domingo, 29 de março de 2020

QUARENTENA EM TEMPOS DE COVID-19.


Boa noite amigos.

Sophia Loren e Marcelo Mastroianni em Matrimônio à 
Italina, grande sucesso de público e crítica. O longa  -
teve a competente direção de Vittorio de Sica e foi --
lançado em 1.964.
O nosso mundo caiu. Lembram-se daquela música que dizia: Pare o mundo que eu quero descer. Pois bem, o problema agora não é parar o mundo que está parado. É onde descer. A pandemia do covid-19 não é um pesadelo não. É uma realidade que exige de cada um, e de todos, cuidados consigo e com toda a comunidade, lealdade com amigos e inimigos e uma quarentena forçada dentro de casa. A rua, o mundo está interditado para nós. A casa, seja ela um lar, um céu ou um inferno, conforme o caso, passa a ser a exata dimensão dos limites da nossa esfera de atuação e movimentação. Já se vislumbram o agravamento de problemas emocionais, psiquiátricos e psicológicos, sobretudo para os que vivem só. Estou recluso no meu apartamento com minha mulher, ambos sexagenários, portanto integrantes do chamado grupo de risco. A luta dos reclusos agora é para manter a sanidade. No meu caso para preservar a minha insanidade, que tanto prezo e me mantém vivo. A Internet neste momento e as possibilidades da comunicação virtual funcionam como um potente antidepressivo e um remédio para aplacar, em parte e para alguns, os deletérios efeitos da solidão e do distanciamento dos beijos e abraços dos queridos filhos, netos, irmãos, pais, amigos. 

A bela Sonia Braga, na versão cinematográfica-
da obra de Jorge Amado, Gabriela Cravo  e ca-
nela, um filme ítalo-brasileiro, em que contrace
nou com Marcelo Mastroianni. O longa é de
1983 e teve a direção de Bruno Barreto.
Para os casais hora de dialogar, conviver 24 horas por dia e descobrir o que existe - e se existe -  aquela chama e identidade que um dia marcou o já distante momento de  encontro de almas. E de união e renúncia por amor à família e aos amigos. Ah, considere também um pouco de apreço pela humanidade como um todo. Faz bem nessas horas difíceis nas quais não há mais diferença entre os homens.

Até mais amigos.

P.S. (1) Algumas sugestões: Sabe aquela gaveta abarrotada de vídeos cassetes de filmes que você comprou ou ganhou um dia, com medo de que eles nunca mais pudessem estar à disposição. Tenho duas dessas gavetas bem grandes. Ali descobri vídeos de filmes que eu vi ou nunca vi, conforme o caso, mas todos objeto de minha curiosidade que não foi satisfeita por falta de tempo. Agora, tenho todo esse tempo. Então mandei ver “MATRIMÔNIO À ITALIANA”, um clássico no melhor estilo do cinema italiano dos anos 60, com direção de Vittório de Sica e dois monstros sagrados do cinema universal, a eterna SOPHIA LOREN, belíssima até hoje no alto de seus 83 anos e do finado MARCELO MASTROIANNI, galã de tantos filmes, dentre os quais, o ítalo-brasileiro, GABRIELA CRAVO E CANELA, da obra de Jorge Amado e no qual  contracenou com a nossa SONIA BRAGA, encarnando o turco Nassib.  O filme é imperdível, tratando, já naquela época (1.964) de temas como o amor e o machismo e a ferrenha luta das mulheres por respeito e  espaço num mundo dirigido por homens e seus preconceitos.

sexta-feira, 20 de março de 2020

CONTO - RODRIGO E AS MEIAS DO ADVOGADO


Boa noite amigos,

Homem exibindo meia, meio constrangido. Imagem empres-
tada de www.fotossearch.com.
Sem papo sobre o Corona Vírus, que está na ordem do dia,  em todos os jornais, revistas, mídias em geral,  pandemia responsável pela minha reclusão dentro das quatro paredes do meu apartamento, de onde sou lembrado, a cada cinco minutos, que sou idoso e estou na faixa de risco. Por isso, mando hoje aos amigos um "causo" que é novo e não está em nenhum dos meus livros anteriores de "Causas e Causos". Relembrei o episódio e alguns detalhes dele com meu amigo Rodrigo Herrera.  E o grande personagem foi ele mesmo  há uns 35 anos.

