sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

UM CONTO: PRESENÇA DE ANITA.

 

Boa tarde amigos.


O funcionário que limpava o banheiro parou para olhar a cor amarelada dos meus olhos e das minhas lágrimas,  que ficaram marcadas no papel-toalha disponível, com o qual os enxuguei. Absorto, deve ter pensado com seus botões: “que raio é isso?” De soslaio, percebi a estranheza do rapaz e quis sacanear. Há menos de quinze minutos deixara o consultório do meu amigo Cleso, oftalmologista, que durante a consulta de rotina utilizara um colírio de cor amarela,  indicado para verificação da pressão ocular e para diagnóstico de lesões do segmento anterior do olho. É estéril e logo o colorido, lavado simplesmente com água, desaparece. Lembrei-me que na semana anterior havia visitado meu gastro, com quem estava em falta por causa do afastamento imposto pela pandemia. Queixei-me de algumas supostas irregularidades no material decorrente de minhas evacuações e ele, além de mandar a secretária preencher a guia do plano de saúde para a minha adiada colenoscopia, que agora eu faria “na marra”, como deixou claro, com o seu silêncio revelador, me mandou tomar, por três dias, um vermífugo chamado Anitta. Os comprimidos têm a cor amarelada pela utilização, na fórmula do medicamento,  de elementos com essa coloração e, por isso,  durante o uso pelo paciente,  a urina apresenta-se fortemente amarelada ou num amarelo-esverdeado.  A cor volta ao normal após a cessação do uso. Voltando àquele cenário do banheiro fiz de conta que ignorava  a curiosidade do jovem faxineiro. Entrei num dos mictórios e urinei. A urina, ah, saiu bem amarela, como acontecera naqueles dias. Não dei descarga, de propósito. Logo que deixei o mictório, o moço entrou para limpar e deu de cara com aquela urina que, como as lágrimas que saíram dos meus olhos e mancharam o papel-toalha, era intensamente amarela. Voltei imediatamente e me desculpei pelo fato de não ter dado descarga. O rapaz só observava e não dizia palavra. Mas, à medida em que eu me aproximava ele recuava. Sua feição misturava surpresa, curiosidade e temor de que eu pudesse estar contaminado por alguma doença estranha e letal.  Voltei a ele e disse sorrindo: - Presença de Anitta. Lavei as mãos e saí. Certamente ele não entendeu nada. Pode ter pensado na cantora Anita, mas e daí, que relação havia entre a sensual artista e as lágrimas e urina daquele misterioso senhor? Não, não tinha idade para ter assistido a minissérie que consagrara a atriz Mel Lisboa. E nem poderia imaginar que um remédio para vermes podia se chamar Anitta. Com dois “tes”, ainda.  Mais ou menos na base do  “que teria a ver o cu com as calças?”

Forte abraço amigos e um feliz e iluminado Natal. 

    

 P.S. A imagem da coluna de hoje é da atriz Mel Lisboa, protagonista da minissérie global "Presença de Anita" exibida no ano de 2.001.

 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

UM MUNDO COM OU SEM QR CODE

 Boa tarde amigos.

