domingo, 12 de abril de 2020

A PÁSCOA DO SILÊNCIO E DA SOLIDARIEDADE.


Bom dia de Páscoa meus amigos,

Em foto do meu celular pássaro -

pousando sobre a piscina vazia-
do condomínio onde resido.    -
O vazio absoluto imposto pela -
pandemia do Covid-19.
12 de Abril de 2.020, domingo de Páscoa, uma Páscoa que será lembrada para sempre por todos os humanos que se acham vivos. Um vírus desconhecido até então,  de propagação estratosférica,  se espalhou pelo mundo de forma incontrolável, apesar de todos os esforços da ciência e da tecnologia para entendê-lo e, a partir daí, criar mecanismos de controle e antídotos eficientes. Centro da epidemia neste momento é o país mais rico e desenvolvido do planeta, os Estados Unidos da América, que conta mais de 500.000 mil contaminações e mais de 20.000 mortes. E nós, os latinos do hemisfério sul, os mais carentes, ao lado da África e de parte da Ásia vamos  nos virando como podemos, aguardando temerosos, sem nada saber do futuro que nos espera, recolhidos dentro de nossas casas ou refúgios, seguindo as orientações da desorientada comunidade médica e  da Organização Mundial de Saúde. A dita Organização, que no momento só tem a nos oferecer a recomendação do afastamento social para conter a pandemia, ou ao menos, descontinuar a curva de contaminação para permitir  que os recursos existentes nos sistemas de saúde de todos os países, ricos ou pobres, possa dar conta de atender os mais atingidos pelos efeitos da virose. Essa, portanto, é a Páscoa do isolamento, do temor, das incertezas e da carência de beijos e abraços entre amantes, maridos e mulheres, companheiros, amigos, filhos, pais e netos. Esse é o efeito mais cruel dessa pandemia. Há também uma lição a aprender. O amor e a solidariedade, a procurada justiça social entre os homens é a única salvação da humanidade. É tempo de  Páscoa. E, como tal de renovação. Precisamos uns dos outros. Ninguém vive sozinho. É Páscoa!  Da reflexão. Da revisão de conceitos e de valores. Todos estamos equiparados, vivendo o mesmo drama. E neste momento, melhor que qualquer um de nós, são os lixeiros, os agentes de saúde, os porteiros, a imprensa, os motoboys, as cozinheiras, as lavadeiras que garantem, com risco pessoal, a nossa própria sobrevivência.  Se não podemos abraçá-los, podemos amá-los. Podemos disponibilizar nossos recursos, inclusive financeiros, para manter os nossos colaboradores recebendo seus salários, enquanto dispensamos a sua proximidade, os seus serviços. Empresários e trabalhadores são atingidos em igual intensidade e será preciso diálogo,  compreensão e respeito. E o entendimento de que   todos haverão de  dividir os nefastos efeitos da crise. Não é hora de cobrar direitos. É hora de relativizá-los e de disponibilidade no que temos e podemos ajudar.  É hora de composição. De solidariedade.  Em resumo, de amor ao próximo, cientes de que carregar o fardo da vida exige o ombro do outro, o abraço do outro, o concurso do outro, porque ninguém se basta neste mundo.  Lembrei do Tom Jobim compondo e da imortal Elis Regina entoando a versão portuguesa de Wave:  “....Vou te contar/ os olhos já não podem ver/coisas que só o coração pode entender/ fundamental é mesmo o amor/ é impossível ser feliz sozinho.”   E que vivam os amores, quaisquer que sejam, como propala  Milton Nascimento em sua bela canção: "Qualquer maneira de amor vale a pena".

Um grande abraço, um forte abraço ,meus amigos. E quero lhes reafirmar que amo todos vocês. E que é bom que eu os tenho e que vocês existem na minha vida. Espero também sempre existir, de alguma forma, na de vocês. Com intensidade imortal, enquanto durarmos, como na poesia de Vinícius.

Até mais amigos.
















domingo, 5 de abril de 2020

QUARENTENA EM TEMPO DE COVID 19 - PARTE 2.