Vai lá:

"Rodrigo Badan Herrera é o nome da fera, hoje um dos mais competentes e renomados advogados trabalhistas do Estado de São Paulo, mas que chegou a abandonar a profissão, por alguns dias, por causa do incidente de que foi protagonista ainda recém-formado.  Ansioso,  responsável, leal e atrapalhado são adjetivos supostamente contraditórios que, todavia,  cabiam  bem e harmoniosamente no ainda jovem advogado formado pela Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, no ano de 1984. Convidado por mim para iniciar a carreira no escritório de advocacia que dividíamos eu, minha mulher e os meus sócios, Ignácio e Toninho Carilo, ainda ostentava ele a condição de advogado com inscrição provisória na OAB. É que, ao invés da tradicional carteirinha de advogado, a inscrição provisória era registrada num documento do tamanho de uma folha sulfite, em papel tipo cartolina, pelo qual a  OAB autorizava o portador ao exercício da advocacia. Reconheço hoje que eu era um chefe durão, embora compreensivo e generoso com meus alunos e subordinados. A intenção era conscientizá-los para os desafios da profissão e da responsabilidade que cada ato ou situação trazia como consequência. Mas vamos ao "causo" que é o que interessa. Meu escritório tinha assumido a carteira do tradicional bar e restaurante Giovanetti que, sob nova direção, tinha promovido uma renovação no quadro de funcionários, especialmente de garçons. A alegação para as dispensas, de um modo geral, era a de que estavam viciados em certos comportamentos considerados inadequados pelos novos dirigentes. Uma advogada, a Vanny Hipólito, hoje falecida, tinha proposto uma reclamação trabalhista e nós deveríamos defender a reclamada. Na primeira audiência que era apenas para tentativa de conciliação e não ocorrendo o acordo para apresentar contestação escrita resolvi incumbir o Rodrigo de realizá-la como advogado, acompanhado do preposto, o seu Correia, gerente e sócio da empresa. Seria a primeira audiência que o dr. Rodrigo faria e ele demonstrava certo receio e insegurança, perfeitamente normais ao noviciado. Expliquei a ele que a reclamada não queria fazer acordo, justamente para não incentivar a propositura de novas ações que viriam no rastro dessa primeira. Entreguei-lhe porém um cheque, de cerca de três mil cruzeiros, que se referia às chamadas verbas incontroversas que deveria ser entregue ao reclamante, sob pena de condenação no pagamento em dobro, como previa a lei trabalhista.  E lá vai o Rodrigo para sua estreia. A Junta de Conciliação, naquela época, estava instalada na São Carlos, uma rua estreita que começava na Avenida Amoreiras e terminava na Avenida Aquidabã, próxima do Hospital Mário Gatti. Chovia copiosamente e Rodrigo, conduzindo o Sr. Correia no seu veículo, deixou-o na porta do prédio da Junta e foi procurar um lugar para estacionar, o que era difícil e penoso, sobretudo pela chuva que caía naquele horário. Depois de rodar por algum tempo, o nosso protagonista encontrou um lugar e deixou o veículo bem próximo à uma imensa poça d'água. Sem conseguir evitar a enchente, meteu o pé na água que corria solta e com isso encharcou sapatos e meias. O terno também ficou igualmente ensopado. Correu assim para o prédio da Junta, preocupado