quinta-feira, 22 de março de 2012

FACULDADE DE DIREITO DA PUC-CAMPINAS - HOMENAGEM AO PROFESSOR WALTER HOFFMANN


Boa noite amigos,

No ano de 2.008, ao ensejo de mais uma semana de Estudos Jurídicos da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, a Comissão Organizadora formada pelo Centro Acadêmico XVI de Abril e professores, além da Direção da Faculdade, decidiu homenagear personalidades que contribuíram para a história da instituição. E na noite do dia 25 de setembro daquele ano, por razões de vinculação afetiva e histórica que mantive com o Professor Doutor Walter Hoffmann, coube-me a honrosa incumbência de proferir o discurso em sua homenagem, retratando o seu perfil de homem, profissional e docente. Resolvi publicar essa saudação, não por mera vaidade, mas porque considero a memória e a gratidão, dois valores fundamentais na formação humanística das pessoas, sobretudo numa Faculdade de Direito. E aqui menos que a memória do teor do discurso ou de seu autor (o que é irrelevante), avulta os dados que revelam quem foi e o que fez o Professor e Vice-Diretor da Faculdade de Direito de nossa faculdade. Foi assim: “Excelentíssimo Senhor Professor Marcelo Hilkner Altieri, Digno Diretor Adjunto da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.  Excelentíssimo Senhor Professor Antonio Paiva Carvalho, em nome de quem saúdo os demais professores presentes.                                     Prezados acadêmicos representantes do tradicional e atuante Centro Acadêmico XVI de Abril da Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.   Caros Alunos, Senhoras, Senhores. Aos filhos do homenageado aqui presentes,  Ricardo,  Cristina e Marlene.                                      A morte é, a um só tempo,  cessação e rompimento.                                     Fecha-se o ciclo da vida  e o homem volta à sua origem:  pó ou alma, terra ou eternidade. Deixa para trás a vida biológica finita. E uma história! Ouvi de um poeta, de certa feita, e gravei,  que só se morre realmente pelo esquecimento.    Os grandes homens, assim, não morrem, pois permanecem vivos, intensos, na lembrança de suas boas  ações e na saudade dos que sentem a sua ausência, nas suas vidas.  Vai-se a vida. Fica a memória. Dentre os valores fundamentais à formação do Bacharel, em qualquer instituição de ensino, destacam-se o culto à memória e o sentido de Justiça. E é em nome, sobretudo, desses valores, que se presta hoje, nesta casa, durante a semana de Estudos Jurídicos, uma justa homenagem a uma personalidade que, pela importância de sua atuação social,  transcendendo a advocacia e a docência,   esteve, durante significativo tempo de sua existência, ligado umbilicalmente, em corpo e espírito, à nossa velha e tradicional Faculdade de Direito.    Walter Hoffmann teve a grata honra de viver nesta casa  duplo papel: de aluno e de  mestre. A dignidade de compor a importante, histórica e saudosa 1ª. Turma, de Heitor Regina, Carlos Soares Junior, José Carlos Virgílio, dentre outros,  formada já no distante ano de 1.957 e a qual se deve a responsabilidade pelo começo de um dos mais relevantes cursos de Direito do país, cuja qualidade  de ensino é sobejamente conhecida e atestada por   instituições como o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil.                                 Filho de Ricardo Hoffmann (ferroviário) e de Dna. Maria  Delle Done Hoffmann, uma costureira, natural desta cidade de Campinas, Walter nasceu no dia 16 de janeiro de 1.933.    Oriundo de família humilde, mas de valores, e ainda colhido na primeira infância por uma infecção que o levaria a conviver com uma deficiência mecânica, jamais se esmoreceu e, superando adversidades e dificuldades, estudou e trabalhou para realizar o seu sonho que era formar-se advogado.   Ajudando a família com vários empregos e atividades, inclusive a de radialista, logrou obter bolsa de estudos para  o perseguido curso universitário. Colando grau, valorizou essa história e o auxílio recebido, tendo dado à cidade de Campinas e às suas instituições, em manifesta gratidão, inestimável colaboração com trabalho e fidelidade. Inúmeros os títulos de reconhecimento à sua dedicação e competência: Professor Emérito de Campinas, conferidos em 1.979, pelo Sindicato dos Professores de Campinas; Medalha Carlos Gomes; Cidadão Emérito de Campinas, por decisão unânime de sua  Câmara Municipal, dentre outros. Incontáveis as funções que exerceu com brilho durante os mais de 75 anos de fecunda existência.                                   