEM SER VISTAS.

 Mini Mundo.

Vista de uma avenida em miniatura no Par-
que Mini Mundo, uma das atrações de Gra
mado.
O Parque Novo Mundo pertence ao Hotel Ritta Hoppner, mas aberto à visitação geral. Por ele é possível fazer um passeio completo pelo nanomundo, um universo em miniaturas, inspiradas em monumentos, estações e lugares famosos pela arquitetura original e reprodução dos ambientes de histórias e lendas que viraram patrimônio da humanidade. Recentemente foi inaugurada uma nova área de recreação para as crianças, chamado Parque Temático das Personagens do Mini Mundo, com uma vista privilegiada de todo o parque por estar situada na parte mais alta do lugar. Um charmoso café na entrada garante os “espressos” de papais e mamãe e as guloseimas (doces e salgados) para crianças e adultos amantes da gastronomia alemã e italiana. O percurso todo pode ser percorrido com o auxílio de funcionários que prestam atenciosa colaboração com informações sobre lugares e significados. Personagens infantis também caminham pelo parque, entretendo as crianças com fantasias e fotos.



Por hoje é só, falo mais na próxima postagem.

Feliz Ano Novo, meus amigos.


P.S.   As dez localidades brasileiras mais visitadas no ano de 2.016, último recenseado, segundo o site mundodeviagens.com. foram os seguintes, em ordem: Rio de Janeiro, Florianópolis, Foz do Iguaçu, São Paulo, Salvador, Gramado, Natal, Porto Seguro, Caldas Novas e Fortaleza.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

UM POUCO DE CLARICE LISPECTOR - ÁGUA VIVA

Boa noite amigos,

Imagem da escritora emprestada de KD Frases.
Em Água Viva, um romance sem romance[1]publicado no ano de 1.973, Clarice Lispector, autora e personagem, em narrativa linear, na primeira pessoa (um “eu” feminino), revela a um “tu” (um namorado, um amor platônico, o seu alterego masculino?), muito de sua natureza e daquilo que marcaria para sempre a sua literatura. Uma literatura densa e complexa, metida em perene indagação acerca do autoconhecimento[2], dos males da condição humana, de buscas e ansiedades, anjos e demônios e conflitos existenciais jamais superados, no ser vivo que confessa para sempre a sua natureza paradoxal e fragmentária, mas que também se conecta com o não humano, o  “it” ou “a coisa”,  representado pelas dimensões do mundo, do tempo e do espaço. Assim como na literatura de Vinicius de Moraes, companheiro do movimento modernista da 3ª. geração, seu tema preferido foi a busca do eterno num mundo de natureza transitória e temporal[3]. Clarice, como seu personagem,  desde a primeira infância, foi atormentada pela ideia fixa da morte inevitável, da incompreensão quanto ao significado da vida e os mistérios de sua origem  e fim e a vinculação do ser e da própria existência a um presente fluido, sem memória[4]. Mas se tal preocupação é geral na raça humana, variando apenas a maneira com que os homens, em todos os tempos, lidaram com os segredos do universo, para Clarice, porém, nessa obra que pode ser considerada autobiográfica e em que ela coloca, de forma escancaradamente explícita, sem rebuços,  os seus conflitos mais variados, são temáticas que afetam o seu cotidiano, atingindo sua alma profunda e permanentemente atormentada, à cata de algum recurso que torne mais leve e suportável[5]  o que considera a  inevitabilidade da vida, combustível esse que conclui, mas não definitivamente, ser a alegria, a felicidade e a provável aleluia que viria sempre, sempre, depois da dor e das perdas[6].
Seu pensamento transita no limiar entre a lucidez e a loucura, a realidade e o sonho, o sonho e a fantasia, a ordem e a desordem e a obscuridade para si mesma.[7] A sua escrita é consequência da necessidade de desabafar escrevendo, como complemento de seus desenhos que nem sempre conseguem transmitir, com fidelidade, a sua mensagem angustiante. Suas orações são tiros, disparos, explosões, por efeito de uma catarse que vai se manifestando sem nenhum controle[8]. Todo o monólogo de Água Viva parece decorrer de  impulsos neurológicos, em que  as palavras não são escolhidas, mas vão aparecendo, sem ordem, sem lógica, sem censura,  sem qualquer metodologia, como se o  escritor fosse apenas anotando as mensagens transmitidas por uma entidade metafísica.
A narrativa, porém, pese embora transmitir a anarquia do pensamento, a desordem de que fala a própria autora para revelar e revelar-se, segue numa cadência em que sons, silêncios e sentimentos, se misturam magnificamente, mantendo o interesse e a curiosidade do leitor e o seu encantamento pela forma de transmissão, uma especialidade da escritora. Em Água Viva, escrita quatro anos antes de sua morte, Clarice, com mais de meio século de existência, nos brinda com um ensaio maduro, belo e profundo, quiçá indecifrável,[9] sobre a existência e a condição humanas, suas buscas e seus fins,  que nos remete para a mais refinada literatura ficcional psicológica, de que é exemplo o seu conterrâneo mais famoso, Franz Kafta, mais que escritor, o criador de um estilo.