com o horário da audiência e com o perigo de, em atrasando, provocar uma revelia grave que tornaria qualquer defesa inútil. Chegou cinco minutos antes do horário e foi direto ao banheiro. Tirou o paletó, torceu-o, e bem assim os sapatos. Como as meias estavam ensopadas, resolveu também tirá-las e colocou-as dentro de sua pasta. Depois de tentar se arrumar de alguma forma aceitável,  ingressou na sala de audiências, sem o paletó que ele resolveu trazê-los, sem vestir, dobrado sobre o braço direito. Aquele sujeito de certa forma patético provocou um incômodo na Juíza que presidia a audiência. Como era muito jovem, a magistrada duvidou de sua condição de advogado. Logo que entrou foi advertido de que o seu traje como descrito não era adequado ao ritual exigido no Fórum. Com efeito, trazer o paletó dobrado no braço? Fala sério? A Juíza então, depois da advertência indagou: Quem é o senhor? E ele: Sou advogado da reclamada, ao que a Magistrada emendou: - Advogado? Não parece, o senhor tem a carteira que comprove essa condição. E o Rodrigo, acanhado, surpreso, extenuado, atrapalhado, não se fez de rogado. Abriu a pasta rapidamente, meteu a mão dentro dela até encontrar o tal documento da OAB que o credenciava com inscrição provisória. Ah, mas ao puxar o documento, com ele veio junto, enroscado, um pé de sua meia ensopada. A cena foi surreal e inesquecível. Havia um documento exibido à Juíza, a uma pequena distância de seus olhos, ao qual vinha acoplado uma meia suja e molhada. Não houve tempo para qualquer explicação. A Juíza deitou falação encima do jovem advogado, horrorizada com tudo o que havia visto e o que tinha sido a ela exibido. Com essa confusão toda, Rodrigo apresentou contestação e esqueceu de entregar o cheque com o pagamento das  verbas incontroversas.Chegou ao escritório extenuado e diante da minha pergunta sobre todos os pontos da audiência, constatou que não tinha entregue o cheque. Então eu lhe disse, sem dó, nem piedade:  - Ah, esqueceu? Não tem problema. Procure a advogada do reclamante, explique a ela que  esqueceu de entregar o cheque e veja se ela o aceita agora. Se não aceitar, o senhor paga a diferença entre o valor e o dobro dele Ok? Rodrigo ficou arrasado. Procurou e implorou à Dra. Vanny que aceitasse o cheque. Ela aceitou, mas em compensação o obrigou durante muito tempo a contar pára todo mundo que aparecia, que ele tinha exibido uma meia suja e fedida, molhada, para a Juíza da Conciliação. Depois disso, Rodrigo desistiu da advocacia. Procurou pelo avô e lhe pediu de volta um emprego de vendedor que tinha na joalheria do progenitor, situada na rua 13 de Maio. Fui buscá-lo, porém, na minha indefectível Brasília branca. E depois de rodar pela cidade, de conversar muito com ele e de mostrar que não era razão para abandonar a carreira o convenci a voltar. E estava certo. Rodrigo deixou o escritório, fez carreira e é, como eu disse, um respeitabilíssimo advogado trabalhista. Indicado, inclusive, em lista da OAB para ingressar como Desembargador do Tribunal do Trabalho da 15ª. região, compondo o quinto constitucional dos advogados. A meia exibida junto com a comprovação de inscrição do advogado, porém, daquele dia, passou à antologia forense. Não, claro, sem justo motivo. 

