sábado, 6 de agosto de 2011

ERALDO E O DIA EM QUE O BUGRÃO GOLEOU O SANTOS DE PELÉ


Amigos, bom dia.

Sentado ali na mesa mais próxima da calçada do Café Regina reformado,  ele sorri para quem passa e é retribuído. Muitos o cumprimentam com um gesto de cabeça ou com um aceno. A pele morena não permite que revele, assim instantaneamente, os 78 anos que diz ter. Certamente é figura conhecida  e benquista. Assim como faz com os outros, ele me cumprimenta gentilmente quando eu chego para tomar, quase que diariamente, aquele imperdível café de coador e troco, às vezes, dependendo do tempo disponível,  dois dedos de prosa com os conhecidos, habitués do local. Mas não sabia quem era. A semana retrasada um senhor meu conhecido, sentado ali ao lado da figura, olha curiosamente para uma foto. E virando-se para mim com o retrato na mão: - Doutor, olha aqui o Eraldo no dia em que o Guarani venceu o Santos por 5 a 1. Olhei a foto. Como bugrino orgulhoso não desconhecia que um dia o Bugre não tomou conhecimento do Santos de Pelé e meteu uma goleada histórica no Peixe, no Brinco de Ouro, ainda sem o tobogã, por esse placar mesmo: 5 a 1. Não vi o jogo pois na época eu tinha apenas 12 anos e não freqüentava estádios, nem tinha dinheiro para pagar ingresso. Olhei a foto em xerox, meio apagada. Ao lado, escrito a mão, o nome dos jogadores, na ordem em que se encontravam. Primeiro, os “em pé”. Depois “os agachados”. Mas quem é o Eraldo? Aí ele me apresentou esse senhor que costumeiramente se sentava ali, na mesma mesa, e cumprimentava todos que passavam e também a mim. Em verdade, foi uma apresentação recíproca: - Doutor – Eraldo – Eraldo-Doutor. Prazer e tal. O Eraldo estava na foto. Era quarto-zagueiro do bugre na ocasião. Pedi a ele se poderia me conceder uma cópia do foto, ao que ele respondeu prontamente que sim. Perguntei se ele poderia me dar uma entrevista para falar um pouco da sua vida de atleta e de ser humano e também daquele jogo histórico para o Guarani e para Campinas. Marcamos para o dia seguinte ali mesmo. A entrevista serviria para colocar no blog. E talvez para um projeto que eu já tenho em mente: Publicar um livro a respeito de pessoas que se destacaram em Campinas, ou saindo de Campinas, ganharam o mundo lá fora. Nome provisório: Brava Gente Campineira. Talvez. Bem, segue a entrevista e a história daquele jogo incrível:

Eraldo Correia Araújo. Nascido em Pilar, Estado de Alagoas, em 30 de março de 1.933.

O primeiro clube foi o América de São  José de Rio Preto, em meados de 1.955. Depois jogou no Clube Atlético Taquaritinga e, finalmente, no Guarani Futebol Clube, de 1.959 a 1.966, quando se aposentou do futebol com 34 para 35 anos. Ganhava bem, mas “não dava para guardar, nem investir naquela época”. Ainda tentou, sem sucesso, a carreira de treinador. Aventurou-se  como corretor de imóveis, atividade que explora até hoje, mas “o mercado está fraco e esvaziado”. Casou-se duas vezes. Vive com a segunda mulher e o filho de 21 anos, que está tentando entrar na Universidade. A aposentadoria é pequena. Mora num pequeno apartamento naquele conjunto de prédios populares ali no São Bernardo, encostado ao 2º Distrito Policial de Campinas. Relativamente bem de saúde, tem contudo artrose nos dois joelhos, o que faz com que ande com dificuldade. A vida não é fácil. Mas quando surgem as lembranças da juventude e do futebol sorri. Ah, como dizia o poeta, se não fossem as lembranças, o que seria de nós?

Em pé: Soselini, Oswaldo Cunha, Sidney, Ditinho, Ilton, Eraldo e Diogo.
Agachados: Joãozinho, Nelsinho, Babá, Américo Murolo e Carlinhos.