Até mais amigos,



[1] Expressão usada por Lucia Helena, Professora de Literatura, autora da obra “Nem musa nem medusa: Itinerários da escrita de Clarice Lispector”, na apresentação constante da orelha de capa da edição de 1.998,  Rocco Editora, Rio de Janeiro. 
[2] “Mas há perguntas que me fiz em criança e que não foram respondidas, ficaram ecoando plangentes: o mundo se fez sozinho? Mas se fez onde? Em que lugar? E se foi através da energia de Deus – como começou? Será que é como agora quando estou sendo e ao mesmo tempo me fazendo? É por esta ausência de resposta que fico tão atrapalhada.”
[3] Quero possuir os átomos do tempo. E quero capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já.”
[4] Quando eu morrer então nunca terei nascido e vivido: a morte apaga os traços de espuma do mar na praia.Agora é um instante.”
[5] Eu que venho da dor de viver. E não a quero mais. Quero a vibração do alegre. Quero a isenção de Mozart. Mas quero também a inconseqüência. Liberdade? É o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e agüento-a como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo.”

[6] Em Clarice nenhuma ideia, nenhum pensamento, nenhuma conclusão pode ser considerada definitiva, dada a natureza de seu pensamento: confuso, complexo, ambíguo, como ela própria se julga;  “Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia”.
[7] Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma. Só tive inicialmente uma visão lunar e lúcida, e então prendi para mim o instante antes que ele morresse e que perpetuamente morre.”
[8] Eu é que estou escutando o assobio no escuro. Eu que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. Quem? Quem tem misericórdia de nós que sabemos sobre a vida e a morte quando um animal que eu profundamente invejo – é inconsciente de sua condição? Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? Uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver. Eu não tenho é coragem de dizer a verdade que nós sabemos. Há palavras proibidas. “
[9] Inútil querer me classificar: eu simplesmente escapulo não deixando, gênero não me pega mais. Estou num estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo. Parece com momentos que tive contigo, quando te amava, além dos quais não pude ir pois fui ao fundo dos momentos.”

sábado, 25 de novembro de 2017

LINGUAGEM JURÍDICA - CAUSAS & CAUSOS



Sátira do cartunista francês Honoré Daumier mostrando

o mais absoluto desinteresse dos membros da Corte -
Francesa pela sustentação oral do advogado. Qualquer
semelhança  com a situação verificada nos Tribunais
Brasileiros de hoje não é mera coincidência. Imagem
emprestada de CGN.
 
"A simplicidade é a medida exata entre o de menos e o demasiado” Joshua  Reynolds. 

Boa tarde amigos, 

Como hoje é sábado, dia de pegar leve, mando um conto que satiriza a linguagem rebuscada dos Tribunais, em confronto com a simplicidade do linguajar coloquial, do dia-a-dia da população brasileira, destinatária das decisões judiciais. O "causo" foi publicado no meu livro "Causas & Causos" n. 1, em 2.006, pela Editora Millenium, de Campinas (SP). Aí vai:

                                                                 " Não bastasse o movimento geral e cada vez mais intenso pela chamada “efetividade” da Justiça Brasileira, num país em que se reclama tanto de sua morosidade, agora cresce o apelo pela simplificação da linguagem jurídica.