Estava cá pensando com os meus botões: os seres humanos, desde o aparecimento do homus sapiens foram divididos em diversas categorias, segundo o critério ou objetivo. Já fomos homens e mulheres; orientais e ocidentais; brancos, negros e amarelos; suseranos e vassalos; livres ou escravos; nobres e plebeus; nacionais e estrangeiros etc. etc. e tal. Atualmente, sinto que o mundo está dividido entre os que têm e os que não têm um tal de QR Code[1].   As publicidades na TV ou de outra mídia convocam a gente para abrir o celular e apontar para esse quadradinho sujinho (o QR code), com a advertência de que depois ele fará   o contato e a leitura bem rapidinho. E aí eu posso gozar de certa suposta vantagem. Digo suposta porque vivemos no mundo das (ou dos, não sei) Fake News e “gente de idade”, como eu e como se dizia no meu tempo, mergulhado na ignorância do revolucionário mundo cibernético e, por isso mesmo, desconfiado de tudo e de todos, como convém aos ignorantes que se julgam espertos, não acredito nem no que vejo, ou no que me dizem. Tive a oportunidade de assistir pela TV, em tempo real, a descida do homem à lua em 20 de junho de 1.969,  com 17 anos de idade. E a minha admiração de jovem se juntava  ao temor do Gilberto Gil que compôs para Elis cantar, o seu Lunik 9. A letra começava com a contagem regressiva para subida do foguete que conquistou a lua e terminava dizendo “... /A mim me resta uma tristeza só/ Talvez não tenha mais luar, para clarear minha canção/ O que será do verso sem luar/ O que será do mar, da flor, do violão?.    E a avó da minha mulher, até a sua morte mais de 30 anos depois, me garantia que aquilo era mentira, era montado, jamais alguém chegaria até a lua. Pois é, atualmente o que me enche as pimbóias é o tal do CR code. Com a pandemia e a mania de não poder tocar em objetos, não temos em grande parte, os menus físicos nos bares e restaurantes.  Só se pode saber o que a “casa” oferece se você estiver munido do celular e conseguir ler no QR code. Eu, se estou sozinho ou com amigos que também não conseguem  viver no mundo desse quadradinho, dessa casinha,  vou no velho truque. Olho para os garçons e vejo qual deles me transmite sinceridade e confiança. Chamo-o delicadamente e vou deitando conversa: - Ô meu amigo eu nunca vim aqui. Não tenho jeito para escolher  o que comer. O que o senhor me recomenda? Coisa do tipo  “prato carro-chefe da casa”. E não dá outra. Sem ler naquela coisa para encontrar o cardápio e tentar adivinhar o que pedir, correndo o risco de me dar mal, garanto ao amigo que sempre me saí bem. E assim vou vivendo e me virando enquanto não substituírem os garçons, de uma vez,  por robôs ou algum expediente que possa dar informação esteriotipada sobre a qualidade da comida da casa. E me obrigar a pedir pelo tal QR Code ou alguma outra coisa que o substitua. Ah, entendi! Por isso que de vez em quando o pessoal lá de casa fala que eu ando meio “fora da casinha”. Será que é por fora do QR Code?

 

P.S. (1) Procurando uma das abotoaduras para usar no casamento do Gabriel Brocchi, me deparei com uma antiga que eu comprei em Orlando, nos Estados Unidos há anos. Até assustei porque elas tinham exatamente o formato e o desenho do QR Code. Vejam as imagens que fotografei para a coluna de hoje.  Visionários os criadores, não?

 



[1][1] Segundo o Google, “O QR Code ou Código QR é uma espécie de gráfico em 2D (dimensões), geralmente apresentado em formato quadrado e com as cores preta e branca. A tradução das letras significa Quick Response, ou seja, resposta rápida. Essas “caixinhas” podem ser escaneadas por meio de tecnologias móveis.”

domingo, 24 de outubro de 2021

SERÁ?

 

   Boa noite amigos,


Os parcos fios de cabelos ainda negros, por teimosia do destino ou raça ruim, como diria a minha avó, totalmente revoltos e amassados pelos atritos constantes com o travesseiro, em várias direções, durante as tertúlias e embates que povoam os meus pesadelos das madrugadas, surgem todas as manhãs no meu espelho, no qual confiro sistematicamente os estragos do dia anterior e do tempo sobre a minha pele. Há tempos que apesar do desalinho absoluto desses ralos fios, que se embaraçam sem lógica, nem direção, no alto da cabeça, surge o desenho claro de um ponto de interrogação (a conferir nas imagens desta postagem).  Uma interrogação que já ganhou uma incrível autonomia em relação ao resto de mim e um significado que ainda estou procurando. Estaria ele a me indagar acerca de quem sou realmente? Estaria a me  lembrar que a minha vida, a partir daquela manhã, como em todas as manhãs que se avizinham,  anunciam mais um dia incerto?  Estaria a ilustrar que a minha e a sua vida estão condenadas à busca de respostas para todas as contingências inevitáveis que nos aguardam para o futuro, para as quais não adianta se preparar?  É  “O que será, que será, que todos os avisos não vão evitar....” na alegoria de Milton Nascimento e Chico Buarque? Será  amor? Indagam jovens e velhos em todos os tempos e lugares ao buscar explicação no gesto ou ternura do outro e na busca pela duvidosa existência desse sentimento tão abstrato, quanto polêmico, como fugaz? Fugaz? Será fugaz mesmo? Existe amor eterno? 