Boa tarde amigos,


Em criação de Mara Miguel,  bolo temático
com desenhos de coronavírus. A criançada
canta, o aniversariante apaga a velinha e aí
todos comem e destroem o vírus do mal.
Domingo de um sol cativante de outono, mas sem o ardor dos sóis de verão aqui no hemisfério sul.  Preso no apartamento e acordando tarde, depois do café é imperioso descer para a área comum do prédio, de boas dimensões e bem arborizada. Escolher aquele canto em que o sol, naquela hora, bate iluminado mandando pra gente aquela energia incomparável  com qualquer outra. E a crença de que, quentinho sobre o corpo, além de sintetizar a vitamina D, vai matar todas as bactérias e vírus que assolam a humanidade. Dizem que é a grande vantagem dos países tropicais como o nosso. Sei lá se tem comprovação científica, mas funciona psicologicamente como uma suposto antídoto contra o medo de contrair o tal coronavírus. E dá-lhe praia nesse povo que vive acotovelado em habitações coletivas minúsculas e nas imensas favelas espalhadas pelo Brasil afora, hoje chamadas de comunidades, por eufemismo. Enquanto tomo sol absolutamente sozinho (aqui no meu prédio ninguém teve coragem de aparecer por aqui enquanto eu permaneci, pelo menos) dou tratos à bola. Agradeço ao sol, a Deus, à Natureza que me deram a condição privilegiada de morar bem, ter uma companheira, filha, genro, neto, amigos, alunos e ex-alunos, clientes e uma aceitável saúde para os meus 68 anos de estrada, que foram árduos e compensáveis pela experiência e pela tentativa de me deixar cada dia mais solidário e tolerante comigo e com o ser humano em geral, cuja natureza, estrutura biológica e mental, fraquezas, instintos e atos de nobreza e outros aspectos constituíram e constituem parte considerável de minha curiosidade científica e minha propensão pelo estudo da antropologia, filosofia, sociologia, psicologia e outras humanidades . E não há como não pensar nas notícias que chovem pelas mídias afora sobre a pandemia que se abate sobre o mundo, sem pedir licença, sem passaporte, sem escolher ricos ou pobres, pretos, brancos, pardos ou amarelos, ou qualquer forma de distinção em classes ou categorias. De tudo que ouvi até agora e até que se encontre uma vacina que impeça esse vírus novo e atrevido de infectar pessoas, todos, absolutamente todos nós seremos infectados um dia. Os cientistas não ignoram isso. Claro que a grande maioria (cerca de 80% segundo estimativas) terão sintomas leves ou não terão sintoma algum, o que um percentual considerável. Dos 20% porém que terão sintomas moderados ou graves, estima-se também que 5% necessite de utis estruturadas com respiradores que possam sustentar a vida por respiração artificial, enquanto isso for possível ou suficiente. Pois bem, se pegarmos um país como a Itália, duramente atingido pelo vírus, com 60 milhões de habitantes e partirmos do princípio (para mim indiscutível) que todos os cidadãos contrairão a virose mais cedo ou mais tarde, teremos numa simples equação, 12 milhões de infectados com sintomas moderados ou graves. Se 5% necessitarem de UTIS (estimativa que se confirma a cada dia) são simplesmente 3 milhões de pessoas no país que tem a maior riqueza em obras e monumentos tombados e o maior turismo do mundo. Que sistema de saúde por mais organizado e moderno que seja seria capaz de atender a essa população monstruosa ao mesmo tempo? Claro que nenhum, nem os dos países mais ricos e menores em população como a Dinamarca e a Suécia. Por isso que o apelo para as medidas de higiene intensas e o afastamento social com ênfase no recolhimento domiciliar é fundamental se não quisermos ver nossos entes queridos, amigos, familiares e  nós mesmos (integrantes do principal grupo de risco),  morrer em filas enormes nas portas dos atolados hospitais públicos e privados, sem que haja qualquer possibilidade de socorro ou atendimento. A questão é, portanto, fundamental como assinala o nosso Ministro da Saúde que em menos de dois meses virou alvo preferido da mídia e da população brasileira, mesmo e também pelo confronto que estabeleceu com o Presidente da República. Aliás, o nosso Bolsonaro consegue coisas inéditas, ou seja, ser desautorizado até pelos seus correligionários militares, incluindo o vice-Presidente da República, que deu sua posição pelo afastamento social e pelas recomendações do Ministro da Saúde e dos Governadores, em rede de televisão, garantindo que essa era a posição “oficial” do governo brasileiro. Ignorado, censurado, o Presidente é alvo de críticas de todos os lados, citando como o único líder mundial que a esta altura, ainda insiste em proteger supostamente a economia, mandando o povo trabalhar e chamando a pandemia de “gripezinha”. E impressionante a popularidade e credibilidade que ganha esse para nós até então desconhecido Mandetta, com um carisma impressionante, um discurso coerente e honesto e que hoje seria eleito para qualquer cargo que eventualmente disputasse. Venceu a minha meia hora de sol e ainda tentei falar com o porteiro. Quando abanei, próximo da portaria, a minha mão, ele percebeu que eu queria dizer ou pedir alguma coisa e gentilmente abriu a porta. Eu o cumprimentei e, a mais de dois metros de distância, procurei matar a minha curiosidade com ele sobre coisas banais: A família está bem? E o ônibus hoje estava cheio? Acredita que o Prefeito de Americana suspendeu toda a circulação de ônibus urbanos aos domingos? E quem tem que trabalhar como o senhor ou os profissionais de saúde? E a senhora do 11º andar tem saído com o cachorrinho para dar as voltas de praxe? Quem mais não tem saído com o cachorro? Então está bem, bom dia pro senhor e cuide-se. Sinta-se abraçado à distância OK? Subi com um pano cheio de álcool gel para abrir a porta de entrada, chamar o elevador e descer no meu segundo andar. Abri a porta e logo na entrada estava o meu chinelo de dentro. O de fora fica acomodado bem próximo dali. Fui imediatamente lavar a mão olhando no relógio pra ver se dava os 20 minutos mínimos apregoados. E a certeza de que nada disso vai evitar que um dia eu pegue a “mardita”. A menos que eu fosse um ermitão isolado numa montanha lá perto do fim do mundo longe de tudo e de todos. Mas, gente. Vamos colaborar com a orientação dos cientistas. Espaçar, espaçar, diminuir a curva ascendente e o pico da contaminação tão temida, que o sistema de saúde não dará conta mesmo e teremos uma tragédia de proporções maiores do que as da Itália e Espanha e muita gente vai morrer sem socorro. Somos 210 milhões de habitantes, a grande maioria sem condições de isolamento ou acesso aos itens de higiene.  A não ser que você pense que nem o Bolsonaro: afinal todo mundo vai morrer mesmo um dia, não, mas os empregos têm que continuar! Que preciosidade.