A Associação Brasileira da Magistratura (AMB) saiu à frente e já pensa num projeto de lei que proíba, em todo território nacional, a utilização de termos técnicos complexos, principalmente quando vertidos no saudoso e bom latim, ou em outra língua estrangeira contemporânea.

Acredito que a proibição não vai incluir o inglês que é uma espécie de segunda língua-mãe, pelas implicações que o veto traria (dificuldades, sobretudo para substituir palavras novas que se usam e se grafam como no Reino Unido ou em Nova York).

Ao invés de “delete”, você terá que usar o “apague” ou “mate”, ou talvez “mande para o espaço”. E como será dar um download em português (aguarde, estou baixando o arquivo). Feio né?

É possível até que se estabeleça alguma penalidade para a transgressão, mas eu sugiro que, se houver mesmo sanção, ela possa, como no direito penal, variar de acordo com a natureza da infração, isto é, dever-se-á (mesóclise?) admitir as formas dolosa e culposa do delito.

 Ipso facto (???),  deverão ser inseridos num novo capítulo a ser aberto na parte especial do Código Penal,  sob o rótulo de algo assim como  “Dos crimes contra a Inteligibilidade”.

 Gente da minha idade e da minha área de atuação, viciada nessas expressões, por certo vai cometer involuntários deslizes, mormente (olha aí, alguém fala mormente hoje em dia?), em encontros de advogados, juízes, promotores e outros tantos profissionais hoje chamados de operadores do direito.

Convenhamos! O movimento tem fundamento. É muito mais lógico e compreensível dizer “com  respeito ao seu ponto de vista”, ou  “em princípio” aceito a sua argumentação, do que “data venia” de Vossa Excelência, ou “a priori”, não se pode concluir tal coisa.

Mas como toda boa tradução, é preciso redobrado cuidado para que as palavras ou  texto não sejam maculados (seria melhor eivados?). Será indispensável, creio, que o sentido técnico seja preservado.

Afinal, “fundo de comércio” não pode ser confundido  com  “quintal de armazém”, “vara de menor” com “pinto de criança” e nem fica bem tomar  “retificação de assento”  por  “plástica de bunda”.

Não sei se todo esse movimento vai mesmo dar certo e se a gente comum, o povão da comunidade, a galera, como se diz no vasto vocabulário da juventude, será capaz de entender que, apesar da simplificação da linguagem, isso não vai, por si só, resolver a questão da lentidão da justiça e suas causas crônicas.

Estou convencido, no entanto, que muitas surpresas e perplexidades devam desaparecer.
Há menos de duas semanas deu-se um caso curioso e engraçado. E comigo mesmo. Era tarde de segunda-feira e eu, religiosamente, cumprindo compromisso moral assumido com um dos Juízes Cíveis da Comarca de Campinas, servia como conciliador nas audiências designadas para aquela data.

O primeiro processo era simples. Tratava-se de uma ação de cobrança de taxas de condomínio em atraso.

O advogado do condomínio, zeloso, ciente de que, embora o apartamento tivesse sido vendido, há muitos anos, pelo casal que o adquirira primitivamente, não  se outorgara escritura definitiva, intentou a ação contra os dois casais, os promitentes vendedores, tecnicamente ainda condôminos,  e os promissários compradores.

É que havia entendimento jurisprudencial que, nesse caso, de contrato de compromisso não convertido em escritura pública, o condômino continuava a ser o titular do domínio, como consta do Registro de Imóveis.

O casal vendedor foi citado às vésperas da audiência e compareceu desacompanhado de advogado.

Era um fisioterapeuta e uma dentista, os quais não conseguiam entender a razão de terem sido convocados. Ora, o tal apartamento já não era deles  há uma década.