Até mais amigos.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ELE O PALHAÇO - MAGIA EM TODAS AS IDADES.


Boa tarde amigos,

Casal de terceira idade homenageia o palhaço, legítimo re-
presentante de uma infância saudosa e mágica.  Imagem -
emprestada do site www.enoismesmoeueaxuxu.com.br
Ele entra atabalhoado, tropeçando nos próprios pés ocultos pelos enormes sapatos de bicos voltados para o céu. Sorriso largo expressa um tácito convite ao riso e ao canto. E vai entoando: O bom menino não faz xixi na cama/O bom menino não faz malcriação/ O bom menino vai hoje à escola/....O ruidoso auditório, repleto de crianças de todas as idades quase vem abaixo com o som alto, de todos os tons concomitantes e desafinados, acompanhando a canção. Uma energia positiva  brota, se espalhando por todo o ambiente. Agora outro palhaço menor que o primeiro aparece no picadeiro. E outro, ainda menor que os dois. E mais outro, nanico. Anão e palhaço combinam e são capazes de conduzirem crianças e adultos, moços e velhos, por um mundo encantado que surge, como nos contos de fada, logo que se abre a janela do quarto dos fundos e se salta por ela.  Justamente, como aconteceu com Alice, lembram?  É só fechar os olhos e sonhar. Como um anjo ele surge do espaço sideral,  apaga o desenho do cenário cinza do mundo real e o troca por outro iluminado, de cores claras, num tempo em que reis e rainhas, bichos, florestas e castelos conduzem o visitante para um lugar imaginário em qualquer parte do universo. Ali todos são felizes, solidários, saudáveis e fraternos.  E se parecem com o palhaço-anjo.  Aquele de nossa infância. O palhaço bom e inocente.  O palhaço herói e salvador. O palhaço tantas vezes injustiçado, humilhado, ignorado, discriminado. Sucessor do "bobo da corte" que se descartava depois de servir para alegrar e satisfazer a soberba do rei e seus súditos.  Rei como nós, pretensiosos e injustos, que também não raras vezes ignoramos o nosso amigo e seus dramas reais, logo que a cortina se fecha atrás dele.  O palhaço que tem sempre o mesmo rosto e o mesmo destino: o de servir à alegria. O ser humano  que nos faz acreditar que tudo tem jeito, que existem razões para viver e comemorar a vida, que nos convida à utopia e à esperança, combustíveis necessários para a crença na existência de um mundo colorido e de  uma vida digna de ser vivida. Em algum lugar da nossa memória, ao menos.  Em algum canto esquecido e doce do nosso coração, talvez.... Viva o palhaço! Vivam os palhaços!

Até mais amigos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

CORINGA DE PHOENIX - UM FILME MERECIDAMENTE PREMIADO


Boa noite amigos,

Imagem  mostrando o ator Joaquin Phoenix, en-
carnando o controvertido personagem, cuja origem e   -
causa de sua loucura e criminalidade constitui o fio con-
dutor do premiado e festejado longa de Todd Phillips.
O roteiro original quer contar a história inusitada de como se construiu um vilão, a partir da loucura e dos ressentimentos pelas dificuldades e crueldade impostas por  uma sociedade que ignora aqueles que estão à margem, os desafortunados, os excluídos. No “Eu existo e as pessoas estão começando a notar”, uma das frases pronunciadas pelo nosso protagonista, bem revela o seu sentimento pelo desprezo e o seu desejo de vingança. O principal antagonista  do super-herói Batman  aqui está sozinho, fora de qualquer trama, num grande e interminável monólogo existencial, atormentado por uma mãe doente, a ausência de paternidade conhecida e um subemprego. Com Todd Phillips na direção (indicado para o Oscar, sem vencer) e Joaquim Phoenix como protagonista (vencedor do Oscar na categoria), esse Coringa sorri, dança, chora, gira pelas calçadas e ruas da cidade, tenta existir e nesse desiderato se torna um ser violento e criminoso.  Os anônimos palhaços, como ele, saem às ruas para protestar contra a insensibilidade pública com as mazelas sociais. Phoenix, ao receber o merecido Oscar  pelo desempenho, num filme em que contracenou consigo mesmo, com os objetos, num drama introspectivo, sem luz,  de cores escuras que mesclavam os dias e as noites,  ambientes inóspitos captado por lentes que liam cada gesto,  trejeito,  careta, mímica, o trançar dos pés flanando sobre degraus de escada, protestou contra o homem de seu tempo, reclamou de como ele maltrata  o seu habitat, a natureza, o semelhante, o diferente, o gênero, os animais, as minorias,  num processo lento de degradação e destruição de recursos e valores.  Não esperou por aplausos ou apupos. Disse o que queria dizer. O que o Coringa diria se existisse concretamente.  O filme bateu recordes nas bilheterias e continua a percorrer o seu caminho, elogiado pela crítica e pelo público que aprecia um cinema mais profundo, reflexivo, que não é apenas para recreação. Belo filme, magnífico Phoenix quase 20 quilos mais magro, soberbo e superior nessa interpretação memorável de um personagem do mal, conhecido por suas maldades e crimes, mas cuja origem e formação de caráter e personalidade, nunca foi contada antes do longa,  nem na literatura, nem pelo cinema.