Bom domingo.    



domingo, 29 de março de 2020

QUARENTENA EM TEMPOS DE COVID-19.


Boa noite amigos.

Sophia Loren e Marcelo Mastroianni em Matrimônio à 
Italina, grande sucesso de público e crítica. O longa  -
teve a competente direção de Vittorio de Sica e foi --
lançado em 1.964.
O nosso mundo caiu. Lembram-se daquela música que dizia: Pare o mundo que eu quero descer. Pois bem, o problema agora não é parar o mundo que está parado. É onde descer. A pandemia do covid-19 não é um pesadelo não. É uma realidade que exige de cada um, e de todos, cuidados consigo e com toda a comunidade, lealdade com amigos e inimigos e uma quarentena forçada dentro de casa. A rua, o mundo está interditado para nós. A casa, seja ela um lar, um céu ou um inferno, conforme o caso, passa a ser a exata dimensão dos limites da nossa esfera de atuação e movimentação. Já se vislumbram o agravamento de problemas emocionais, psiquiátricos e psicológicos, sobretudo para os que vivem só. Estou recluso no meu apartamento com minha mulher, ambos sexagenários, portanto integrantes do chamado grupo de risco. A luta dos reclusos agora é para manter a sanidade. No meu caso para preservar a minha insanidade, que tanto prezo e me mantém vivo. A Internet neste momento e as possibilidades da comunicação virtual funcionam como um potente antidepressivo e um remédio para aplacar, em parte e para alguns, os deletérios efeitos da solidão e do distanciamento dos beijos e abraços dos queridos filhos, netos, irmãos, pais, amigos. 

A bela Sonia Braga, na versão cinematográfica-
da obra de Jorge Amado, Gabriela Cravo  e ca-
nela, um filme ítalo-brasileiro, em que contrace
nou com Marcelo Mastroianni. O longa é de
1983 e teve a direção de Bruno Barreto.
Para os casais hora de dialogar, conviver 24 horas por dia e descobrir o que existe - e se existe -  aquela chama e identidade que um dia marcou o já distante momento de  encontro de almas. E de união e renúncia por amor à família e aos amigos. Ah, considere também um pouco de apreço pela humanidade como um todo. Faz bem nessas horas difíceis nas quais não há mais diferença entre os homens.