Fiz um gesto no sentido de dar a almejada explicação.

Mas o referido advogado, muito solícito, pediu licença para me interromper e, dirigindo-se a eles, disse em bom tom:

- Olhe meu senhor, eu fui obrigado a colocar o senhor e a sua mulher no pólo passivo da relação processual...

O homem levantou as sobrancelhas.

E por um instante tentei adivinhar o que se passava na sua mente.


 Deve ter pensado – Será que isso dói?

Ou então:

-  Eu vou pedir a gentileza de tirarem a minha mulher desse negócio.

Mas antes que da surpresa se passasse ao pânico, intervim:

- Com licença, doutor. Não assuste o homem.

E agora voltando para o casal de vendedores:

- O doutor quer dizer que foi obrigado a mover a ação também contra vocês dois, porque não houve escritura passada e nem registro no registro de Imóveis. Mas fique tranqüilo. Os ocupantes do apartamento, os adquirentes, já se propuseram a pagar as taxas em atraso, mediante acordo.

- É só isso? Indagou o fisioterapeuta evidenciando alívio.

-   É.

 Riso geral e descontração no até então sisudo ambiente da sala de audiências.

Mas eu acho que esse homem e essa mulher vão pedir para subscrever um eventual abaixo-assinado que aparecer por aí, pedindo o tal projeto de lei, que proíba, sob sanção severa, o uso de termos jurídicos estranhos."


Até mais amigos,


P.S. (1) Honoré Victorien Daimier (1.808/l.879) foi um caricaturista, chargista, pintor e ilustrador francês, considerado o "Michelângelo da Caricatura". A linguagem de sua charge e caricatura foi caracterizada pela crítica social e política de sua época e lugar. Por elas denunciava os grandes detentores do Poder  (reis, Juízes, Clero) e o despotismo contra o povo em geral, o que lhe rendeu condenações e prisões.













domingo, 19 de novembro de 2017

GUARANI LIVRE DE REBAIXAMENTO E A POSSÍVEL DESPEDIDA DE FUMAGALLI

“O dramático empate sem gols nesta sexta-feira, no Brinco de Ouro, ratificou a permanência na série B do Campeonato Brasileiro e, ao mesmo tempo, rebaixou o Luverdense com uma rodada de antecedência. É pouco para a história dessa camisa, mas serve de presente aos 6.648 torcedores que foram ao estádio” (globoesporte.com.)


Boa noite amigos,

O meia Fumagalli, ídolo do Guarani, que provavelmente
encerrou sua carreira como jogador de futebol no jogo
contra o Luverdense. Imagem emprestada de meninosdavila.

É, sem dúvida pouco mesmo para a história dessa camisa que na segunda metade do século passado fez impressionante história no futebol nacional, com um título de campeão brasileiro (1978),  dois vice-campeonatos (1.986 e 1.987) e, ainda, de campeão da chamada Taça de Prata, correspondente à 2ª. divisão do brasileiro. Guarani e Ponte, na década de 70, converteram a cidade de Campinas na capital do futebol nacional e o refinado e competitivo futebol que praticavam foram  considerados pelo Le Monde da França, como a mais fina flor do futebol brasileiro naquela época.  Mas a realidade desse século é bem outra.  Ao contrário de sua principal rival, o clube, assolado por sucessivas crises políticas e financeiras, deixou o futebol, razão maior de sua existência, à deriva, e as equipes montadas e desmontadas, foram escrevendo episódios de participações pífias, com sucessivos fracassos e rebaixamentos, a ponto de hoje nem sequer figurar entre os times que disputam primeira divisão nacional e paulista. Assim, foi com muito esforço de uma equipe formada praticamente na temporada, e com um orçamento infinitamente menor do que o do Internacional de Porto Alegre, ou do Goiás, que também jogam a mesma competição neste ano, que se manteve, na penúltima rodada, livre do ameaçado rebaixamento para a série C. Ontem, fui ao Estádio ressabiado, como sempre. E como era de se esperar, foram rigorosos 99 minutos de apreensão, até o apito final do árbitro, que selava, definitivamente, a sorte da partida e dos concorrentes: a da bravo  Luverdense, que jamais se entregou, teve domínio territorial e ameaçou seriamente a meta do goleiro Leandro Santos em pelo menos três oportunidades reais de gols, mas que amargou um rebaixamento esperado, desde a derrota, em casa,  na rodada anterior, para a equipe do Boa;  a do Bugre que, finalmente, depois de tantos empates indesejados em seus domínios, perseguiu senão a vitória, que não veio, ao menos  a agora suficiente igualdade que o livra da degola. O Bugre jogou pelo empate? Não, absolutamente. Richarlison meteu uma bola na trave, num lindo lance que merecia morrer nas redes e Paulinho perdeu um gol incrível aos 46 do segundo tempo, quando teve, em suas mãos, livre e escancarada, a chance de inaugurar o marcador. Como franco atirador e precisando desesperadamente da vitória, o protagonista foi o adversário matogrossense que jogou um bom e eficiente futebol na defesa e no meio campo, pecando, porém, nas conclusões, enquanto o Bugre contou também com uma boa postura de sua defesa para segurar o marcador, sem,  contudo, conseguir, como pretendia, executar com perfeição os contra-ataques a que se propunha e o rival oferecia,  inúmeros no decorrer da partida. Um 0 a 0, pois, como se disse, precioso pelo seu significado e que foi comemorado pela torcida, pelos jogadores e pela comissão técnica como se fosse um título.