O JOGO SEGUNDO ERALDO: Era 18 de novembro de 1.964. Campeonato Paulista, 24ª. rodada.  Estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas. Guarani e Santos. O Estádio estava lotado. Era uma noite muito quente. Naquele jogo tudo deu certo para nós. Os gols foram saindo. O primeiro foi do Joãzinho, que era ponta direita. Esse Joãzinho era na verdade João Guedes, que foi vereador na época do Grama (o falecido Prefeito José Roberto Magalhães Teixeira). Aí eles empataram com um gol de pênalti batido pelo Pelé. Mas nós viramos: Nelsinho, meia direita fez o segundo. O Nelsinho depois jogou no Corinthians e no São Paulo. Babá, centroavante marcou o terceiro. Esse Babá era bom de bola e fez carreira em grandes clubes, jogando também no Corinthians e no São Paulo. O quarto gol foi do Américo Murolo, meia esquerda que hoje tem uma padaria em Bragança Paulista, onde reside. Finalmente, o último gol foi de Carlinhos, ponta esquerda que já é falecido, vítima infelizmente de homicídio. Aquele time do Guarani era muito bom. Além do Babá, do Nelsinho, do Américo, tinha também o goleiro, Sidney,  que hoje também é falecido que  fez carreira no Flamengo e defendeu, naquele jogo, um pênalti cobrado pelo Pelé.  A torcida ia ao delírio com a goleada. Teve muita festa depois do jogo. O Presidente, na época, era o Jaime Silva. Mas o detalhe foi o seguinte: já quase no final do jogo eu me machuquei e o Renga (o argentino, Armando Renganeschi, técnico do Guarani na ocasião),  mandou eu jogar de centroavante, deslocando o Osvaldo Cunha, que era lateral direito, para a quarta-zaga e o Joãzinho, que era ponta direita para a lateral. Perguntei se o técnico já tinha feito todas as substituições, ao que ele respondeu: Não, não tinha disso não. Naquele tempo, não havia substituição. Isso de banco de reserva só começou depois.

Alguém grita ali de dentro do “Regina” que o Eraldo era considerado o maior marcador de Pelé. Ele sorri, mas não confirma, nem desmente. Muda de assunto e mostrando surpresa, me diz: - Você sabe que o Milton Neves me chama de Eraldo Cabeção. Não sei onde ele inventou isso. Eu nunca fui chamado, nem conhecido como Cabeção. E eu arremato: Nem tem cabeça grande, pô.  Pergunto se ele acha que o Neymar pode ser considerado um novo Pelé. Ele torce um pouco o nariz e responde: - Olha, esse menino tem grande velocidade e habilidade. Mas o Pelé,sabe,  o Pelé era bom em tudo. Até na cobrança de faltas. Dificilmente vai aparecer alguém bom em todos os fundamentos do futebol. Para encerrar ele me conta uma história engraçada do “Rei”, que qualquer dia eu conto aqui, se ele me permitir.


O JOGO SEGUNDO A HISTÓRIA REGISTRADA:

Data: 18 de novembro de 1.964.

Competição: Campeonato Paulista, 24ª. rodada.

Local: Estádio Brinco de Ouro da Princesa, em Campinas, SP.

Público: 25.258 pagantes.

Renda: Cr$12.283.200,00.

Árbitro: Armando Marques.

Gols: Carlinhos, Ditinho (contra), Joãzinho, Babá, Américo e Nelsinho.


GUARANI: SIDNEI, OSVALDO CUNHA, DITINHO E DIOGO: ILTON E ERALDO; JOÃOZINHO, NELSINHO, BABÁ, AMÉRICO E CARLINHOS.

TÉCNICO: ARMANDO RENGANESCHI.

SANTOS: GILMAR, ISMAEL, MODESTO E GERALDINO; ZITO E LIMA; PEIXINHO, MENGÁLVIO, COUTINHO, PELÉ E PEPE.

Técnico: LULA.

Notas:

a) Na foto acima, de propriedade do jogador,  Eraldo ao lado do Rei Pelé e do então menino, Paulinho Pedroso, da família proprietária da Rádio Brasil de Campinas.
b) O Eraldo fez pequenas confusões sobre os marcadores dos gols naquele jogo. O Pelé na verdade não marcou nenhum gol.Nem o Santos. O Guarani fez todos os seis. Cinco a favor e um, de Ditinho, contra.
b) O técnico Armando Renganeschi faleceu em Campinas, no ano de 1.983.Foi jogador e treinador. Tinha fama de durão. Era argentino e treinou com sucesso o São Paulo e o Flamengo, dentre outros grandes clubes;
c) O Santos F. C. foi o campeão paulista de 1.964 e o Palmeiras, vice-campeão.

Até amanhã.






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