 Ah, será que é mentira ou é verdade? Taí, verdade ou mentira que se tornaram relativas e aborrecidas, mais um dilema criado pelas redes sociais, diminuindo a nossa possibilidade de separar o real dos fake news espalhados pelas mídias.  Minha filha logo me comparou com o Nino, personagem principal do seriado infantil “Castelo Rá Tin Bum”, que também trazia um ponto de interrogação formado com fios de seu cabelo. Vasto, diferente do meu. Fui pesquisar a respeito do personagem do ator Cássio Luiz de Souza Scarpin, que eu não conhecia. E imaginei uma certa explicação que viria de um terapeuta: - Se o Nino era um bruxo, que viveu 300 anos e por causa dessa idade não era aceito em escola nenhuma o ponto de interrogação pode significar um certo estranhamento seu com a consciência da velhice e o medo de ser rejeitado. Sei não? Nem arrisco.  E o nosso Bruxo do Cosme Velho, danado, que morreu sem revelar se Capitu traiu Bentinho ou a traição foi apenas uma dúvida, uma mentira, uma suposição falsa que a mente, culpada  por algum motivo, Bentinho enfiou na cabeça?  E assim caminha a minha imaginação sobre o enigma do tal ponto de interrogação do alto da minha cabeça todas as manhãs. Um “Será” cipoal de hipóteses que perpassa todos os dias e as noites, por quaisquer razões ou dúvidas, relevantes ou não, assim como todas as outras que trazemos desde o berço: Será que existe o inferno? Será que o inferno é o outro? Será que existe a reencarnação? Onde será que está agora o meu amigo que sumiu da minha vida? Será que ele volta? Será que é amigo?  Será que mentira? Será que é comédia? Será que é divina, a vida da atriz? Será que é cenário a casa da atriz?  Será Beatriz? Será Edu Lobo?  E será que adianta procurar uma cigana para saber o futuro?  Premonição ou charlatanismo?  Passo a escova bem firme pelo bendito ponto de interrogação. Mas ele insiste em não se desfazer. Apelo para a torneira. Passo sobre ele a mão molhada. Ele resiste. Eu aperto, aperto, aperto até fazê-lo desaparecer molhado e amassado sobre a calvície do meu “cocuruto”. Ritual de vingança e destruição a que o submeto, sádico, todos os dias.  Saio então para a rua. Vou ao café. Será que vou encontrar um amigo, ou uma alma iluminada para contar a história do meu incômodo ponto de interrogação? E será que aquele amigo, sabichão como o julgo, versado em todas as áreas do conhecimento, terá como me explicar o sentido do desenho? Ou a sua falta de sentido, sei lá?  Ah, minha avó, aquela do começo desta reflexão, essa eu posso adivinhar o que ela diria, sem dúvida alguma, se eu me atrevesse a lhe falar a respeito.  Olhando fixamente nos meus olhos,  de forma grave e objetiva, responderia com outra pergunta: - Escuta, você não tem o que fazer? Vai trabalhar, porra!

 Boa noite amigos.

P.S.(1) A primeira imagem compara a minha interrogação com a do personagem Nino do seriado infantil Castelo Ra Tin Bun;

P.S. (2) A segunda imagem simula entre as imagens ponto de interrogação como se usa na língua espanhola.

sábado, 16 de outubro de 2021

MAIS UM DIA DEDICADO AOS PROFESSORES - HOMENAGEM À DONA SUZETE

Boa tarde amigos.