FUMAGALLI

A disputa estava acirrada como nunca. O placar teimava em não sair do zero. Um zero a zero que seria suficiente para evitar a degola do Bugre, desde que o adversário não balançasse as redes, condição que ninguém se atrevia a garantir naquela altura do espetáculo.  Eram 09 minutos do segundo tempo quando o representante da Federação ergue as placas indicativas de substituição no Guarani. Sai  Fumagalli, entra o jovem Luiz Fernando. Nesse momento, se encerrava, ao menos supostamente, a carreira de um grande e querido jogador de futebol. De um dos mais importantes atletas que passaram pelo Guarani Futebol Clube,  desde sua fundação. José Fernando Fumagalli, aos 40 anos, dera muitas entrevistas anteriores, salientando que ao final desta temporada, encerraria sua carreira como jogador de futebol. O estádio todo ficou em pé, aguardando a saída do atleta para homenageá-lo. E ao se dirigir para a lateral do campo, acompanhado pelo árbitro, que queria pressa na substituição, Fuma foi aplaudido de pé pelos quase 7.000 torcedores presentes, que entoaram o famoso grito de guerra conhecido dos bugrinos e temido pelos adversários: Fumagalli  eh, eh; O Fuma Gol.  Lágrimas rolaram dos olhos do atleta, emocionado, acenando para a multidão que o reverenciava, com muita justiça. Mas ainda não era tempo de comemorações. Nem de falar da história gloriosa dessa carreira.  O jogo corria solto e o atleta esperou o apito final, que selaria a sorte de seu amado clube na competição para daí, aliviado, atender a uma multidão de repórteres que se acotovelavam à cata de seu depoimento. Atendendo a todos com a elegância e a humildade que o caracterizam como homem e profissional, então, aos prantos, destacou a união, a expectativa e o sofrimento dos últimos tempos e especialmente da última semana em que, sem ser escalado teve que seguir com a equipe para Londrina, pelo seu fundamental papel de líder junto ao elenco. E a despeito da derrota no Estádio do Café, foi chamado também à concentração com  os colegas para o confronto do final de semana contra o Luverdense, decisivo para as pretensões do Bugre de permanecer na série B do Brasileiro. Falou de seus temores, da responsabilidade que pesava sobre seus ombros, do filho pequeno que se negava a dormir sem a presença do pai, da importância da família que lhe deu o apoio necessário para que pudesse se dedicar nesses momentos, integralmente ao clube e aos colegas, no objetivo traçado e perseguido. Não há ainda certeza de que o atleta efetivamente encerrou sua carreira como jogador, na sexta-feira. Pode ser que decida ainda jogar o campeonato paulista da série B, ou alguns jogos, ao menos, com a intenção de ver seu clube retornar à primeira divisão do Paulista no ano que vem, se o clube renovar o seu contrato. Não há nenhuma censura nessa incerteza que invade os homens de bem e que são importantes naquilo que fazem nesta vida. Pelé se despediu inúmeras vezes da carreira.  