Vale a pena ver, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes de 2.019.

Até mais amigos.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

CINEMA NACIONAL - MINHA MÃE É UMA PEÇA 3




Imagem ao lado emprestada de Metrópoles retrata, da esquerda para a direita,  os atores Rodrigo Pandolfo, Paulo Gustavo e Mariana Xavier, respectivamente nos papéis de Juliano, Dna. Hermínia e Marcelina, no terceiro filme da série que ganhou o Brasil. Assim como Dona Nenê da Grande Família, a protagonista é uma mulher forte e decidida, que não mede esforços e sacrifícios para proteger sua família, criando empatia com o público em geral. O longa, em poucas semanas de exibição nos cinemas, já levou um público superior a seis milhões (6.000.000) de espectadores, devendo ainda fazer longa história e aproximar-se, senão superar o segundo filme da série, que chegou a mais de nove milhões (9.000.000) de espectadores, um quarto lugar nos filmes brasileiros mais assistidos de todos os tempos. 

Boa noite amigos, 

Vi os dois primeiros filmes nacionais da série “Minha Mãe é uma Peça”, em que Paulo Gustavo, inspirado em sua própria mãe, encarna a Dna. Hermínia e sua problemática familiar e fui ao cinema com a expectativa de que veria “o mais do mesmo”. Não acreditei que a história da divorciada senhora de classe média, às voltas com a educação dos dois filhos adolescentes, pudesse ter rendido uma terceira temporada. Minha expectativa, porém, não se confirmou. O terceiro longa da série surpreende e supera os dois anteriores. É mais engraçado, os recursos utilizados são bem superiores, o andamento do roteiro é dinâmico e interessante, a ponto de não permitir ao espectador marasmo ou cochilo. A emancipação dos filhos que deixam a casa materna para viver suas próprias vidas, longe da tutela da mãe, a solidão da casa vazia, o casamento dos dois filhos, um dos quais em união homoafetiva, a preocupação com o nascimento e o futuro dos netos  são os pontos fundamentais que movimentam e atormentam o cotidiano da nossa protagonista, envolta nos seus indefectíveis bobes. No entorno do fio condutor do roteiro, a proximidade do ex-marido que passa a viver em apartamento ao lado e tenta dividir a preocupação com os filhos,  os arranca-rabos com as irmãs e a coragem para enfrentar os preconceitos sociais e difundir o amor entre os membros da família, em quaisquer circunstâncias, geram ensejo para discursos ideológicos contra a direita radical, a burguesia falsa e tradicional, e as posições da Igreja em relação às uniões fora do casamento e os recursos disponíveis pela tecnologia para a criação de filhos adotivos ou biológicos. Filme também enfatiza à reiteração do amor de Paulo Gustavo pela mãe inspiradora e faz inédita homenagem ao pai.  E ao marido, o médico Thales Bretas,  com quem o artista  mantêm um casamento aparentemente sólido e com o qual divide a criação dos dois filhos. Tudo isso retratado nos ótimos créditos, no final do longa. Para se divertir, esquecendo as preocupações. Se você for da classe média, tem mais de 50 anos, não fala inglês,  mas tem dinheiro para viajar para os Estados Unidos e frequentar lugares sofisticados, está reciclando os conceitos e valores que aprendeu com seus pais e avós e tem horror aos excessos do politicamente correto vai se ver no filme. E como  gosta muito de você certamente vai gostar do filme. Então por que não ir ao cinema, né?