Eu a encontrei anteontem por acaso. O mesmo acaso que me fez reencontrá-la, em duas outras oportunidades distintas, nos últimos cinco anos. Uma na sala de espera de um banco, no Cambuí; outra no restaurante Estação Mogiana; agora, na véspera do dia dos professores,  na padaria do shopping da Riviera de São Lourenço, em Bertioga, zona norte do litoral paulista. A sua expressão jovial,  os seus olhos de um azul brilhante e o  sorriso largo continuam belos e inconfundíveis,  a despeito do longo tempo decorrido desde o ano de 1963 quando, com apenas 24 anos de idade, ela passou a lecionar Geografia no Colégio Estadual Barão de Ataliba Nogueira, no bairro do Taquaral, em Campinas. Extremamente rigorosa, exigia disciplina e aplicação de seus alunos, dentre os quais, euzinho, um menino de 11 anos, miudinho,  tímido e preocupado em atender  as exigências do curso ginasial, sem prejuízo do auxílio que eu e meu irmão deveríamos prestar aos nossos pais, no comércio que nos mantinha.  Numa das aulas, como sempre,  entrou e fez chamada. Em seguida, passou a cobrar dos alunos, carteira por carteira, a entrega de um trabalho de pesquisa que tinha encomendado na aula passada. Eu, doente, acabei me  ausentado da aula anterior  e não fiquei sabendo da tarefa. Em consequência, não a realizei. Conforme ela se aproximava assustado, pensava como iria pretextar pela ausência no cumprimento do dever de casa. Não tive muito tempo, nem imaginação. E havia ainda a questão que eu não gostava de mentir, porque a professora de catecismo garantia que era pecado grave. Quando em pé, na minha frente, ela esticou a mão direita, cobrando o exercício, depositando sobre minha pequena pessoa aqueles arregalados olhos azuis, disse, em tom baixo o suficiente para que meus colegas não ouvissem, que não realizara o realizara porque tinha faltado na aula anterior e “ninguém”, isso mesmo, “ninguém”, tinha me avisado. Ela recolheu as mãos, me olhou fixamente com olhar de reprovação e disparou: - Ah, ninguém avisou o senhor?  E quem é que o senhor pensa que é, o rei da Inglaterra? Todos os colegas obviamente ouviram a bronca; alguns, cruéis, riram para aumentar a minha vergonha.  Limitei-me a pedir desculpas, em meio à promessa de que a ausência do trabalho refletiria na minha nota final. Sonhei durante muito tempo com Dona Suzete me mandando para uma grande fogueira. Ela, vestida de bruxa, em meio a gargalhadas tenebrosas, gritava, enquanto o fogo me consumia: - Você pensa que é o rei da Inglaterra? Vire-se agora. Entendi cedo o recado. Foi a descompostura mais pedagógica que recebi. Ela me ensinou que nada somos nesta vida, que temos que ter humildade, que precisamos correr atrás dos nossos interesses; que ninguém tem o dever de nos comunicar a respeito do que aconteceu ou deixou de acontecer, quando deveríamos estar presentes e não estávamos, por qualquer razão que seja; que não temos o direito de invocar dificuldades de ordem  subjetiva, por mais inevitáveis que sejam, para justificar a ausência no cumprimento de nossas obrigações. O tempo passou. Fiquei surpreso quando soube circunstancialmente que um advogado que eu conhecera era casado com a Dna. Suzete. Isso por volta de 1987, quando eu já era juiz substituto em Campinas. Soube depois que ela ficara viúva, ainda relativamente jovem. O marido contraíra uma doença grave, não sei bem se era um câncer, e rapidamente falecera.  Nunca mais reencontrei Dona Suzete até cerca de cinco anos  num banco da Rua Coronel Quirino. Logo a reconheci; ela, obviamente não. Mas se mostrou muito alegre em reencontrar um ex-aluno. Contei a ela  do episódio que me marcara para toda a vida. Ela ouviu, meteu as mãos sobre os olhos fechados,  num gesto próprio de quem está envergonhado. E justificou, pedindo desculpas pela grosseria,  garantindo que a sua intolerância  naqueles tempos tinha ficado para trás e devia ser debitada à conta de sua juventude. Com a maturidade, porém, havia se tornado uma pessoa mais flexível e mais doce. Realmente, era possível sentir essa doçura quando  falou dos filhos e dos netos; do marido que cedo se foi, deixando-a com os filhos, ainda não criados; dos colegas de docência e da vida em geral. Voltei a reencontrá-la no Estação Mogiana, uma churrascaria muito concorrida da cidade de Campinas. Estava com a irmã e pouco pudemos conversar. Anteontem ela estava sozinha e eu lhe apresentei minha mulher, minha filha, meu genro e meu netinho Rafael, de 9 anos. Ele ficou curioso ouvindo a nossa conversa e  lhe contei que ela tinha sido minha professora quando eu tinha 11 anos e me deu uma bronca, porque não fiz um exercício. Ele sorriu para ela e olhou para mim com olhos de censura. Rimos muito. Aos 82 anos de idade, Dona Suzete é uma lenda para mim. Saiu dali sorrindo, agradecendo a vida, a vacinação, a possibilidade de retorno aos encontros, mesmo com máscara e da viagem para a praia, onde se encontra acolhida em casa de uma irmã, aproveitando, como enfatizou, “para cozinhar para todo mundo”, uma paixão que adquirira há não muitos anos. De minha parte já não tenho mais os terríveis pesadelos da juventude com a bela professora de Geografia me punindo com o inferno por não ter realizado um exercício. Nem lamento por não pertencer à família real inglesa. E que ninguém é ninguém e não pode ser culpado de nada, nunca, por nós. Porque o único sujeito ativo determinado nessa sucessão de pronomes como “ninguém”, “nada”, “nunca”, somos “nós”, certo? E que devemos assumir as consequências de nossas ações, omissões e escolhas que fazemos na vida, pelas quais somos os únicos responsáveis. E ir corrigindo, sorrindo, pois é  vida que segue.....