Hebe Camargo também. E mais recentemente, o piloto Felipe Massa.  A importância de Fumagalli para a história do Guarani não se restringe ao campo de jogo, embora neste, os números sejam impressionantes: 89 gols que o converteram no quarto maior artilheiro do Bugre, à frente de Neto,  Jorge Mendonça, Zenon, China, Evair e Renato Pé Murcho, superado apenas por Careca com 118, Nenê com mais de 120 e Zuza, recordista com 149 gols. Dos 89 gols assinalados foram 35 de penalidades máximas, 10 de  faltas,  que cobrava com perfeição, especialmente do lado esquerdo e 2 gols olímpicos. Gols ou assistências, que levaram o Bugre, em 2.012, ao vice-campeonato paulista daquele ano, derrotando, nas quartas e na semi-final, respectivamente, o Palmeiras e a Ponte Preta, dois potentes e qualificados adversários. Três gols e uma assistência na impressionante goleada de 6 a 0 sobre o ABC no vice-campeonato brasileiro da série C de 2.016.  Não, não! Além disso, Fumagalli foi importante fora do campo. Sua serenidade, seu respeito pelo corpo, seu comprometimento com a carreira, com o clube e a torcida eram evidentes, mesmo nos momentos de crise administrativa e financeira, que quase sempre interferiam negativamente no campo de jogo. Fuma vivia e respirava o Brinco. Algumas vezes pude observá-lo de longe, sem que ele soubesse da minha existência, por nunca termos sido apresentados, durante a semana, no Shopping Center ou  em restaurantes de Campinas, acompanhando atletas muito jovens que tinham sido contratados ou emprestados ao Guarani, aos quais recebia carinhosamente como bom anfitrião, para ambientá-los na cidade e no clube. Alguma dúvida sobre a sua enorme relevância dentro e fora do campo? O torcedor não tem nenhuma e espera, senão contar com o seu futebol por mais uma temporada, que ele assuma logo função que faça jus à sua história, ao seu talento, ao seu amor pelo clube e ao seu caráter como homem e profissional. Que Deus dê ao Fuma e à sua família, saúde e harmonia que eles merecem. A nós torcedores só resta dizer: Obrigado Fuma. Você faz parte da história deste clube e desta camisa. E sabemos que, na sua modéstia, por essa história que você escreveu no Guarani e o respeito que conquistou, você tem o maior orgulho. Nós também temos. Forte abraço.





quarta-feira, 15 de novembro de 2017

AMISTOSO BRASIL E INGLATERRA E A ELIMINAÇÃO DA ITÁLIA



Um Mundial sem Itália, mas sobretudo, uma Itália sem Mundial. Adeus às noites mais ou menos mágicas, aos torcedores com um pedaço de pizza ou uma cerveja gelada, à ilusão de ter peso em algo, pelo menos em futebol”  (jornalista Massimo Gramellini, em sua coluna no jornal Corriere della Sera, comentando a eliminação da Itália da Copa do Mundo de 2.018 na Rússia).