Até mais amigos.

P.S. (1) Algumas sugestões: Sabe aquela gaveta abarrotada de vídeos cassetes de filmes que você comprou ou ganhou um dia, com medo de que eles nunca mais pudessem estar à disposição. Tenho duas dessas gavetas bem grandes. Ali descobri vídeos de filmes que eu vi ou nunca vi, conforme o caso, mas todos objeto de minha curiosidade que não foi satisfeita por falta de tempo. Agora, tenho todo esse tempo. Então mandei ver “MATRIMÔNIO À ITALIANA”, um clássico no melhor estilo do cinema italiano dos anos 60, com direção de Vittório de Sica e dois monstros sagrados do cinema universal, a eterna SOPHIA LOREN, belíssima até hoje no alto de seus 83 anos e do finado MARCELO MASTROIANNI, galã de tantos filmes, dentre os quais, o ítalo-brasileiro, GABRIELA CRAVO E CANELA, da obra de Jorge Amado e no qual  contracenou com a nossa SONIA BRAGA, encarnando o turco Nassib.  O filme é imperdível, tratando, já naquela época (1.964) de temas como o amor e o machismo e a ferrenha luta das mulheres por respeito e  espaço num mundo dirigido por homens e seus preconceitos.

sexta-feira, 20 de março de 2020

CONTO - RODRIGO E AS MEIAS DO ADVOGADO


Boa noite amigos,

Homem exibindo meia, meio constrangido. Imagem empres-
tada de www.fotossearch.com.
Sem papo sobre o Corona Vírus, que está na ordem do dia,  em todos os jornais, revistas, mídias em geral,  pandemia responsável pela minha reclusão dentro das quatro paredes do meu apartamento, de onde sou lembrado, a cada cinco minutos, que sou idoso e estou na faixa de risco. Por isso, mando hoje aos amigos um "causo" que é novo e não está em nenhum dos meus livros anteriores de "Causas e Causos". Relembrei o episódio e alguns detalhes dele com meu amigo Rodrigo Herrera.  E o grande personagem foi ele mesmo  há uns 35 anos.

Vai lá:

"Rodrigo Badan Herrera é o nome da fera, hoje um dos mais competentes e renomados advogados trabalhistas do Estado de São Paulo, mas que chegou a abandonar a profissão, por alguns dias, por causa do incidente de que foi protagonista ainda recém-formado.  Ansioso,  responsável, leal e atrapalhado são adjetivos supostamente contraditórios que, todavia,  cabiam  bem e harmoniosamente no ainda jovem advogado formado pela Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, no ano de 1984. Convidado por mim para iniciar a carreira no escritório de advocacia que dividíamos eu, minha mulher e os meus sócios, Ignácio e Toninho Carilo, ainda ostentava ele a condição de advogado com inscrição provisória na OAB. É que, ao invés da tradicional carteirinha de advogado, a inscrição provisória era registrada num documento do tamanho de uma folha sulfite, em papel tipo cartolina, pelo qual a  OAB autorizava o portador ao exercício da advocacia. Reconheço hoje que eu era um chefe durão, embora compreensivo e generoso com meus alunos e subordinados. A intenção era conscientizá-los para os desafios da profissão e da responsabilidade que cada ato ou situação trazia como consequência. Mas vamos ao "causo" que é o que interessa. Meu escritório tinha assumido a carteira do tradicional bar e restaurante Giovanetti que, sob nova direção, tinha promovido uma renovação no quadro de funcionários, especialmente de garçons. A alegação para as dispensas, de um modo geral, era a de que estavam viciados em certos comportamentos considerados inadequados pelos novos dirigentes. Uma advogada, a Vanny Hipólito, hoje falecida, tinha proposto uma reclamação trabalhista e nós deveríamos defender a reclamada. Na primeira audiência que era apenas para tentativa de conciliação e não ocorrendo o acordo para apresentar contestação escrita resolvi incumbir o Rodrigo de realizá-la como advogado, acompanhado do preposto, o seu Correia, gerente e sócio da empresa. Seria a primeira audiência que o dr. Rodrigo faria e ele demonstrava certo receio e insegurança, perfeitamente normais ao noviciado. Expliquei a ele que a reclamada não queria fazer acordo, justamente para não incentivar a propositura de novas ações que viriam no rastro dessa primeira. Entreguei-lhe porém um cheque, de cerca de três mil cruzeiros, que se referia às chamadas verbas incontroversas que deveria ser entregue ao reclamante, sob pena de condenação no pagamento em dobro, como previa a lei trabalhista.  E lá vai o Rodrigo para sua estreia. A Junta de Conciliação, naquela época, estava instalada na São Carlos, uma rua estreita que começava na Avenida Amoreiras e terminava na Avenida Aquidabã, próxima do Hospital Mário Gatti. Chovia copiosamente e Rodrigo, conduzindo o Sr. Correia no seu veículo, deixou-o na porta do prédio da Junta e foi procurar um lugar para estacionar, o que era difícil e penoso, sobretudo pela chuva que caía naquele horário. Depois de rodar por algum tempo, o nosso protagonista encontrou um lugar e deixou o veículo bem próximo à uma imensa poça d'água. Sem conseguir evitar a enchente, meteu o pé na água que corria solta e com isso encharcou sapatos e meias. O terno também ficou igualmente ensopado. Correu assim para o prédio da Junta, preocupado com o horário da audiência e com o perigo de, em atrasando, provocar uma revelia grave que tornaria qualquer defesa inútil. Chegou cinco minutos antes do horário e foi direto ao banheiro. Tirou o paletó, torceu-o, e bem assim os sapatos. Como as meias estavam ensopadas, resolveu também tirá-las e colocou-as dentro de sua pasta. Depois de tentar se arrumar de alguma forma aceitável,  ingressou na sala de audiências, sem o paletó que ele resolveu trazê-los, sem vestir, dobrado sobre o braço direito. Aquele sujeito de certa forma patético provocou um incômodo na Juíza que presidia a audiência. Como era muito jovem, a magistrada duvidou de sua condição de advogado. Logo que entrou foi advertido de que o seu traje como descrito não era adequado ao ritual exigido no Fórum. Com efeito, trazer o paletó dobrado no braço? Fala sério? A Juíza então, depois da advertência indagou: Quem é o senhor? E ele: Sou advogado da reclamada, ao que a Magistrada emendou: - Advogado? Não parece, o senhor tem a carteira que comprove essa condição. E o Rodrigo, acanhado, surpreso, extenuado, atrapalhado, não se fez de rogado. Abriu a pasta rapidamente, meteu a mão dentro dela até encontrar o tal documento da OAB que o credenciava com inscrição provisória. Ah, mas ao puxar o documento, com ele veio junto, enroscado, um pé de sua meia ensopada. A cena foi surreal e inesquecível. Havia um documento exibido à Juíza, a uma pequena distância de seus olhos, ao qual vinha acoplado uma meia suja e molhada. Não houve tempo para qualquer explicação. A Juíza deitou falação encima do jovem advogado, horrorizada com tudo o que havia visto e o que tinha sido a ela exibido. Com essa confusão toda, Rodrigo apresentou contestação e esqueceu de entregar o cheque com o pagamento das  verbas incontroversas.Chegou ao escritório extenuado e diante da minha pergunta sobre todos os pontos da audiência, constatou que não tinha entregue o cheque. Então eu lhe disse, sem dó, nem piedade:  - Ah, esqueceu? Não tem problema. Procure a advogada do reclamante, explique a ela que  esqueceu de entregar o cheque e veja se ela o aceita agora. Se não aceitar, o senhor paga a diferença entre o valor e o dobro dele Ok? Rodrigo ficou arrasado. Procurou e implorou à Dra. Vanny que aceitasse o cheque. Ela aceitou, mas em compensação o obrigou durante muito tempo a contar pára todo mundo que aparecia, que ele tinha exibido uma meia suja e fedida, molhada, para a Juíza da Conciliação. Depois disso, Rodrigo desistiu da advocacia. Procurou pelo avô e lhe pediu de volta um emprego de vendedor que tinha na joalheria do progenitor, situada na rua 13 de Maio. Fui buscá-lo, porém, na minha indefectível Brasília branca. E depois de rodar pela cidade, de conversar muito com ele e de mostrar que não era razão para abandonar a carreira o convenci a voltar. E estava certo. Rodrigo deixou o escritório, fez carreira e é, como eu disse, um respeitabilíssimo advogado trabalhista. Indicado, inclusive, em lista da OAB para ingressar como Desembargador do Tribunal do Trabalho da 15ª. região, compondo o quinto constitucional dos advogados. A meia exibida junto com a comprovação de inscrição do advogado, porém, daquele dia, passou à antologia forense. Não, claro, sem justo motivo. 