Afetuoso abraço amigos. 

 

 

 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

AVES DO BRASIL - UMA EXPOSIÇÃO DE GUILHERME COTEGIPE.

 

Amigos boa tarde,


Guilherme Cotegipe Amâncio é um querido amigo desde a nossa adolescência, já perdida na noite dos tempos. A história dessa amizade e de Amâncio, como nós sempre o chamávamos, assim como sua incursão pelas artes plásticas, pode ser lida na postagem de 30 de setembro de 2.013, deste blog, denominada “A arte de Guilherme Cotegipe”. Vale a pena dar uma espiada lá. Guilherme participou, recentemente, on line, de uma Exposição na Noruega, cujo tema foi “The World has stopped and the nature thanks you”  (O Mundo Parou e a Natureza Agradece), em alusão ao afastamento social imposto pela pandemia da Covid-19, expondo suas telas (vide certificado na imagem ao lado). Após essa relevante experiência, montou um projeto educativo artístico e cultural que foi batizado de “Aves do Brasil”, uma exposição que pode ser solicitada por instituições de ensino público e privado, que nas suas palavras tem o “o objetivo de levar aos jovens o conhecimento e a conscientização da importância da preservação ambiental, além de levá-los a conhecer a rica fauna brasileira, especificamente a ornitologia dos diferentes biomas do Brasil.” Os interessados podem fazer contato com o artista pelo celular-Whatsapp (19) 993349941. Na imagem que segue, parte da exposição, o autor mostra quais são as aves-símbolos de cada estado brasileiro. Convoco outro amigo especialista em natureza e, sobretudo, um ornitólogo apaixonado, que se apresenta como passarinhista praticante e juramentado, Rubens Galdino Ferreira da Silva, o Rubinho (Indaiatuba- São Paulo),   a dialogar com o autor,  trocando experiências certamente enriquecedoras para ambos.  Contato pelo telefone (019) 38944543 ou (019) 997444192, Grande Amâncio, grande Rubinho! Abraço apertado a ambos. 



 Até mais amigos.

domingo, 29 de agosto de 2021

TEMPOS MODERNOS: O OUVIR EQUIVOCADO, O USO INADEQUADO E AS REPRODUÇÕES INEXISTENTES NO LÉXICO DA LÍNGUA PORTUGUESA.