Abraço. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

BOM SUCESSO - BOA TRAMA NUM ANO DE LUGARES COMUNS


Boa tarde amigos,


Em imagem emprestada de gshow.globo.com., os autores Paulo

Halm e Rosane Svartman, que  não esperavam a grande recep-
tividade do trabalho entre público e crítica. A  audiência bateu
na casa dos 30 pontos na Grande São Paulo, um recorde para o
horário.
Termina hoje a novela BOM SUCESSO (Globo, 19 horas), com a morte esperada de seu protagonista, o editor de livros, Dr. Alberto Prado Monteiro.O empresário teve os seus exames de laboratório trocados com a da jovem Paloma, no primeiro capítulo. O velho dono da editora, apaixonado pela literatura e pelos grandes clássicos é que, em verdade, está condenado à morte por força de patologia grave, progressiva e letal, resultado essa comunicado à moça. Passa então Paloma a viver o drama de como irá enfrentar a doença e a morte iminente, com três filhos adolescentes para criar. Comunicada, porém,  a troca dos exames, a jovem, aliviada, decide conhecer o outro paciente que realmente é o portador da moléstia para saber como ele se sente e como pretende enfrentar essa difícil situação.  A aproximação cria entre os personagens, de classes e cultura diferentes, uma empatia que vai então trazer a vida e os dramas de cada um e das respectivas famílias  para uma zona de interface e envolvimento recíprocos. A escolha do experiente Antonio Fagundes e da atriz Grazzi Mazzafera para os papéis de Alberto e Paloma funcionou bem, na prática. O público e a crítica jogaram juntos com a dupla e deram sinal verde para o incremento na exploração da mensagem que o roteiro pretendia: disseminar grandes textos de clássicos da literatura, tratar sobre a importância e a necessidade  da educação e da cultura e de como se pode se pode viver a vida de maneira simples e lúdica,   com respeito a todas as diferenças, valorizando cada momento e o convívio com as pessoas que se ama.  “A novela fala sobre a importância de viver com a consciência de que nossos dias são finitos e únicos. É sobre saber valorizar, de forma intensa, as pequenas coisas do cotidiano” explica um dos autores, Paulo Halm. O expediente de encenações de excertos de obras e personagens memoráveis, enquanto  Fagundes declamava o texto  alusivo ao tempo, lugar e modo em que os fatos relatados ocorriam, deu uma maior colorido a essas obras e autores, especialmente para uma geração que prefere a imagem à linguagem,  e que muitas vezes tem dificuldade em vislumbrar, de forma imaginativa e abstrata, todo o clima, o sabor, o cheiro, as cores e os lugares por onde os grandes escritores nos conduzem para viagens que seus textos nos remetem.  A identificação com esses personagens centrais, mas não únicos, garantiu  o bom andamento e o interesse permanente do espectador pelo desfecho da trama em relação a cada um deles. Destaque-se, ainda, a boa atuação de todo o elenco com menções honrosas à Fabiula Nascimento, no papel de Mariana, da jovem Valentina Vieira,  como Sofia, neta de Alberto,  e de Ingrid Guimarães na pele da excêntrica atriz, Silvana Nolasco.  A novela em boa medida deixou-se contaminar pelos clichês de tantas outras, apresentando situações improváveis e principalmente a inadequada abordagem jurídica de certas relações, aspectos que mereceram acirrada crítica em postagem sobre o assunto, que fiz aqui mesmo neste blog, O conjunto da obra, no entanto, foi positivo, especialmente pela temática central que é a importância da instrução e da educação num país como o Brasil, como forma de melhorar a vida das pessoas e do papel da literatura universal de gabarito como parcela ponderável dessa mudança. De quebra não teve receio de enfrentar o tabu da morte, vista como uma forma natural de fechamento do ciclo da vida, que deve ser encarada de maneira serena e tranquila, sem traumas para quem vai e para quem fica.   

Até mais amigos, 



domingo, 19 de janeiro de 2020

LITERATURA - A SAIDEIRA DE BARBARA GANCIA.



Boa tarde amigos,

Imagem de capa do livro elaborada pelo Departamento de

Criação da Editora Planeta do Brasil e foto de Eduardo -
Knapp.