Até mais amigos.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ELE O PALHAÇO - MAGIA EM TODAS AS IDADES.


Boa tarde amigos,

Casal de terceira idade homenageia o palhaço, legítimo re-
presentante de uma infância saudosa e mágica.  Imagem -
emprestada do site www.enoismesmoeueaxuxu.com.br
Ele entra atabalhoado, tropeçando nos próprios pés ocultos pelos enormes sapatos de bicos voltados para o céu. Sorriso largo expressa um tácito convite ao riso e ao canto. E vai entoando: O bom menino não faz xixi na cama/O bom menino não faz malcriação/ O bom menino vai hoje à escola/....O ruidoso auditório, repleto de crianças de todas as idades quase vem abaixo com o som alto, de todos os tons concomitantes e desafinados, acompanhando a canção. Uma energia positiva  brota, se espalhando por todo o ambiente. Agora outro palhaço menor que o primeiro aparece no picadeiro. E outro, ainda menor que os dois. E mais outro, nanico. Anão e palhaço combinam e são capazes de conduzirem crianças e adultos, moços e velhos, por um mundo encantado que surge, como nos contos de fada, logo que se abre a janela do quarto dos fundos e se salta por ela.  Justamente, como aconteceu com Alice, lembram?  É só fechar os olhos e sonhar. Como um anjo ele surge do espaço sideral,  apaga o desenho do cenário cinza do mundo real e o troca por outro iluminado, de cores claras, num tempo em que reis e rainhas, bichos, florestas e castelos conduzem o visitante para um lugar imaginário em qualquer parte do universo. Ali todos são felizes, solidários, saudáveis e fraternos.  E se parecem com o palhaço-anjo.  Aquele de nossa infância. O palhaço bom e inocente.  O palhaço herói e salvador. O palhaço tantas vezes injustiçado, humilhado, ignorado, discriminado. Sucessor do "bobo da corte" que se descartava depois de servir para alegrar e satisfazer a soberba do rei e seus súditos.  Rei como nós, pretensiosos e injustos, que também não raras vezes ignoramos o nosso amigo e seus dramas reais, logo que a cortina se fecha atrás dele.  O palhaço que tem sempre o mesmo rosto e o mesmo destino: o de servir à alegria. O ser humano  que nos faz acreditar que tudo tem jeito, que existem razões para viver e comemorar a vida, que nos convida à utopia e à esperança, combustíveis necessários para a crença na existência de um mundo colorido e de  uma vida digna de ser vivida. Em algum lugar da nossa memória, ao menos.  Em algum canto esquecido e doce do nosso coração, talvez.... Viva o palhaço! Vivam os palhaços!

Até mais amigos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

CORINGA DE PHOENIX - UM FILME MERECIDAMENTE PREMIADO


Boa noite amigos,

Imagem  mostrando o ator Joaquin Phoenix, en-
carnando o controvertido personagem, cuja origem e   -
causa de sua loucura e criminalidade constitui o fio con-
dutor do premiado e festejado longa de Todd Phillips.
O roteiro original quer contar a história inusitada de como se construiu um vilão, a partir da loucura e dos ressentimentos pelas dificuldades e crueldade impostas por  uma sociedade que ignora aqueles que estão à margem, os desafortunados, os excluídos. No “Eu existo e as pessoas estão começando a notar”, uma das frases pronunciadas pelo nosso protagonista, bem revela o seu sentimento pelo desprezo e o seu desejo de vingança. O principal antagonista  do super-herói Batman  aqui está sozinho, fora de qualquer trama, num grande e interminável monólogo existencial, atormentado por uma mãe doente, a ausência de paternidade conhecida e um subemprego. Com Todd Phillips na direção (indicado para o Oscar, sem vencer) e Joaquim Phoenix como protagonista (vencedor do Oscar na categoria), esse Coringa sorri, dança, chora, gira pelas calçadas e ruas da cidade, tenta existir e nesse desiderato se torna um ser violento e criminoso.  Os anônimos palhaços, como ele, saem às ruas para protestar contra a insensibilidade pública com as mazelas sociais. Phoenix, ao receber o merecido Oscar  pelo desempenho, num filme em que contracenou consigo mesmo, com os objetos, num drama introspectivo, sem luz,  de cores escuras que mesclavam os dias e as noites,  ambientes inóspitos captado por lentes que liam cada gesto,  trejeito,  careta, mímica, o trançar dos pés flanando sobre degraus de escada, protestou contra o homem de seu tempo, reclamou de como ele maltrata  o seu habitat, a natureza, o semelhante, o diferente, o gênero, os animais, as minorias,  num processo lento de degradação e destruição de recursos e valores.  Não esperou por aplausos ou apupos. Disse o que queria dizer. O que o Coringa diria se existisse concretamente.  O filme bateu recordes nas bilheterias e continua a percorrer o seu caminho, elogiado pela crítica e pelo público que aprecia um cinema mais profundo, reflexivo, que não é apenas para recreação. Belo filme, magnífico Phoenix quase 20 quilos mais magro, soberbo e superior nessa interpretação memorável de um personagem do mal, conhecido por suas maldades e crimes, mas cuja origem e formação de caráter e personalidade, nunca foi contada antes do longa,  nem na literatura, nem pelo cinema.