 

Boa noite amigos,


Não precisa ser velho, com elevado déficit auditivo para que o nosso cérebro, muitas vezes,  faça a leitura incorreta da audição.   Aquela velha surda, personagem do antigo humorístico televisivo  A Praça da Alegria, do saudoso Manoel da Nóbrega e, depois, de  A Praça é Nossa, de seu herdeiro e filho, Carlos Alberto da Nóbrega, se popularizou e, assim, se tornou um ícone,  em função dessa possibilidade que, como eu disse, não é exclusiva dos deficientes auditivos. E que, em função disso, a nossa memória acabe gravando frases inteiras ou expressões isoladas erroneamente.  Lendo constantemente, por força das minhas carreiras de juiz, advogado e professor de Direito, escritos de advogados, Promotores, clientes e alunos, conservo ainda na retina, um rol de expressões incorretas e engraçadas. Algumas reproduzidas inúmeras vezes, o que comprova a tese de que tanto o certo, quanto o errado, em tempos de redes sociais, se espalham como pólvora. Dezenas de vezes ouvi o registro da expressão “é ponto passivo” no lugar de “é ponto pacífico”[1]:  O estagiário ou advogado que não muito familiarizado com os inventários da vida, pede ao cartorário o “formol de partilha”, em vez de “formal de partilha”. Ouvi dizer (não vi, nem li) que um Juiz do Trabalho Classista, erigido à condição de Desembargador de um Tribunal Trabalhista, lá pela década de 80 do século passado, durante uma sessão pública de julgamento, teria dito que o reclamante não se desincumbira do “ânus da prova” pretendendo, na verdade, referir-se a “ônus da prova”.  Ah, mas li muitas vezes, em tempos de máquinas de escrever, mas também de computadores, a palavra “peido” no lugar de “pedido”, bastando para tal que se tenha engolido o “d” que vem antes do “i”. E olha que “pedido” é um termo constantemente usado na linguagem forense escrita e falada. Se ninguém, na linguagem oral, diz peido quando quer dizer pedido,   pode perfeita e inadvertidamente anotar, em petições não revisadas depois de elaboradas, a expressão, pensando ter anotado “pedido”. Ouvi algumas vezes advogados nervosos, forçados pelo Magistrado (no caso euzinho),  a elaborar suas razões finais orais e  em plena audiência, limitarem-se a pronunciar, a esse título, a seguinte e lacônica frase: “Excelência, o autor reintera a inicial”. Hum, Reintera? (O verbo é reiterar). Infinitas vezes li e ouvi que “o réu reconviu” por “reconveio”, a lei vigiu, ao invés de “viger”, assim como vigindo em lugar de “vigendo”. Orações como “A  polícia deteu o réu”, no lugar de “deteve” e outros equívocos que, se devem ser censurados de todos os que possuem curso superior, dentre os quais engenheiros e médicos, são absolutamente imperdoáveis no Bacharel em Direito, no advogado, no Juiz, no Promotor, no Delegado, os quais têm como instrumento principal do exercício da função, a palavra escrita, a correção da linguagem, a comunicação direta, objetiva,  culta e adequada. Pois é. Há ainda “invenções” que se espalham prodigamente e se lê em petições, arrazoados e Acórdãos  aos montes, como “Inobstante” no lugar de “não obstante”[2] ou “nada obstante”, além da permanente dúvida sobre quando usar “onde”  ou “aonde”[3]. E o que dizer das intermináveis dúvidas sobre o uso da crase. Quanto a esta felizes os ingleses que não precisam se preocupar com acentuação para distinguir palavras homônimas, ditongos ou hiatos e essa tal crase com a qual muitos tem uma verdadeira relação de amor e ódio.[4]

Abraço amigos e bom domingo.



[1]  Por exemplo: “Saiba Vossa Excelência que o réu sempre foi bom pai e bom marido. Isso é ponto passivo...”

[2] O Dr. José Maria Costa, meu colega primeiro colocado no 153º. Concurso de Ingresso na Magistratura do Estado de São Paulo, professor de Língua Portuguesa, oferece completa explicação sobre essa praxe forense no uso do termo “inobstante”, respondendo a uma das indagações no tradicional jornal eletrônico forense “Migalhas”. Conferir se tiver interesse no site https://www.migalhas.com.br/coluna/gramatigalhas/29791/inobstante

[3] Sobre a diferença entre as expressões e quando deve ser utilizada uma e outra cf. excelente artigo em  https://ead.uri.br/blog/aprenda-usar-onde-aonde

[4] Há os que resolvem crasear todos os “as” sejam meros artigos femininos, sejam isoladas preposições ou a junção de ambas. Outros que preferem ignorar completamente a sua existência na língua portuguesa.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