Releva aqui acentuar que nesta casa foi Professor de Direito Comercial por quase 35 anos, de 1.965 a 2.000.    Foi, ainda, Vice-Diretor da Faculdade de Direito de 1.991 a 1.993 e  Coordenador do Departamento de Direito Privado, em variados períodos. Paralelamente, foi Consultor Jurídico do Sindicato dos Professores de Campinas, Consultor Jurídico das Prefeituras Municipais de Campinas e Indaiatuba, Professor e Diretor da Faculdade de Direito de Espírito Santo de Pinhal e, posteriormente, Reitor naquela instituição até o seu falecimento, ocorrido recentemente. Por suas mãos, e sob sua firme orientação, iniciei eu, no também já distante ano de 1.972, o exercício nobilitante da advocacia, ainda como aluno e estagiário.                                  Era o princípio de  um relacionamento entre mestre e professor, depois entre profissionais e amigos, que perdurou por toda a vida, conquanto nos últimos anos, por circunstâncias profissionais, não nos víssemos com freqüência, o que em nada alterou a admiração e o carinho recíproco que nutríamos.  Coube-me, por isso, só por isso, exatamente por isso, talvez, a tarefa de conduzir essa homenagem nesta noite, homenagem que não é minha, mas de toda a comunidade acadêmica. Gostaria de dizer a todos os senhores presentes que são inesquecíveis, para mim e para todos os seus ex-alunos, as aulas de Direito Comercial que ministrava de forma segura e apaixonada.  Remanescem vivas na retina e na memória os conceitos que transmitia, com desenvoltura, sobre títulos de crédito, teoria da inoponibilidade das exceções pessoais e do negócio subjacente ao terceiro de boa fé em direito cambiário, a distinção entre sociedade de pessoas e as de capital, os aspectos relacionados à ação renovatória e a Lei de Luvas, sobre a caracterização da falência, e, assim por diante.                                Penso que as característica mais marcantes de sua personalidade tenham sido  o amor pelas profissões que abraçou, quais sejam, o magistério superior e a advocacia, respectivamente,  por sua família, mormente pelos quatro filhos e oito netos e a serenidade com que enfrentava todas as situações, fossem quais fossem, a ponto de eu jamais ter presenciado uma alteração no timbre de voz. Essa paz, essa tranqüilidade, com que nos brindava, convertia-o em uma pessoa especial, que buscava sempre a concórdia, a conciliação. Sábio, era consciente da relatividade da vida e das coisas. E a cada um dos problemas ou supostos problemas consigo ou com seus alunos, seus amigos, sua família, tinha a virtude de emprestar a solidariedade e o ombro amigo.  Dois de seus filhos seguiram-lhe os passos profissionais: Ricardo e Cristina. Ricardo labutando na advocacia, nos primeiros tempos de bacharel, logo logrou aprovação em Concurso da Magistratura e é hoje ilustre Juiz Titular da 3ª. Vara Cível da Comarca de Campinas. Cristina, igualmente advogada competente, ministra há anos, nesta casa, a disciplina Direito do Trabalho Material e Processual, sendo reconhecida como uma de suas melhores professoras. A imagem e a personalidade de Walter ficará sempre em nós e nas coisas que vivemos juntos. Com seu estilo indefectivelmente elegante nos gestos e no trajar, garantirá, por muito tempo, forte presença, pelos corredores do Páteo dos Leões, pelos prédios do Sindicato dos Eletricitários, do Sindicato dos Professores, pela Casa de Saúde, instituição  que tanto e tão bem  serviu. E a ele me dirijo finalmente para dizer: Walter, esteja onde estiver, saiba que nós os seus alunos, os seus parentes, os seus amigos, sentimos falta de sua companhia, de seus conselhos, de suas aulas, de suas peças jurídicas. Uma saudade grande e serena, como serenamente você nos ensinou a encarar as coisas da vida.  Para dizer a você, como a canção popular que, se é verdade que a gente leva da vida, a vida que a gente leva, obrigado pela vida que você levou, e, obrigado pela vida que você  nos fez viver na feliz contemporaneidade de parte das  nossas existências.                              Faço-o em nome de toda a comunidade desta casa, com profundo respeito de eterno aluno e admirador e grande  saudade de amigo”.



P.S. (1) a imagem da coluna de hoje é de um escrito, um singelo bilhete que o amigo Walter me enviou em janeiro de 1.998, cumprimentando-me pelo aniversário.



Até amanhã amigos.






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