domingo, 12 de fevereiro de 2012

CINEMA - A SEPARAÇÃO


Boa noite amigos,


Confirmando a repetida afirmação de que é na adversidade que a arte se manifesta de maneira mais efetiva, o cinema iraniano tem  revelado grandes cineastas, capazes de produzir filmes profundos e sensíveis, da melhor qualidade. Comentei aqui nesta coluna a minha admiração pelo novo cinema iraniano, para o qual fui despertado por um querido amigo-irmão, o Professor, sociólogo, filósofo e escritor, Regis de Morais. Preciosidades como Um Instante de Inocência,  Cópia Fiel e Close Up, do badalado diretor Abbas Kiarostami, dentre outros, testemunham a qualidade e originalidade do cinema da outrora terra dos Xas, e atual reduto do ditador Ahmadinejad. Pois bem, o assunto hoje é um novo filme, indicado para Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: A Separação, título no Brasil e em Portugal (no original Jodaeye Nader Az Simin) do diretor e roteirista Asghar Farhadi, de apenas 40 anos. Farhadi dirigiu bons filmes, destacando-se o premiado,  A Bela Cidade (2004), Fogos de Artifício Quarta-Feira (2006)  e Sobre Elly (2.009) , com o qual ganhou o Urso de Prata do Festival de Berlim. Fui ver o filme neste sábado, aproveitando para conhecer as novas salas (já não tão novas assim) abertas no Shopping do Parque Prado, aqui em Campinas. Cuida-se de um vigoroso drama de 123 minutos, produzido no Irã, que narra toda a problemática vivenciada por um jovem casal que em dado momento decide pela separação. O motivo do rompimento seria o desejo da mulher Simin (na pele da bela atriz Leila Hatami) de ir embora do país, levando consigo a única filha do casal, Termeh  (Sarina Farhadi), de 11 anos de idade. O marido (magnífica interpretação do ator Peyman Moaadi), não quer acompanhá-la e discorda da deliberação da mulher, pois tem  que cuidar do pai velho e portador do Mal de Alzheimer,  não deseja se apartar da filha e entende que a esposa deve enfrentar os problemas com dignidade e responsabilidade e não simplesmente fugir deles.  O filme começa tenso com discussão acalorada de ambos, diante de um Juiz, utilizando argumentos de lado a lado, que possam comover o Magistrado a tomar partido e definir a pendenga, segundo a expectativa de cada um. Não tendo conseguido, porém, autorização para levar consigo a filha, Simin permanece no Irã, mas sai de casa, obrigando o marido (que nela permanece na companhia da filha adolescente) a aprender afazeres domésticos e a cuidar da filha e do pai doente. Quando ele contrata para os serviços domésticos, uma jovem que está grávida, sem conhecimento ou autorização do marido dela, acontece um incidente e a partir daí pai, mãe e filha, além do casal da empregada, passam a relacionar-se de forma tumultuada, com acusações recíprocas, diante de um Estado-Juiz que delibera de acordo com os costumes e a lei, sem atenção às particularidades do caso. Sobre esse drama,  o objetivo é mostrar um país que não respeita regularmente direitos humanos, mas também  evidenciar a cultura sensível de seu povo, educado, religioso e cheio de valores. A proteção da  família, antes de qualquer coisa,  a consciência ética, mas também  os escorregões, as mentiras, as decepções, o perdão, a piedade, a culpa, o temor a Deus e ao pecado, são ingredientes  que se misturam a revelar os limites entre o racional e o sensitivo na vida e nas relações humanas. O crítico de cinema João Nunes, do Correio Popular, ao falar sobre a narrativa, afirma: “Mas, a Separação vai além da narrativa estonteante e das reviravoltas que produções de entretenimento fazem rotineiramente. Além da seriedade com que toca num tema político importante, ele se respalda em belíssimo roteiro (surpreendentemente indicado ao Oscar) que se desenvolve em perfeito suspense entregando as informações em doses homeopáticas” (Correio Popular, Caderno C, 10 de fevereiro de 2.012). É isso. Em todos os momentos você sente como se fizesse parte do drama daqueles personagens, buscando entendê-los,  justificar a conduta deles, além de torcer para que as coisas se resolvam da melhor maneira possível. O filme é vencedor do Urso de Ouro de filme e também do Urso de Prata para o elenco masculino e feminino no Festival de Berlim do ano passado. Tem tudo para faturar o Oscar de melhor filme estrangeiro, para o qual é considerado favorito. Tão bom quanto o nosso Tropa de Elite n. 2 (injustificadamente desclassificado dentre os selecionados), embora de gêneros diferentes. Não deixe de ver. Na minha avaliação 4 estrelas e meia, pois há pérolas na história do cinema que são insuperáveis (p. ex. Cinema Paradiso, O Carteiro e o Poeta).  E só eles devem ficar com as cinco estrelas, pontuação máxima, sob pena de perda de critério.


Até amanhã amigos.


















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