LITERATURA - CRÔNICA DE BERNARTZ & BERTRAN

 

Boa tarde amigos, 

O mais recente romance de Luiz Carlos Ribeiro Borges, “CRÔNICA de BERNARTZ & BERTRAN”,[1] é uma obra cuidadosamente elaborada, como adverte o autor no prefácio, tecida a partir de duas dentre as suas confessadas paixões: a Provence do sul da França e a obra dos trovadores medievais, que criaram e cantaram as líricas trovas de amor, trazendo poesia, vida e luz à escuridão da Idade Média, marcada pelo teocentrismo e pelas delações, perseguições, condenações sumárias e execuções da Igreja Católica Apostólica Romana[2]Protagonistas reais do romance, com o único traço comum da notoriedade e reconhecimento como grandes trovadores que foram, Bernart de Ventadorn e Bertran de Born, dão título ao livro e têm os seus currículos explorados com apoio nas inúmeras pesquisas e obras consultadas pelo autor. Mas o caráter biográfico da obra fica por aí. A partir da notícia de que ambos os trovadores teriam se recolhido, numa mesma abadia, em Dalon,  por volta do ano de 1.195,  onde o primeiro se tornou monge, o autor supõe razoavelmente que eles teriam se encontrado e, a contar dessa probabilidade e de como teria sido esse relacionamento breve[3], cria o romance, construindo todos os outros personagens fictícios, com os quais os notáveis trovadores  teriam dividido uma convivência, ora harmônica, ora tensa e difícil, às vezes próxima, outras de distanciamento, num  mundo de desconfianças, medo e perseguições, que marcaram o obscurantismo da Idade Média e o desenvolvimento das várias correntes filosóficas então contemporâneas ou anteriores, voltadas para o homem, sua origem e finalidade[4]

 

Os diálogos são primorosos e cada um dos personagens fictícios foi construído e se conduz, no desenvolver do romance, em consonância com as bases da doutrina que professa ou censura, fidelidade que agrega ao romance, além da beleza estética, um apreciável valor pedagógico e histórico no que respeita aos precursores das doutrinas que deram vida às correntes filosóficas suscitadas.

 

Ao leitor é lícito supor que as reflexões a que se permitem os personagens, oriundos que são de mundos e experiência diversos, a par de enriquecedoras, por certo também revelam muito do próprio autor, na busca da compreensão pelo que seja a natureza humana, a finalidade e o destino do homem e, especialmente, as facetas do amor, nas suas diversas manifestações, não o amor platônico apenas, não só o amor divino, não só o amor de pai, de mãe,  mas também, dentro dessa natureza humana animal,  a legitimidade do amor-paixão, breve, arrebatador, real ou onírico e  o sexo perseguido como expressão única de prazer mundano, inevitável, buscado sem culpa ou pecado, como mera expressão hedonista[5].                               

Se o  livro é a viagem de quem perdeu o trem, ou que não tenha recursos para viajar, Borges, na sua desenvoltura para criar e conduzir o leitor pelo romance, vai apresentando os personagens,  inserindo-o  no  cotidiano deles, contando a sua história passada e revelando em que medida agora são  eles reflexos da experiência amealhada, do seu caráter, dos seus temores e conflitos, e bem assim, as suas dúvidas entre dedicar-se ao recolhimento monástico ou retornar à vida secular.


 Não é difícil, assim, compartilhar da loucura de Serapião, dos temores de Quirino, das informações do bibliotecário Isidoro, do monge Honorato, do abade Prudêncio e suas predileções pelos escritos apologéticos dos primeiros anos de Cristianismo e de tantos outros personagens com quem os trovadores se  cruzam no convívio da Abadia.

 

Por fim, viajando no tempo, o romance, até então contado, em primeira pessoa, pelo trovador Bernartz, com suas visões e impressões, vai  encontrar   nosso escritor, inserido no mundo moderno do século 20, transmitindo as suas conquistas e frustrações, num ensaio acerca do tempo, seus efeitos inexoráveis sobre a saúde física e mental, reproduzindo, assim,  os mesmos questionamentos que acompanham o ser humano, desde o aparecimento da sua espécie (o homo sapiens), vida e morte, a religião e seu papel e influência nas sociedades de todos os tempos,  amor e sexo, o sexo sem amor,  as virtudes e os pecados, os valores,  a transcendência e a finalidade do homem.

