sexta-feira, 8 de junho de 2012

ANDRÉ RIEU NO BRASIL - DO PSEUDO ERUDITO AO "AI, AI SE EU TE PEGO"


Boa noite amigos,
No último domingo, fui  à apresentação do maestro André Rieu e sua orquestra, no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo. Salgados R$320,00 para ocupar a penúltima fileira de cadeiras colocadas sobre o piso principal do ginásio, em posição frontal com o palco improvisado para o espetáculo. Logo na entrada, o que chama a atenção é o número de pessoas participando da organização. Tudo bem planejado.  Há seguranças e orientadores por toda a parte externa do Ginásio. Depois, a cuidadosa conferência dos ingressos (você passa no mínimo por três  conferentes, até que a parte picotada é retirada e você  finalmente é  encaminhado para a sua cadeira). Ao lado do palco há dois telões que exibem o maestro  e uma parte da orquestra e, eventualmente,  focaliza senhores ou senhoras cantando, aplaudindo efusivamente ou distraídos, fazendo alguma coisa que leva o público ao riso. Aliás, provocar riso e alegria parece ser o alvo principal do espetáculo de 2 horas, dividido em dois atos de 1 hora, separados por um intervalo de 15  minutos. Apesar de vários banheiros, o tempo não é suficiente para atender a todos, especialmente as mulheres que têm que enfrentar longas filas que se formam necessariamente ali, nos três ou quatro amplos  banheiros a ela destinados. A ocupação do ginásio é praticamente total, ressalvadas as pontas das duas cabeceiras do lado do palco, com espaços inutilizados porque ali não seria possível ao espectador enxergar nem o palco, nem os dois telões. Assim mesmo são quase 6.000 lugares nas arquibancadas e mais 2.000 aproximadamente sobre o piso principal, onde ficamos. As cadeiras   certamente para que coubesse o maior número possível delas, eram minúsculas. Na maioria, conforme o tamanho do espectador, o assento só acomodava “meia bunda”, razão pela qual, seguramente, as pessoas que não estavam nas pontas, como eu, precisavam se encaixar nesses espaços. Fiquei com saudade dos bancos da classe econômica de algumas Companhias aéreas. Em compensação, enquanto você espera, pode adquirir uma gama de mercadorias (águas e refrigerantes de todos os tipos, cerveja, pipoca, crepes de queijo).  Tudo por R$8,00  (parece que os vendedores combinaram o preço – um verdadeiro cartel). Mas dado o primeiro sinal os vendedores são retirados do espaço e o ambiente é preparado para o início do espetáculo. De repente,  surge, pelo portão dos fundos, o maestro André, provocando surpreendentes gritinhos e “frisson” e são muitos os espectadores que deixam seus lugares e se acotovelam próximos ao local (foi justo encima da gente, acreditem) com suas máquinas fotográficas espetaculares ou celulares para sacar as fotos da personalidade máxima do espetáculo, de todos os ângulos e perspectivas possíveis e imagináveis. Recebí cotovelada, empurrões, e suportes de máquinas na cabeça. Tudo bem. Não há mal que sempre dure. Depois de receber  ovações, ouvir juras de amor e se deixar fotografar com aquele sorriso perene, o nosso herói segue pelo meio do público até o palco e começa o espetáculo. Rieu tenta falar em português, mistura um pouco com o espanhol, mas imediatamente ganha a simpatia da platéia. Lá ao fundo, há uma faixa simpática de recepção “André. Nós te (coraçãozinho, que é para ler “amamos”). E um Welcome, final. No meio da multidão também aparece uma bandeira do Brasil, uma do Corinthians e outra do Palmeiras, que é para não ficar atrás. Suponho que o tal corintiano e o outro, palmeirense, estivessem aproveitando para comemorar a desclassificação dos dois times nas quartas-de-finais do campeonato paulista. Brincadeira.  Mas convenhamos torcedores dos dois clubes de maior torcida de São Paulo, pega bem para receber o maestro  mais popular da história recente da música pop universal. Uma questão de adequação e simetria. O Maestro elogia o Brasil,  o público de São Paulo, a quem ele reiteradamente chama do maior e mais simpático para o qual já se apresentou, para delírio de parte da multidão inebriada com os repetitivos elogios que faz parte certamente do roteiro do espetáculo (ele deve falar a mesma coisa na Argentina, no México, nos Estados Unidos, na França, no Japão). Coisa estranha essa de nós brasileiros sentirmos uma profunda simpatia por artistas que nos elogiam e às nossas coisas, sem reserva, experimentando um momento de acréscimo de "auto-estima" e uma ausência de auto-crítica. O espetáculo vai se desenvolvendo com  um roteiro óbvio: músicas clássicas mais conhecidas, de compositores igualmente