Amigos,

O goleiro Bufffon, campeão mundial com a Itália em -
2.006, chora a eliminação da sua Seleção e se despe
de. Imagem emprestada de mil notícias.
O público que lotou o estádio de Wembley, em Londres,  e  pagou caro pelo ingresso merecia assistir ontem a um espetáculo de mais qualidade técnica, no último amistoso da seleção brasileira do badalado técnico Tite contra a dona da casa, a Seleção Inglesa. O empate sem gols frustrou, sem dúvida, o público e a crítica, levando-se em conta que a equipe da casa  jogou sem sete jogadores considerados titulares, dentre os quais, Harry Kane e Delle Ali,  e a circunstância de que a  seleção de Neymar e Phillipe Coutinho, vinha  jogando um futebol vistoso e competente nas Eliminatórias Sul-Americanas  e voltou a ser considerada uma das favoritas ao título ano que vem na Rússia. De qualquer maneira, o teste foi válido, ao menos para que a comissão técnica pudesse fazer avaliações, antes de fechar a convocação final no começo do ano que vem. E  também por se tratar de amistoso a menos de 8 meses da Copa,  no coração da Europa, continente em que jogam a quase totalidade dos atletas brasileiros, o que supostamente justifica a excessiva individualidade de alguns, ávidos por mostrar qualidade para o técnico e confirmar a aposta na convocação definitiva e, ainda,  na condição de titular na Copa do Mundo de 2.018.

Roberto Baggio preparando-se para a cobrança do quinto e

último penalti na final da Copa de 1.994. A imagem foi em-
prestada de globoesporte.com.
O que me pareceu mais importante, sem dúvida, foi a dificuldade que a seleção canarinho encontrou para sair da marcação sempre eficiente,  à la moda européia, a sinalizar que será preciso criar alternativas  que possam surpreender o adversário, o que não se viu ontem quando a seleção brasileira, em 90 minutos, meteu uma bola na trave em chute de fora da área  de Fernandinho e outro de William no corpo do goleiro Hart, num dos únicos lances  em que os defensores não conseguiram interceptar os lançamentos.  É muito, muito pouco, claro, para as pretensões de vencer  seleções como a alemã, a própria Inglaterra, a Espanha, a França e até mesmo Portugal, de Cristiano Ronaldo. É isso. Encerradas as eliminatórias europeias ontem, a grande surpresa ficou por conta da desclassificação da tradicionalíssima Seleção Italiana, tetracampeã mundial e que há quase 60 anos vai a todas as Copas do Mundo, jogando futebol nem sempre vistoso, mas inegavelmente competente e um dos nossos adversários mais duros e inesquecíveis, sobre o qual fizemos duas finais e ganhamos dois títulos mundiais, o tetracampeonato no México, em 1.970, quando a seleção de Pelé, Jairzinho, Gerson e Rivelino venceu pelo largo placar de 4 a 1, e em 1.994, com a equipe de Bebeto e Romário,  no tetra ganho no sufoco,  nos pênaltis, o último dos quais isolado por Roberto Baggio,  naquela cena que a televisão brasileira, para desgraça do atleta, repete com constância, para não cair no esquecimento. A Copa do Mundo de 2.018, certamente estará menos brilhante sem a Itália, sem a Holanda, e até mesmo sem os Estados Unidos que, sem o brilho e a tradição das duas europeias, tem estado nas últimas copas desde a que sediou e se  esforçado para entrar, um dia talvez, no rol dos seletos campeões mundiais de futebol.

Até breve amigos,

P.S. (1) Roberto Baggio afirma que aquele pênalti isolado na Copa do Mundo de 2.014, nos Estados Unidos, e que deu números finais e o título à Seleção Brasileira ainda o assombra pelas noites da vida. Se é verdade que é ele apontado como o responsável pela perda da Copa, não foi o único. Barezzi e Massaro também erraram suas cobranças, mas nunca são apontados como responsáveis ou co-responsáveis pela derrota. O Brasil venceu nos pênaltis por 3 a 2. A ordem das cobranças foi a seguinte: Barezzi abriu a série e perdeu. Marcos Santos também errou pelo Brasil. Depois Albertini fez 1 a 0 e Romário empatou em 1 a 1. Evani fez para Itália e e, em seguida, o lateral Branco novamente empatou em 2 a 2. Aí vem o pênalti defendido por Taffarel: o de Massaro. Em seguida, Dunga converteu (3 a 2 para o Brasil). Aí na quinta cobrança de cada lado é que Baggio isolou e deu números finais ao placar. Se Baggio tivesse feito e o Brasil convertesse a quinta cobrança também seria campeão, por 4 a 3 na cobrança de pênaltis.



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