 

Aqui também, como em obras anteriores, Borges volta a uma de suas   temáticas prediletas: a natureza e o  poder do sexo sobre os homens e seus destinos, o  fascínio pelo enigma da mulher e seu poder de sedução e perdição, aproximando-se,  nesse particular, de  um dos elementos presentes na poesia de Vinicius de Moraes[7].

 

Há também, acredito, um certo fascínio por figuras reputadas marginais, ontem e hoje, que desafiam os costumes e valores sociais e morais, revelando a coragem e a possibilidade de alternativas de vida condicionadas apenas às suas próprias convicções e vontade.

 

A despeito de temas pesados e profundos, Borges consegue dar leveza e seguimento ao romance, sem gerar no leitor um fastidio ou cansaço,  mantendo-o envolvido com os personagens e os acontecimentos e a curiosidade pelo desfecho dos conflitos que essa interação provoca, outro aspecto marcante na obra.

 

Em síntese, uma obra que, adjetivada como ficção, um romance, é muito mais que isso e pode aparecer como indica o catálogo como relativa à poesia Medieval, os Trovadores, ao Trovadorismo, à Filosofia, além da biográfica com relação aos protagonistas, os notáveis trovadores, Bernardt de Venadorn e Bertran de Born.

 

Como todos os outros livros do autor não é obra com apelo popular ou comercial. Mas como disse um dia o escritor Manuel Carlos sobre Elis Regina: “Elis (substituo por Borges) não faz obra para o público; faz público para sua obra”. E se me permite o autor sem qualquer envolvimento da estima que nos une há muitas décadas, peço que me admita, modestamente, como fiel integrante dessa  última categoria.

 

Até mais amigos,



[1] Borges, Luiz Carlos Ribeiro. Crônica de Bernartz e Bertran/Luiz Carlos Ribeiro. – 1ª. Ed. Campinas (SP). Pontes Editores, 2020. 252 p.

[2] “Para suprir essas conversações, tive que empreender uma leitura, tão vasta quanto permitiam as minhas limitações: sobre as ideias teológicas, filosóficas e estéticas que vigoravam naquele final do século 12; a paixão medieval pelos livros e as iluminuras que os ornamentavam; os autores que eram então venerados ou execrados; as escolas de filosofia às margens do conhecimento; as heresias; os fatos históricos, tanto os contemporâneos à ação do romance quanto os pretéritos, assim como aqueles, vindouros, que esses fatos faziam prenunciar (por exemplo, o crescimento da heresia dos cátaros, em constante conflito com a doutrina oficial da Igreja, poderia acarretar um desfecho trágico, como em verdade aconteceu, já no século seguinte, com o extermínio dos adeptos da heresia)” (p. 9).

[3] Leituras e pesquisas, realizadas durante a confecção do romance, viriam a revelar que Bertran realmente se recolheu à abadia de Dalon: o encontro fictício e imaginário entre os dois poetas passou a se revestir de probabilidade histórica. (orelha da contra-capa do livro).

[4]Aparentemente, apenas o abade e o bibliotecário conhecem meu passado de trovador e cortesão. Os demais habitantes da abadia nada sabem de mim, nem se interessam, imersos nos motivo pessoais de sua própria reclusão, a maioria ali tendo vindo para cumprir uma sincera vocação monástica, outros para expiar algum terrível pecado da juventude, para se isolar do mundo exterior e de suas intermináveis guerras e tentações ou simplesmente para esperar a morte.”

[5] “Para minha perplexidade, a visão portentosa de suas carnes brancas, aliada ao gesto cerimonial de verter água sobre si mesma, fez refluir rios que eu reputava secos e estéreis...... Possuído, como que estimulado por algum elixir de bruxas, pensei em atacá-la, arrastá-la para a margem, derrubá-la e me espojar sobre ela. Mas tudo se fazia muito urgente, e não havia tempo para qualquer outro gesto.” (pág. 75).

[7] “Resta essa fidelidade à mulher re ao seu tormento. Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.”  O HAVER.