conhecidos, mescladas com grandes trilhas sonoras de filmes também majestosos. Aproveitando-se da suposta distração do maestro, músicos deixam por instantes seus instrumentos, para tomar bebida alcoólica, provocando mais risos na platéia. Esses profissionais são mesmo polivalentes. Ao mesmo tempo que dão conta de suas baterias, pratos, saxofones, violinos, violoncelos etc. fazem humor e malabarismo (há um músico que se exibe equilibrando o seu sax no queixo). O objetivo é mesmo de entretenimento. O roteiro traz novidades. Surgem os três tenores da orquesta de Rieu: o australiano, Gary Bennett, o húngaro, Bela Mavrak e o alemão Thomas Grevel se revezam na interpretação de árias  de óperas conhecidas de Verdi, Vivaldi e  Puccini. “Nessum Dorma”, “Ballade pour Adelina”, “O Mio Babbino” de Gianni Shicche de Puccini, Madame Batterfly, etc.   O espetáculo também abre espaço para as sopranos brasileiras,  a paraense Carmem Monarcha, a gaúcha Carla Maffioletti e a sul-africana, Kimi Skota, a mais nova aquisição da Orquestra, responsável pela  bela interpretação de Ave Maria de Gounod (vídeo abaixo),  um dos raros  momentos do espetáculo que me comoveu. As sopranos, munidas de um violão, oferecem um número especial para nós brasileiros. A execução de “Manhã de Carnaval” (viajei para os anos 60, sentindo no ouvido a interpretação magistral dessa canção, pelo saudoso Agostinho dos Santos, uma das vozes mais lindas de que minha memória ainda dá notícia). Não há praticamente música desconhecida do grande público. As populares de trilhas sonoras vão se sucedendo: Lara’s Theme (Tema de Lara), The Godfather Stranger in Paradise, a popular trilha do grande filme O Poderoso Chefão, My Heart Will Go On”, tema de Titanic, que a Celine Dion enjoou de cantar. Já quase no final, a indefectível mais famosa valsa de todos os tempos: Danúbio Azul, tocada pela orquestra, trazendo ao fundo uma imagem do conhecido Rio que banha Viena. Nesse momento, não descobri se é combinado ou espontâneo, um casal se levanta na platéia e começa a dançar ali no corredor entre as fileiras de cadeiras. Logo, outros casais velhos e jovens se encorajam e também seguem o exemplo. Rieu se diverte. Às vezes pára de tocar para ver a reação dos casais e da platéia. Logo retoma. E se diverte. Não são poucas as vezes em que ele participa interagindo, tentando falar com determinado espectador ou saltitando (isso mesmo), no palco. Há momento do espetáculo em que  o cenário atrás do palco mostra neve caindo e, em certo ponto da platéia, blocos de neves artificiais (pedacinhos de plástico branco) descem do teto. E caem em grande volume inundando o chão e principalmente as cabeleiras das moças e senhoras e as carecas de alguns senhores. Não satisfeitos os confetes de plástico penetram nos ousados decotes.  Mas aí tudo  já virou festa. Uma grande festa intencional. Para que tudo seja grande, eterno, bonito e majestoso. O Maestro anuncia o término do espetáculo.  Mas é de mentirinha. Todos sabem que é só charme. Rieu então, a pedido da platéia, vai tocando mais uma, outra e outra. Aí seguem os clássicos nacionais: Tico-Tico no Fubá, Aquarela do Brasil e para encerrar lasca-se um “Ai Ai se eu Te Pego”, o baião do Teló que virou mania internacional por culpa de muitos, mas especialmente do Cristiano Ronaldo. Não há surpresa na platéia. Ao contrário. Enquanto o coral da orquestra, feito de moças naquela altura vestidas de verde amarelo, com chocalhos nas mãos, orientam os espectadores mais desafinados,  o público inteiro canta (e gesticula) com o tal do Ai se eu Te Pego. Respeitáveis senhores e senhoras, de cabelos brancos, algumas ainda com aquele laquê dos anos dourados, não se pecham em fazer aquele gesto que sugere um suposto ato sexual com penetração. Valeu a pena? Não sei.   Não sou grande entendedor de música. Aprecio-a como uma das formas de artes mais significativas e indispensáveis na  vida dos seres humanos. A arte para mim é o que me toca. É, como dizia alguém que eu não me lembro, a propósito dos estilos pictóricos: a arte é para ser sentida, não para ser entendida. Se é isso, para mim não valeu muito  a pena. Foram raros os momentos que me cativaram efetivamente. Na maior parte fiquei indiferente. No palco do Ibirapuera falta aquele clima do DVD, praças e rios, palácios,  príncipes, princesas, cheiro de nobreza.  Neve de verdade. Coisas que misturadas ao espetáculo proporcionado por Rie, seu cantores, seu coral e sua orquestra, alimentam o imaginário especialmente dos que têm  mais de 50 anos, o maior público, acredito,  do fenômeno André Rieu.
Até amanhã amigos.