Vale a pena ver, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes de 2.019.

Até mais amigos.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

CINEMA NACIONAL - MINHA MÃE É UMA PEÇA 3




Imagem ao lado emprestada de Metrópoles retrata, da esquerda para a direita,  os atores Rodrigo Pandolfo, Paulo Gustavo e Mariana Xavier, respectivamente nos papéis de Juliano, Dna. Hermínia e Marcelina, no terceiro filme da série que ganhou o Brasil. Assim como Dona Nenê da Grande Família, a protagonista é uma mulher forte e decidida, que não mede esforços e sacrifícios para proteger sua família, criando empatia com o público em geral. O longa, em poucas semanas de exibição nos cinemas, já levou um público superior a seis milhões (6.000.000) de espectadores, devendo ainda fazer longa história e aproximar-se, senão superar o segundo filme da série, que chegou a mais de nove milhões (9.000.000) de espectadores, um quarto lugar nos filmes brasileiros mais assistidos de todos os tempos. 

Boa noite amigos, 

Vi os dois primeiros filmes nacionais da série “Minha Mãe é uma Peça”, em que Paulo Gustavo, inspirado em sua própria mãe, encarna a Dna. Hermínia e sua problemática familiar e fui ao cinema com a expectativa de que veria “o mais do mesmo”. Não acreditei que a história da divorciada senhora de classe média, às voltas com a educação dos dois filhos adolescentes, pudesse ter rendido uma terceira temporada. Minha expectativa, porém, não se confirmou. O terceiro longa da série surpreende e supera os dois anteriores. É mais engraçado, os recursos utilizados são bem superiores, o andamento do roteiro é dinâmico e interessante, a ponto de não permitir ao espectador marasmo ou cochilo. A emancipação dos filhos que deixam a casa materna para viver suas próprias vidas, longe da tutela da mãe, a solidão da casa vazia, o casamento dos dois filhos, um dos quais em união homoafetiva, a preocupação com o nascimento e o futuro dos netos  são os pontos fundamentais que movimentam e atormentam o cotidiano da nossa protagonista, envolta nos seus indefectíveis bobes. No entorno do fio condutor do roteiro, a proximidade do ex-marido que passa a viver em apartamento ao lado e tenta dividir a preocupação com os filhos,  os arranca-rabos com as irmãs e a coragem para enfrentar os preconceitos sociais e difundir o amor entre os membros da família, em quaisquer circunstâncias, geram ensejo para discursos ideológicos contra a direita radical, a burguesia falsa e tradicional, e as posições da Igreja em relação às uniões fora do casamento e os recursos disponíveis pela tecnologia para a criação de filhos adotivos ou biológicos. Filme também enfatiza à reiteração do amor de Paulo Gustavo pela mãe inspiradora e faz inédita homenagem ao pai.  E ao marido, o médico Thales Bretas,  com quem o artista  mantêm um casamento aparentemente sólido e com o qual divide a criação dos dois filhos. Tudo isso retratado nos ótimos créditos, no final do longa. Para se divertir, esquecendo as preocupações. Se você for da classe média, tem mais de 50 anos, não fala inglês,  mas tem dinheiro para viajar para os Estados Unidos e frequentar lugares sofisticados, está reciclando os conceitos e valores que aprendeu com seus pais e avós e tem horror aos excessos do politicamente correto vai se ver no filme. E como  gosta muito de você certamente vai gostar do filme. Então por que não ir ao cinema, né?

Abraço.