Quero recomendar o livro A SAIDEIRA, da jornalista Barbara Gancia, cujo subtítulo é “Uma Dose de esperança depois de anos lutando contra a dependência”. O livro, lançado em 2.018 pela Editora Planeta do Brasil Ltda. está na 4ª. edição, e nos primeiros capítulos relata a infância e a juventude da autora, uma mulher especialmente inteligente e sensível,que tomada pelo vício do álcool e do fumo, desafiou a burguesia paulistana e seus conceitos. Num processo de auto-degradação, Bárbara destruiu veículos e se envolveu em inúmeros acidentes, um dos quais lhe custou a visão de um dos olhos, expondo os irmãos, os pais, os amigos e as companheiras com quem manteve relacionamento amoroso, a situações vexatórias e perturbadoras. Mesmo relatando esse triste processo de auto-destruição, a autora recheia o relato com situações curiosas, pitorescas, engraçadas, mercê do denunciado humor atávico[1], de seu talento e sensibilidade para a escrita, provocando no leitor certa piedade,  mas também leveza e diversão. Aliás, curiosamente, conquanto sua vida pessoal, familiar e amorosa ia se afundado em perdas seguidas e decepções, graças ao abuso do álcool, droga e fumo, conseguia manter relativamente estável os seus vínculos com os mais tradicionais e conceituados jornais e revistas, pelos quais divulgava seus conceitos e visões, graças à tolerância de editores, chefes e amigos, que tentavam extrair dela, no dia seguinte à esbórnia (e o dia seguinte eram todos os que se seguiam ao anterior), o cumprimento de suas obrigações. Na Folha de São Paulo está há 32 anos, dos 62 anos atuais e conseguiu apresentar com o repórter esportivo Silvio Luiz, o programa esportivo Dois na Bola,  que foi ao ar durante 10 anos na Bandnews. Nos capítulos posteriores há relato de seus vexames, crises, culpas, impotência etc., e litígio com astros e políticos de renome, relato de processos que seu jornal e ela própria sofreram pelas denúncias que fazia,  suas tentativas frustradas de abandonar o alcoolismo e  o  processo de superação, com as internações seguidas e  a adesão ao grupo dos Alcóolatras Anônimos, instituição que defende veementemente e com conhecimento de causa, nos embates públicos que manteve com psiquiatras e psicoterapeutas de renome e  nos encontros e palestras que passou a proferir em todo o Brasil. Barbara não se diz curada, porque reconhece que o alcoolismo é uma doença incurável e que necessita de tratamento. E que o horizonte de cada um que padece desse mal é sempre o hoje, o cada dia.  Sobre a obra, escreveu o escritor Ruy Castro, amigo da escritora de longa data e que também passou por um processo sério de tentativa de superação do alcoolismo: “Há pessoas cujas vidas imploram para ser escritas. O problema é que, para que isso aconteça, essa pessoa precisa estar viva. E Barbara Gancia preferia flertar com a morte, a bordo de copos e mais copos e ao volante de carros suicidas. Em sua fase esbórnia, Barbara viveu vários filmes de ação, cheios de alçapões invisíveis, quedas no abismo e ataques de ratos. Mas nenhum tão emocionante quanto sua luta pela sobriedade. Um dia, finalmente, depois de muitas recaídas, Barbara conseguiu parar a história. O resultado é A Saideira, um livro que só ela poderia ter escrito. E cuja leitura encerra lições para todos nós que, tantas vezes, achamos que os prazeres que a vida nos oferecia estavam sendo dados de graça”. Bem mais um livro de auto-ajuda muito em moda? Sim, sim, mas não só isso, evidentemente. Uma obra bem escrita que denuncia preconceitos e desrespeito a direitos humanos das minorias, a corrupção e a política que se pratica no Brasil, os privilégios, o abismo social, a hipocrisia da burguesia, enveredando aqui e acolá pelas universais e eternas questões do existencialismo, que a cada faixa etária cada ser humano busca responder para si e para o seu mundo.
Uma leitura interessante para todos os gostos e obrigatória para quem necessita de ajuda na busca de superação do alcoolismo e outras doenças da compulsão.

Até mais amigos.
           




[1]Sou uma mulher engraçada, rodeada por pessoas hilárias. O humor é um valor venerado na minha família, sempre tão dada à desenvoltura social. Significa elegância,  leveza e reflete uma filosofia cheia de sabedoria. A vida é isso, e não muito mais, drama existencial não vai mudar o fato de que somos todos tão perecíveis quanto um pastel de palmito.”  (Capítulo GRAÇA E DESGRAÇA, p. 75.)