P.S. (1) André Rieu é um fenômeno de vendas. Já vendeu mais de 30.000.000 (trinta milhões) entre CDS e DVDs. E se apresentou em mais de 30 países;

P.S. (2) O seu sucesso levanta muitos questionamentos dentre os eruditos. Os puristas o acusam de distorcer a imagem da música clássica.   Músicos jovens, ainda que influenciados pela música pop, afirmam que o caminho  de Rieu não deve ser seguido como exemplo por outros, pois, embora considerado como música clássica tradicional, não o é;

P.S. (3)   O compositor e crítico musical Leonardo Martinelli escreveu em um artigo para a revista Concerto, em que afirma em um trecho: “Ele vende uma imagem falsificada da música clássica. A música clássica não é apenas aquilo. Ele distrai o seu ouvido com toda aquela parafernália visual. Tanto que isso é estatístico: ele vende mais DVDs do que CDs., afirma, e propõe um desafio: “Vamos ouvir a música de Rieu de olhos fechados, tirar as luzes, o glitter e os efeitos e ver se a ideia se sustenta”.

 P.S. (4)  A mistura do erudito com o popular  conhecido como Crossover  já acontece há muito tempo. Os três tenores faziam isso. E já teve adeptos dos dois lados, tanto do clássico, quanto do pop (Sting e Roger Waters estão entre eles). No Brasil, cresce o número de orquestras que incluem a música popular em seu repertório. A Orquestra Ouro Preto vem ganhando espaço justamente por apostar na interpretação orquestradas de obras dos Beatles e até do cantor Alceu Valença. Para o jovem maestro Rodrigo Toffolo, de 34 anos, essa mistura é excelente para formar novos públicos, especialmente entre os mais jovens. “Quando apresentamos o concerto dos Beatles pela primeira vez, em 2009, nós tínhamos 300 pessoas na nossa página no Facebook e quatro meses depois, tínhamos 5.500”, contou Toffolo ao site de VEJA.

P.S. (5) Um dos mais importantes regentes brasileiros da atualidade, o maestro Roberto Tibiriçá relativiza a polêmica. “Não sou fã do Rieu, mas acho válido esse tipo de espetáculo. Se é popularização ou não, não importa. O que importa é que as pessoas se sentem felizes e curtem ouvi-lo”;


P.S. (6) a Imagem que ilustra a coluna hoje foi emprestada do blog novablumenau.blogspot.com

Um comentário:

  1. Me parece que muitos dos críticos são pessoas que aspiram à nobreza, pessoas que tentam ser mais eruditas que a própria obra.
    André Rieu, Richard Clayderman, Liberace, etc. podem ser incluídos na categoria de David Copperfield (o mágico). Vendem algo que se sabe que um baita engodo, mas divertem, entretêm seu público, e até abrem a porta da boa música a quem nunca teria essa porta aberta pelas circuntâncias sócio-culturais de sua família. Não devemos julgar esse tipo de espetáculo como sendo deturpação, pois para seu público, em geral, nada foi deturpado. Não conhecem profundamente as obras, e nem têm pretensão a conhecê-las. É para eles um momento de real nobreza, momento esse de que os pretensos eruditos de alpinismo jamais irão desfrutar, pois a consciência da mediocridade sempre lhes faz lembrar a farsa que interpretam pra si mesmos.

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